Universidade do Futebol

Nupescec

28/07/2013

A relação entre o futebol e religião no Brasil

Introdução

O breve artigo apresentado a seguir busca levantar algumas reflexões sobre a relação entre o futebol e religião no Brasil. Sabe-se que o país possui uma cultura que mescla costumes de diversos povos e que também tem relação estreita com diversas religiões e com o futebol.

Essas características estão entre as principais relações que marcam a identidade do brasileiro. Com base nesses pressupostos, busca-se, por meio desse texto, apresentar algumas formas, através das quais, futebol e a religião se mesclam dentro da sociedade brasileira.

Assim, em princípio, traça-se um breve panorama sobre como as religiões no Brasil foram se mesclando ao longo do tempo e sobre como as pessoas foram se apegando cada vez mais a elas. Em seguida, essas pontuações são relacionadas à forma como a religião tem influenciado as pessoas pelo mundo todo, de maneira mais geral.

Após isso, apresenta-se uma breve compilação sobre a relação do brasileiro com o futebol, para logo em seguida se pontuar algumas questões que demonstram como esse esporte está ligado a religião no Brasil. Por fim, são pontuadas ainda questões que se relacionam ao fato de diversas religiões estarem se utilizando do esporte para atraírem a atenção das pessoas, além de promoverem ações sociais inclusivas que muitas vezes deveriam ser feitas pelo governo.

Sobre a relação entre futebol e religião no Brasil

A diversidade é uma das características mais marcantes do Brasil, ela pode ser percebida nas mais diferentes instituições sociais que compõem o país e se revela por meio de muitos caminhos. Sabe-se que o Brasil é formado pela mestiçagem entre africanos, portugueses e índios; devido a essa mistura, a cultura do país é permeada, principalmente, por práticas provenientes desses três povos.

Além disso, tem-se agregado costumes de outras nações em função de movimentos caros à globalização. Índios, portugueses e africanos foram os principais responsáveis pela construção do imaginário sobre quais aspectos marcaria a identidade do brasileiro. Dessa forma, sua figura é marcada pela mescla desses três povos.

Grande parte das religiões brasileiras, por exemplo, apresentam rituais que agregam costumes trazidos por esses três povos, de forma que elas carregam certo sincretismo em suas raízes. Quando os africanos foram trazidos para a colônia, como escravos, eles foram impedidos de continuarem a professar a fé que eles tinham nas entidades que compunham as religiões com as quais estavam acostumados a lidarem. De forma que a colônia praticamente os obrigava a se tornarem cristãos.

Para driblar essa imposição, os escravos começaram a infiltrar alguns de seus costumes no catolicismo, assim, muitas entidades adoradas por eles passaram a serem representadas na forma de santos católicos. Além disso, os africanos também passaram a manifestar sua cultura através de movimentos como a capoeira e congado, por exemplo.

Dessa maneira, muitos costumes trazidos pelos europeus e africanos e outros provenientes de tribos indígenas permanecem presentes na cultura brasileira. O misticismo é um dos principais pontos através do qual essa influencia de diversas culturas se manifesta. Isso porque, mesmo os brasileiros que declaram não terem vínculos com religião alguma, nutrem dentro deles certa dose de superstição. Na realidade, grande parte dos brasileiros costuma se declarar como sendo membro de algum grupo religioso, de forma que a população do país, no geral, ainda apresenta forte ligação com as instituições religiosa.

Nota-se, nos dias atuais, que o catolicismo tem perdido espaço no país devido ao crescimento vertiginoso das religiões pentecostais e ao surgimento de inúmeras outras religiões que têm dividido a população. Esse movimento segue a tendência mundial, como afirmam Berger e Luckmann, "o chamado Terceiro Mundo estremece literalmente sob o ímpeto dos movimentos religiosos" (2004, p. 48). Os autores ainda acrescentam:

É preciso encarar com ceticismo a equação modernidade/secularização. Se a teoria da secularização se aplica em algum lugar deve ser a Europa Ocidental. (Mas, mesmo ali, dever-se-ia perguntar se o recuo institucional das Igrejas deve ser equiparado ao recuo da interpretação religiosa na consciência) (…) Como quer seja, a teoria convencional da secularização perde rapidamente credibilidade assim que se deixa a Europa Ocidental. (2004, p. 48).

Dessa forma, em se tratando de questões espirituais, o ser – humano tem sido acometido por um processo de pluralização e não necessariamente de secularização. Percebe-se que, no Brasil, tem crescido também o número de adeptos de religiões agnósticas, do Espiritismo e do Candomblé.

Esse movimento fornece pistas sobre o fato de que as pessoas têm começado a se libertar das amarras institucionais tradicionais, porém, não têm deixado de se preocuparem com suas questões existenciais, que quase sempre se ligam à espiritualidade.

Como defende Teixeira Coelho, "o mundo finalmente alcançou o Brasil, móvel e flutuante é o que o a cultura brasileira tem sido há muito tempo, talvez desde muito cedo em sua existência" (2008, p. 53). Dessa forma, o Brasil tem se enveredado cada vez mais pelo hibridismo gerado dentro do contexto da globalização.

Para Berger e Luckmann, na modernidade, "o indivíduo cresce num mundo em que não há mais valores comuns, que determinam o agir das diferentes áreas da vida, nem uma realidade única, idêntica para todos" (2004, p. 39). Neste sentido, é cada vez maior a liberdade do indivíduo em se livrar de cárceres institucionais que o cercam e em escolher o caminho que preferem trilhar.

Dessa forma, o brasileiro continua sendo um povo muito religioso, apesar de as formas de manifestação dessa religiosidade ter se diversificado em demasia. Além disso, é cada vez mais recorrente as religiões apresentarem-se por meio de mesclas de rituais de diversos outros movimentos religiosos.

O grande sincretismo religioso existente no Brasil também faz com que as pessoas acreditem em superstições provenientes de diversas religiões e que apelem para diferentes divindades para tentarem resolver os problemas que as afligem. Assim, pode-se afirmar que o brasileiro é um povo de fé. Uma nação que acredita no poder divino, que reza e confia que terá seu pedido atendido.

Mas, a religião não é a única grande paixão do brasileiro, o futebol também se enquadra nessa categoria. Assim, o brasileiro tem se utilizado de diversos meios para casar essas duas paixões. Como afirma Roberto DaMatta,

No caso específico do Brasil, a chamada loteria esportiva inteiramente relacionada ao futebol, permite atualizar todo um conjunto de valores associados ao sistema brasileiro da sorte e do azar, inclusive com o apelo mágico às entidades sobrenaturais das chamadas religiões Afro-brasileiras (como a Umbanda) e do Catolicismo popular. (p.26)

Assim, o brasileiro se apega à religião, em suas mais diversas formas de manifestação, na esperança de que seu time vença as partidas disputadas. Muitas pessoas chegam a fazer promessas para que seus times vençam os campeonatos disputados ao longo do ano. Dessa forma, cada torcedor se "agarra" ao seu deus na esperança de que seu time alcance destaque. Neste sentido, o futebol é visto pelo brasileiro como um jogo.

Como afirma Roberto DaMatta, "no caso brasileiro, o fato de existir uma associação entre futebol e jogo denota duas ideias que, no caso da sociedade americana, seguem separadas" (p. 24). Percebe-se que a relação entre vencer uma partida de futebol e ter sorte não é construída em nações americanas ou europeias, para esses povos a vitória se liga à técnica e ao treino e não ao fato de se ter fé ou sorte.

Já para o brasileiro as disputas futebolísticas estariam relacionadas ao mito da malandragem e do gingado, de forma que venceria aquele que consegue driblar a dura realidade que ameaça sua vitória. Seria como se os torcedores estivessem em constante disputa frente ao destino, como se estivessem sempre a espera de um milagre, o que nunca os deixa perder a esperança.

Mas, além dos torcedores, os jogadores brasileiros também têm o hábito de se apegarem à religião para resistirem diante da grande pressão física e emocional que os assombra. Como define Clodoaldo Gonçalves Leme, em sua dissertação de mestrado, "os profissionais da área sofrem grande pressão psicológica e física e muitas vezes não têm estrutura suficiente para suportar as dificuldades, de onde vem a necessidade de apoio religioso e apelo ao sobrenatural".

Assim, muitos jogadores depositam suas carreiras nas "mãos de Deus", de forma que quando perdem, dizem que foi a boa e perfeita vontade de Deus, e, quando ganham,acreditam que foram abençoados pelas mãos divinas. Nota-se ainda que esses atletas não se contentam em resguardarem sua fé para eles mesmos, pelo contrário, sempre fazem questão de declararem publicamente sua devoção. Muitos jogadores chegam a vestir camisas com frases de agradecimento ou adoração, além disso, há aqueles que realizam gestos religiosos durante as partidas. Também nas entrevistas que cedem à imprensa, esses atletas buscam enfatizar o papel do divino em suas atuações.

A relação entre futebol e religião se manifesta ainda de muitas outras formas no Brasil, muitas igrejas se utilizam do esporte para atrair membros, por exemplo. Algumas religiões protestantes chegam a realizar até campeonatos entres seus membros como meio de estimular o lazer dentro da instituição e assim fazer com que as pessoas se sintam mais ligadas a elas.

O esporte é utilizado dentro das igrejas principalmente para atrair a atenção dos jovens. De maneira que práticas esportivas passam a serem utilizadas como forma de isca para atrair adeptos. Mas as religiões protestantes não são as únicas a investirem no futebol como meio de se promoverem, a igreja católica e muitas outras religiões também tem feito o mesmo. Acrescente-se a isso o fato de que muitas religiões também têm investido em outros esportes, além do futebol, para chamarem a atenção das pessoas.

É preciso pontuar, entretanto, que apesar de muitas vezes ser utilizado como uma espécie de isca pelas igrejas, o esporte por elas promovido também possibilita a integração social de muitas pessoas de classe econômica menos favorecida. Muitos sujeitos são libertos das drogas e da vida no crime, de forma que essas ações promovem inserções sociais, às vezes negligenciadas pelo governo. Essas igrejas cumprem assim, em muitos casos, um importante papel social de resgate de vidas.

Considerações finais

A religião e o futebol estão entre as maiores paixões do povo brasileiro e por isso não raramente têm se embrenhado das mais diversas formas dentro do país, como visto nesse texto. A religião está presente tanto no gramado, entre os jogadores e técnicos, como também na arquibancada, invocada pelos torcedores. O fato de no Brasil o futebol está relacionado à ideia de jogo, devido ao seu alto grau de imprevisibilidade, as pessoas rogam a seus deuses que ajudem o time para o qual torcem, na esperança de terem credibilidade o bastante para terem seu pedido atendido.

Dessa forma, o misticismo e a superstição estão sempre presentes nos campos de futebol de maneira intensa e, muitas vezes, explícita. Existem pessoas, por exemplo, que acreditam que devem entrar com o pé direito no campo. Assim, os campos de futebol são praticamente transformados em santuários de adoração, lugares sagrados.

Já para muitos jogadores, a religião é um meio de encontrarem força para vencerem a grande pressão que enfrente em seu dia a dia e também para se consolarem no momento da derrota. Muitos desses atletas se utilizam da fé para conquistarem seus objetivos profissionais, acreditam que são guiados por Deus e que por isso vão ser capazes de se tornarem campeões.

A ligação entre futebol e religião se dá ainda de outras formas, muitas religiões têm se utilizado dessa prática esportiva para atraírem mais pessoas e também como forma de lazer. Não se pode ignorar, entretanto, que essa estratégia não serve apenas como isca para se atrair as pessoas, mas também como um importante meio de inclusão e assistência social. De maneira que é cada vez maior a abertura das igrejas para as práticas esportivas e seus membros estão cada vez mais engajados nessas disputas.

Muitas vezes essa inserção é tão intensa que a religião passa a ser comparada o esporte, uma vez que ambos precisam ser praticados com disciplina, garra, determinação, foco etc. Além disso, o técnico de futebol pode ser comparado a uma guia religioso, ambos estão sempre orientando suas "ovelhas" e ensinando-as a como acertarem o caminho para a glória.

Referências bibliográficas

BERGER, Peter L; LUCKMANN, Thomas. Modernidade, pluralismo e crise de sentido: a orientação do homem moderno. Petrópolis: Vozes, 2004.

COELHO, Teixeira. A cultura e seu contrário: cultura, arte e política pós-2001. Iluminuras: São Paulo, 2008.

FELIPE, Cristina. Religião e futebol são válvulas de escape em sociedade de risco. Disponível em: www.labor.unicamp.br

DAMATTA, Roberto. Esporte na sociedade: Um ensaio sobre o futebol brasileiro.


*Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora

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