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Como sabemos, o futebol surgiu a partir de práticas populares e que foram sendo organizadas e modificadas ao passar dos anos. Essa prática competitiva recebe a denominação de esporte porque possui um conjunto de regras sociais que se tornam universais pelo mundo, rompendo fronteiras geográficas, sociais, linguísticas, etc.

Ainda, sabemos que o futebol moderno foi pensado por ingleses, e que foi voltado para um público com características definidas: classe social alta, praticantes do sexo masculino, etnias oriundas da Europa e, também, os chamados “normais”, ou seja, pessoas sem nenhum tipo de deficiência. Porém a evolução do esporte foi acontecendo e com isso essas barreiras que impediam a participação de todo e qualquer cidadão foram sendo rompidas.

A seleção e a restrição de participantes, além da padronização de gestos técnicos que o esporte de rendimento ocasiona fez com que surgissem outras duas manifestações esportivas que buscam principalmente a inclusão de todos, onde qualquer pessoa pode ter acesso a essa prática: o esporte de participação e o esporte educacional.

O esporte de participação é menos regrado, praticado sem compromisso com a superação. Não existe padronização na duração e periodicidade, e o envolvimento de seus participantes acontece visando a socialização através da prática de uma atividade física. Já o esporte educacional tem princípios particulares e que não devem ser confundidos com as outras manifestações. Ele se torna diferente porque preza pela formação integral do praticante, instigando a reflexão crítica de situações-problema além de não desprezar o gesto motor do aluno visando criar condições para que todos tenham acesso à prática.

Os princípios do esporte educacional elaborados e desenvolvidos pelo Instituto Esporte e Educação de acordo com Rossetto Junior, Costa e D’Angelo (2012 p.11) são os seguintes: 1) Inclusão de todos: os mais habilidosos, os menos habilidosos, os mais altos, os mais baixos, homens e mulheres, pessoas com deficiência, etc, todos são incluídos nas atividades. 2) Construção coletiva: se dá a partir da construção dos jogos e suas regras feitos não só por uma pessoa, mas sim considerando a opinião de todos os participantes. Onde todos sejam igualmente protagonistas dessa elaboração. 3) Respeito à diversidade: acontece quando o esporte/atividade é ensinada a todos, não havendo seleções em mais ou menos habilidosos, separando os meninos das meninas, os altos dos baixos ou ainda exclusão dos deficientes. Todas as diferenças são respeitadas para que sejam superados todo e qualquer tipo de preconceito. 4) Educação Integral: o objetivo é despertar interesse não só pelo gesto motor, mas também por questões cognitivas, sociais e afetivas. Além disso, pode-se incorporar na atividade outro temas transversais que de certa forma estão ligados ao futebol. 5) Autonomia: os participantes se tornam protagonistas de suas próprias ações, trabalhando a criatividade e na solução de situações-problema.

Tratando especificamente de futebol, em todas as regiões do Brasil existem campeonatos profissionais, campeonatos amadores, a prática do futebol nas escolas, nos projetos sociais e ainda como diz Damo (2007, p.51): “Além, dos estádios, tidos como os espaços consagrados ao futebol espetáculo, e das formas de sociabilidades e simbolismos que lhe são peculiares, existem muitas outras formas de futebóis”, portanto, percebemos que os locais inúmeros e os indivíduos que estão envolvidos têm características muito diferentes como diz Filgueira; Schwartz (2007, p.246): “No Brasil, o futebol é um fenômeno cultural que cativa e impressiona pela sua grandeza, cuja prática tem crescido rapidamente, envolvendo um número significativo de participantes, desde a infância até a idade adulta”.
Cada indivíduo joga futebol por um motivo, seja na escola, seja na rua, para se divertir ou para buscar uma chance na carreira futebolística como um atleta profissional.

UM LOCAL ESPECÍFICO: CENTRO DE REFERÊNCIA ESPORTIVA RIO GRANDE – RS

Um local específico onde ocorre a prática do futebol é o Centro de Referência Esportiva Rio Grande, projeto social este desenvolvido pela Fundação Sócio-Cultural Esportiva do Rio Grande – FUNSERG – e patrocinado pela Petrobras e que segue a metodologia da manifestação do esporte educacional, cujo objetivo maior é educar para a cidadania, porém não desprezando o gesto esportivo.

No Centro de Referência Esportiva Rio Grande – RS são desenvolvidas 6 modalidades esportivas: basquete, boxe, futebol, natação, taekwondo e vôlei, e é voltado para atingir 600 crianças e adolescentes de escolas públicas com idades entre 7 e 17 anos de idade. As aulas são realizadas 2 vezes na semana no contra-turno escolar e em dois diferentes espaços: dependências do Sport Club Rio Grande (boxe, futebol, natação e taekwondo) e ginásio do Clube de Regatas do Rio Grande (basquete e vôlei). Além disso, possui a Rede de Parceiros Multiplicados de Esporte Educacional que conta com a participação de aproximadamente 140 professores de 9 cidades da região sul do estado e atinge em torno de 8 mil alunos da rede pública.

O mesmo teve seu início no começo do ano de 2013 e conta com profissionais de diversas áreas afim de atender melhorar as necessidades de cada indivíduos. A equipe de trabalho é composta por coordenador geral, coordenador técnico e de formação, professores de educação física, assistente social, psicóloga, pedagoga, dentre outros.

Ainda são realizados saídas de campo, festivais e eventos esportivos visando a integração e socialização entre os alunos de cada modalidade e entre os alunos do projeto em geral.

UM PERÍODO ESPECÍFICO: NOVEMBRO E DEZEMBRO 2013

Nos meses de novembro e dezembro do ano de 2013, a unidade didática da modalidade futebol foi elaborada e aplicada objetivando que os alunos conhecessem, vivenciassem e valorizassem as diversas profissões do meio futebolístico.

A expectativa de aprendizagem da dimensão conceitual (processo cognitivo) foi de que as crianças e adolescentes identificassem as diversas profissões envolvidas numa partida de futebol, dentro e fora de campo, além de distinguir essas profissões e também de relembrar as normas de convivência da modalidade. Na expectativa de aprendizagem na dimensão procedimental (processo motor) o objetivo era de que os alunos aprendessem a atuar nessas profissões e que criassem novas normas de convivência. E por fim, na expectativa de aprendizagem da dimensão atitudinal (processo sócio-afetivo), foi de que os alunos valorizassem e respeitassem as profissões trabalhadas em aulas e também as normas de convivência do futebol.

C
om o intuito de atingir essas expectativas, foram usadas as seguintes estratégias/atividades: os alunos deveriam fazer uma listagem das profissões do meio futebolístico, a partir disso, deveriam construir um painel com as profissões e suas funções, e ainda listarem as normas de convivência da modalidade. Outras estratégias utilizadas foram que os alunos vivenciassem as profissões do meio futebolístico, desempenhado as diversas funções, a partir da organização das aulas por parte deles mesmos utilizando o auto-gerenciamento e a construção coletiva, trabalhando em pequenos e médios grupos para planejamento das atividades.

Após a aplicação dessa Unidade Didática, os resultados nos apontaram que os alunos listaram 34 profissões (jogador, técnico, auxiliar técnico, preparador físico, preparador de goleiro, massagista, médico, enfermeiro, fisioterapeuta, fisiologista, nutricionista, assessor de imprensa, gerente de futebol, gerente de marketing, roupeiro, presidente, administrador financeiro, fotógrafo, repórter, câmera-man, jornalista, narrador, comentarista esportivo, gandula, vendedor de ingresso, vendedor do bar, segurança, motorista do ônibus, maqueiro, torcedor, administrador do campo, mesário, cozinheira e advogado) ligadas ao meio futebolístico que eles conheciam, sendo que sete delas foram bastante vivenciadas, além de ter discussões sobre o papel desempenhado por cada uma delas: jogador, árbitro, técnico, comentarista, fotógrafo, gerente de futebol e repórter.

Durante esses meses os alunos foram bastante dispostos a atuarem nessas profissões. Todos se mostravam sempre muito atentos, dispostos a aprender características e funções de cada uma delas e, além disso, se mostraram participativos nos momentos de atuação se esforçando ao máximo para incorporar o papel que lhes era incumbido.

Nos momentos de planejamento e aplicação das atividades gerenciadas pelos alunos também houve muito empenho e dedicação. A grande maioria dos participantes deu opiniões para melhora ou adaptação em alguma atividade a ser desenvolvida.

Além disso, foram relembradas sete normas de convivência da modalidade trabalhadas/conversadas em meses anteriores: 1) Cumprimento do horário de chegada. 2) Uso da camiseta do projeto. 3) Respeito com professores e colegas. 4) Não falar palavrão. 5) Não brigar, empurrar ou chutar os colegas. 6) Fazer silêncio no momento da explicação. 7) Respeitar as regras do jogo e imposto pelos alunos que as mesmas deveriam ser aplicadas por eles mesmo no período que elas não fossem tema da Unidade Didática.

CONSIDERAÇÕES

Como percebemos, as atividades desenvolvidas nesse período nos mostram que pode acontecer o envolvimento de todo e qualquer cidadão no meio esportivo, especificamente no futebol. Para isso, enquanto educadores, devemos ter em mente estratégias que possamos aplicar a fim de atingir o maior número de pessoas nessa tarefa.

Havendo essa inclusão de todos, respeitando as diversidades, estaremos quebrando muitos paradigmas impostos pela sociedade que muitas vezes remetem a ideia que no meio esportivo só é possível a participação se o indivíduo tiver excelência nas habilidades técnicas (gesto motor) do jogo, não considerando o envolvimento do mesmo numa outra profissão, desempenhando alguma outra função que não seja propriamente a de jogador.

Além disso, essas práticas podem ser construídas coletivamente, onde todos os envolvidos tenham suas opiniões respeitadas e valorizadas junto ao grupo, diferentemente de algumas outras situações do esporte onde o que vale é somente a opinião do técnico.

BIBLIOGRAFIA

DAMO, Arlei Sander. A rua e o futebol in STIGGER, Marcos Paulo et al. O Esporte na Cidade: Estudos Etnográficos sobre Sociabilidades Esportivas em Espaços Urbanos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007.

FILGUEIRA, Fabrício M; SCHWARTZ, Gisele M. Torcida Familiar: a complexidade das inter-relações na iniciação esportiva ao futebol. Revista Portuguesa de Ciência do Desporto, Rio Claro, v. 7, n. 1, p. 245-253, 2007.

ROSSETO JUNIOR, Adriano José. COSTA, Caio Martins. D’ANGELO, Fabio Luiz. Práticas Pedagógicas Reflexivas em Esporte Educacional:unidade didática como instrumento de ensino e aprendizagem.2ª Ed.rev. São Paulo:Phorte,2012.

 

* Professor especialista em Educação Física Escolar e Professor da modalidade futebol no Centro de Referência Esportiva Rio Grande – RS. 

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