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01/08/2007

A preparação espiritual no futebol

O futebol é um esporte que movimenta, entre atletas e fãs, mais de 1 bilhão de pessoas atualmente. Essa abrangência do esporte em termos espaciais e quantitativos proporciona uma enorme heterogeneidade no público ligado ao esporte. Por conta disso, a compreensão da modalidade como um fenômeno social passa pela aceitação das diferenças e de um trabalho acerca das energias espirituais.

A globalização e a abrangência do futebol no globo proporcionaram um cenário relativamente confuso. Hoje em dia, não é raro uma mesma equipe ou uma mesma torcida reunirem pessoas de quatro ou cinco religiões ou crenças diferentes. Portanto, uma postura aberta quanto ao cenário espiritual e a compreensão dessas influências são fatores decisivos para uma preparação eficiente e para a elaboração de uma perspectiva holística sobre o jogo.

De uma forma metafórica, o próprio jogo de futebol é uma representação mística. Entender o esporte como uma representação da realidade na qual os atletas podem assumir papel de heróis ou de vilões para os que estão envolvidos com aquele cenário é uma forma eficiente de aceitar todas as energias provenientes de diferentes crenças que o esporte movimenta. Não só porque todo amante do futebol no Brasil vive com uma medalhinha de seu santo no pescoço, como dizia no dramaturgo Nelson Rodrigues, mas porque a própria partida assume conotação mística.

A palavra mística é oriunda do grego mystikós, que significa algo relativo a mistério. Portanto, compreende o estudo das coisas divinas ou espirituais. O jogo é sagrado e o campo é como um templo para milhões de pessoas envolvidas com aquele ritual.

Desde os primórdios do futebol brasileiro, jogadores, técnicos, dirigentes e torcedores recorrem a crenças e superstições de todos os tipos em nome do sucesso no esporte. Em função disso, a ligação entre o futebol e a cultura esotérica rendeu até algumas lendas. O escritor Mario Filho eternizou em uma de suas crônicas a histórias do macumbeiro Arubinha, que teria enterrado um sapo no gramado de São Januário em 1983 e lançou uma maldição: enquanto aquele sapo estivesse ali, o time não conquistaria títulos.

Outra história que relacionou crença e futebol de uma maneira inusitada foi a maldição lançada pelo pai-de-santo Pai Edu ao Náutico por conta da falta de pagamento por um trabalho. O líder espiritual disse em 1968 que o clube pernambucano só seria campeão quando lhe desse um boi. Em 1999, ano em que a diretoria timbu finalmente cedeu e presenteou o pai-de-santo com um boi, quatro bodes e oito galinhas, o time alvirrubro voltou a vencer o Estadual.

De uma forma mais profunda e menos ligada ao folclore, o fascínio que o jogo de futebol desperta impede que muitos de seus personagens – jogadores, treinadores, dirigentes e torcedores – consigam despertar a consciência. Em vez disso, eles vivem um sonho e trocam a realidade de seu ser pelo que representam no cenário da partida.

O despertar da consciência é o resultado de um denso processo no sentido do autoconhecimento e reflexão. Para deixar de ser uma representação e assumir seu verdadeiro caráter, o ser humano precisa ter uma ligação espiritual com seu interior e transcender o senso coletivo e raso.

Portanto, o contato com o lado espiritual acontece de várias maneiras no cenário do esporte e a preparação espiritual é um ponto fundamental para potencializar o rendimento dos jogadores. A prática esportiva evoluiu demais nos quesitos técnicos, biológicos e psicológicos nos últimos anos. Entretanto, a importância do futebol e a representação mística que ele carrega criam um cenário de desgaste espiritual e a preparação nesse sentido pode ser fundamental para o bom rendimento.

A preparação espiritual não compreende apenas o autoconhecimento e uma fé desenvolvida. Além disso, é importante conhecer a razão da crença e construir uma base para os momentos de crise. Existem maneiras de garantir, por exemplo, a concentração, o foco e a tranqüilidade de atletas. Essas características podem ser decisivas em momentos importantes dos principais jogos, sobretudo quando existe uma carga emocional muito grande envolvida.

Bibliografia

MILHOMENS, Newton. O misticismo à luz da ciência. Editora Ibrasa, 1997.
FREITAG, Erhard & ZACHARIAS, Carna. Descubra sua força espiritual. Editora Nova Era, 1996.
SCHNARR, Grant. A arte da guerra espiritual. Editora Cultrix, 2003.

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