Universidade do Futebol

Entrevistas

11/05/2018

André Jardine – auxiliar-técnico do São Paulo

“Ele representa um projeto. Faz parte da minha ideia de ter uma comissão permanente e uma política de carreira para quem tem competência e talento”.

No início de março, quando anunciou a promoção de André Jardine à comissão técnica fixa do time profissional, Raí fez mais do que corroborar um discurso que já ganhava corpo entre torcedores do São Paulo. Naquele momento, o ídolo e diretor-executivo de futebol da equipe tricolor dava uma chancela sobre o trabalho do treinador gaúcho de 37 anos, egresso do sub-20 e responsável por uma lista considerável de trabalhos vencedores na base dos paulistas.

Natural de Porto Alegre (RS), Jardine foge do perfil boleiro. Jogou futebol, futsal e vôlei até os 17 anos, mas depois enveredou para o mundo acadêmico. Chegou a cursar dois anos de engenharia civil até receber um convite para se tornar sócio em uma escolinha de futsal. Migrou então para um curso de educação física.

Jardine passou por praticamente todas as equipes de base do Internacional, do sub-10 ao sub-20, entre 2004 e 2014. Migrou então para o Grêmio, time em que acumulou trabalhos no sub-17 e no sub-20. De lá, transferiu-se para o sub-20 do São Paulo, que rendeu um lugar como auxiliar na recém-formada comissão técnica fixa de futebol tricolor.

Neste bate-papo com a Universidade do Futebol, o treinador falou um pouco mais sobre as referências teóricas de seu trabalho, os modelos de jogo que aprecia mais e como estrutura seus treinos.

 

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Universidade do Futebol – De acordo com sua visão de mundo, o que é o jogo de futebol?

André Jardine – O jogo de futebol é acima de tudo um entretenimento. Talvez seja o preferido hoje de uma maioria da população e aquele que ganhou uma relevância maior, que desperta maior interesse e mexe um pouquinho com a paixão. Por isso, acabou se tornando muito sério e profissional e evolvendo muito dinheiro e interesse, mas na raiz eu vejo como entretenimento para a população. Apesar de ser nosso meio de sobrevivência, é uma forma de espetáculo para alegrar os outros e proporcionar prazer ao público.

Universidade do Futebol – Você se inspira em outros profissionais da sua área? Quais?

André Jardine – Como primeira grande inspiração eu citaria a seleção espanhola de futsal, que foi campeã em cima do Brasil e naquele momento mostrou um jogo que estava muito à frente de seu tempo. Aquele foi o primeiro momento em que me vi encantado, já trabalhando como professor e treinador, pela maneira como a equipe se comunicava em quadra. Era um jogo ofensivo, envolvente, criativo e que estava taticamente muito acima dos outros. Foi talvez a equipe que eu mais tenha estudado, e eu evoluí como profissional porque ela me fez refinar o gosto pelo esporte. Graças a ela eu acreditei que era possível ser ofensivo falando de altíssimo nível.

Depois foi o Barcelona, que me marcou bastante pelo futebol que desenvolvia. A equipe do Guardiola era algo que eu fazia questão de ver sempre, e quando não podia assistir aos jogos eu botava para gravar. Posteriormente, a seleção espanhola que acabou sendo campeã europeia e do mundo também me chamou bastante atenção. Estudei muito esse time.

O Bayern de Munique, também do Guardiola, de uma maneira diferente, com um jogo mais agressivo e mais direto, foi outro que me impressionou. Então, considero também como uma equipe que influenciou minha maneira atual de trabalhar.

Há os times mais antigos, também, como a seleção brasileira de 1982, a Holanda de 1974 e o São Paulo do Telê Santana, mas eu não tinha um discernimento tão grande do jogo. É exatamente por isso que eu não cito com tanta ênfase outras equipes que me marcaram. Não são exemplos que me influenciaram tanto quanto os outros que eu citei porque eu ainda tinha uma maturidade menor para olhar para o jogo.

Universidade do Futebol – Quais são as bases teóricas do seu trabalho?

André Jardine – Eu me considero um pouco autodidata. No futsal eu tive que aprender um pouco sozinho a dar treino, num primeiro momento em escolinhas e depois já em equipes de competição. E tive através do futsal a oportunidade de desenvolver meu método de trabalho, os meus treinos, a minha metodologia. Obviamente que inspirados em alguns cursos que eu fiz e em alguns treinadores de futsal. Eu poderia citar aqui dois que influenciaram bastante: PC, treinador campeão mundial com o Brasil, e o Morruga, que também é treinador e foi meu professor na universidade. São dois profissionais que eu respeito muito e aprendi muito com eles. Influenciaram bastante a maneira de enxergar o treinamento e a maneira de conduzir o grupo aos objetivos que eu traço.

Algumas leituras foram importantes, mas praticamente as mesmas que todos fazem. Então, fui um profissional que buscou estar sempre atualizado, que sempre procurou os conteúdos mais mencionados na área. Fui atrás de muita literatura também sobre liderança, e acho que isso melhorou bastante minha maneira de conduzir os grupos. Mas falando de metodologia mesmo, eu me considero um autodidata, uma pessoa que foi através da tentativa e erro buscando desenvolver uma maneira de chegar aos objetivos dos treinos. Então, eu não conseguiria mesmo elencar uma referência teórica como base porque nesse caso acho que a prática que acabou me ensinando mais, sem dúvida nenhuma. Obviamente que a faculdade e todas as cadeiras referentes aos assuntos ajudaram, mas eu acho que o trabalho no futsal foi realmente para mim decisivo para desenvolver uma ideia de trabalho, uma metodologia. Fazer uma equipe jogar futsal é um desafio sempre muito grande e acho que foi realmente uma faculdade para mim o período todo que fiquei no futsal.

Universidade do Futebol – Existe no clube em que você trabalha um documento que sirva como orientador metodológico?

André Jardine – Sim, ainda que eu não saiba se ele está extremamente atualizado com o que a gente tem feito aqui. Quando eu cheguei já existia algo previamente feito, havia dois anos e meio, e depois uma mudança foi estabelecida em muitas coisas dentro do clube, inclusive na metodologia de trabalho. Posso falar a partir daí porque acompanhei essa linha e vi uma ideia que a maioria dos profissionais tem conseguido seguir – nem todos, é verdade, porque acho que demanda tempo e capacidade também. Hoje vejo o São Paulo como exemplo porque a gente já consegue perceber um padrão e uma ideia por trás de todas as equipes, e a gente tem tentado evoluir ainda mais nisso.

O São Paulo escolheu esse método e esse modelo de jogo em que entra em 99% dos jogos como o time que agride, que joga no campo do adversário e que tem marcação pressão como referência. É um estilo de posse de bola, de abertura de espaços e de jogo posicional como modelo para o controle, com transições e retomadas rápidas. É um time que tende a ser muito propositivo.

André Jardine, ex-técnico do São Paulo FC sub-20, durante treino no CT Laudo Natel, em Cotia (SP). | Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press

Universidade do Futebol – Você tem um modelo de jogo favorito ou um exemplo com o qual você se identifica mais? É o mesmo que você aplica?

André Jardine – O modelo com o qual mais me identifico é esse do São Paulo, mesmo. Hoje me vejo no lugar certo para trabalhar porque acredito demais nessa ideia propositiva em que jogar com a bola passa a ser prioridade. Temos uma média de 60% ou 70% de posse na maioria das partidas, e eu gosto de trabalhar dessa maneira. Fico satisfeito por estar em um clube que acredita nessa filosofia.

Universidade do Futebol – Em linhas gerais, como você estrutura seu treino?

André Jardine – Essa resposta poderia ser bem complexa, mas de uma maneira resumida eu inicio o treino sempre com um aquecimento, que nem sempre é com bola – o preparador físico muitas vezes desenvolve um exercício ou algum circuito para trabalhar valências que ele julga pertinentes para o momento. Em outras vezes a gente consegue trabalhar com o que eu chamo de jogos conceituais, que têm aplicado o nosso modelo de jogo mas não servem para trabalhar a estrutura da equipe. Em vez disso, pensamos em conceitos e comportamentos que vamos cobrar normalmente na parte seguinte.

Mesmo quando o aquecimento tem um caráter mais físico, entra um jogo conceitual para esquentar os comportamentos e trabalhar de maneira reduzida para correções serem feitas com mais facilidade. A segunda e a terceira parte do treino são transferências desses comportamentos aplicados à estrutura tática que a gente vai executar no jogo, com tudo junto (ataque, defesa e transição) e ligado, mas com ênfases diferentes a cada treino.

Normalmente, alguns treinos ainda têm partes complementares com caráter mais técnico, mais voltado para execução dentro da ideia de jogo, trabalhando acabamentos e ações individuais.

Universidade do Futebol – Que conteúdos você oferece aos jogadores com quem trabalha?

André Jardine – Eu trabalho muito com conceitos, e dentro dos treinamentos sempre pensei assim: muito mais importante do que entender a regra é realmente o conceito que está sendo pedido e executado. Então, os conteúdos são justamente esses pequenos conceitos de jogo que vão dando um contorno para a equipe, vão dando uma margem em que a criatividade deles flui e a individualidade corre, mas é importante que isso exista porque é o que vai dar um caráter coletivo e aumentar a produção da equipe. Então, os princípios de jogo e os subprincípios como a periodização tática a gente também identifica assim, e os nomes não são tão importantes – são princípios e são conceitos.

Universidade do Futebol – Na sua opinião, quais são suas responsabilidades como professor/treinador?

André Jardine – A responsabilidade na formação, não só do atleta mas da pessoa, do homem que vai ser no futuro, do caráter, da disciplina, dos limites. Tudo isso, principalmente na base, eu acho fundamental a gente entender que é responsável e extrair todo o potencial dos atletas ou corrigir suas deficiências. É fundamental os meninos terem excelentes treinadores em sua formação, assim como professores e orientadores, para que eles possam atingir todo o potencial que têm.

Universidade do Futebol – Qual é o perfil do atleta que você almeja formar?

André Jardine – Nós aqui do São Paulo tentamos formar um atleta de nível de excelência ou mais perto disso em todos os quesitos: tecnicamente, com um repertório grande; cognitivamente, com alta capacidade de solucionar problemas no jogo; fisicamente, com força e potência suficientes para o alto nível; emocionalmente, jogadores fortes de cabeça, capazes de suportar a pressão e tudo que o futebol exige; e até de uma maneira espiritual: ter paz de espírito, tranquilidade para desenvolver e acima de tudo aprender a trabalhar em equipe. Acho que tudo isso, quando a gente consegue em um mesmo jogador, compõe um profissional de excelência, o que é muito difícil. Geralmente eles têm dificuldade em uma ou mais áreas dessas, o que dificulta para o jogador ascender.

Universidade do Futebol – Quais são as maiores dificuldades no exercício do seu trabalho?

André Jardine – No sub-20, a ansiedade que a maioria dos meninos tem é o grande desafio porque eles sabem que estão no último degrau de categoria de base, que precisam evoluir e precisam de espaço suficiente para chegar ao profissional. Isso gera uma expectativa muito grande, e a gente trabalha com todos. Ao mesmo tempo, é preciso formar uma equipe e entrosar os garotos para ter bom rendimento nos torneios. A gestão do grupo como um todo é um desafio muito importante hoje em dia por causa dessa ansiedade e da pressão de empresários / agentes / pais.

Universidade do Futebol – Por falar nessas pessoas que orbitam em torno do jogador, quais são os pontos positivos e negativos oferecidos pela influência de agentes externos no processo de formação?

André Jardine – Minha experiência diz que na maioria das vezes os pontos são negativos. A influência dos pais, principalmente dos menores, acaba gerando pressão muito grande e expectativa desproporcional. Alguns meninos até desistem do esporte por causa disso, do medo de frustrar os pais. Acho que entre os empresários há os que ajudam, mas uma parte atrapalha por não orientar a cabeça dos meninos de maneira correta, infelizmente. Mas a gente não pode generalizar: existem pais que fazem bem ao processo e empresários que sabem orientar os meninos. Eu tento conversar com os jogadores e orientá-los. Mostro que eles têm de escutar muito e também ter capacidade de filtrar.

Universidade do Futebol – No âmbito da capacitação profissional, você está satisfeito com o que já conseguiu?

André Jardine – Tenho muita tranquilidade sobre minha carreira e estou muito feliz no São Paulo, que é um grande clube. Tenho procurado me aprimorar cada vez mais, evoluir e amadurecer. Acho que os próximos passos a gente tem de deixar que aconteçam de forma natural e que a nossa preocupação tem de ser evoluir em todos os dias e estar cada vez mais preparado.

Universidade do Futebol – Quais são seus sonhos?

André Jardine – Conseguir implantar numa equipe profissional, em algum momento, tudo que eu acredito no futebol. Ver um time jogando em altíssimo nível, ofensivo, e não o que 95% das equipes brasileiras fazem, que é um jogo de defesa e contra-ataque. Tento ir por outro caminho e fazer com que a equipe tenha competência de jogar com a bola no pé e furar times que se defendam com muita gente. Acho que a gente já conseguiu ter sucesso na base com esse tipo de estratégia, e meu maior sonho é levar isso ao profissional. Além disso, trabalhar com os atletas que eu ajudei a formar, que já passaram por mim, e oferecer espaço para que eles tenham sucesso também no time de cima.

Comentários

  1. gosto desta filosofia um trabalho diferente e ofensivo parabens …..

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