Universidade do Futebol

Entrevistas

12/09/2008

Amir Somoggi, consultor esportivo

O Brasil é, sem sombra de dúvida, uma das grandes potências do futebol mundial. Ao lado de outras nações como Inglaterra, Alemanha, Itália, França e a recém-campeã da Eurocopa, Espanha, o país da América do Sul é um exemplo do futebol como um negócio mercadológico.

 

Diferentemente do que se observa nas ligas européias de destaque, os clubes brasileiros sofrem quando o assunto é a otimização na produção de receitas, sem ganhar e, às vezes, até perdendo com elementos como estádios, venda de produtos, projetos de marketing, e ficando fortemente dependentes da venda de atletas para o exterior.

 

No entanto, com a assinatura da chamada Lei Pelé, entre outros aspectos existentes na sua redação, abriu-se a possibilidade para que os clubes de futebol brasileiros investissem em projetos junto aos seus torcedores, enxergando-os como consumidores da marca da equipe.

 

“É importante ressaltar esse aspecto, especialmente no Brasil, porque, dessa forma, nossos clubes não precisariam mais ficar reféns da venda de jogadores para sanarem seus compromissos”, comentou Amir Somoggi, consultor e professor de marketing e gestão no esporte, especialista em marketing e gestão de clubes da empresa Casual Auditores Independentes, que realiza anualmente análises econômicas e mercadológicas sobre o futebol no Brasil e no mundo, professor de marketing esportivo e planejamento estratégico de clubes de futebol no curso Master em Gestão do Futebol da Federação Paulista de Futebol (FPF), em entrevista exclusiva para a Cidade do Futebol.

 

Além de fazer uma análise sobre a realidade da gestão dos clubes de futebol brasileiros, e de tecer comparações com o que acontece nas grandes ligas européias, Somoggi também falou sobre as perspectivas para a Copa do Mundo de 2014, que será realizada no Brasil, e apresentou alguns números para deixar mais concreta a sua visão sobre o esporte.

 

Cidade do Futebol – Quais são os maiores desafios, em termos de gestão, para a modernização dos clubes no Brasil?

Amir Somoggi – A questão é entendermos profundamente qual é o tamanho do nosso mercado. Hoje, nós temos um mercado multimilionário, na Europa, ao passo que o nosso tem muito potencial e ainda é explorável em alguns aspectos.

 

Por exemplo, a formação de jogadores e a sua respectiva exportação. São valores que crescem a cada ano, mas que não caminham para uma evolução do negócio futebol no mercado doméstico.

 

Então, a principal questão é entender qual é esse mercado inexplorado. O segundo dilema é profissionalizar ao máximo o departamento de marketing e a administração do clube para poder alavancar todas as outras fontes de receita, que crescem, mas em um ritmo muito inferior ao que poderiam.

 

Cidade do Futebol – Muitos clubes comentam que a parte social representa um déficit nas contas mensais. Desta forma uma parte das receitas do futebol é deslocada pra cobrir esse déficit. Dentro da realidade estrutural dos clubes brasileiros, como essa situação poderia ser mudada?

Amir Somoggi – Embora a cara social dos clubes gere receitas de maneira razoável, por outro lado, essa área nos grandes clubes, que têm um parque social forte, como Corinthians, São Paulo e Flamengo, para citarmos três deles, realmente consome um valor alto, não apenas nas despesas correntes, mas também em contingências como, por exemplo, um funcionário que entra com um processo e ganha determinado valor, fazendo com que o clube tenha que arcar com isso, o que acaba recaindo sobre o futebol, que é a parte que gera mais receitas.

 

A tendência é o clube buscar alternativas comerciais para a sua área social e para o esporte amador. Como aqui se fala em esportes olímpicos e na prática esportiva dos sócios, é comum que os clubes busquem alternativas comerciais no mercado que possibilitem a redução gradativa desse déficit.

 

Acredito que o futebol deveria ser separado da área social do clube, principalmente, nessa questão da gestão, para que os recursos gerados com a área social fossem investidos diretamente na manutenção do quadro social das agremiações.

 

Cidade do Futebol – Dentro da realidade política, econômica e social do Brasil, quais ações efetivas poderiam ser implementadas pelos clubes visando o aumento e a diversificação de suas receitas a curto e médio prazos?

Amir Somoggi – Para essa questão, nós temos que analisar os números que a Casual Auditores, empresa que há quatro anos faz estudos financeiros sobre o mercado do futebol tem.

 

No último ano, o mercado brasileiro bateu o recorde de geração de receita. Segundo a nossa análise, o mercado brasileiro de clubes de futebol atingiu R$ 1,6 bilhão em receitas, em 2007. A nossa amostra mais representativa são os 21 clubes que tiveram as maiores receitas nesse mesmo período. Eles atingiram R$ 1,33 bilhão.

 

As receitas estão assim subdivididas: negociação dos atestados liberatórios, ou seja, a transferência de atletas, que representou 34% desse montante de 2007, contra 23%, em 2006. As cotas de televisão representaram 22%, em 2007, frente a 29%, no ano anterior. O clube social e o esporte amador representaram 11% das receitas em 2007 e em 2006. Patrocínio e publicidade foram responsáveis por 11%, em 2007, contra 16%, em 2006. E bilheteria representou 8% em 2007, o mesmo valor no ano anterior. Por fim, outras receitas  equivaleram a 14%, no ano passado, frente aos 13% de 2006.

 

Nós temos que fazer algumas análises em relação a esses valores para deixar a questão melhor explicada. Por exemplo, o social e o amador, em 2007, teve um grande incremento, em virtude da evolução que alguns clubes estão tendo naquilo que se convencionou chamar de sócio torcedor, que é um sócio, mas totalmente voltado para o futebol. Neste caso, têm destaque os seguintes clubes: Internacional-RS, Grêmio, Figueirense e Atlético-PR.

 

Para ter-se uma idéia do potencial dessas agremiações, o Internacional-RS conseguiu R$ 20,1 milhões com os seus sócios, o Grêmio R$ 18,5 milhões, o Figueirense R$ 4,3 milhões, e o Atlético-PR R$ 4,1 milhões. Ou seja, há uma tendência, que é extremamente positiva, a de fidelizar um público ligado ao futebol e não ao clube social. 

 

Por isso que precisamos entender a nossa realidade. Se somarmos 34% de atletas, com 22% de TV, e com 11% de patrocínio e publicidade, tem-se 67% das receitas geradas pelos clubes. É o que se convencionou chamar no mercado do marketing de “business to business”, isto é, são receitas diretamente geradas com outras organizações, ou empresas ou clubes: venda de atletas (que são relações entre clubes), patrocínio e publicidade (que são acordos entre clubes e empresas), e as cotas de televisão (negociadas pelo Clube dos 13 ou por federações locais, mas que tramitam entre as entidades).

 

Ou seja, o consumidor do futebol, o torcedor, está fora desse processo. Então, essa talvez seja a principal diferença que nós temos entre o mercado europeu e o mercado doméstico de consumo de futebol: o torcedor representa muito pouco para a receita gerada pelos clubes brasileiros.

 

Por isso, essa é a inversão que deve ser feita por meio de planos de longo prazo, especialmente, na maximização dessas fontes de receita e na estruturação de projetos que sejam criativos e inovadores com o torcedor, a fim de que o torcedor brasileiro passe a representar cada vez mais para os negócios dos clubes.

 

Cidade do Futebol – O futebol, assim como a maioria das modalidades, tem em seus ídolos um fator importante no conjunto da modalidade, seja dentro do campo ou fora dele, desde a maximização de receitas até a qualidade do espetáculo. É possível mantermos nossos craques no país por mais tempo dentro do contexto estrutural e econômico do nosso futebol?

Amir Somoggi – Essa é a principal pergunta que permeia o mercado do futebol brasileiro. Nós vivemos em um ciclo vicioso no que se refere à gestão dos clubes, pois as agremiações vendem cada vez mais cedo os seus atletas. Isso ocorre porque existe a questão relacionada à dificuldade de mantê-los, uma vez que há uma enorme pressão por parte do jogador, do seu empresário, e do mercado internacional com milhões de euros em mãos para comprar esses atletas.

 

As agremiações brasileiras recebem o dinheiro da venda dos jogadores e investem, principalmente, na estrutura de formação de novos atletas, visando encontrar, cada vez mais cedo, novos jogadores que vão se tornar ídolos e serão vendidos no mercado internacional, fazendo com que esse ciclo nunca se encerre. Ou seja, se pega o dinheiro, investe-se em formar jogadores que são rapidamente vendidos, e assim sucessivamente.

 

O ciclo virtuoso foi encontrado pelos europeus e temos que adaptá-lo a nossa realidade. A manutenção dos ídolos parece difícil, mas se olharmos as folhas salariais de grandes clubes da Europa, percebe-se que eles têm um volume cada vez mais alto de recursos sendo despendidos na manutenção desses atletas.

 

Por isso, deveríamos escolher três ou quatro jogadores de cada clube e realizarmos um trabalho para mantê-los por mais tempo no mercado, a fim de impulsionar as outras fontes de receita, investindo na marca do clube, na exploração da imagem desse atleta, na transformação dele em um ícone em termos de marketing. Dessa maneira, faríamos com que o ciclo virtuoso de geração de receitas aparecesse na venda de produtos, na exploração comercial da marca do clube, nos melhores contratos de patrocínio, na lotação dos estádios.

 

Assim, segurando por mais tempo esses atletas, a tendência é que se consiga reverter esse ciclo vicioso, transformando a gestão dos clubes em um ciclo virtuoso de geração de receitas.

 

Cidade do Futebol – Na sua opinião, como profissional de marketing que vive a realidade do nosso futebol há anos, a profissionalização do futebol brasileiro em todos os aspectos, é viável ou um sonho ainda muito distante?

Amir Somoggi – Se analisarmos os últimos cinco anos desse aspecto, houve uma evolução, que pode ser comprovada pelos números financeiros dos clubes, embora os déficits dessas agremiações tenham aumentado. Houve uma evolução principalmente no que se refere à interpretação daquilo que é importante fazer-se para o mercado crescer.

 

O problema é que o mercado brasileiro de clubes de futebol vive de ser uma plataforma de exportação de jogadores. Automaticamente, outras importantes receitas que deveriam ser criadas acabam deixadas de lado, porque é mais fácil vender-se um atleta por 20 milhões de euros para o mercado internacional do que gerar essa mesma quantia diretamente com o torcedor brasileiro.

 

Isso demandaria projetos de longo prazo, de continuidade nessa mudança de paradigma. Ou seja, tem-se não um amadorismo, mas sim um comodismo da administração dos clubes, pois é mais fácil arrecadar-se com a venda de um único atleta do que se pensar que a agremiação tem 10 ou 15 milhões de torcedores pelo Brasil e fazer-se projetos que alavanquem essa idéia.

 

A Casual Auditores fez uma análise e chegamos à conclusão de que, apenas consideram-se as três macro-receitas  dos clubes de futebol que são o estádio, a mídia e a exploração comercial das marcas dos clubes, tem-se um mercado inexplorado da ordem de R$ 1 bilhão, que poderia evoluir nos próximos quatro ou cinco anos, em um ritmo de cerca de 20% ao ano, sem considerar um único centavo com negociação de jogadores.

 

Cidade do Futebol – Quais são as diferenças que fazem tão distantes as realidades do futebol brasileiro e do futebol europeu, sendo que o Brasil é um dos grandes nomes do futebol?

Amir Somoggi – O Brasil é uma referência em termos de futebol no mundo. O que significa que, dentro das quatro linhas, o mercado brasileiro é altamente respeitado. Poucos mercados no planeta atingiram o grau de excelência na gestão do que seria o futebol, em termos de preparação física, tática, técnica, centros de treinamento.

 

Muitos jogadores que voltam para o mercado brasileiro, quando vão para um clube como o São Paulo, o Atlético-PR e o Cruzeiro, afirmam que o centro de treinamento desses  clubes não deixam nada a desejar às estruturas encontradas em grandes clubes italianos, espanhóis ou ingleses. Ou seja, essa realidade favorável, nós já temos. O nosso grande problema é converter esse êxito esportivo em geração de negócios no mercado doméstico.

 

O mercado europeu de futebol, considerando o profissional apenas, o que corresponde a todos os clubes europeus, mais a Uefa e confederações e a Fifa, gerou na temporada 2006-2007 um montante de 13,6 bilhões de euros, sendo que as Big Five Leagues, que são as cinco principais ligas da Europa (a primeira divisão da Inglaterra, da Alemanha, da Itália e da França) geraram 7,1 bilhões de euros. Isso mostra a importante representatividade desse montante em relação ao total.

 

Considerando-se os 20 clubes com maior faturamento da Europa, eles atingiram 3,7 bilhões de euros. Ou seja, mais de um quarto de tudo que se gera com receitas de clubes de futebol profissional na Europa, vem de apenas 20 agremiações.

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Sobre Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol.

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