Universidade do Futebol

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22/07/2014

A reinvenção do Futebol Brasileiro

Muitos textos foram escritos após a derrota da seleção brasileira para a seleção alemã ocorrida no dia 08/07/2014 em um resultado catastrófico que eliminou na fase semi-final a seleção pentacampeã da disputa pela sua sexta estrela. Dentre os textos escritos tivemos aqueles mais sensacionalistas com propósito único de tumultuar ainda mais o ocorrido, mas também alguns textos de qualidade buscando as mais diversas explicações não somente para a eliminação, mas sim para o resultado catastrófico de 7 a 1.

O primeiro passo para uma discussão mais acadêmica sobre o Futebol é não cair no fútil e ingrato gesto de individualizar o problema a exemplo do que fez o nosso então Técnico vencedor da Copa do Mundo de 2002, Luiz Felipe Scolari, que atribui unicamente a ele a culpa pela eliminação, sendo que ele, ao contrário do que muitos dizem, possui sim o seu mérito já que, juntamente com o Prof. Carlos Alberto Parreira configura-se um dos poucos que alcançaram o feito de já conquistar o campeonato mundial de Futebol. Aproveito o espaço ainda para dar um mérito adicional ao Prof. Parreira por suas contribuições acadêmicas ao Futebol, como o próprio método de treinamento “fartlek” (treinamento intervalado) implantado quando o mesmo exerceu o cargo de Preparador Físico na Copa de 1970, não com isso dizendo que o cargo mais complexo e desafiante para um estudioso da Fisiologia do Exercício e do Treinamento Desportivo seja os quase 30 dias que os mesmos comandam os treinamentos físicos dos atletas que já foram devidamente treinados ao longo das temporadas em seus respectivos clubes.

Muito se falou em algumas mídias televisivas e até mesmo impressas da reformulação do Futebol nacional, mas o que seria, ao bem da verdade, a tal reformulação do Futebol brasileiro? Pergunta complexa passível de uma resposta bem simples: PROFISSIONALIZAÇÃO.

Chegou um momento que a Confederação Brasileira de Futebol, independente de quem seja seu presidente ou mandatário deve acatar, em primeira instância o Bom Senso FC., movimento este idealizado por Futebolistas pensantes e atuantes como Paulo André (Shanghai Shenhua F.C.), Alex (Coritiba F.C.) e outros que apesar de não terem seus nomes aqui citados possuem importância de igual magnitude para o esporte número 1 do Brasil. O presente movimento tem como propostas principais:

– modificação do calendário: propondo uma temporada em que os clubes de menor expressão joguem uma quantidade superior de jogos, contribuindo, deste modo, para o aspecto financeiro destes clubes, o que dá maior oportunidade não apenas aos jogadores mas também aos profissionais que dedicam seu precioso tempo para o estudo da modalidade. No outro lado da balança, os clubes de maior expressão, a exemplo dos clubes europeus, teriam uma quantidade menor de jogos ao longo da temporada, o que permitiria uma qualidade física, e, portanto, técnica e tática superior aos campeonatos municipais, estaduais e nacionais, gerando, inclusive, melhores resultados internacionais;

– fair play financeiro: apesar da receita de grande parte dos clubes brasileiros ter crescido, pôde-se observar um aumento ainda maior das dívidas dos mesmos, o que muitas vezes culmina em atraso no pagamento dos salários dos jogadores e dos funcionários de tais clubes, principalmente aqueles que estão em término de contrato. A partir disto, o fair play financeiro proposto pelo Bom Senso F.C. preconiza que os clubes tenham uma gestão racional e profissional, gastando apenas aquilo que pode ser arrecado, nem que para isto tenha que haver uma devida redução nos salários dos jogadores;

– torcedores: tão urgente quanto os dois itens supra-citados está o respeito ao torcedor brasileiro, que na Copa do Mundo de 2014 teve uma “amostra”, e esta bem singela, daquilo que se pode ter ao longo de toda a temporada do campeonato nacional. Dentre as melhorias necessárias e fundamentais temos a segurança nos estádios, ajustes no valor dos ingressos, nos horários dos jogos e assim por diante. O torcedor pode e deve ser parte ativa deste processo sugerindo aquilo que ele acredita ser necessário para que suas visitas aos jogos do seu clube de coração sejam mais atrativas, levando-os mais vezes aos estádios brasileiros. Aproveitando o espaço dou minha contribuição como torcedor: por que não fazer como a Bundesliga que criou uma comissão de segurança com recursos próprios em prol dos torcedores alemães, não dependendo com isso apenas das forças auxiliares proveniente da Prefeitura da Cidade ou do Governo do Estado.

Após aderir devidamente ao Bom Senso F.C. e contamos para isso com a presidenta Dilma Roussef que no dia 26/05 do ano corrente recebeu alguns atletas responsáveis pelo movimento e comprometeu-se a partir disto a se pronunciar sobre o assunto (isso se o tempo dedicado à sua reeleição permitir).

Com isso, pode-se dizer que o próximo passo seja a profissionalização do Futebol nacional, propondo para isso:

– profissionalização do Técnico de Futebol: ser Técnico de Futebol no Brasil é apenas uma ocupação em que até um passado bem remoto os jogadores aposentados atuavam sem qualquer tipo de preparação para esta nova tarefa ou cargo. O modelo que o Brasil anseia é um modelo semelhante ao modelo europeu, organizado e planejado pela UEFA (Union of European Football Associations), onde ser Técnico de Futebol é visto como uma profissão, que exige qualificação acadêmica e profissional, em vários níveis de formação sendo que cada nível possibilita e outorga ao Treinador direito de atuar em determinada categoria do Futebol. O primeiro passo é o Técnico ter SIM uma graduação no que diz respeito às Ciências do Esporte, no caso, a Educação Física, sendo este um curso de ensino superior que dá ao Técnico uma visão integrada das mais diversas áreas de estudo do desporto, começando na pedagogia do esporte e terminando nas áreas mais exatas como fisiologia e biomecânica. Em segunda instância deve ser instaurado no Brasil cursos de pós graduação, que devem então ser ministrados em conjunto com clubes desportivos a fim de desenvolver tanto o aspecto teórico como o aspecto prático, onde os ex-jogadores podem e devem dar suas contribuições, a exemplo do projeto que há aproximadamente dois anos foi sabiamente idealizado pela CBF, que utilizou este argumento para realizar a reforma da famosa Granja Comary, em Teresópolis, Rio de Janeiro, sede da confederação de nosso país. Treinadores bem formados irão contribuir cada vez mais com a formação dos atletas das categorias de base e com o treinamento dos atletas profissionais, tornando o Futebol mais atrativo com maior qualificação técnica;

– profissionalização do corpo diretivo: infelizmente o modelo de gestão clubística que temos no Brasil faz com que os cargos mais importantes do corpo diretivo, ditos “não remunerados” são atribuídos aos familiares, amigos ou simplesmente aqueles que podem contribuir em troca com favores ou interesses puramente políticos. Assim como uma empresa, e o modelo de gestão sugerido é o modelo de clube-empresa, os cargos de direção devem ser atribuídos a PROFISSIONAIS que possuam qualificação para tal, o que sem dúvida alguma irá gerar retorno financeiro muito maior não apenas com a administração na compra e venda de jogadores, mas também com as ações promocionais, o que irá fortalecer e expandir cada vez mais a marca do clube, como faz, por exemplo a NBA (National Basketball Association);

– Integração dos setores dos clubes: os clubes devem gerar uma “filosofia” única de pensamento de trabalho, gerando com isso maior integração entre os setores profissionais e amadores, tanto no que diz respeito aos jogadores, como no que diz respeito à comissão técnica, a exemplo da filosofia de trabalho que o Prof. Ms. João Paulo Subirá Medina e o Prof. Carlos Alberto Parreira implantaram no Sport Club Internacional de Porto Alegre. Uma vez havendo esta integração as discussões que permeiam o meio do Futebol, sejam elas teóricas ou práticas, no âmbito Técnico, tático, físico, fisiológico, psicológico, migrando dos erros aos acertos irão colaborar para que o clube, como um todo, obtenha melhores resultados. Além disso, os jogadores formados na base terão maior chance de participar da equipe titular, quebrando aquele muro inquebrável entre os jovens atletas e os “deuses” profissionais. Uma vez sendo treinados, aperfeiçoados e motivados para chegar à equipe principal, os jovens atletas contribuirão ainda com maior retorno financeiro, uma vez que serão negociados em períodos posteriores de sua carreira.

O Futebol, assim como o esporte em geral não é uma ciência exata, nada mais é do que uma modalidade esportiva que se utiliza de algumas ciências para poder aperfeiçoar a sua prática, ciências estas que perpassam desde as temáticas biológicas como a fisiologia do exercício até as ciências ditas mais humanas como a psicologia e a pedagogia e também as exatas como a contabilidade. Talvez precisemos de muito mais ainda para que o Futebol em nosso país se torne profissional e o começo da reforma que o Futebol necessita em nossa nação é o ESTUDO E A PROFISSIONALIZAÇÃO. 

 

* Membro do American College of Sports Médicine e Doutorando em Fenômeno Esportivo pela Universidade São Judas Tadeu

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