Universidade do Futebol

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22/08/2007

A relação entre a teoria e a prática

“O inesperado surpreende-nos. É que nos instalamos de maneira segura em nossas teorias e idéias, e estas não tem estrutura para acolher o novo. Entretanto, o novo brota sem parar. Não podemos jamais prever como apresentará, mas deve-se esperar sua chegada, ou seja, esperar o inesperado. E quando o inesperado se manifesta, é preciso ser capaz de rever nossas teorias e idéias, em vez de deixar o fato novo entrar à força na teoria incapaz de recebê-lo”.
Edgar Morin

Durante muito tempo em minha vida profissional, como professor em escolas de educação física e preparador físico, consegui atuar igualmente na universidade e em clubes de futebol. Sempre achei que o esforço para desenvolver estas duas atividades, às vezes antagônicas e às vezes complementares, me daria as ferramentas necessárias para melhor compreender e realizar o meu trabalho (ou os meus trabalhos).

Por outro lado, não era raro deparar com um certo ´patrulhamento´, tanto no ambiente universitário quanto no ambiente do clube, no que se referia à algumas de minhas posições ou posturas. Se na universidade, algumas vezes, era criticado por apresentar propostas muito pragmáticas, talvez sem a suficiente fundamentação científica, chancelada pela academia, no clube era veladamente censurado por apresentar, às vezes, algumas propostas consideradas muito teóricas ou sonhadoras, distantes da realidade mais prática e imediata que o futebol exige.

Penso que estes dois modelos exemplificados nos dão a exata medida da relação entre teoria e prática. Minhas vivências na universidade e no clube de futebol, foram experiências tão ricas que me fizeram entender, ´na prática´, que não existe teoria válida sem prática, nem tampouco prática sem embasamento teórico. Na verdade, acredito muito naquele pensamento que nos ensina que não há nada tão prático como uma boa teoria.

Não vejo, portanto, muito sentido no conflito entre os ´práticos´ e os ´teóricos´, presentes em diversos setores da atividade humana, e fundamentalmente no futebol. Se o conflito existir ele deve ser, antes que tudo, um ingrediente básico para a compreensão e adequada aplicação desses dois aspectos da realidade, como se fossem as duas faces de uma moeda.

Se, como dizem H. Mintzberg e J. B. Quinn, autores de ´O Processo da Estratégia´, todo médico, engenheiro, físico de sucesso seriam incapazes de praticar seu trabalho competentemente sem teorias que dêem suporte às suas práticas, o mesmo poderia se dizer para os profissionais que trabalham no futebol. Como dirigir sistemas complexos se você não compreende estes sistemas complexos? Um treinador, por exemplo, ao dirigir uma equipe de futebol está, na verdade, dirigindo um sistema complexo. Precisa, portanto, grande bagagem teórica para saber o que está fazendo. Ou será que é possível dirigir competentemente um time só com intuição ou a experiência de ter sido um jogador de futebol?

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