Universidade do Futebol

Entrevistas

17/02/2012

Aleksandar Rogic, assistente técnico da seleçao de Gana

Aleksandar Rogic é um dos melhores e mais bem sucedidos jovens treinadores e analistas da Sérvia. Depois de uma carreira efetiva como jogador, Rogic fez a transição para a gestão técnica de campo em 2003, após defender o FC Radnicki Belgrade.

Antes, havia passado por FC Milicionar e FC Kozara (Bósnia Herzegovina), clubes profissionais que se interessaram em seu jogo muito por conta da boa base construída nas categorias de base do FC Sloboda e do OFK Belgrade.

Depois de treinar algumas equipes no seu país natal – destaque para FC Policajac e FC Rad Belgrade – e em Malta (FC Floriana), com seu conhecimento profundo e empenho foi congratulado e convidado para trabalhar na seleção principal da Sérvia como assistente técnico.

A temporada de sucesso, que incluiu a qualificação e a participação na Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, rendeu posteriormente uma nova oportunidade: iniciar um projeto com a seleção de Gana.

“Para um treinador da seleção nacional, é muito importante receber relatórios semanais da performance dos jogadores dos seus clubes. Desta forma, a comissão técnica da seleção pode formar um banco de dados de desempenho de todos os jogadores e fazer uma análise minuciosa de todos os aspectos de jogo”, avalia Rogic, parceiro de Goran Stevanovic no comando de uma das grandes potências africanas da atualidade.

Com um aproveitamento recorde de 60% dos pontos disputados em 2011 (incluindo amistosos), Gana viveu a pressão de conquistar sua primeira Copa Africana de Nações em 30 anos. Terceira colocada em 2008 e vice-campeã em 2010, a equipe, uma das mais jovens do torneio – 13 dos 23 jogadores convocados eram sub-23 – parou na semifinal.

Sem Michael Essien, lesionado, e Kevin-Prince Boateng, que se afastou da seleção para se dedicar mais à própria carreira, os Estrelas Negras caíram para Zâmbia, que se sagraria campeã diante da Costa do Marfim. Mas Stevanovic pretende permanecer na empreitada para, ao lado de Rogic, “continuar o bom trabalho e construir uma equipe para o futuro”.

Nesta entrevista exclusiva à Soccer Coaching International, revista holandesa que é parceira da Universidade do Futebol, o assistente de Gana fala mais profundamente sobre o importante papel da análise no futebol, como usufrui das inovações tecnológicas a serviço da comissão técnica e o modo para lidar com atletas de personalidades distintas que representam uma nação apaixonada.


 

Universidade do Futebol – Como você avalia a presença da tecnologia no ambiente esportivo e qual é a funcionalidade das mais variadas ferramentas para o desenvolvimento do seu trabalho de campo?

Aleksandar Rogic – Nesta era de alta tecnologia, a disponibilidade de informações é vasta e sem fim, com acesso para quase tudo já sem limites. Isto não é diferente para o futebol, com as redes de televisão oferecendo cobertura de quase todas a ligas em todo o mundo. E a fim de alcançar mais público, eles o fazem pela tecnologia das câmeras utilizadas e dispositivos tecnológicos.

O futebol tem se tornado um negócio que atrai grandes e poderosas empresas globais que estão ampliando a sua exposição, chegando através de clubes de futebol, torneios e jogadores.

Não faz muito tempo, os treinadores usavam slides e fitas de vídeo para visualizar e analisar os pontos fortes e fracos dos adversários. Hoje, os sensores das câmeras são instalados nos estádios e existe uma grande variedade de softwares de análise de jogo disponíveis.

Treinadores são capazes de acessar mais informações que lhes permite analisar tanto o desempenho de sua equipe (individual e coletivo), assim como os adversários. Somente minutos após a partida, os treinadores podem obter dados estatísticos, estatísticas físicas de cada jogador, sequências gravadas de todas as peças de um jogo e muito mais com apenas um único clique do mouse.

Universidade do Futebol – Como os treinadores devem lidar com todas estas novas tecnologias, e usá-la em sua vantagem na competitividade do jogo?

Aleksandar Rogic – Cada treinador tem que ter uma visão do jogo, porque o futebol é uma visão completa, não apenas um momento. Minha opinião é que a repetição é um aspecto importante na obtenção de resultados bem sucedidos, e o objetivo essencial de um treinador ao trabalhar com uma equipe é minimizar a improvisação o máximo possível.

Fatos, como estatísticas e dados, são, portanto, muito importantes para um treinador e contribuem para o sucesso da equipe. A análise precisa e eficaz do desempenho de um time (e seus oponentes) fornece ao treinador a possibilidade de mostrar sua competência e mais facilmente apresentar a sua visão para o grupo.

Este tipo de abordagem vai levar ao desenvolvimento da equipe, contribuindo para a estabilidade psicológica e auto confiança de seus jogadores.

Análise precisa e eficaz do desempenho de um time fornece ao treinador a possibilidade de mostrar sua competência e mais facilmente apresentar a sua visão para o grupo

 

Universidade do Futebol – Uma abordagem mais analítica é o caminho para melhores resultados?

Aleksandar Rogic – Uma estratégia de jogo, que é baseada nas qualidades dos jogadores, deve também contribuir para a auto confiança necessária. Ao tomar decisões “táticas”, é necessário que toda a equipe de jogadores esteja disposta a participar, sustentando as decisões, como a sua própria, e assim estar ciente das razões pelas quais um certo plano tático de jogo foi o escolhido.

Para reforçar esta mensagem de forma eficaz, a análise de vídeo é usada regularmente. O uso de material de vídeo fornece ao treinador uma forma simples e eficaz de apresentar e fornecer instruções para a equipe e estimular mais discussões.

A visão do técnico precisa tornar-se a visão da equipe, que para mim é a única forma de melhorar e obter os melhores resultados.

Universidade do Futebol – Como você definiria o seu processo de treinamento a partir dessas ferramentas?

Aleksandar Rogic – Uma análise bem sucedida sem um adequado programa de treinamento não irá conferir os resultados desejados.

Os jogadores são obrigados a participar com plena consciência das situações específicas para reconhecê-las durante uma partida, o que irá contribuir para um significativo e bem executado exercício. Não é possível organizar um trabalho de qualidade e fornecer condições para ganhar a estabilidade psicológica necessária sem uma boa atmosfera dentro da equipe.

Conhecer o adversário é, naturalmente, sempre uma vantagem, e junto com todos os elementos acima mencionados contribuem para o processo completo.

Para Rogic, não é possível organizar trabalho de qualidade e fornecer condições para ganhar a estabilidade psicológica necessária sem boa atmosfera na equipe

 

Universidade do Futebol – Quando se fala em apresentação de vídeo, análise e avaliação, quais princípios devem ser aplicados para se obter sucesso?

Aleksandar Rogic – Em primeiro lugar, saber a diferença entre a análise de equipe, grupo e individual.

Os vídeos apresentados devem ser curtos (no máximo entre 5 e 10 minutos) para assegurar a concentração máxima.

Deve-se limitar a sua apresentação para uma única tarefa tática, a fim de assegurar que todos os jogadores estão focados na solução daquele problema.

O vídeo também deve ter sempre uma conexão para a sessão de treino seguinte à apresentação – ou seja, usá-lo como uma introdução para a sessão de treinamento posterior.

Além disso, o diálogo deve ser sempre incentivado durante a reunião, para que todos os possíveis dilemas sejam discutidos antes de irem a campo: o foco de uma apresentação em vídeo da equipe deve ser apenas “a equipe”. O foco de uma apresentação individual deve ser centrada “no indivíduo”.

E o cuidado com o número elevado de reuniões, que podem confundir os jogadores.

“Diálogo deve ser sempre incentivado durante a reunião, para que todos os possíveis dilemas sejam discutidos antes de irem a campo”, diz Rogic

 

Universidade do Futebol – O que deve estar presente nas sessões de treinamento para obtenção os resultados mais positivos de seus atletas?

Aleksandar Rogic – O programa de treinamento deve correlacionar o estilo de jogo com as sessões de treinamento, sendo o mais próximo do jogo possível.

Os atletas devem participar ativamente com plena consciência, assegurando que os objetivos tanto individuais quanto da equipe sejam abordados, enquanto o treinador cria e mantém uma atmosfera positiva dentro da equipe.

Como uma figura nos olhos do público, o técnico tem que incutir absoluta confiança na equipe e remover qualquer dúvida da capacidade de todos os indivíduos e a equipe como um todo. Ele lidera, exibindo confiança e autoridade, estando ciente de seu comportamento a cada momento, principalmente com sua equipe e principalmente quando em público.


 

Universidade do Futebol – Qual é o diferencial de se atuar em uma comissão técnica de um selecionado nacional em se comparando com um clube de elite?

Aleksandar Rogic – Para um treinador da seleção nacional, é muito importante receber relatórios semanais da performance dos jogadores dos seus clubes. Desta forma, a comissão técnica da seleção pode formar um banco de dados de desempenho de todos os jogadores e fazer uma análise minuciosa de todos os aspectos de jogo.

Comunicação contínua com os jogadores é vital para a preparação adequada antes de iniciar o trabalho coletivo com a equipe. Como treinador da seleção nacional, você tem que analisar completamente os sistemas de jogo, tática e estratégias empregadas pelos diferentes clubes, uma vez que isto oferece as informações necessárias sobre os “hábitos” táticos de cada jogador.

Precisamos saber a qual estilo defensivo os atletas estão acostumados a jogar. Se um defensor é, por exemplo, acostumado a jogar em estilo muito defensivo com o seu clube, onde todos os jogadores ficam atrás da linha da bola no seu meio-campo e eles contam com o contra-ataque como sua principal estratégia de ataque.

Especialmente porque a estratégia da seleção nacional segue um estilo defensivo, onde defendemos 40 metros do nosso próprio gol.

Alguns outros clubes jogam de modo mais ofensivo, com seus “alas” pelos flancos usando a abertura e fornecendo apoio no setor – estes atletas funcionam como meias, criando uma sobrecarga no meio-campo.

Na seleção nacional, usamos os alas nos flancos para que eles se beneficiem da velocidade e criem espaço (com tabelas) para cruzamentos centrais. É claro que existem numerosos exemplos de como estilos de jogo e estratégias podem variar. Como técnicos da seleção, precisamos do maior número possível de informações e estarmos sempre preparados.

Ex-jogador, Rogic passou pela comissão técnica da seleção da Sérvia (esquerda) e aceitou, após a Copa-10, convite para trabalhar com Goran Stevanovic em Gana

 

Universidade do Futebol – E como mensurar a questão da falta de tempo para um trabalho mais complexo e ponderado, adversidade encontrada pela maioria das seleções do mundo?

Aleksandar Rogic – Estamos trabalhando com os melhores jogadores daquele país, por isso todas estas diferenças em estilos não devem ser um problema, desde que sejamos capazes de analisar todas as informações de antemão.

Trabalhar com uma seleção nacional significa que você tem menos tempo para o trabalho de campo; implementação, treinos, análise e preparação para jogar.

A equipe se reúne apenas alguns dias antes de uma partida, os jogadores jogam em campeonatos diferentes e cada clube possui diferentes exigências e restrições. Considerando as agremiações que tem um período de preparação de quatro a seis semanas antes de cada temporada (mais trabalho de campo diário e jogos ao longo da temporada), a seleção nacional tem um tempo muito limitado, e geralmente apenas no máximo 10 vezes por ano. Por causa disso, a necessidade de videoconferência para a apresentação está aumentando.

Por exemplo, a seleção nacional da Sérvia teve 65 sessões de treinamento e 40 de vídeo durante a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul. As táticas implementadas pela equipe foram: dominar e controlar o jogo através da posse de bola e passes orientados para os flancos; circulação da bola começando pela defesa posicionamento exato em campo, em respeito a todas as partes do campo; grande movimentação sem bola; usar a abertura mantendo o campo largo e transições rápidas.

Universidade do Futebol – Fale um pouco mais sobre o povo de Gana. Há um sentimento de comunhão existente entre atletas e torcida, de modo geral?

Aleksandar Rogic – É importante mencionar que os torcedores e patriotas pelos clubes são geralmente regionais, mas a seleção nacional é o orgulho de toda a nação.

Partidas de seleções nacionais sempre têm maior respeitabilidade em relação à de clubes e, como tal, a pressão é muito maior. É necessária uma boa preparação para uma partida, em que todos os pequenos detalhes devem ser revistos, para que os atletas tenham a estabilidade psicológica necessária para atuar sob pressão e altas expectativas de um jogador de seleção.

Cada seleção nacional tem a sua própria mentalidade, e o treinador tem que aprender a conhecer e a respeitar. Isto é, obviamente, mais difícil para treinadores estrangeiros, pois eles têm que se familiarizar com a cultura e a forma de pensar de uma nação.

Respeitar a cultura e a mentalidade vai ajudar na formação de um grupo forte e coerente, que leva a um bom relacionamento entre os jogadores que, por sua vez, cria uma estabilidade psicológica e concentração.

Em nossa mais recente partida de Gana contra a Inglaterra, tivemos que considerar o fato de que era um dia especial para ambos os jogadores e o povo ganês, pois o país foi uma colônia britânica. Precisávamos preparar a equipe para que não jogasse com muito respeito ao adversário.


 

Universidade do Futebol – Qual avaliação você faz sobre o nível dos jogadores ganeses? A comissão técnica encontrou muitos problemas relacionados a comportamento?

Aleksandar Rogic – Em qualquer equipe há sempre uma grande variedade de personalidades, de modo que o treinador tem que saber como abordar e tratar cada jogador.

Ego às vezes pode ser um fardo intolerável para uma equipe – lidar com isso de forma eficaz é a parte do trabalho (como treinador da seleção) que é especialmente importante.

A equipe consiste dos melhores jogadores do país, mas potencialmente seus egos e personalidades podem ser prejudiciais para a equipe. Eu acho que, além de conhecimento tático, bom programa de treinamento e bom caráter, um treinador de sucesso é aquele que tem boa e forte habilidade de comunicação e a capacidade de ser flexível. Porque não importa o quanto se tenta prever, o futebol é imprevisível (como podem ser os jogadores), e um treinador precisa ser capaz de lidar com essas situações.

Tendo em mente o fato de que mesmo o problema mais difícil é resolvido em partes quando analisado precisamente; uma equipe sempre tem uma vantagem quando dispõe de informações sobre o adversário.

Por causa da diminuição do número de jogos da seleção nacional com os longos períodos de tempo entre cada jogo, bem como a possibilidade de frequentes transferências de atletas, a necessidade de uma análise do adversário e do conhecimento (dos pontos fortes e fracos) é um dos pontos mais essenciais na preparação com sucesso para uma partida.

A análise deve sempre ser vista e considerada com sua própria equipe em mente. Ela tem que ser sucinta, concisa, clara e focada no detalhe, que pode determinar o resultado. Mesmo as melhores equipes têm as suas falhas e é importante saber sobre elas e usá-las em seu favor.

  “Mesmo as melhores equipes têm as suas falhas e é importante saber sobre elas e usá-las em seu favor”, reflete Rogic

 

*Tradução: Thales Peterson

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