Universidade do Futebol

Entrevistas

17/03/2006

André Ribeiro e Vladir Lemos

A camisa dez já ganhou diversas homenagens dos amantes do futebol. Em todo o mundo ela se tornou símbolo de competência, sinônimo de genialidade e retrato da arte. O número 10 em qualquer equipe só é concedido ao jogador acima da média, ou seja, aos poucos privilegiados que conseguem misturar técnica, fina habilidade, visão de jogo e liderança.

 

A homenagem que faltava a essa peça tradicional do vestuário e ao seleto grupo de gênios que a envergou foi realizada, finalmente, pela dupla de autores, André Ribeiro e Vladir Lemos. Juntos, os jornalistas publicaram o livro A Magia da Camisa 10.

 

A obra, uma idéia inédita no Brasil, retrata os ídolos mundiais que criaram, e aumentaram, a mística da camisa. Em entrevista exclusiva à Cidade do Futebol, André Ribeiro, produtor jornalístico, escritor e chefe do departamento de pauta da TV Cultura, e Vladir Lemos, repórter e apresentador do Cartão Verde, da mesma emissora, contam mais sobre o recém-lançado livro.

 

A dupla revela como surgiu a idéia de prestar essa homenagem, quem são os principais jogadores que utilizaram a camisa 10 e como surgiu a mística em torno dela. Vale lembrar que a obra foi lançada durante a Bienal do Livro de São Paulo, que começou no último dia 8 e vai até o dia 19 de março.

 

Cidade do Futebol – Como surgiu a idéia de escrever um livro apenas sobre jogadores que vestiram a camisa 10?
André Ribeiro – Na verdade, a editora Verus já havia tentado comprar uma obra francesa com este tema. Mas como não conseguiu obter os direitos de publicação do livro por aqui, ela me procurou para saber a minha opinião sobre a possibilidade de escrever algo com esta proposta. Comprei a idéia no ato, porém com a condição de fazer um livro diferente do francês, que na verdade era um livro de arte, com muita foto e resumos biográficos muito ruins. Nosso livro teria de ser uma história com começo, meio e fim. Decidimos usar o número 10 como referência para tudo: número de capítulos e quantidade de personagens em cada capítulo, nunca mais que dez.  

 

Cidade do Futebol – Como é o desenvolvimento da obra?

André Ribeiro – Começamos com um texto de abertura que explica o fascínio e a magia que essa camisa causa no mundo inteiro e interligamos com o texto de encerramento. No primeiro capítulo, mostramos como e com quem começou a magia: Pelé, em 1958. Na seqüência, abordamos os pioneiros, jogadores que passaram a ser tratados com reverência após o surgimento da mística da 10. Muitos deles não usavam números nas camisas, já que isso passou acontecer somente a partir da Copa de 1950. São lembrados, por exemplo, Mathias Sindelar, Leônidas da Silva, Andrade, da seleção uruguaia, Puskas, Di Stéfano, Giuseppe Meazza, Kopa, Fritz Walter e Didi.

 

Vladir Lemos – Depois falamos dos herdeiros dessa magia, divididos por décadas, a partir de 1960 até chegarmos ao século 21. Procuramos jogadores com trajetórias marcantes em Copas do Mundo. Fomos buscar a infância de cada personagem, as curiosidades que os fizeram famosos e representativos na história do futebol mundial. Apresentamos suas virtudes, tragédias pessoais, familiares, consagração, glamour e, às vezes, o fracasso devido ao peso da camisa 10.

 

Cidade do Futebol – Quem são os atletas lembrados no livro?

Valdir Lemos – A obra vai de Andrade, da Seleção do Uruguai, na Copa de 30; passa por Puskas e Di Stéfano, na década de 50; Eusébio, Bob Charlton e Gianni Rivera, anos 60. Na década de 70, falamos de Cruyff, Rivellino e Zico. Na de 80, Gullit, Francescoli, Platini e Maradona. Em 90, Zidane, Baggio, Matthaus e Fig. Abrimos um capítulo, o sétimo, batizado de “Donos do Mundo”, contendo estrangeiros que fizeram sucesso longe de suas terras de origem, como Weah, Stoichkov, Tevez, Pedro Rocha, Riquelme, Bergkamp e Laudrup. No oitavo capítulo, destaque para “Brasileiros 10 Jogadores”, como Pelé, Ademir da Guia, Dida, Zizinho, Tostão, Jairzinho, Gérson, Neto, Alex e Raí. No capítulo 9, batizado de “10 que não eram 10” são destacados Garrincha, Beckenbauer, Romário, Roberto Dinamite, Careca, Schevchenko, Adriano, Kaká, Beckham e Ronaldo. Todos jogadores que poderiam ter sido consagrados com a camisa 10. No capítulo final, o décimo, projetamos a magia em Robinho, Ronaldinho Gaúcho e no astro argentino, Messi.  

 

Cidade do Futebol – Qual foi o melhor camisa 10 de todos os tempos, o que mais representou o espírito e a magia no Brasil e no mundo?
André
Ribeiro – Considerando que Pelé está fora de qualquer escolha, Zico seria o brasileiro e Platini, o europeu.

Valdir Lemos –   Sem contar Pelé, gosto da originalidade do Maradona. Acho que sua figura é especial, sua obra também. Ainda citaria Zico.

 

Cidade do Futebol – Quando surgiu a mística da camisa 10?
André
Ribeiro – Com Pelé, na Copa de 58, e o que é mais interessante: por acaso. O Brasil não enviou a numeração dos atletas para a disputa do Mundial na Suécia. Acabaram sorteados por acaso, por um representante da Fifa. Daí a magia, pois Pelé acabou com a 10.

Valdir Lemos – As pessoas podem se perguntar como é que no Santos ele também vestiu a 10. Isso foi por acaso e o livro retrata essa história que ajudou a reforçar a mística.

 

Cidade do Futebol – E como anda a magia da dez nos dias de hoje?
Andre
Ribeiro –  Atualmente a camisa 10 perdeu bastante o significado devido ao poder do marketing. Kaká é um bom exemplo. Mas o mesmo europeu que não liga muito para isso, escolheu a 10 no caso do Real Madrid com Robinho. De Pelé, em 1958, até Maradona, na década de 90, a camisa 10 tinha significado especial. Depois virou bagunça. Bom exemplo da magia é Silas, camisa 10 na seleção brasileira de 1990, que acabou na reserva.  

 

Cidade do FutebolO que vocês acham da idéia da aposentadoria das camisas 10 do Santos e da seleção argentina, em homenagem a Pelé e Maradona?
Valdir Lemos –
Alguns clubes fizeram isso, a de Puskas foi aposentada. Mas tenho dúvidas de que essa seja a melhor homenagem. Se virasse moda, o que seria da 10?

 

Cidade do Futebol – Hoje o camisa 10 da equipe, muitas vezes não é mais o armador e sim o craque, o artilheiro, casos de Tevez, Del Piero e Adriano. Qual a importância da 10 atualmente?

Valdir Lemos – Quanto ao estilo de jogo, basta reparar que os privilegiados para usar a camisa 10, são sempre mais talentosos, habilidosos, com talento também para a liderança. Isso funciona em quase todo o planeta. Um bom exemplo é o 10 da seleção do Japão, Nakata.  

 

Cidade do Futebol – Quais são os grandes 10 do momento?
André Ribeiro
 O melhor atualmente é Ronaldinho. Depois Robinho, Adriano, Zidane e Owen.  

 

Cidade do Futebol – Qual dos jogadores citados melhor personifica o camisa 10?

Valdir Lemos – Ronaldinho é o mais plástico, é o que melhor representa a mística dessa camisa com sua habilidade

 

Cidade do Futebol – Que 10 deve brilhar na Copa?

André Ribeiro – Totti, Luis Garcia, Van der Vaart e Deco.   

Valdir Lemos – Se o treinador argentino José Pekerman deixar, Messi com certeza será um deles.

 

Cidade do Futebol – Que país foi mais pródigo em produzir os famosos 10?
André
Ribeiro – Brasil, Argentina e Itália .

Valdir Lemos – Brasil, vale lembrar que a nossa seleção de 1970, 

teve cinco jogadores que foram 10 em seus clubes.

 

Cidade do Futebol – Há alguns anos, todas as marcas de camisa no Brasil só ofereciam nas lojas a camisa 10 de todos os times. Depois as ofertas de outros números mudaram com a valorização de craques de outras posições, zagueiros, goleiros e volantes.  Este fato é sinal da decadência do camisa 10?
André
Ribeiro –  Não de decadência, mas fruto do marketing pesado em cima dos goleadores, que são, geralmente, donos da camisa 9. A maior prova disso são as campanhas da Nike, que apostam em diversos jogadores, entre camisas 7,9 e 10, entre outros.

 

17/03/2006

 

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