Universidade do Futebol

Gief

14/08/2007

A virilidade brasileira nos campos de futebol

Na última semana, o ambiente esportivo em São Paulo esteve agitado. Corinthians x Palmeiras, brigas políticas no “Timão”, seleção brasileira, bandeirinha que fechou contrato com a revista Playboy. No entanto, o assunto que tomou conta das conversas dos boleiros foi a resposta que o dirigente palmeirense José Cyrillo Jr. deu, quando indagado num programa de televisão, sobre a negociação de um jogador (supostamente Richarlyson) de um dos times grandes da cidade com a Rede Globo para se assumir gay.

Este artigo não pretende discutir a legitimidade de uma pessoa ser heterossexual, bissexual ou homossexual. Tão pouco estou dizendo que o jogador Richarlyson, do São Paulo Futebol Clube, seja homossexual. Quero apenas aproveitar a polêmica em torno do jogador e do dirigente palmeirense para discutir a construção da identidade de masculinidade no Brasil através do futebol. Além disso, tento entender como num ambiente predominantemente masculino são raros, se não inexistentes, os casos de jogadores que se assumiram homossexuais. E mais, como a maior ofensa no ambiente futebolístico é aquela que questiona a virilidade do adversário e não suas qualidades técnicas.

Pela primeira vez no futebol brasileiro um jogador viria a público assumir que mantém relações homoeróticas. É bom lembrar que, de tempos em tempos, surgem boatos envolvendo jogadores, jornalistas, técnicos e dirigentes esportivos. Nunca, no entanto, ninguém teve a coragem de “sair do armário”, e os boatos morreram e caíram no esquecimento.

Outro aspecto da questão foi a forma como a pergunta foi feita pelo apresentador do programa. Em tom de galhofa, citou as torcidas dos times do São Paulo e do Grêmio de Porto Alegre e emendou a pergunta: “por que só se pergunta se é do São Paulo? É do Palmeiras esse jogador?”

Oras, a pergunta tinha endereço certo, e não era o Richarlyson ou o Palmeiras, mas o clube onde ele atua e seus torcedores. Nesse caso, o futebol serviu de palco para expressar uma característica marcante de nossa sociedade: a homofobia. Para os padrões futebolísticos brasileiros, uma ofensa inaceitável, bem sabem os são-paulinos; um prato cheio para brincadeiras e zombarias para corintianos, palmeirenses e santistas.

Num esporte que simula uma batalha, questionar a virilidade do adversário é desqualificá-lo para o embate. Assumir uma postura homossexual nesse ambiente fica inviável. Colegas, torcedores, técnicos, jornalistas e dirigentes impediriam o desempenho do jogador que o fizesse, não por proibi-lo, mas por achacá-lo, por considerá-lo inapto para defender as cores, a bandeira ou o uniforme do time. Não se trataria de uma suposta dignidade cristã ofendida pela orientação do jogador, mas da virilidade dos combatentes posta em cheque pela existência de um jogador “afeminado”.

Aqui entra outra característica do futebol brasileiro: os dirigentes esportivos têm se esforçado para manter o futebol como um esporte “pra macho”, afastando as mulheres, inclusive. Nos EUA, por exemplo, o esporte é praticado pelas mulheres sem o menor constrangimento. Aqui, quando se fala em montar um torneio ou jogo de futebol feminino, em vez de atletas, são convocadas modelos da agência X para jogarem contra as modelos da revista Y, criando um estereotipo terrível de que as mulheres não sabem jogar futebol. Claro, as modelos não sabem jogar bola, pois esse não é seu ofício.

Para esses dirigentes, mulher no futebol brasileiro tem que ser bonita e não competente. Daí a boa recepção da nudez da Ana Paula. Acreditam que terá mais êxito profissional sem roupa na Playboy do que como auxiliar de arbitragem.

A idéia de desclassificar seu adversário através da sexualidade não é nova e remonta ao início do século. Segundo Mário Filho, um jogador negro do fluminense usou pó-de-arroz para esconder sua negritude, pois o clube e o futebol elitizados da época não aceitavam a presença negra nos gramados. Desde então, todos os torcedores de times supostamente da elite, passaram a ser chamados pelos adversários de “pó-de-arroz”, em alusão à suposta fragilidade de seus jogadores em relação aos adversários oriundos das classes subalternas.

Em um documentário produzido pela TV Cultura numa favela de São Paulo, os moradores se dividiram entre jogadores brancos e negros e passaram a organizar uma partida de futebol com essas características. Durante o jogo, as ofensas que partiam dos jogadores brancos aos negros tinham uma conotação racista muito forte. As ofensas que partiam dos negros tinham conotação de questionamento da virilidade dos atletas brancos, numa atitude que se assemelha aos comentários do apresentador do programa em relação a são-paulinos e gremistas.

No caso específico desses dois clubes, há algumas complicações no discurso. Piadas sobre a masculinidade/virilidade dos gaúchos são recorrentes em programas humorísticos na TV. Quanto aos são-paulinos, nos últimos dez anos passaram a ser chamados de bambis pelos adversários. Ao que tudo indica, o termo se popularizou com uma entrevista do jogador Vampeta (aquele que posou nu numa revista voltada para o público gay) antes de um jogo Corinthians x São Paulo, na qual ele chamou os são-paulinos de bambis, fazendo alusão ao filme da Disney que transformou o animal em sinônimo de homossexuais no Brasil.

É bom lembrar que as ofensas são recorrentes entre os “combatentes”. Quando a sigla PCC se popularizou em decorrência de uma onda de rebeliões nas cadeias paulistas, os adversários rapidamente a transformaram em Primeiro Comando Corintiano, dando a entender que todo corintiano seria bandido. Durante alguns anos, a torcida palmeirense teve dificuldades em aceitar o apelido de porco.

Hoje, o torcedor do Palmeiras grita “porco” nas arquibancadas e tem no animal um dos símbolos do time. É certo que os mais velhos não gostam do símbolo e não o aceitam, mas os mais jovens o adotam sem qualquer problema. A torcida corinthiana grita nas arquibancadas “corintiano maloqueiro, sofredor” sem qualquer constrangimento. Mas assistir a torcida são-paulina gritar “bambi” ou algo que se assemelhe é impensável. Acreditar que o tal jogador se assuma gay, também.

Se tiver a coragem de fazê-lo, pagará um preço muito alto em sua carreira como atleta. Pois num combate, mesmo que simulado, a virilidade, a coragem e a masculinidade devem ser enaltecidas, enquanto os traços que se distingam destes comportamentos, reprovados e reprimidos, mesmo quando as mulheres estão em campo ou nas arquibancadas.

* João Paulo Streapco é membro do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol, criado em um curso da Universidade de São Paulo (Gief)

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