André Figueiredo, gerente técnico da base do Atlético-MG

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Líder do Campeonato Brasileiro depois de 15 rodadas disputadas, o Atlético Mineiro vive um momento mágico na temporada. A equipe comandada por Cuca é a que mais marcou gols na competição e uma das menos vazadas. E com uma base formada por atletas provenientes do departamento de formação de atletas alvinegro.

Bernard, Marcos Rocha e Serginho são figuras carimbadas entre os onze que geralmente começam as partidas. O goleiro Renan Ribeiro está na delegação da seleção brasileira olímpica nos Jogos de Londres. Fora isso, os zagueiros Werley, que é titular do Grêmio, e Leandro Castán, ex-Corinthians e que hoje está na Roma, têm raízes no clube mineiro.

“Sinais de que deveríamos aproveitar muito mais atletas na transição do que a gente apresenta”, admite André Figueiredo, gerente técnico das categorias de base atleticanas.

Ex-atleta profissional com história no próprio Atlético, André Figueiredo buscou se qualificar quando sentiu que os problemas médicos reduziriam o tempo de sua carreira. Fez cursos nas áreas técnica de campo e de gestão e recebeu uma oportunidade de participar da equipe de trabalho de Ricardo Drubscky, gerente geral da base à época.

“Um ano e quatro meses depois ele saiu, e eu fui convidado pela diretoria do Atlético para assumir o cargo do Ricardo. Estou há nove anos como gerente de futebol de base”, relembrou Figueiredo, em entrevista à Universidade do Futebol.

O Atlético está desenvolvendo um projeto com a participação de todos os treinadores com o intuito de iniciar a montagem de um caderno de treinamento com a chancela do clube. Algo válido para todas as categorias, com todo o conteúdo técnico de formação.

“A ideia é deixar um legado, um trabalho que possa ser seguido. É o objetivo de todo o nosso grupo, que é muito competente: um processo didático de formação”, revelou o gerente, que vê o ambiente interno mais “tranquilo” nesta temporada por conta da campanha da equipe principal.

Segundo Figueiredo, em muitos anos, o Atlético lutou contra o rebaixamento à segunda divisão nacional e o treinador que estava no comando sempre se preocupou com situações emergenciais e pontuais. As conversas, por conta disso, ficam reduzidas.

“Acho que falta muito neste processo de transição, e não é por parte apenas dos treinadores do profissional, pois ninguém vai querer comandar esse processo – eles estão preocupados com os trabalhos deles. E isso não é uma critica, é algo até natural no Atlético e em todos os outros clubes do Brasil”, acredita o gerente técnico. “Mas posso dizer: não há nenhum clube do Brasil que faça transição de futebol de base para futebol profissional”.

Universidade do Futebol Como foi sua trajetória profissional até chegar ao Atlético Mineiro?

André Figueiredo – Eu sou ex-atleta. Comecei jogando no futsal do Vasco. Me profissionalizei aos 20 anos já no Atlético, onde fiquei até os 25 anos. Depois passei por Marcilio Dias, Gama, América Mineiro, Beira Mar, de Portugal, Vila Nova, de Goiânia, Villa Nova, de Minas Gerais, e encerrei minha carreira.

Comecei a fazer alguns cursos relacionados a gestão e treinamento desportivo. E fui convidado pelo Ricardo Drubscky para assumir um cargo de coordenação, já que ele era o gerente geral da base. Aceitei e montamos um departamento de captação no clube.

Um ano e quatro meses depois ele saiu, e eu fui convidado pela diretoria do Atlético para assumir o cargo do Ricardo.

Estou há nove anos como gerente de futebol de base.
 

 

Confira todas as colunas especiais de Ricardo Drubscky publicadas na Universidade do Futebol

 

 

Universidade do Futebol Você traçou um plano de carreira? Esse processo de transição dos campos para o cargo administrativo acabou sendo natural?

André Figueiredo – Eu fiz, mas foi um planejamento forçado. Aos 25 anos eu quebrei o tornozelo e coloquei dez parafusos na fíbula e percebi que meu rendimento como atleta começou a cair.

Passei a me preocupar com o futuro e procurei formas de me qualificar e comecei a fazer alguns cursos paralelamente à atuação como atleta.

Aí, sim, passei a planejar a minha parada. E a transição foi bem tranquila.

Quando parei, ainda tinha convites para atuar por outros clubes, mas estava decidido.

Dei sorte na tomada de decisão, também, por receber o convite de um clube como o Atlético Mineiro, no qual eu tinha uma história.

Universidade do Futebol Quais são as principais funções do gerente técnico de um departamento de formação de atletas?

André Figueiredo – São algumas responsabilidades. Trabalhamos com aproximadamente 80 funcionários, entre profissionais de comissão técnica, departamento medico, fisioterápico, administrativo.

Faço uma integração entre as categorias, além de gerenciar a parte do CT, em relação à manutenção, inclusive, e o processo de captação, formação e o trabalho desenvolvido.

Por exemplo, a didática de cada categoria, até chegar ao sub-20, e o processo de transição ao profissional.

Temos um centro de treinamento dividido entre os dois departamentos – profissional e de formação de atletas – e comando a base, em sintonia com o principal.



Clube trabalha com aproximadamente 80 funcionários, entre profissionais de comissão técnica, departamento medico, fisioterápico, administrativo

 

Universidade do Futebol Como se dá o processo de detecção, seleção e captação de talentos nas categorias de base do Atlético Mineiro?

André Figueiredo – O Atlético tem um departamento de prospecção, que conta com um coordenador e cinco observadores técnicos que atuam dentro do clube.

Vamos a todos os torneios de pequeno porte que têm as escolinhas jogando. Temos também uma rede de contatos em todo o Brasil, mostrando que o Atlético é um clube para se investir, que está renascendo, que forma bons profissionais, vendendo esta ideia de uma estrutura bem montada, etc.

Mantemos contato, também, com empresários que estão neste segmento e nos apresentam alguns talentos em potencial.

Estes jovens passam um período conosco, no ambiente de formação do clube, e eventualmente são convidados a compor nossas equipes.

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Universidade do Futebol Como é o acompanhamento escolar dos atletas da categoria de base do Atlético Mineiro?

André Figueiredo – Há uma preocupação neste sentido, claro, até porque nenhum clube consegue inscrever um jogador na federação se ele não estiver matriculado, e o Ministério Público do trabalho e da criança e do adolescente faz uma fiscalização justa e firme.

O acompanhamento é durante período integral. Em nossa estrutura, possuímos biblioteca, lan house, além de um assistente social, profissionais da área de psicologia, cardiologia, clínica médica, ortopedia, fisioterapia e nutrição, e crescemos muito neste sentido.

Universidade do Futebol Nesse processo paulatino de categoria a categoria, já existe um “currículo de formação no Atlético” que permeie todas as características técnicas, táticas e físicas do jogo em cada um desses atletas ou se trata de uma realidade muito distante?

André Figueiredo – É uma realidade muito próxima da gente. Estamos acabando uma série de reuniões, com todos os treinadores, e cada um explicitou tudo o que é realizado em sua categoria, em palestra, com conteúdo de trabalho e treinamento.

A partir da próxima semana iniciaremos a montagem de um caderno de treinamento com a chancela do Atlético de todas as categorias, com todo o conteúdo técnico de formação.

A ideia é deixar um legado, um trabalho que possa ser seguido. É o objetivo de todo o nosso grupo, que é muito competente: um processo didático de formação.

Claro que é importante o feeling de cada um dos funcionários, e isso é tão valoroso quanto o programa de treinamento. Queremos aliar uma coisa à outra e colocar o caderno em prática até o fim deste ano.

Nossa exigência é que nossas equipes efetuem o “modo Atlético de jogar”, imponham seu jogo, sendo ofensivas, independentemente de contra quem estejam jogando.

Nossos treinadores não são cobrados para ganhar de qualquer jeito, mas sim com qualidade técnica e inteligência tática.

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Universidade do Futebol Quanto ao perfil do treinador, quais são as peculiaridades que a coordenação técnica procura para a escolha de um profissional específico para uma categoria específica?

André Figueiredo – A pergunta é ótima, pois às vezes um treinador tem muita capacidade para treinar os juniores, mas tem muitas dificuldades com o infantil.

As características são específicas a cada uma das categorias.

Determinadas faixas etárias demandam mais trabalho técnico, coordenativo; outras, mais trabalho de fundamento básico, e menos trabalho físico, etc.

Em uma conversa com o profissional você consegue sentir se o treinador está preocupado com a parte prática ou com a formação do atleta.

A preferência é que seja um treinador com caráter, boa formação e que saiba lidar com jovens, o que não é nada simples.

Universidade do Futebol Consumada essa formação, como se dá a transição para o grupo principal? Há uma interação constante com o Cuca e a comissão técnica, ou alguns pontos têm de ser ajustados?

André Figueiredo – Há gargalos a serem completados, sim. O Cuca já está aqui há um ano e temos mais acesso a ele.

Estou há nove anos no clube e não sei dizer qual foi a melhor época.

Apenas neste ano o Atlético é líder do Campeonato Brasileiro e as coisas vêm sendo mais tranquilas.

Em muitos anos, a equipe principal fica lutando contra o rebaixamento à segunda divisão nacional e o treinador está preocupado com aquele momento e com aquela situação.

As conversas, por conta disso, ficam reduzidas. Só vou poder comparar as situações a partir do ano que vem…

De qualquer modo, acho que falta muito neste processo de transição, e não é por parte apenas dos treinadores do profissional, pois ninguém vai querer comandar esse processo – eles estão preocupados com os trabalhos deles.

E isso não é uma critica, é algo até natural no Atlético e em todos os outros clubes do Brasil.

Eu não tenho autonomia para fazer transição, eu preciso ser consultado. E dificilmente qualquer comissão do profissional consulta da maneira certa.

É algo que tem de vir de cima para baixo: a responsabilidade é dos dirigentes, do presidente dos clubes, que às vezes contratam treinadores e conferem muita autonomia.

O que posso dizer é que o Atlético, líder do Campeonato Brasileiro, tem Bernard, Marcos Rocha e Serginho jogando. Um goleiro (Renan Ribeiro) que está na delegação da seleção brasileira olímpica nos Jogos de Londres; um zagueiro, Werley, que é titular do Grêmio; Leandro Castán, formado aqui e com passagem pelo Corinthians, e que hoje está na Roma.

Sinais de que deveríamos aproveitar muito mais atletas na transição do que a gente apresenta.

Mas posso dizer: não há nenhum clube do Brasil que faça transição de futebol de base para futebol profissional.

“Eu não tenho autonomia para fazer transição, eu preciso ser consultado. E dificilmente qualquer comissão do profissional consulta da maneira certa”, avalia Figueiredo

 

Universidade do Futebol Todos os treinadores da base do Atlético estão no mesmo cargo e na mesma categoria no mínimo há quatro anos. O que representa essa continuidade e como a estabilidade nas funções beneficia o processo de formação?

André Figueiredo – O que tem menos tempo é o treinador do Júnior, Ricardo Micalli, que está há quatro anos no clube.

Esse processo rende muitos benefícios. Quando você dá tranquilidade para seu treinador de base trabalhar, e ele perder jogando bem, não vai cair. Se perder formando, ele não vai cair.

Se ele dispôs jogadores de qualidade, ele passa a perder um pouco os vícios de treinador que só pensa na vitória a todo custo.

Queremos atletas com qualidade técnica, inteligência tática, potencial físico e com força psicológica para colocar todas estas valências em campo no profissional.

Temos o Diogo Giacomini, que acabou de se sagrar tetracampeão da Future Champions, mas antes ficou três anos sem ganhar nenhuma competição.

Ele foi questionado, eu fui pressionado para demiti-lo, mas eu o segurei. Pois eu via nos treinamentos a qualidade do trabalho dele: um treinador que tem paciência com os atletas, compreensão das complexidades do jogo. E optei pela manutenção, pela formação. Consequentemente, o time dele passou a ganhar com o tempo.


Diogo Giacomini, treinador do sub-17 do Atlético-MG
 

 

Universidade do Futebol O que você acha do jogador de futebol brasileiro atual em termos técnicos e de inteligência de jogo?

André Figueiredo – A gente capta nossos jogadores a cada dia mais em uma sociedade mais baixa, prioritariamente das classes D e E. Estes atletas não têm estudo, alimentação adequada, e temos de buscá-lo o mais cedo possível para oferecer a ele tudo isso e recuperar alguns déficits de infância.

Temos muitos jogadores com qualidade técnica e inteligência de jogo, e há alguns pontos que a gente consegue detectar.

No meu entender, com a situação econômica do país, temos de nos voltar a classes mais baixas, que cada vez têm menos estudos e possibilidades. Vamos colher frutos ruins mais à frente se não melhorarmos isso.

Quanto mais cedo achar o atleta e oferecer treinamento adequado, melhores serão os resultados.

Mas nem sempre é possível buscar os atletas tão jovens, ou cai naquele problema da saturação deles aos 13, 14 anos.

A criança tem de receber treinamento lúdico, nada para competição. Se ela for trabalhada da maneira certa, do modo certo, respeitando as suas necessidades, o fruto pode ser positivo.

Mas o processo deve ser consertado, já que há aquela relação de desapego da família, as questões do Ministério Público do trabalho, etc.

O que estamos pensando em implementar aqui no Atlético é um ginásio anexo ao CT da base para desenvolver no jogar de nossas equipes aspectos do futsal.

Acredito que esta seja uma excelente escola para o menino adquirir senso de marcação, tática do jogo, habilidade.

Não é algo barato e simples, mas o projeto está no papel, com o intuito de captar mais precocemente os atletas.

Confira estudo sobre os CTs dos principais clubes do Brasil

 

Universidade do Futebol Qual é a importância de o treinador brasileiro receber uma formação especializada para exercer as suas funções no futebol?

André Figueiredo – É fundamental esta capacitação para que ele possa trabalhar com as mais diversas idades e categorias.

Lógico que há alguns autodidatas, mas a formação deste profissional que trabalha com base, especialmente, é muito importante.

Somos, além de fábrica de jogadores, fábrica de sonhos. E para mexer com o sonho de crianças e de pessoas você deve ter cuidado e ser qualificado.

Para o gerente técnico da base do Atlético Mineiro, é fundamental a capacitação para que os profissionais da base possa trabalhar com as mais diversas idades e categorias

 

Universidade do Futebol Fale um pouco sobre o I Seminário Nacional de Categoria de Base realizado na CBF, do qual você participou.

André Figueiredo – Fui eleito um dos membros da comissão para continuar com aqueles encontros, ao lado do Roger, do Cruzeiro, do René Simões, do São Paulo, do Carlos Brasil, do Flamengo, e do Marcos Biasotto, do Grêmio.

Estamos nos reunindo e mantendo contato constante, a fim de colocar as nossas categorias de base em um rumo certo, para sermos respeitados dentro dos clubes e por todos que estão presentes neste meio.

Nós tivemos um avanço fabuloso, e todos os dirigentes que foram devem ser parabenizados.

Já vimos uma diminuição muito grande daquele assédio de um clube sobre jovens dos outros, e isso é reflexo de um compromisso assumido naquela reunião.

Formar dos seis aos 16 anos e depois perder o atleta na assinatura do primeiro contrato profissional era algo inconcebível na minha avaliação, por exemplo.

Mas estamos mantendo contato. Uma nova reunião está prevista para o dia 17, e acredito que conseguiremos mais passos à frente.

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