A saga da bioquímica do exercício em exercício continua: as análises de sangue no futebol

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Olá caríssimos leitores e leitoras,

Depois de um tempo para deglutir as informações discutidas no último texto, estamos de volta. Pois bem, que venha a discussão, marejados pelo espírito da gloriosa Copa de Mundo da África!

No último manuscrito apresentamos a discussão da bioquímica DO exercício EM exercício. Iniciamos o questionamento do quanto daquilo que tem sido discutido na teoria e que tem encontrado real espaço de aplicação na prática. A partir deste manuscrito, passaremos então a pontuar com mais detalhes algumas destas aplicabilidades práticas futebolísticas embasadas na teoria bioquímico-fisiológica.

Pontuemos inicialmente as análises sanguíneas no futebol. Que fantástica possibilidade, mas com certa dificuldade de aplicação! Por quê?

A análise de marcadores sanguíneos na atividade física, de maneira geral, data de algum tempo atrás, mais especificamente início da década de 1980, com um trabalho que analisou o efeito do treinamento aeróbio nos hormônios de estresse em mulheres (Skrinar et al., 1983). Porém, no apaixonante futebol, os desbravadores iniciaram a utilização sistemática de marcadores sanguíneos de estresse muscular e metabólico há aproximadamente 10 anos atrás, impulsionados, dentre outros, pela Dra. Denise Vaz de Macedo, coordenadora do Laboratório de Bioquímica do Exercício (LABEX), situado na Unicamp. Logo, podemos considerar uma ferramenta de trabalho bastante recente.

Pois bem, essa incipiência científica nos direciona, basicamente, para duas vertentes: um magnífico campo ainda a ser explorado em conjunto ao receio dos dirigentes e dos próprios atletas em relação à utilização desta ferramenta de trabalho. Como fazer do magnífico o viés reinante neste “duelo”? Está em nossas mãos, distintos leitores e leitoras!

Primeiramente: estabelecer critérios. Sair loucamente coletando sangue dos atletas, para todo e qualquer tipo de análise, todos os dias, sem dar satisfação aos demais integrantes da comissão técnica e aos atletas não irá resolver a situação, definitivamente. Talvez crie outro problema. Nesse sentido, os critérios aos quais me refiro são:

1. Escolha dos marcadores (que tipo de fenômeno fisiológico está querendo se investigar?);
2. Escolha do momento de coleta (antes, durante, imediatamente após, 24h, 48h após a sessão de treinamento?);
3. Escolha do momento da periodização em que a coleta será feita (período preparatório, pré-competitivo, competitivo, transitório);
4. Escolha dos atletas que serão investigados (grupo todo, somente aqueles que estão no departamento médico?);
5. Escolha de quantas vezes as coletas serão feitas ao longo da temporada (duas, três, quatro, mensalmente?);
6. Escolha de um momento para apresentar aos integrantes da comissão técnica (técnico, preparador físico, fisioterapeuta, médicos, massagistas, etc) os resultados obtidos, além das atitudes práticas que serão tomadas a partir de então.

De todos os pontos apresentados acima, destaquemos inicialmente o ponto 1. Saber o que será analisado é fundamental. Atualmente têm-se dado bastante ênfase aos marcadores de lesão muscular, em especial a atividade da enzima Creatina Quinase (CK) no plasma. Além deste, marcadores sanguíneos de inflamação tecidual sistêmica (Proteína C-reativa – PCR, contagem total e diferencial de leucócitos), estresse metabólico (uréia, creatinina), estado de hidratação e adaptação aeróbia (hematócrito, contagem de hemáceas e concentração de hemoglobina) e poder antioxidante (ácido úrico, FRAP, enzimas antioxidantes) também têm sido investigados. Analisaremos cada um destes marcadores em nosso próximo encontro literário digníssimos leitores e leitoras!

Secundariamente, continuando a discussão iniciada acima: a partir dos dados coletados, tabulados e interpretados, dar um retorno aos atletas, individualmente. Isso se torna fundamental, de forma a criar uma consciência nos mesmos sobre a importância e a aplicabilidade deste tipo de ferramenta no esporte bretão. Nesse sentido, tentar trazer os atletas para “o lado” da fisiologia, de forma a contar com o apoio e a colaboração dos mesmos em todos os momentos em que a análise dos marcadores sanguíneos se fizer necessária. Para tanto, o entendimento dos fenômenos biológicos que estão por trás dos marcadores sanguíneos, por parte do fisiologista, se faz fundamental! Esse quesito reforça o próprio critério 1 apresentado acima.

Aquele que explica o que está fazendo, tem consciência de onde quer chegar!

Por enquanto é isso. Despeço-me de vocês parafraseando um amigo, fisiologista do futebol, que pondera sempre a necessidade em transformar informações em atitudes práticas. Do que vale uma enormidade de dados nas mãos se o aproveitamento dos mesmos é falho? Façamos valer esse dito para os marcadores sanguíneos!

Forte abraço destemidos leitores e leitoras! Até breve!

SKRINAR, G.S.; INGRAM, S.P.; PANDOLF, K.B. Effect of endurance training on perceived exertion and stress hormones in women. Percept Mot Skills. v.57, p.1239-1250, 1983.

Leia mais:
Entrevista: Fernando Catanho, especialista em Bioquímica e Fisiologia

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