Universidade do Futebol

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13/09/2012

A pesquisa científica aplicada ao futebol: revoluções na concepção (parte II)

Na primeira parte (Uma análise crítica sobre a pesquisa científica aplicada ao futebol – Parte I) foi mostrado um diagnóstico de como a pesquisa científica tem sido aplicada de modo geral no Brasil e especificamente no futebol. Foi detectado que passamos por um período em que a “ciência normal” não traz descobertas e não avança metodologicamente, apesar da produção científica aumentar consideravelmente (Khun, 2003).

Face ao exposto, temos de entender como a pesquisa, por meio de suas revoluções, pode contribuir para que as publicações sejam incentivadas a oferecer subsídios aos profissionais que estão no campo e não, e tão somente, para acentuar níveis de produtividade de pesquisadores com pouca, ou quase nenhuma, relação com a intervenção pedagógica do treinamento.

A pesquisa pode também contribuir para que paradigmas sejam colocados à prova e sejam descobertos novos caminhos a fim de solucionar problemas enfrentados no treinamento do futebol, além de colaborar para que sigamos alguns passos fundamentais para assegurar que as futuras investigações, quantitativa ou qualitativa, levem a interação da pesquisa com a prática e propicie um avanço no conhecimento sobre o futebol como um todo.

A priori, faço algumas críticas (as quais servem também como autocríticas) sobre o paradoxo da utilização de ferramentas metodológicas e o avanço do estudo dos métodos e intervenção pedagógica.

Temos acompanhado o surgimento de novas ferramentas metodológicas que possibilitam um entendimento maior sobre os jogadores de futebol, sobre o treinamento ou sobre o jogo formal.

Como exemplo disto, podemos citar equipamentos para avaliação cineantropométrica ou os exames maturacionais, que nos fornecem informações individuais de cada jogador e do grupo. Em relação ao treinamento e o jogo, tem emergido a utilização de ferramentas que mensuram os esforços realizados pelo jogador de futebol, como por exemplo, GPSs e cardiofrequencímetros, dentre outras ferramentas.

Neste ponto que atento ao paradoxo, pois a despeito destes avanços, não necessariamente estudos que utilizam essas ferramentas contribuem com informações relevantes. O que vemos é justamente o contrário, os estudos não estão preocupados em estudar o método e sim replicar com diferentes amostras o uso das mesmas ferramentas.

Dessa maneira, o importante neste caso é termos ciência de quais métodos ou ferramentas são válidos. Daí por diante, seremos responsáveis de aplicá-los, se viável, ao grupo de jogadores com o qual trabalhamos, sem necessariamente divulgar em massa esses resultados (Khun, 2003).

Para os profissionais que têm acompanhado a evolução do futebol mediante o surgimento de novas pesquisas, não passa despercebido que estamos vivendo um momento de crise científica no futebol. Surgem nesse período novas abordagens e teorias relacionadas ao treinamento no futebol. Dentre as quais, a abordagem sistêmica-complexa de treinamento tem se destacado nos debates sobre uma mudança de paradigma.

Para não entrar em detalhe neste tema, acredito que outros textos publicados na Universidade do Futebol podem esclarecer melhor o que ela representa hoje. Sugiro ainda, a leitura de outras referências (Garganta, 1995; Garganta e Greháine, 1999; Garganta, 2002; Leitão, 2009; Pivetti, 2012).

O fato é que novas teorias não aparecem da noite para o dia. Geralmente, elas dão seus primeiros sinais algumas décadas antes, como podemos observar nos textos de Frade e Seirul-lo na década de 80 e Garganta e colaboradores e Bayer nos anos 90.

No entanto, essa nova teoria não se manifestou no passado por não haver crises científicas, visto que os métodos analíticos (com ênfase tecnicista e física) ou integrados, assim como as pesquisas científicas que utilizavam a mesma abordagem, resolviam (e ainda resolvem de certa forma) muitos problemas relacionados ao treinamento no futebol.

Sendo assim, alguns novos e outros nem tão novos pesquisadores creem que podem resolver os problemas que estão conduzindo o futebol, e principalmente a formação de jogadores, a um declínio considerável, sobretudo no Brasil.

Contudo, esse processo de mudança (parcial ou total) do paradigma vigente passa ainda pela desconfiança de “antigos” pesquisadores e “novos” pupilos destes pesquisadores, que não “dão o braço a torcer”, pois são formadores de opinião e dedicaram décadas de estudos e de pesquisa às teorias que hoje estão sendo contestadas.

É exatamente esse o processo descrito por Khun (2003). E não haveria de ser diferente esse processo de revolução científica para uma possível mudança de paradigma.

Por isso, antes de qualquer rebeldia pela imposição de um novo paradigma, faz-se necessário que revoluções sejam elaboradas à luz da ciência, para haver uma mudança na concepção de mundo dos profissionais já atuantes e dos alunos em formação nos centros de ensino.

Com isso, devem ser criados novos instrumentos de investigação, que levarão a uma mudança dos óculos que permitirão enxergar o futebol, possibilitando resolver problemas ou situações no treinamento do futebol nas quais todos já estavam familiarizados, porém agora com novas soluções, como é o caso da abordagem sistêmica-complexa de treinamento (Garganta, 1995; Garganta e Greháine, 1999; Garganta, 2002; Leitão, 2009; Pivetti, 2012).

Segundo as novas teorias, há necessidade do entendimento do futebol sob um olhar sistêmico-complexo, que enxergue e estude as interações e interdependências das partes que compõem o todo (física, técnica, tática, psicológica, etc.). Pois, quase que 100% dos estudos que me proponho a ler utilizam uma abordagem investigativa cartesiana: duvida, divide, elabora e relaciona à parte ao todo de forma metódica.

Do jogador ao jogo, seja qual for o objeto de investigação o tipo de abordagem é sempre o mesmo: “fragmentar para tentar entender”. Esta é a forma que os pesquisadores encontram de dar a sua contribuição científica ao futebol.

No entanto, haja vista a importância da pesquisa científica em trazer novas abordagens e construir novas teorias, temos de seguir algumas etapas essenciais do processo investigativo.

Dessa maneira, teremos o compromisso de sempre contribuir para uma ciência cumulativa e evolutiva ao mesmo tempo. Não podemos cometer o mesmo erro e pesquisar sempre mais do mesmo, como citado no primeiro texto da série. Para tanto, alguns passos são primordiais para que os objetivos sejam alcançados:

1. O problema de pesquisa deve ser pensado em vista de um problema teórico-prático ou prático-teórico que gerou dúvida;

2. Antes de qualquer procedimento deve-se investigar, preferencialmente de forma qualitativa, se os resultados esperados da pesquisa podem ajudar o profissional do campo. “Parece óbvio, mas quase nunca isso acontece”;

3. Certificar-se que os procedimentos metodológicos utilizados não interferirão na mudança da rotina da equipe. Caso isso ocorra, os resultados serão contaminados e distorcidos da realidade da equipe e dos jogadores. “Isso pode gerar incerteza sobre a validade da pesquisa”;

4. Facilite o acesso dos profissionais do campo à informação (se não for você esse profissional). “Além da imprescindível divulgação em meio científico, crie soluções criativas para que os resultados teóricos se convertam em intervenção pedagógica de melhor qualidade”.

Por fim, acredito que a pesquisa científica no futebol sem a função de acrescentar conhecimento não há razão de existir, pois não causa mudanças didático-pedagógicas.

Ademais, saliento que olhemos para o futebol como uma teia complexa e interdependente de suas componentes. Portanto, sejamos cautelosos quanto à utilização de métodos reducionistas, os quais não acarretam nenhum impacto sobre a totalidade do futebol.

Saliento também que, o objetivo destes dois textos da série, não é fazer críticas aos pesquisadores, de forma alguma, e sim criar reflexões acerca da pesquisa científica no futebol e da maneira que pensamos a ciência.

Dessa forma, deixo a ideia de que temos de pesquisar mais (ou não necessariamente), e principalmente, temos de pesquisar melhor!

Referências Bibliográficas

GARGANTA, J. Para uma teoria dos jogos esportivos coletivos. In:

GRAÇA, A., OLIVEIRA, J. (Ed.). O ensino dos jogos esportivos coletivos. 2ed: Universidade do Porto, 1995. p.11-25.

GARGANTA, J. Competências no ensino e treino de jovens futebolistas. Lecturas Educación Fisica y Deportes. 8 2002.

GARGANTA, J.; GREHÁINE, J. F. Abordagem sistêmica do jogo de futebol: moda ou necessidade? Movimento, v. 5, n. 10, p. 40-50, 1999.

KHUN, T. S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 7ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.

LEITÃO, R. A. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. 2009. (Doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

PIVETTI, B. M. F. Periodização Tática: O futebol-arte alicerçado em critérios. São Paulo: Phorte, 2012.

*Professor universitário das disciplinas de futebol e bioestatística (Unip/São José dos Campos-SP). Mestre em Educação Física pela UEL e doutorando pela Unicamp. Coordenador pedagógico das categorias de base do São José EC.

Contato: brunopasquarelli@hotmail.com

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