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23/02/2013

Análise da organização defensiva do Celtic frente ao Barcelona

"A coesão do bloco defensivo passa, fundamentalmente, pela adequação das respostas individuais face à resposta coletiva desejada. Nesta medida, mais importante do que a liderança de um ou mais jogadores, é a existência de sinais/indicadores (referências coletivas) que, quando devidamente identificados, levem a que todos os jogadores pensem em função da mesma intenção ao mesmo tempo e, com isso, a equipe atue como um todo a defender"
(Amieiro, 2004)

Antes da derrota para o Milan na última quarta-feira, o Barcelona havia sido derrotado apenas uma vez nesta edição da Liga dos Campeões.

Celtic e Barcelona jogaram pela fase de grupos da Champions League no dia 7 de novembro de 2012, na Escócia. Os donos da casa venceram pelo placar de 2 a 1. A partida foi caracterizada pela discrepância conceitual entre os dois treinadores/duas equipes, na qual os escoceses apostavam em forte marcação com saídas longas e rápidas (contra-ataque), enquanto os espanhóis, como de costume, jogavam com a posse da bola em um jogo posicional bem definido (ataque posicional).

Isso ficou comprovado com as estatísticas da partida: 73% de posse da bola para o Barcelona contra apenas 27% dos escoceses. Portanto, o objetivo desta breve análise é perceber os comportamentos táticos defensivos do Celtic.

Organização Defensiva

A equipe escocesa defendeu-se utilizando defesa à zona, método defensivo amplamente utilizado no futebol de TOP europeu. Sem a bola, postavam-se em campo com duas linhas de quatro muito bem definidas.

Figura 1: linhas de defesa do Celtic FC

A figura 1 permite-nos deduzir que um sub-princípio incutido e possivelmente trabalhado pelo treinador Lennon foi o de evitar jogo interior ou "entrelinhas" do Barcelona, uma vez que ocorre uma concentração de jogadores muito intensa nos espaços interiores do campo, deixando regiões com menor concentração de defesas nas bordas do campo, pois a equipe catalã pode oferecer muitos perigos se conseguir trocar passes pelo meio e de frente para o gol.

Defensivamente, a equipe do Celtic postava-se e concentrava-se sempre próxima do centro de jogo. Para isso, a linha de defesa composta pelos zagueiros e laterais subia ou descia no campo em função da posição da bola e da posição dos adversários.

Quando o Barcelona executava passes para trás ou o jogador em posse da bola encontrava-se pressionado e de costas para o gol, os defensores subiam no campo, utilizando a regra do impedimento para retirar profundidade.

Quando a equipe de Messi vinha de frente para o jogo, realizava passes em progressão ou ameaçava o lançamento em profundidade, o Celtic baixava no terreno de jogo. Este mecanismo objetiva manter a equipe compacta, sem permitir espaços inter-setoriais (Borges, 2012), como, por exemplo, entre os zagueiros e volantes.

Isso é muito benéfico do ponto de vista defensivo, pois facilita eventuais coberturas ao jogador em contenção graças ao escalonamento das linhas e a proximidade entre setores, dificultando o jogo do adversário "dentro" da nossa equipe e aumenta a pressão sobre o possuidor da bola, dado o elevado número de jogadores em seu entorno.

Figura 2: pressão do Celtic FC nos espaços "interiores"

Na figura 2, observamos as duas linhas de quatro jogadores atrás da linha da bola em bloco baixo e fora da grande área. Nesse exemplo, o jogador com a bola faz o passe ao seu companheiro, onde fizemos um círculo preto para melhor identificação. Ao receber a bola, os três jogadores do Celtic circulados em vermelho "saltam" para cima do jogador catalão, pressionando, dificultando e diminuindo as hipóteses dos jogadores espanhóis, que recebiam a bola e já estavam em inferioridade numérica no corredor central.

Essa imagem ainda pode nos revelar duas nuances: primeiramente, se olharmos para a parte superior da figura, identificaremos um jogador do Barcelona completamente desmarcado. Isso indica que se o Barcelona trabalhasse essa bola horizontalmente com velocidade e combinando com movimentos de penetração na área, o Celtic poderia encontrar problemas justamente pela demora na basculação defensiva e na leitura do contexto.

Em segundo, os jogadores de defesa encontravam-se fora da grande área e o goleiro não estava preparado para cobrir a linha dos zagueiros em um passe em profundidade, por exemplo. Por isso, um movimento de ruptura ou uma tabela bem feita na região central poderia colocar os jogadores do Barcelona em condições de finalizar.

Entretanto, o sucesso do Celtic na partida em muito se deu pelo cumprimento eficaz dos quatro princípios defensivos fundamentais: contenção, cobertura defensiva, equilíbrio e concentração (Castelo, 2009; Costa, et.al, 2009).

Figura 3: transição para o ataque de forma equilibrada defensivamente

A figura 3 indica que os jogadores escoceses sabiam muito bem o que pretendiam desenvolver com a bola. Ao lançar a bola pelo alto ao número 9 (em destaque), nota-se um jogador de mais velocidade à frente da jogada e todos os demais jogadores atrás do centroavante, esperando uma segunda bola sem dar amplitude no campo.

Esse comportamento aponta para as intenções prévias do Celtic: se ganhassem a segunda bola, estariam de frente para o jogo e poderiam progredir no campo. Se perdessem a segunda bola, os jogadores já estariam "fechados" no campo e próximos do centro de jogo, portanto poderiam começar a defender com segurança, uma vez que a superioridade numérica estaria assegurada, sob perspectiva defensiva.

Para terminar esta breve análise da organização defensiva do Celtic, é importante referir: para a ideia de jogo ser boa e consistente, ela deve ser articulada. O que quero dizer com isso? Para o jogo ser algo coerente e fluído, a articulação dos momentos de jogo é fundamental. Portanto, é importante defendermos pensando em como queremos atacar e vice-versa.

Esta forma foi feito pelo Celtic, deixando sempre um ou dois atacantes como referência (preferencialmente o jogador número 9) para a transição defesa-ataque, explorando a característica de seus jogadores e colocando em prática um ponto fundamental para sua competitividade na Champions League: as transições.

Bibliografia

AMIEIRO, N. Defesa à Zona no Futebol. Um pretexto para reflectir sobre o "jogar"… bem, ganhando! Lisboa. 2004.

BORGES, P.H; TEIXEIRA, D. Comportamentos táticos defensivos no futebol. Alemanha, 2012.

CASTELO, J.F.F. Futebol – Organização e dinâmica do jogo. Edições Universitárias lusófonas, 2009.

COSTA, I.T; GARGANTA, J; GRECO, J.P; MESQUITA, I. Princípios táticos do jogo de futebol: conceitos e aplicação. Rio Claro: Rev. Motriz, v.15, nº3, p.657-668, 2009.

*Bacharelado em Educação Física pela Universidade Estadual de Maringá. Coordenador metodológico da Escola Furacão – Sede Maringá, autor do livro Comportamentos táticos defensivos no futebol. e-mail: paulo.borges.proesporte@gmail.com.

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