Universidade do Futebol

Entrevistas

13/09/2013

Alfons Groenendijk, treinador do Ajax sub-19

Alfons Groenendijk só está trabalhando como treinador da equipe sub-19 do Ajax há um ano. Período de trabalho suficiente para chamar a atenção no Sportpark De Toekomst, complexo esportivo das categorias de base do tradicional clube holandês.

Em um projeto integrado, a ascensão meteórica da Academia do Ajax desperta o orgulho nos fãs locais e nos admiradores de uma agremiação que, indubitavelmente, tem uma filosofia de jogo bem particular.

E Groenendijk, que previamente trabalhou em ambientes onde só importava o resultado de campo – em outras palavras, as vitórias e os títulos, independentemente do meio –, adaptou-se muito bema o contexto.

"Eu tive que mudar de ser focado em resultados todas as semanas para treinar e auxiliar jovens talentos em desenvolvimento", revelou o gestor técnico, em entrevista exclusiva à Soccer Coaching International, revista holandesa que é parceira da Universidade do Futebol.

Groenendijk falou sobre a metodologia de treinamento no De Toekomst, sua experiências com os ex-clubes como jogador e como treinador e como fez essa transição rápida. Além disso, discursou sobre as ambições que tem e qual é a sua relação com a direção do Ajax.

 

Universidade do Futebol – Como você se preparou para parar de jogar e seguir no trabalho dentro do futebol?

Alfons Groenendijk – Eu parei de jogar quando eu tinha 37 anos no FC Utrecht depois de quase 20 anos como atleta profissional. O ano em que deixei de jogar, eu estava programado para me tornar o treinador adjunto no Katwijk juntamente com o estudo para obter uma licença de treinador.

Mas, de repente, o comandante principal do Katwijk saiu, deixando-me a função de lidar com a crise e tomar algumas decisões muito importantes, incluindo a formação de um novo elenco.

Eu considerei e valorizei muito a oportunidade de trabalhar com os jogadores mais jovens e na construção da equipe. Infelizmente, sofri com a minha cartilagem naquele ano, e no final tive que passar por uma operação. Devido a esse problema e à posterior reabilitação, eu fiquei incapaz de combinar todos os aspectos de ser um treinador.

"Cada treinador, como cada jogador, tem um modelo, uma figura inspiradora que serve como um mentor. E pode ser um companheiro profissional ou mesmo um treinador famoso. Para mim, Jan Reker é o perfil ideal de treinador", diz

Universidade do Futebol – Quais são as suas principais influências e o que você leva para a formatação de jogar da equipe sub-19 do Ajax?

Alfons Groenendijk – Cada treinador, como cada jogador, tem um modelo, uma figura inspiradora que serve como um mentor. E pode ser um companheiro profissional ou mesmo um treinador famoso. Para mim, Jan Reker é o perfil ideal de treinador.

Ele me comandou no Roda JC, entre 1988 e 1991. Eu sempre estive atento para aprender com ele e adquirir conhecimentos. A ideia era entender por que razão ele determinava certa atividade qual era a finalidade.

Nestes anos todos, Jan Reker é o único que me influenciou. Ele era o mestre em dar aos jogadores a confiança real, motivando e inspirando-os e aumentando a auto-estima. Ele tinha um jeito único de fazer as coisas, e, definitivamente, um impacto positivo sobre todos com quem trabalhou.

Ele possuía uma forma muito eficaz de dar instruções para o jogo, aprendizagem e desenvolvimento, e também ajudando a crescer o caráter pessoal.

Como eu acreditava na abordagem pessoal dele, eu conscientemente trabalho de uma forma similar, particularmente com os jogadores mais jovens.

Universidade do Futebol – Qual é a característica que você destacaria em seu time e qual é o jogador mais especial nesse processo?

Alfons Groenendijk – Como treinador, destaco o Leidenaar como um verdadeiro jogador de equipe. Eu desenvolvi e implementei alguns sistemas e planos de colaboração com os demais assistentes e treinadores. A missão é sempre tirar o melhor proveito da equipe. E a filosofia se aplica ao sistema de jogo.

No FC Den Bosch, fomos muito bem sucedidos com as nossas equipes da base. Tínhamos alas específicos e um camisa 10 definitivo. Essa foi uma parte fundamental para que definíssemos jogar no 4-3-3, e assim há consistência de trabalhar com este sistema em todas as faixas etárias.

É ideal que os jogadores experimentem a utilização deste sistema jogando em posições diferentes, mas definitivamente entendam seus papéis e responsabilidades para cada posição, e mais importante, na posição em que eles finalmente vão se especializar.

Além disso, há o foco em aspectos individuais, as interações e reciprocidade na aprendizagem e no desenvolvimento, o que oferece maior compreensão e mecânica da equipe.

Se os jogadores tiverem um sentimento positivo sobre suas idéias, então é mais provável que se torne realidade.

Alfons Groenendijk diz qque o objetivo principal sempre é a produção e a preparação dos jogadores da base para a equipe profissional. "O melhor que eu posso fazer é preparar e produzir atletas inteligentes, para que, depois, o treinador do primeiro time perceba o potencial e integre aqueles que ele entende serem bons o suficiente", afirma

Universidade do Futebol – E na prática, isso tem dado certo?

Alfons Groenendijk – Para o nível da Liga Jupiler (segunda divisão holandesa) em que jogamos, fomos muito bem. Jogamos um estilo muito identificável de futebol, o que para mim foi definido pelo aspecto da transição entre defesa e ataque e vice-versa.

Trabalhamos muito sobre esse aspecto nos treinamentos, objetivando especificamente os momentos de transição que tiveram um claro impacto sobre os resultados. Isso é muito gratificante para um treinador quando você fica firme à sua filosofia e chega às vitórias.

Universidade do Futebol – Você costuma citar a influência de Marc Lammers, famoso treinador de hóquei, em seu trabalho. Fale um pouco mais sobre isso.

Alfons Groenendijk – Levou algum tempo para incutir as influências dele no treinamento, mas quando o fiz, realmente funcionou. Marc era um membro do Conselho do FC Den Bosch, e foi ótimo ter um cara com tão inovador e motivador nessa organização.

Para mim, o que prevalece no treinamento é prova suficiente da influência que tive com o Marc. Ele provou seu método com a medalha de ouro olímpica com a equipe de hóquei das mulheres em 2008.

"Jogamos um estilo muito identificável de futebol. Trabalhamos muito especificamente os momentos de transição, pois tiveram um claro impacto sobre os resultados. Isso é muito gratificante para um treinador quando você fica firme à sua filosofia e chega às vitórias", analisa

Universidade do Futebol – Quais são as principais diferenças em se desenvolver um trabalho em time de base?

Alfons Groenendijk – Eu estou trabalhando na base desde o ano passado e já reconheci algumas diferenças entre a minha categoria no Ajax, o sub-19, e o antigo cargo no FC Den Bosch, em que o alvo era apenas ganhar e conquistar o acesso à primeira divisão holandesa.

Aqui no Ajax, sobretudo, atuo na área de coaching, aprendizagem e desenvolvimento. E sim, claro que miro as vitórias, mas em uma última análise. Aqueles três pilares estão à frente de tudo.

Tive conversas com Wim Jonk e Marc Overmars e é interessante ouvir as ideias e os conhecimentos de cada um deles. O objetivo principal é a produção e a preparação dos jogadores para a equipe profissional.

O melhor que eu posso fazer é preparar e produzir atletas inteligentes, para que, depois, o Frank de Boer (treinador do primeiro time) perceba o potencial e integre aqueles que ele entende serem bons o suficiente. O mote é sempre o benefício ao clube.

Universidade do Futebol – E como é trabalhar em um ambiente "livertário" como o do Ajax? O que é o famoso "Skill-Box"?

Alfons Groenendijk – É claro que se tem que aprender sobre o "Futebol Total" e o desenvolvimento que leva jogadores ao time profissional. Os principais componentes para isso é ser criativo e flexível ao trabalhar com os grupos etários variados que são misturados o tempo todo. Como treinador, isso garantir a maximização do potencial de jogar.

O Skill-Box é um sistema contextual que conceitua aspectos do jogo posicional, essencialmente. A academia do Ajax tem uma nova direção, em que tudo é focado nesse princípio operacional.

As atividades de alta velocidade, as habilidades técnicas, a transição e o jogo em equipe, além de todas as habilidades funcionais e técnicas, são consideradas relevantes pela direção.

Pode ser sobre a forma como você recebe a bola e a velocidade ou ritmo do passe. Com alta intensidade, a velocidade é importante, por meio das zonas e, em seguida, e também possivelmente o mais importante, em pequenos espaços. Então, como um todo, temos especialistas em diferentes áreas do jogo, e esses profissionais são nosso principal mérito.

Nós temos John Bosman para os cabeceios, Wim Jonk treina os jogadores para o passe e distribuição, Ronald de Boer, Brian Roy, Kenneth Perez, Richard Witschge e Jaap Stam, enfim, todos fazem grandes contribuições específicas também.

Dennis Bergkamp às vezes está conosco em uma reunião e vê coisas que "os outros não veem". Quando você está pensando sobre as coisas que ele diz, é como uma revelação. Ele jogou no mais alto nível e isso é o que vale.

Eu aprendo com os especialistas, eu aprendo com os meus mentores, eu aprendo com os jogadores e eu aprendo com grande instituto que é o Ajax.

Alfons Groenendijk atuou pelo Ajax entre 1991 e 1993, e conquistou a Copa da Uefa neste período em que jogou em Amsterdã

Universidade do Futebol – Você costuma dividir seu tempo como comentarista em algumas mídias na Holanda. Como é isso?

Alfons Groenendijk – Este é um trabalho de tempo integral, mas quartas e domingos são os meus dias de folga. Não afeta o meu trabalho como treinador se eu analisar um jogo para a TV em um domingo. O Ajax é a minha principal prioridade, mas eu analiso algumas das partidas da seleção nacional holandesa, também.

Se eu tiver que dizer alguma coisa sobre isso, eu estou olhando para as táticas das equipes. Você pode assistir a um jogo em casa no sofá, mas como treinador você olha as coisas de uma maneira diferente.

Quais são os pontos fracos de uma equipe? Por que eles são ineficazes em certos aspectos? Eu estou olhando para um jogo de modo diferente se eu estou analisando para a EredivisieLive ou se estou assistindo ao Barcelona, por exemplo.

Universidade do Futebol – E como você projeta o seu futuro?

Alfons Groenendijk – Eventualmente, eu vou ser treinador em algum lugar. O que eu estou fazendo no momento é ótimo e estou gostando muito, mas eu já fui treinador de uma equipe principal no passado e eu quero ter esta posição novamente no futuro, também.

Havia um monte de clubes interessados em mim, mas eu não tinha tomado nenhuma decisão ainda. Estou feliz com as coisas que eu estou fazendo agora. O Ajax é um clube especial para mim, tanto que esta é a minha terceira passagem aqui.

Estou aprendendo muito, pois, de outra forma, eu não faria isso. No futuro, tenho certeza de que serei o treinador principal novamente.

Carreira como jogador

Alfons Groenendijk teve uma carreira de sucesso como jogador. Ele jogou a maior parte de suas primeiras partidas da equipe profissional com o FC Den Haag (119 jogos). Entre 1991 e 1993, ele atuou pelo Ajax, por quem conquistou a Copa da Uefa em 1992. Depois de seu período em Amsterdã, ele jogou uma temporada no Manchester City. Depois de quatro temporadas no Sparta, encerrou a carreira no FC Utrecht.


Carreira como treinador

2001/2002 – VV Katwijk
2003/2005 – Sparta Rotterdam (assistente técnico do profissional e treinador da equipe B)
2005/2007 – Ajax (jeugdtrainer, auxiliar da equipe B e assistente técnico do profissional)
2008/2009 – Willem II (assistente-auxiliar do profissional)
2009/2010 – Willem II (treinador)
2010/2012 – FC Den Bosch (treinador)
2012 – Ajax sub-19 (treinador)

 

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Especial: a importância da formação do treinador de futebol – parte final                                          Marcelo Martins, preparador físico do Bayern de Munique
Francisco Navarro Primo, treinador da base do Valencia 
Pedro Boesel, gestor financeiro
Emily Lima, treinadora da seleção brasileira sub-17
João Burse, técnico do Mogi Mirim sub-20
Mariano Moreno, diretor da escola de técnicos da Espanha
Núcleo de Futebol da Faculdade de Motricidade Humana
Baltemar Brito, ex-auxiliar de José Mourinho
Kemal Alispahic, treinador da seleção do Tadjiquistao
Maurice Steijn, treinador do ADO Den Haag
Hidde Van Boven, treinador do sub-13 do VV De Meern
Wim van Zeist, instrutor técnico do De Graafschap
Reinier Robbemond, treinador da equipe sub-13 do AZ Alkmaar
Jefta Bresser, ex-treinador da academia de jovens do PSV Eindhoven
Ron Jans, treinador do SC Heerenveen
Aleksandar Rogic, assistente técnico da seleção principal de Gana
João Aroso, treinador adjunto da seleção portuguesa de futebol
Roberto Landi, treinador da seleção da Libéria
Gustavo Almeida, técnico do Red Bull sub-15
Cláudio Roberto Silveira, treinador do Sri Lanka

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