Universidade do Futebol

Nupescec

16/08/2007

Ainda sobre os índios

Campeonato Nacional de Futebol Indígena. Dados sobre a pesquisa realizada pelo Núcleo de Comunicação, esporte e Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora já foram apresentados. Portanto, este artigo tem por finalidade retratar detalhes que dificilmente seriam registrados pela pesquisa por estarem fora do campo estudado.

A começar pela viagem no ônibus até o local do jogo. Os índios se comportam como delegações de futebol profissional. Cantam, provocam um ao outro, se divertem. A tribo Paresi, do Mato Grosso, cantava “Moreninha linda/ do meu bem querer/ é triste a saudade/ longe de você” em um desses deslocamentos, além de canções típicas da aldeia. Canções estas presentes não só neste momento, o que explicarei mais para frente.

Chegando ao local do jogo cada tribo adotava uma postura diferente. Havia tribos que entravam sem festa, como se estivessem apenas passeando, e outras que mostravam sua cultura logo na entrada. A tribo Kaiapó chegou ao campo da Faculdade de Educação Física da UFJF toda caracterizada, com pintura corporal, arco e flecha, tacape, cantos e danças, mostrando sua cultura aos espectadores. Por outro lado, enquanto não chegava seu adversário, os Kaiapós tiravam fotos, davam autógrafos, treinavam escanteios, faltas, pênaltis, além de demonstração de arco e flecha.

Outro fator que chamou atenção foi o desfile de chuteiras promovido pelos índios. Chuteiras azuis, prata, vermelha, amarela, brilhante, de vários estilos e formas passeavam pelos gramados nos quais foram realizados os jogos do campeonato. Durante um jogo da tribo Bororo-Boi ocorreu um fato que considero, no mínimo, interessante. No meio da partida, um jogador do Bororo foi até a beira do gramado e trocou suas chuteiras com um companheiro que se machucou e foi substituído. É comum vermos troca de chuteiras durante jogos de futebol, mas não entre jogadores.

Outros apetrechos do marketing esportivo também eram usados pelos índios, como faixas na cabeça com o símbolo da Nike, tornozeleiras, tensores na coxa, ataduras e os uniformes. Estes variados. Alguns inspirados em clubes conhecidos, outros bem simples. O patrocínio era notório em vários destes uniformes, sendo que a tribo Yawalapiti tinha o uniforme, se não idêntico, muito parecido ao do Chelsea, com patrocínio da Samsung celulares.

Um arsenal de câmeras digitais e filmadoras apareceu no evento. Não só dos espectadores, mas dos próprios índios. A tribo Paresi tinha um integrante responsável, exclusivamente, pelas fotos e filmagens do time dentro e fora do campo. Mesmo com o acesso de algumas etnias a esta tecnologia, foi possível constatar algumas tribos que não tem tal conhecimento sobre estes equipamentos. Os atletas da tribo Xerente ficaram encantados ao reverem, pela câmera, um gol feito por eles.

Neste evento foi possível perceber a adaptação de elementos da cultura indígena ao futebol, como, as músicas, presentes em quase todos os jogos. Na chegada é comum observarmos os índios cantando uma canção para que o jogo seja bom. A tribo Xacriabá, antes das partidas, cantava uma canção que lembra o candomblé. “Ô minha ‘vó´ cabocla, vem aqui me abençoar/ Ô minha ‘vó´ cabocla, vem aqui me abençoar/ Abençoa, Pai Tupã, que é hora de trabalhar/ Abençoa, Pai Tupã, que é hora de trabalhar”. Canção que, provavelmente, é utilizada na aldeia antes da caça, pesca e outros trabalhos, foi trazida para o futebol, marcando a cultura indígena no esporte; as danças, sempre acompanhando as músicas, com movimentos rítmicos, em grupo, trazido da tribo como é dançada lá; as pinturas, cada tribo com a sua, distinta e única, como se fosse a marca da tribo, sua impressão digital; além, é claro, do dialeto, marca de uma cultura e símbolo da tribo.

Para registrar o evento, além da pesquisa realizada pelo Núcleo, a Rádio Universitária da Faculdade de Comunicação da UFJF transmitiu os jogos, ao vivo, e despertou o interesse e risadas dos índios. Interesse porque os repórteres da rádio, no início, intervalo e final dos jogos, entrevistavam os atletas, que tinham um discurso muito próximo ao dos jogadores profissionais. Palavras de esperança e expectativa por um bom resultado, cobrança de si mesmo e cálculos para que o time passasse para a fase seguinte eram expostas nas entrevistas. Devido à diversidade dos nomes e complexidade em sua pronuncia, os narradores da Rádio Universitária foram motivos de algumas risadas para os jogadores. Eles viam graça na dificuldade encontrada na hora de pronunciar corretamente seus nomes. Um cuidado maior teve de ser tomado com a tribo Bororo-Boi, pois se fosse pronunciado Bororó-Boi poderia ser interpretado como ofensa, pois bororó é um termo da tribo usado para designar homossexuais.

O futebol indígena nos apresentou bons jogadores e o sentimento de mostrá-los como craques. Entre alguns de qualidade no esporte, destaque para Lindomar, jogador da tribo Xavante. Vestindo a camisa 10 da tribo, o atacante foi a revelação do campeonato devido suas habilidades com a bola.

Este evento tornou possível não só conhecer o futebol indígena e suas características, mas também observar detalhes e particularidades da cultura dos índios, que foi adaptada ao futebol. Os resultados da pesquisa, as observações feitas e imagens gravadas são, sem dúvida, um documento muito valioso no estudo da influência da globalização na visão do futebol pelos índios.

* André Cristino é aluno do Curso de Comunicação da UFJF e membro do Núcleo de Pesquisa em Comunicação, Esporte e Cultura da UFJF.

Comentários

Deixe uma resposta