Universidade do Futebol

Entrevistas

08/01/2010

Alceu Neto, criador do “Futebol de Rua”

Em forma de poema, Luis Fernando Veríssimo buscou apresentar de forma sintética e divertida o que é o futebol de rua. Diferentemente da pelada, disputada em um campinho, o duelo ocorrido na via pública para circulação urbana é ainda mais rudimentar e, perto dele, “qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno”.

Para o escritor gaúcho, torcedor acalorado do Internacional, qualquer homem, brasileiro e que fora criado em cidade sabe do que ele estava falando em seu texto. “Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora”, comparou, citando na sequência uma série de regras dessa modalidade específica*.

Para um projeto que busca a valorização do ser humano e a recuperação da auto-estima a partir do esporte, da civilidade, da educação e cidadania e leva em seu nome justamente esse tipo de jogo com bola, o ponto de partida em termos de norma e conduta é: a falta é proibida dentro da partida.

Criada em 2006, a ONG Futebol de Rua nasceu com o intuito de conferir oportunidade para que crianças carentes pudessem demonstrar seu potencial. Pela prática esportiva, os participantes desenvolvem o senso de respeito ao próximo, a convivência social e, dentro das quatro linhas, as habilidades técnicas. À frente disso, está Alceu Neto.

Advogado de formação e alguém que aspirou ao profissionalismo no futsal, ele acredita na convergência de todos aqueles atributos para fortalecer o jovem no enfrentamento dos desafios da vida. Independentemente de um de seus pupilos vingar ou não na carreira futebolística.

“Quisemos criar um jogo interessante, tanto para quem joga, que tem a habilidade, como para quem assiste, vislumbrado com um jogo bonito, sem falta, sem violência, enaltecendo a fraternidade. Com belas jogadas e golaços, o entretenimento se coloca dentro e fora de campo”, argumentou Alceu, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

Além de explicar a trajetória do Futebol de Rua, uma maneira de relembrar o velho futebol, tornando-o uma nova tendência de entretenimento, ele fala ainda sobre o diferencial dos garotos envolvidos no projeto, as categorias de base em clubes tradicionais e o cerceamento da liberdade por alguns treinadores.

Universidade do Futebol – Quem é Alceu Neto? Apresente, por favor.

Alceu Neto – Sou um apaixonado por esportes, e em especial pelo futebol. Joguei futsal desde cedo, nunca profissionalmente – parei aos 18 anos, quando entrei na faculdade.

Eu me formei em 1998, pela Faculdade de Direito de Curitiba, com pós-graduação em Direito Empresarial e Direito Esportivo, pelo Ibej (Instituto Brasileiro de Estudos Empresariais e Jurídicos), além de MBA em Marketing Esportivo pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

Universidade do Futebol – O que é e como surgiu o projeto “Futebol de Rua”?

Alceu Neto – Sempre gostei do futebol bonito, dos dribles e das belas jogadas, dos autênticos “camisas 10”.

Quando morava em Liverpool, comecei a escrever um plano que já tinha na cabeça e nunca havia colocado no papel, de um modelo de jogo bonito, que privilegiasse esses quesitos que sempre me encantaram: assim nasceu o FdR (Futebol de Rua).

Lá na Inglaterra conheci também um projeto chamado Show Racism the Red Card, onde um ex-jogador negro ensinava algo parecido com o nosso futsal. Aí, juntei o jogo bonito com a inclusão social e a educação e nasceu o FdR.

Fui para estudar, mas muitas coisas no caminho aconteceram: acabei parando nesse projeto por alguns meses, com o Mr. Silky Skills, que descobriu que eu era brasileiro ao me ver jogando bola em um campeonato chamado Sunday League.

Fui convidado para participar e meus olhos se abriram para a importância do esporte na inclusão social, na educação, na formação do caráter, e para proporcionar algo melhor àquelas crianças negras que viviam à margem da sociedade.

Universidade do Futebol – O Futebol de Rua utiliza-se de um esporte coletivo para realçar a importância de cada indivíduo no todo, respeitando o conceito do jogo limpo, ou “fair play”. Explique um pouco melhor, por favor.

Alceu Neto – A regra número 1 do FdR é o “fair play” – basicamente o “jogue e deixe jogar”.

A falta é proibida; a primeira é punida com 2 minutos de exclusão; na reincidência, o jogador sai e não volta mais.

Usamos esse procedimento para incentivar o drible, a habilidade. O jogador sabe que pode efetuar uma finta que não sofrerá falta: é o respeito ao próximo. E quando o menino vai jogar o “futebol normal”, ele já faz o movimento do drible automaticamente, o que quase sempre resulta em uma bela jogada, uma falta ou um pênalti.

É isso que temos visto em amistosos que o FdR faz em campos maiores, em partidas de 11 contra 11**.

**Nota da Redação: o símbolo do Futebol de Rua é o jogador de futebol universal, um atleta sem identidade específica, sem objetivar qualquer raça, visando passar com simplicidade a ideia do talento e habilidade do jogador do Futebol de Rua. O conceito foi desenvolvido pelos criadores do jogo e o símbolo foi projetado em colaboração com um designer.


 

Universidade do Futebol – As equipes do FdR realizam “amistosos oficiais” com aquelas equipes de futebol “tradicional”?

Alceu Neto – Sim. Jogamos recentemente com o São Caetano, que fica ao lado de Heliópolis, onde temos um núcleo na cidade de São Paulo. Fizemos também uma partida contra a Fundação Cafu.

Jogamos a Copa Danone em São Paulo e em Curitiba, entre outras competições, às vezes com equipes sem expressão, mas só para mantermos os meninos praticando no campo, também.

No FdR usamos quadras de futsal, trabalhando em espaços reduzidos, valorizando o drible, e sabemos que há uma grande diferença para o campo. Daí a importância de atuarmos na plataforma maior, para mantermos os nossos jogadores em atividade e até para abrir oportunidades de eles irem jogar em algum time, eventualmente, que é o sonho de todo garoto.

Universidade do Futebol – Qual é a metodologia implementada nesse processo de integração, respeito ao próximo, liderança, coordenação motora e habilidade? Qual a preparação dos colaboradores envolvidos no projeto?

Alceu Neto – Temos a nossa metodologia e, para todos os novos núcleos que abrimos, os professores são capacitados pela equipe do Futebol de Rua, bem como semanalmente recebem as aulas a serem dadas, com o suporte dos coordenadores.

Nosso grupo é composto por pessoas das mais diversas áreas. Desde profissionais ligados à Educação Física, ex-jogadores de campo, boleiros de áreas suburbanas, até professores de escolas municipais e gente formada em marketing e administração.

Todos têm um pensamento em comum: a paixão pelo futebol bonito, pelos dribles, pelos representantes simbólicos da “camisa 10”.

Universidade do Futebol – E há uma linha de trabalho diferenciada para cada grupo de alunos dependendo da faixa etária? Como funciona esse aspecto?

Alceu Neto – Temos os grupos masculino, feminino e misto, divididos também em três categorias: de oito a 11 anos; de 12 a 14 anos; e a partir de 15 anos.

Dependendo da faixa etária, alguns exercícios se modificam, devido à coordenação motora, principalmente. Por exemplo, o “momento Freestyle” que temos nas aulas. Com os mais jovens, o nível de exigência é menor: valorizamos mais o aspecto lúdico, a brincadeira…

A aula se divide em treino físico, técnico, tático e coletivo. Entre a parte física e a técnica, temos o “momento Freestyle”, em que tiramos todas as bolas de futebol do campo e entregamos a eles outros tipos de esféricos, como bolas de tênis, de golfe, de basquete, enfim, qualquer coisa redonda.

Os garotos têm que ter o domínio de bola, fazer embaixadinhas e malabarismos com esses objetos diferentes. Esse período da aula é livre para eles criarem. Damos total liberdade para fazerem o que quiserem, com o intuito de aguçar a coordenação motora, a habilidade, o controle e a técnica.

Universidade do Futebol – De que forma são reconhecidos os líderes individuais entre as crianças e de que forma é trabalhada a liderança construtiva pelos professores, coordenadores e técnicos?

Alceu Neto – Notamos aspectos de liderança desde o momento em que fazemos a chamada oral de presença dos alunos até quando eles estão em campo e comandam os times, dando orientações coletivas.

Trabalhamos na forma positiva de detecção do líder. A liderança do atleta é adquirida também pela amizade e pela confiança dos demais meninos no comandante especifico. E damos total liberdade para que eles se descubram como líderes, de forma natural.

Notamos também aqueles que têm a liderança impositiva, pelo grito ou alguma palavra de ordem, o que coibimos no ato. O líder no FdR nem sempre é o mais habilidoso do time, mas sim o mais querido pelo grupo.

Universidade do Futebol – Walter Benjamin diz que o grande equívoco em relação aos brinquedos fabricados é o fato de que estes são sempre pensados como produções para as crianças e não como criações das crianças. Os brinquedos, atualmente industrializados e produzidos em séries, limitam a criatividade das crianças, mesmo quando estas não são totalmente servis a eles?

Alceu Neto – Sem dúvida alguma. Os brinquedos atuais menosprezam a inteligência da criança, são de movimentos mecânicos, os quais não exigem e não instigam as crianças a pensar e raciocinar.

Os videogames atuais mantêm os usuários presos à TV por horas e horas, sem interagir com ninguém, mergulhados em um mundo fictício. Em relação ao advento do Wii, entretanto, vi como uma forma mais interessante, ou menos pior, já que os garotos pelo menos se movimentam para jogar.

Sei que os videogames também contribuem no sentido de criatividade, na rapidez do desenvolvimento da mente, mas tornam a criança sedentária e viciada em um jogo virtual.

Por isso quisemos criar um jogo interessante, tanto para quem joga, que tem a habilidade, como para quem assiste, vislumbrado com um jogo bonito, sem falta, sem violência, enaltecendo a fraternidade. Com belas jogadas e golaços, o entretenimento se coloca dentro e fora de campo.

Universidade do Futebol – O jogo de futebol não é feito apenas de fundamentos, movimentos técnicos, sendo a relação com a bola apenas uma das competências essências dessa prática. Como se podem desenvolver esses mesmos jogos facilitando a aprendizagem da estruturação do espaço e da comunicação na ação?

Alceu Neto – Dentro do FdR valorizamos muito a habilidade com a bola, a coordenação motora, o desenvolvimento pessoal no jogo e fora dele.

Realizamos mensalmente palestras educacionais, assim como promovemos visitas de profissionais de diversas áreas para passar suas experiências de vida e uma perspectiva de futuro outra carreira, pois sabemos que nem todos ali se tornarão jogadores profissionais. Por isso visamos formar cidadãos conscientes de deveres e direitos.

Em nosso trabalho técnico, usamos espaços reduzidos, provocando uma dificuldade ao aluno, mesmo, pois é isso que ele encontrará fora das nossas aulas.

As nossas ações têm como foco o futebol, sem dúvida, mas muito mais: miramos a vida, em si, de cada aluno que frequenta nosso núcleo, a realidade em que ele está inserido.


 

Universidade do Futebol – O fato de as crianças não brincarem mais tanto de futebol, desenvolvendo essa atividade majoritariamente em escolinhas ao comando de um professor muitas vezes tecnicista, pode acarretar em uma perda da identidade brasileira ao longo do tempo?

Alceu Neto – Sem querer generalizar, mas muitas vezes vemos nas categorias de base os meninos mal pegarem na bola e o técnico/professor já gritando: “passa, toca a bola!”.

Cada vez mais cedo está se tolhendo a criatividade da molecada, querendo incutir desde cedo uma “tática”, uma ideia de jogo coletivo, etc. Em minha opinião, isso a criança deveria ter mais adiante apenas.

Os menores, de inicio, devem encarar o futebol como uma brincadeira, pura diversão, sem obrigações. Devem curtir a aula e, assim, captar em seu imaginário a noção do futebol alegre, mágico.

Mas acredito que nunca o brasileiro perderá a identidade; jamais perderá a ginga, o drible, isso é nato, não se ensina, mas se aperfeiçoa, melhora-se. O brasileiro tem isso no sangue e será assim sempre.

Apesar das péssimas estruturas, das más administrações, da corrupção, dos dirigentes amadores e sem preparo, o Brasil será sempre um grande produtor de talentos.

Universidade do Futebol – Você comentou sobre esse “cerceamento da liberdade” a muitas crianças nessa fase de aprendizado. Quando os jovens do FdR vão atuar contra equipes do “modelo tradicional”, digamos, qual o comportamento dos seus alunos? O que eles comentam posteriormente? E quais as diferenças detectadas pelos professores, em um olhar externo?

Alceu Neto – Em todos os jogos, sempre incentivamos o jogo para frente, o drible, a bela jogada. Certamente armamos o time com defensores, mas no meio-campo todos sabem jogar bola, não tem aquele “volante tradicional”, vamos dizer assim.

Passamos a responsabilidade de que, se perder a bola, há necessidade de uma recomposição para recuperá-la, ajudando o parceiro. E todos têm bem clara essa ideia na cabeça.

Nas conversas após os jogos eles comentam a quantidade de faltas que ocorrem, o modo duro, forte, como se desenvolvem muitos lances.

Independentemente dessas divididas mais ríspidas, nossos garotos adoram a experiência e mantêm viva a vontade de querem se tornar jogadores profissionais.

O que notamos de diferente é a cobrança do técnico do time adversário, gritando, orientando. E como isso atrapalha o menino dentro do campo, atordoando o jogador com aquele fluxo de informação gigantesco em tão pouco tempo.

E pior: às vezes, nem sempre as indicações fazem sentido ou mudarão alguma coisa. Gritam para “mostrar serviço”, e não realmente para melhorar ou corrigir o que está errado.

Universidade do Futebol – Você comentou sobre o comportamento do treinador à beira do campo, atitude que também é vista nas beiras dos gramados em partidas que envolvem grandes equipes no Campeonato Brasileiro. Como você avalia essa “necessidade de mostrar serviço”? O fato de se gritar à beira do campo não é apenas um reflexo de que se treinou mal no período de preparação? Não seriam os jogadores quem deveriam estar preparados para solucionar as diversas situações apresentadas pelo jogo?

Alceu Neto – É bem dessa forma que eu penso. Não só em jogos dos quais o FdR participa, mas em muitos que assistimos, desde mirins até a categoria principal.

Isso tudo tem um porquê e vem de cima para baixo. Os técnicos “profissionais” passam esse mau exemplo para os demais das categorias de base.

Os fatores são vários: treinamento e preparação falhos para o jogo, desconhecimento de fato, diferenças de pensamento entre diretoria e comissão técnica, sujeitando seus times a isso, etc.

Quando se tem conhecimento e certeza do trabalho desenvolvido, na hora em que o time entra em campo, os atletas já sabem o que fazer e, caso contrário, os próprios atletas devem orientar-se dentro do campo – voltamos àquela questão do líder.

No máximo, o técnico pode chamar o jogador à beira do campo e dar orientações. Agora, quando o faz durante repetidas ocasiões, e em um tom muito duro, é sinal de que muita coisa está errada.

Universidade do Futebol – Quais as semelhanças e diferenças você consegue identificar entre uma pelada e um jogo oficial? O bom peladeiro será necessariamente um bom jogador do “esporte futebol”?

Alceu Neto – A pelada, para mim, é aquela jogada com os amigos, mas com certa competitividade, pois ninguém quer perder e ouvir gozações na hora da cervejinha (risos). Mas não tem aquele clima de rivalidade, de inimizade.

Quanto ao peladeiro, ele tem chances, sim, mas desde que seja detectado cedo, por volta dos 14, 15 anos de idade.

Hoje, o futebol profissional mudou muito. Há muita preparação física, pressão, e o menino tem de ser “modelado” desde cedo para isso.

Creio ser praticamente impossível um peladeiro de 18, 20 anos se tornar jogador. Ele está acostumado aos campos da várzea, não treina, joga com quem também não treina em alta performance.

Mas aquele moleque que você vê infernizando na pelada, aí sim, pode conduzi-lo à frente que as chances de vingar são bem maiores.

Universidade do Futebol – Do projeto FdR, algum garoto já migrou para as categorias de base de algum clube?

Alceu Neto – Tivemos um menino em São Paulo que foi para o São Caetano, mas depois se mudou com a família, perdemos o contato e hoje não sei se ainda continua jogando.

Mas tenho certeza de que temos meninos que com certeza teriam lugar nas categorias de base de grandes agremiações. Simplesmente pelo puro talento e pela dedicação que possuem.

Universidade do Futebol – A sua certeza se dá por conta de uma possível “adaptação” ao que é realizado no processo de formação dos clubes tradicionais, ou porque os jovens do FdR carregariam um diferencial?

Alceu Neto – Não posso dizer que temos os melhores talentos, isso seria muita presunção, mas acredito no potencial dos garotos pelo que vemos nos treinos e em jogos e apresentações. E vejo que uma adaptação ao campo para eles seria tranquila, pois já jogaram e ainda alguns jogam nos times formados dentro das comunidades onde temos os núcleos.

O que vejo neles de diferente, mesmo, é a falta de medo de inovar, de inventar, ousar nos dribles: considero esse o diferencial do FdR.

Universidade do Futebol – O FdR realiza uma série de seminários, apresentações e workshops. Explique um pouco sobre isso, por favor.

Alceu Neto – Fazemos diversas apresentações de jogos de FdR: montamos um campo, para partidas de três atletas contra três, em gols pequenos. Os meninos do FdR duelam entre si e, após isso, há o desafio do pessoal presente no evento, com a participação conjunta.

Fazemos também apresentações de Freestyle, e o funcionamento é da mesma maneira: apresentação própria da nossa equipe com consequente participação do público.

Damos clínicas de FdR e Freestyle em cidades e clubes, ensinando ao pessoal o jogo e algumas manobras do Freestyle – o SESC-SP é um grande parceiro nosso nesse projeto.

Temos alguns meninos que fazem propagandas, como recentemente dois meninos Freestyler de Curitiba, que apareceram na chamada de abertura do Campeonato Paraense de 2010, com inserções na transmissão da TV Globo.

Ainda há as Copas de FdR e Freestyle que fazemos em São Paulo e Curitiba anualmente, com a participação de dezenas de times.

Por fim, consolidamos em setembro a fundação da Federação Paranaense de Futebol de Rua e já estamos com a papelada encaminhada para a Federação Paulista.

Universidade do Futebol – Você comentou sobre essa questão da propaganda em TV. Há um envolvimento do departamento jurídico ou é algo estritamente ligado a esses dois garotos? E qual a contrapartida do FdR, em termos financeiros, de imagem?

Alceu Neto – Entrou no ar na última rodada do Campeonato Brasileiro. Esses dois meninos são maiores de idade e os direitos de imagem foram direto para eles, sem qualquer ganho ao FdR.

Nossa contrapartida será tentarmos agora “vender” apresentações deles aos times da competição e à própria federação, para que ambos estejam nos jogos realizando brincadeiras com o público.

Já fizemos isso em quatro oportunidades no Atlético-PR e no Coritiba, inclusive.

Em termos de imagem, nossa benefício é simplesmente o fato de termos em nossos berços esses moleques talentosos fazendo apresentações, trabalhando com o que amam, com a consciência de que pudemos dar essa oportunidade a eles.


 

Universidade do Futebol – O que seria esse projeto Feras na Escola, que está em destaque no site do FdR?

Alceu Neto – É uma parceria que fizemos com a Editora Vida & Consciência, para lançamento e divulgação do livro “Léo, o driblador”.

O Futebol de Rua fará apresentações do nosso jogo e de Freestyle em determinados locais para divulgar o livro e, em troca, a cada exemplar vendido, o valor de R$ 1,00 é revertido aos núcleos de São Paulo e Curitiba da nossa organização***.

*** Nota da Redação: Feras Futebol Clube é o título de uma coleção de sucesso mundial, que retrata a saga de um time de bairro. Reúne jovens amantes de futebol, que se vêem obrigados a enfrentar e superar grandes desafios. No decorrer das histórias, eles desenvolvem a auto-estima, a confiança, a solidariedade, o perdão, o senso de equipe, a força de vontade, o respeito às diferenças e outros valores essenciais para o desenvolvimento pessoal e a vida em sociedade.

Voltada para crianças de 8 a 14 anos, a coleção Feras Futebol Clube foi lançada há sete anos na Alemanha e já foi traduzida para 27 idiomas. Seus treze volumes venderam mais de 11 milhões de exemplares na Europa e na Ásia e já renderam cinco filmes para cinema, com 2,5 milhões de espectadores na Alemanha, Áustria e Suíça.

No Brasil, Feras Futebol Clube está sendo lançada pela Editora Vida & Consciência, que entende que o esporte e a leitura valorizam o homem, incentivando a formação de valores, a educação, a cidadania e o respeito social.

Título: Léo, o driblador
Autor: Joachim Masannek
Ilustrador: Jan Birck
Número de páginas: 144
Formato: 16 x 23 cm
Preço: R$ 24,90
ISBN: 978-85-7722-060-1

Sobre o autor

Joachim Masannek nasceu em 1960, em Bockum-Hövel (Alemanha), estudou filosofia germânica, filosofia e ciências audiovisuais. Foi roteirista em diversas produções para cinema, televisão e estúdios de gravação. É o treinador das autênticas Feras e pai de Marco e Léo.

Universidade do Futebol – O que se fazer para virar um voluntário do projeto FdR?

Alceu Neto – Para ser colaborador, a primeira coisa é saber que o FdR não precisa só de pessoas boas de bola e apaixonados por futebol. Temos todas as outras esferas necessárias ao bom funcionamento, como administrativo, marketing, financeiro, designers, jurídico, enfim, uma gama de serviços que faz toda essa engrenagem funcionar.

E o mais interessante é isso. As pessoas me procuram e falam: “pô, mas eu não sou muito bom de bola, tá?!”.

Respondo sempre que não há problemas e que o relevante é a vontade de nos auxiliar, qualquer que seja a área escolhida dentro do nosso plano estratégico.

Os interessados devem entrar em contato conosco, conhecer nosso trabalho nas quadras e depois escolher onde querem colaborar.

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual é a contribuição que um evento como a Copa do Mundo de 2014 pode trazer para o Brasil, mudando a maneira de se enxergar o futebol e de atuar dentro da modalidade?

Alceu Neto – Creio que o maior beneficio será em termos de estruturação, ou seja, quero crer mesmo que todas as obras de infraestrutura sejam feitas nas cidades, no transporte coletivo, nos campos e demais acomodações.

Não me iludo ao ouvir que tudo transcorrerá às mil maravilhas, pois o Pan-Americano no Rio, em 2007, nos deixou más lembranças e complexos esportivos sendo mal aproveitados, mal geridos e dando prejuízo ao erário publico.

Hoje, os estádios não são mais só para jogos: ou são multiuso, ou dão prejuízo. Vide o caso do Engenhão, construído para aquele evento, em relação ao Botafogo.

Teremos na Copa-14 enormes estádios, modernos, em cidades onde o futebol não tem público para isso, mas necessitamos nos adaptar às regras da Fifa para sediar. Não quero me enganar com a área esportiva.

Porém, se tudo mudar, para o que torço ardentemente, e todas essas estruturas esportivas que serão construídas forem utilizadas após o Mundial para projetos sociais, para lapidação de talentos, enfim, à população local, será fantástico.

No campo do futebol, mas fora das quatro linhas, espero que os clubes e os dirigentes tirem algumas lições administrativas, organizacionais. Apesar de sermos uma potencia em talentos, somos decepcionantes na forma de gerir uma instituição.

Serviço:

Futebol de Ruawww.futebolderua.org  

São Paulo: (11) 8152-3727 / (11) 9299-4696

Curitiba: (41) 9936-9113

Rio de Janeiro: (21) 8339-8449

Rádio: 92*22790

*Poema Futebol de Rua – Luis Fernando Veríssimo

Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que eu estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora. Não sei se alguém, algum dia, por farra ou nostalgia, botou num papel as regras do futebol de rua. Elas seriam mais ou menos assim:

DA BOLA – A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pêra. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no golo.

DAS GOLEIRAS – As goleiras podem ser feitas com, literalmente, o que estiver à mão. Tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, os livros da escola, a merendeira do seu irmão menor, e até o seu irmão menor, apesar dos seus protestos. Quando o jogo é importante, recomenda-se o uso de latas de lixo. Cheias, para agüentarem o impacto. A distância regulamentar entre uma goleira e outra dependerá de discussão prévia entre os jogadores. Às vezes esta discussão demora tanto que quando a distância fica acertada está na hora de ir jantar. Lata de lixo virada é meio golo.

DO CAMPO – O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, calçada, rua e a calçada do outro lado e – nos clássicos – o quarteirão inteiro. O mais comum é jogar-se só no meio da rua.

DA DURAÇÃO DO JOGO – Até a mãe chamar ou escurecer, o que vier primeiro. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

DA FORMAÇÃO DOS TIMES – O número de jogadores em cada equipe varia, de um a 70 para cada lado. Algumas convenções devem ser respeitadas. Ruim vai para o golo. Perneta joga na ponta, a esquerda ou a direita dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

DO JUIZ – Não tem juiz.

DAS INTERRUPÇÕES – No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada numa destas eventualidades:
a) Se a bola for para baixo de um carro estacionado e ninguém conseguir tirá-la. Mande o seu irmão menor.
b) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar não mais de 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isto não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa ou apartamento e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação. Se o apartamento ou casa for de militar reformado com cachorro, deve-se providenciar outra bola. Se a janela atravessada pela bola estiver com o vidro fechado na ocasião, os dois times devem reunir-se rapidamente para deliberar o que fazer. A alguns quarteirões de distância.
c) Quando passarem pela calçada:
1) Pessoas idosas ou com defeitos físicos.
2) Senhoras grávidas ou com crianças de colo.
3) Aquele mulherão do 701 que nunca usa sutiã.
Se o jogo estiver empate em 20 a 20 e quase no fim, esta regra pode ser ignorada e se alguém estiver no caminho do time atacante, azar. Ninguém mandou invadir o campo.
d) Quando passarem veículos pesados pela rua. De ônibus para cima. Bicicletas e Volkswagen, por exemplo, podem ser chutados junto com a bola e se entrar é golo.

DAS SUBSTITUIÇÕES – Só são permitidas substituições:
a) No caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer a lição.
b)

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