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24/03/2015

A supervalorização do sistema de jogo

De acordo com José Mourinho, “o jogador tem de saber que sob o terreno de jogo tem um desenho estabelecido para poder antecipar as suas decisões.” Na minha opinião esta é a principal função do sistema de jogo e pondero que são decisões táticas, com ou sem a bola.

Muito embora a conceituação de sistema de jogo pode ser mais aprofundada, levando-se em conta todas as interações que o jogo possibilita, para efeitos do texto presente, uso o conceito reducionista de sistema como o desenho da equipe no campo de jogo.

Ultimamente venho acompanhando um crescente apelo ao sistema de jogo da moda, o 1-4-1-4-1. Desde a conquista da Copa do Mundo pela Alemanha, passando pela conquista da Champions League e do Mundial de Clubes pelo Real Madrid, este sistema parece que veio como resposta a todos os problemas no campo de jogo.

Uma diferença sutil deixa o 1-4-2-3-1, até então o centro das atenções, a um passo do 1-4-1-4-1. Troca-se um volante por um meia ou adianta-se o volante para compor a segunda linha de quatro. No segundo caso, fica constituído o novo sistema quando a equipe perde a bola o que confere uma vantagem por colocar mais um jogador dentro do campo adversário para pressionar a saída de bola. Com a bola, a equipe volta ao 1-4-2-3-1, pois o mesmo volante, antes adiantado, agora volta naturalmente para iniciar o jogo, uma vez que pela “rotina do lugar” ou pela característica do jogador (não saber jogar de costas!), é ali que ele se sente “mais confortável”.

Será que se a Argentina tivesse ganho a Copa do Mundo, estaríamos espelhando o seu sistema de jogo da final? Lembremos que a própria Argentina começou a Copa 2014, jogando com três zagueiros, modificando ao longo da competição. Na final, começou jogando num 1-4-2-3-1 com Lavezzi de um lado e Perez do outro na segunda linha de quatro, tendo Messi logo atrás do Higuain. Em alguns momentos, pela não recomposição do Messi, ficava caracterizado como um 1-4-4-2, com duas linhas de quatro. Já ao longo do segundo tempo de jogo, o técnico argentino Alejandro Sabella, trocou Lavezzi por kun Aguero e depois, Perez por Fernando Gago. Estas modificações deixaram a Argentina configurada num 1-4-4-2, com um losango de meio-campo com Biglia, Mascherano e Gago, e tendo Messi atrás de Aguero e Higuain. Caso Rodrigo Palacio, que substituiu Higuain, tivesse convertido uma oportunidade clara de gol, talvez tivéssemos exaltando este sistema de jogo, com a Argentina campeã!

Durante a Copa do Mundo no Brasil, várias equipes apresentaram um futebol de alta qualidade, jogando com três zagueiros (Chile, México, Costa Rica e Holanda), sistema de jogo que para muitos já está superado.

A Holanda jogou num 1-3-5-2 contra o México, tendo Sjneider atrás de Van Persie e Robben, e no jogo seguinte, contra a Costa Rica, o técnico Van Gaal, resolveu trazer o Sjneider para jogar como um segundo volante ao lado do Wijnaldum, compondo o ataque com Robben, Van Persie e Depay, apostando num 1-3-4-3. Voltaram depois ao 1-3-5-2 contra o Brasil quando nos ganharam por 3 a 0 na disputa pelo terceiro lugar.

Em nível de clube, o próprio Real Madrid, campeão da Champions League 2013-14, jogou várias partidas num 1-4-4-2 com duas linhas de quatro, tendo Bale de um lado e Jaime Rodriguez do outro, com Benzema e Cristiano Ronaldo enfiados entre os zagueiros adversários.

Outros exemplos interessantes de belas campanhas com diferentes sistemas são o Liverpool de Brendan Rogers, que só cresceu de rendimento com três zagueiros (Can, Skrtel e Sakho) e a Juventus de Allegri que faz grande campanha no Campeonato Italiano, algumas vezes jogando num 1-5-3-2 com Pereira (Pirlo – lesionado!), Marchiso e Vidal no meio, deixando Tevez e Moratta à frente.

O Tottenham de Maurício Pochetino vem empolgando na Premier League, alternando um 1-4-2-3-1 com um 1-4-4-2, dependendo do posicionamento do Eriksen, atrás ou junto ao Henri Kane, ou mesmo aberto na linha de três, tendo o Lamela jogando por dentro.

Mais recentemente tivemos uma das melhores partidas da Champions League 2014-15 quando se enfrentaram Real Madrid e Schalke 04. O treinador da equipe alemã, Roberto Di Matteo, surpreendeu a todos ao optar por uma formação com três zagueiros (Howedes, Matip e Nastasic), estabelecendo um 1-3-5-2 com um volante e dois meias (Meyer e Hoger) e impondo uma derrota contundente ao Real Madrid, dentro do Santiago Bernabéu.

Todo este histórico vem para fundamentar a minha opinião – no Brasil, supervalorizamos os sistemas de jogo em detrimento a outros fatores mais importantes. O sistema de jogo não é a essência das grandes equipes atuais: Bayern de Munique, Real Madrid, PSG, Juventus, Chelsea, entre outros.

A essência do rendimento destas equipes reside no fato delas executarem muito bem os princípios de jogo, ofensivos e defensivos. Nestas equipes, as táticas individuais e coletivas estão em acordo com aquilo que se espera de alto rendimento no futebol profissional. O sistema de jogo está à disposição da característica e da qualidade do jogador, não ao contrário!

Mobilidade, amplitude, profundidade, infiltração e improviso – princípios ofensivos; equilíbrio, compactação, concentração, cobertura e controle – princípios defensivos; são os pilares que sustentam o desempenho das principais equipes do futebol mundial, clubes ou seleções.

Do ponto de vista tático, para mim esta foi a grande lição que a Copa do Mundo 2014 nos trouxe.
 

 

Comentários

  1. Ronialdo disse:

    após começar estudar futebol, comecei a ver o jogo de estruturas, onde no qual os pilares chamados linhas 1, 2, 3, 4…são alinhadas para um objetivo coletivo, uma vez q esses pilares direcionará a tão saudosa mirabolante bola, para influir oque se deseixa no campo de jogo…tática no Futebol …

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