Universidade do Futebol

Artigos

29/09/2010

A questão catalã no futebol espanhol

Ao vencer a Copa do Mundo de 2010, a Espanha se tornaria a oitava nação a vencer um mundial de futebol e a primeira européia a vencer uma edição fora de seu continente. Apesar de qualquer outro legado, o título espanhol trilha um modelo a ser seguido pelos próximos anos no futebol mundial, assim como o esquema seguro defensivamente da Itália de 2006 pautado no 4-2-3-1 se perpetuou em vários centros neste último ciclo de quatro anos. Mais do que simplesmente refletir sobre os impactos da Espanha sobre a Copa do Mundo e o futebol propriamente dito, é essencial esmiuçar como esse esporte se insere na realidade espanhola, e como esta equipe competitiva se constituiu.

Dos vinte e três atletas inscritos pela Espanha no mundial da África do Sul, sete possuem origem na Catalunha, uma das chamadas ‘comunidades autônomas’ espanholas, que possui na cidade de Barcelona seu principal centro e capital. Dos sete, cinco atuam no principal clube da Catalunha e um dos maiores do mundo: o Futbol Club Barcelona, fundação peculiar dentre as milionárias equipes européias, tanto por sua filosofia quanto por sua estratégia dentro e fora de campo.

O jogo pautado pela posse de bola, com passes precisos e trocas de posição que se vê na equipe espanhola é herança do jogo apresentado pelo clube catalão já há algumas temporadas, que mostra eficácia e resultados expressivos: desde a chegada do treinador Josep Guardiola (outro ídolo do ‘Barça’ enquanto jogador, curiosamente também catalão) a equipe só perdeu dois campeonatos oficiais em oito disputados.

O que exalta ainda mais o sucesso do Barcelona é o péssimo retrospecto recente do poderoso Real Madrid, clube da capital, o rival mais tradicional da equipe da Catalunha, que como o próprio nome já diz, atrela à sua imagem a figura da coroa espanhola, e da unidade territorial tão combatida por alguns dos maiores catalães, fazendo do clube merengue um nêmesis ideal para a imagem de ‘representante da resistência catalã’ propagada pelo Barça.

Um dos clubes mais ricos do mundo, o Real Madrid também cedeu vários atletas para a seleção espanhola, cinco no total, três a menos que seu rival. Além dos cinco catalães de origem, o Barcelona ainda cedeu outros três jogadores para a Espanha, todos estes titulares da equipe que disputou a final em Joanesburgo junto com mais quatro dos cinco catalães. Dois deles (o meia Xavi Hernandez e o zagueiro Carles Puyol) protagonizaram uma cena que retrata a filosofia do Barcelona: com a taça em mãos, os dois desfilavam pelo gramado do Soccer City com uma bandeira listrada em toda a sua extensão, que apesar do vermelho e amarelo similares à flamula espanhola, representavam a Catalunha. Não apenas por coincidência, a braçadeira de capitão que Puyol utiliza em partidas do Barcelona também é uma representação da bandeira catalã.

‘Mais que um clube’ é o slogan adotado pelo Barcelona para retratar a importância da instituição para a Catalunha desde 1968, quando o então presidente Narcís de Carreras utilizara a frase pela primeira vez em seu discurso de abertura de gestão, e é veiculado até os dias atuais sob o comando do atual presidente Sandro Rossell, substituto de Joan Laporta, buscando atrelar a imagem do clube azul-grená não apenas com a cidade, mas principalmente com causas sociais e filantrópicas (o FC Barcelona se orgulha de nunca ter se utilizado de patrocinadores em sua camisa, sendo a única logomarca estampada até hoje a da UNICEF, em uma parceria onde o clube paga à instituição para utilizar seu emblema) e logicamente com a causa catalã. Porém, mesmo com tantos astros de seu maior clube, com o estilo de jogo praticamente análogo ao de sua equipe, a seleção vermelha não goza de um apoio irrestrito na Catalunha.

Apesar das mudanças territoriais efervescentes nos séculos XV, XVI e XVII, pode-se dizer que a disputa política entre os catalães e a coroa espanhola teve início de fato durante a Guerra de Sucessão Espanhola em 1714, quando a Catalunha foi derrotada ao apoiar o pretendente austríaco ao trono, mas teve de assistir ao empossamento de Filipe V, neto do francês Luis XIV, e ver seu Estado ser incorporado completamente à Espanha, além de ter de acatar uma supressão de sua cultura própria.

Os primeiros movimentos catalães separatistas de fato tiveram início na transição do século XIX para o XX, e o futebol estava presente. Em 1903, foi criada a Federação Catalã de Futebol, e com ela estabeleceu-se a seleção catalã, uma equipe nacional independente da Espanha, que disputou seu primeiro cotejo um ano depois, e desde então realiza partidas comemorativas até os dias de hoje. Porém, como não é reconhecida pela Fifa, a seleção da Catalunha se limita a realizar amistosos internacionais, mas sem a chancela pode convidar não-catalães para atuar em seu quadro. É tradição da FCF premiar estrangeiros que criam identidade com o Barcelona com convites para defender a seleção ou mesmo para treiná-la. Podemos citar como exemplos os holandeses Neskeens e Cruyff, o búlgaro Hristo Stoichkov e o brasileiro Evaristo de Macedo, todos ídolos da história do Barça.

Ainda no processo de desenvolvimento da identidade catalã, houve a criação da Mancomunitat (o primeiro órgão de gestão catalão reconhecido pela Espanha desde a guerra de sucessão) em 1914, mas pouco depois descontinuado pelos próprios espanhóis, acirrando ainda mais as diferenças já polarizadas entre Madri e Barcelona. A maior vitória catalã acontecera depois de 1930, com o reconhecimento da comunidade autônoma da Catalunha, mas a liberdade conquistada foi oprimida apenas nove anos depois, com o início da ditadura de Franco em 1939, que suprimiu novamente a autonomia catalã e inclusive aboliu o catalão como língua oficial da comunidade autônoma.

Depois dos auxílios tanto a Hitler quanto a Mussolini na Segunda Guerra Mundial, e também com o auxílio franquista aos Estados Unidos mediante empréstimos durante a Guerra Fria, a cultura catalã só foi capaz de renascer com a morte de Franco nos meados de 1970, época que culminou também com a grande ascensão do Barcelona enquanto equipe, já que o então jovem Johan Cruyff (que além de se tornar um dos maiores atletas da história do futebol viria a ser também o maior ídolo da equipe, vencedor ainda como técnico e posteriormente presidente de honra do clube) era apresentado pelo clube em 1973, um ano antes de sua antológica Copa do Mundo quando o mundo conheceu o ‘futebol total’ de Rinus Michels, seu treinador também no Barcelona na época.

A filosofia do futebol ofensivo da Holanda (ironicamente, a vice-campeã derrotada pela Espanha na África do Sul) foi perpetuada desde então pelo Barcelona, desde os tempos em que Cruyff desfilava seu talento no Camp Nou (estádio do Barcelona) até seu melhor momento em 1992, quando o agora treinador levava o chamado ‘Dream Team’ (equipe dos sonhos) ao título espanhol e também ao primeiro título europeu do Barcelona, no mesmo ano em que a cidade sediaria as Olimpíadas.

Porém, a melhor era do Barcelona é a atual, com dois títulos europeus e um Mundial de Clubes nos últimos anos, apresentando um futebol ofensivo como o implantado por Cruyff e Michels, conseguindo montar suas equipes através de suas canteras: do time titular do elenco atual do Barça, nada menos do que sete atletas começaram nas categorias de base da equipe, mostrando uma estratégia que destoa de outros grandes clubes da Europa, além de ir na contramão completamente do seu arquirrival Real Madrid, conhecido mundialmente por investir cifras astronômicas em atletas já renomados.

Através de seus grandes resultados obtidos no futebol (e também em outras modalidades, como o basquete, por exemplo), o FC Barcelona tem levado a Catalunha ao alto dos pódios que pleiteia, além de municiar a seleção vencedora da Copa do Mundo deste ano e também da Eurocopa dois anos antes. Apesar de o rótulo ficar com a Espanha, é mais do que justo afirmar que a Catalunha é não apenas uma das campeãs européias em 2008, mas também a campeã do mundo de 2010.

*Heitor Tonon é estudante de Ciências Sociais na Unicamp e escreve o blog Diário da Grama (www.diariodagrama.blogspot.com).

Para interagir com o autor: tortonon@gmail.com

Leia mais:
Milosevic, Iugoslávia e as quatro linhas
A relação entre o futebol e a ciência política

Comentários

Deixe uma resposta