Universidade do Futebol

Guilherme Costa

29/12/2014

A TV e as coisas que o futebol brasileiro precisa discutir

Quando era presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil sempre foi conhecido pelo estilo verborrágico. Esse traço de personalidade ficou ainda mais evidente depois de dezembro de 2014, quando ele deixou o cargo. No entanto, entre exageros e polêmicas, o ex-dirigente fez em entrevista ao canal fechado “Fox Sports” uma reflexão que o futebol brasileiro precisa urgentemente repetir.

“Se o Flamengo se acertar, acabou o futebol brasileiro”, disse Kalil. Depois, instigado por um comentarista sobre o Corinthians, o ex-mandatário do Atlético-MG adicionou o clube alvinegro: “Flamengo e Corinthians. A competitividade no país depende de eles cometerem erros. Nós recebemos R$ 40 milhões a menos do que o Flamengo da TV. Para brigar, precisamos fazer tudo certo e torcer para eles fazerem besteira. Eles precisam contratar um Pato por ano”.

Em 2014, o Flamengo foi o time brasileiro que mais faturou com venda de direitos de mídia (R$ 110,9 milhões). O Corinthians, segundo do ranking, amealhou R$ 102,5 milhões, quase R$ 30 milhões a mais do que o Palmeiras, que ficou em terceiro. O Atlético-MG, campeão da Copa do Brasil, recebeu R$ 71,3 milhões (todos esses valores desconsideram antecipação de verba).

A diferença de valores de mídia é reflexo do modelo de negociação. Clubes conversam individualmente com interessados, e esse formato privilegia os que têm maior potencial de resultados (audiência e audiência em mercados estratégicos). A questão é: isso é bom para o futebol?

A venda de direitos de mídia representa mais de um terço do faturamento dos principais clubes do futebol brasileiro. Para alguns, chega a 50% da receita total da temporada. Esse cenário tem sido exacerbado nos últimos anos, com a diminuição de empresas dispostas a patrocinar uniformes.

A TV já tem enorme importância no planejamento anual dos clubes. Com menos opções de patrocínio de uniforme, essa relevância tem ficado ainda maior. E se existe uma diferença tão grande em algo com esse status, o caminho do desequilíbrio parece irreversível no longo prazo.

É lógico que o Brasil tem fatores que ajudam a mudar um pouco o cenário – clubes que recebem menos e têm categorias de base mais prolíficas, por exemplo –, mas essas são as exceções. A tendência é que exista um domínio.

Desde 2010, segundo um relatório chamado “TV Sports Markets”, o valor global de direitos de mídia no esporte teve um incremento de 34% (chegou a US$ 36,8 bilhões). A liderança de faturamento é dos Estados Unidos, onde a receita de mídia subiu US$ 4,6 bilhões nos últimos quatro anos.

O mesmo estudo prevê novo incremento de 21% nas receitas de mídia até 2017. Uma das explicações é que há novas mídias ganhando importância, e que isso pode atrair mais faturamento.

Em médio e longo prazo, portanto, a comercialização de direitos de mídia no esporte só tende a ganhar relevância. E o futebol brasileiro, se mantiver o modelo atual de venda, pode criar um cenário em que a competitividade seja simplesmente impossível.

O futebol brasileiro precisa urgentemente discutir a venda de mídia. Não apenas pela questão da competitividade, mas por algo que o próprio “TV Sports Markets” salienta: há novas receitas possíveis, e os atuais contratos nacionais cedem à TV Globo os direitos de todas as mídias “existentes ou vindouras”.

Em poucos anos, por exemplo, a venda de conteúdo on demand pode virar uma receita significativa para o esporte. O futebol brasileiro não se preocupa com isso.

Atualmente, a competitividade é uma das principais bandeiras de venda do Campeonato Brasileiro. “É o único campeonato do mundo em que 12 times começam a temporada pensando em título”, é o que os dirigentes costumam dizer. Se mantiver o modelo, contudo, o país estará jogando contra o que tem de melhor.

O futebol brasileiro precisa discutir a venda de mídia. Precisa fazer isso de forma ampla, livre de clubismos e outros ismos. Precisa fazer isso com participação de diferentes segmentos, com dados estatísticos e noções de estratégia. Mas será que esse trabalho todo interessa a alguém?
 

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