Universidade do Futebol

Entrevistas

01/03/2014

Anton Janssen, treinador do NEC, da Holanda

Como jogador, Anton Janssen jogou mais de 500 partidas oficiais entre 1982 e 2001. Agora, aos 49 anos, ele retorna ao futebol profissional, como treinador do NEC, da Holanda. "Eu estou sempre atento e pensando nos interesses da equipe, sempre olhando para o indivíduo”.

O clímax de sua carreira foi no dia 25 de maio, em 1988, quando ele teve um papel importante na história do futebol holandês. No estádio Neckarstadion, em Stuttgart (Alemanha), a equipe do PSV Eindhoven jogou contra o Benfica pela final da Taça dos Campeões da Europa. Após o tempo normal e a prorrogação, o placar ainda estava inalterado, e a disputa de pênaltis era iminente. Nas cobranças, ambas as equipes conseguiram marcar suas cinco primeiras penalidades. Janssen foi o sexto jogador a bater pelo PSV e fez o gol. Na sequência, o goleiro do PSV, Hans van Breukelen, defendeu o pênalti de Veloso, e os holandeses faturaram o troféu, coroando uma temporada lendária.

Naquela ocasião, o time de Eindhoven venceu também a Copa da Holanda e a Liga. Janssen relembra o momento com carinho, mas cita outro: levar o NEC, sua “nova velha casa”, à primeira divisão holandesa, a “Eredivisie”.

Jansen parou de jogar pela equipe de Nijmegen aos 38 anos. “Machuquei meu tornozelo e o processo de recuperação dessa e de outras lesões foi ficando cada vez mais problemático. Eu ainda podia jogar, mas eu não poderia fazer a diferença”, relembra.

Como jogador, Janssen sempre se preocupou além de suas próprias responsabilidades. “Falei com meus colegas (jogadores) e com os treinadores sobre o que deveria fazer. Disseram-me que eu poderia ser treinador, embora eu nunca tivesse me visto como um treinador.”

A chance para começar a atuar nesta função surgiu quando o ex-jogador de meio-campo começou um curso de formação de treinadores da KNVB, a Federação de Futebol da Holanda. Ele parecia ter um talento natural. "Percebi que eu realmente gostava de ser treinador e percebi que eu gostaria de me especializar nisso”, admite.

Quando parou de jogar futebol, Janssen estava conciliando as funções de jogador e treinador das categorias de base do NEC. "Comecei com o sub-13, e percebi que tinha muito a aprender”.

Nesta entrevista à Soccer Coaching International, parceira da Universidade do Futebol, Janssen fala sobre a sua filosofia de trabalho, o que pensa sobre o jogo e a experiência de ter atuado no FC Oss, outro clube de sua terra natal.

 


Universidade do Futebol – Qual é a sua relação com o NEC e como foram os seus primeiros passos como treinador?

Anton Janssen – Eu via o NEC como um clube sobre o qual pensava a respeito das maneiras que você pode melhorar os jogadores. E a diretoria concluiu que se tratava de um processo muito complexo. Eles estavam fazendo pesquisas em diversas áreas e um grupo de treinadores discutia a respeito o tempo todo.

O clube buscava, e ainda busca, trabalhar um caminho perfeito para desenvolver e melhorar os jogadores. Antes, eu nunca havia pensado em fazer essa transição dos campos para a área técnica, mas após a experiência em diferentes faixas etárias e passando pelo curso de formação de treinadores, em 2006, acabei tendo uma experiência interessante no sub-21 do PSV Eindhoven.

No complexo do PSV, eu trabalhei com um grupo de jogadores que incluía Donny Gorter, Dirk Marcellis (ambos jogadores AZ Alkmaar atualmente) e Rens van Eijden (jogador do NEC). Em minha quarta e última temporada, o time ganhou o título de campeão sub-21 da primeira divisão.

Foi um ambiente em que a aprendizagem estava em toda parte, mas achei que quatro anos era tempo suficiente para treinar um elenco dessa faixa etária.

Em 2010, o meu contrato expirou, e apesar de negociarmos, não chegamos a um acordo. Decidi fazer o curso da KNVB: completei os estágios iniciais no NEC com o treinador Wiljan Vloet, e mais tarde como assistente de Alex Pastoor. E durante o curso, realmente entendi que era lógico eu assumir em breve a função de treinador principal.

Além de ser assistente no NEC, também fui o principal responsável pela equipe Gemert, que jogou em seu mais alto nível no futebol amador da Holanda. Tivemos uma grande temporada de 2010, em que ganhamos o título da liga e o da Copa da Holanda.
 


Jogador com larga participação no futebol holandês, Janssen teve a vontade de se tornar treinador despertada
 

 

Universidade do Futebol – O quão diferente foi treinar uma equipe amadora?

Anton Janssen – Em geral, eu vi muitas semelhanças. Você cria as condições ideais para desenvolver as questões de perspectiva e desempenho. Como treinador, você tem que ser capaz de aceitar as diferenças entre profissionais e amadores, em que amadores nem sempre são capazes de treinar por causa do trabalho ou compromissos escolares. É necessário ser mais flexível sobre estes aspectos, mas uma vez lá, as condições de futebol devem ser as mesmas de uma equipe profissional.

No início de 2012, surgiu uma proposta do FC Oss, que terminou o campeonato da temporada passada no 14º lugar. E aceitei o desafio, algo inerente à tarefa do treinador – e algo que me atrai.
 


"Como treinador, você tem que ser capaz de aceitar as diferenças entre profissionais e amadores"

 

Universidade do Futebol – E como foi seu trabalho no FC Oss?

Anton Janssen – Há três anos, o FC Oss foi rebaixado da primeira divisão, mas eles voltaram um ano depois. Acho que foi uma grande performance, e de lá só queríamos progredir ainda mais com o clube. Eu tinha de lidar com um orçamento pequeno, trabalhando principalmente com jogadores semi-profissionais.

Treinávamos uma vez por dia, porque os atletas tinham de trabalhar ou estudar. Era uma boa combinação, já que os jogadores também desenvolviam as suas habilidades sociais à medida que cresciam. É importante que o atleta se desenvolva no âmbito pessoal também, já que nem todos irão se tornar profissionais.

Treinávamos no nosso estádio ao longo da temporada, e tínhamos a sorte de ter a equipe do NEC. como nossa parceira, o que foi uma plataforma para o progresso do FC Oss, diante de nossas limitações orçamentarias e de recursos.

Claro que não podíamos copiar tudo o que o NEC fazia, mas pudemos ver nossas reais possibilidades, o que estava ao nosso alcance, etc.

Hoje, o FC Oss conta com sistemas de análise de rendimento dos jogadores e uma equipe de psicologia do esporte auxiliando a comissão técnica. Sem dúvida alguma, tivemos um progresso rumo à profissionalização do clube nos últimos anos.
 


  FC Oss conta hoje com sistemas de análise de rendimento dos jogadores e uma equipe de psicologia do esporte auxiliando a comissão técnica

 

Universidade do Futebol – Quais são as suas principais referências na gestão técnica de campo?

Anton Janssen – Enquanto jogador, aprendi muito com Guus Hiddink. O jeito como ele trabalha com seus jogadores e comissão técnica e fantástico. Sempre esteve à frente do seu tempo por ser um verdadeiro “gerente de pessoas”, como se mostrou em 1988.

Quando eu treinava a equipe sub-21 do PSV, conheci Fred Rutten e seu assistente, Erik ten Hag. Aprendi com eles muitas coisas. Algumas que repeti, e outras que tomei como lição e não reproduzi com meus jogadores. Naquele período, aprendi que havia maneiras diferentes de ter sucesso. Não há só uma maneira que funciona bem. Você não tem de ser um Louis Van Gaal ou um Guus Hiddink: todo treinador tem sua própria maneira de fazer as coisas, sempre buscando o sucesso.
 



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Universidade do Futebol – Como é a sua relação com os atletas, de maneira geral?

Anton Janssen – Eu sempre dou boas vindas às ideias de meus jogadores. Gosto que eles participem no processo de elaboração. Isso é o que eu quero ver: atletas proativos ao invés de apenas pessoas que reagem a um estímulo, a uma instrução ou a uma direção.

Você sempre tem alguns jogadores que estão pensando mais sobre o jogo do que os outros, e dou a eles, então, essa oportunidade. Existem alguns jogadores que só querem fazer o que fazem melhor e nada mais, e você tem de tratar cada um de um jeito.

Os jogadores precisam sentir que há confiança nas suas qualidades técnicas e que elas são apreciadas, mas também precisam sentir isso como pessoa. Assim, eles irão bem, com um sentimento de terem realizado algo, individualmente e coletivamente.

Quero formar uma equipe que dê liberdade ao indivíduo, o que É melhor para a sua criatividade. Estou estimulando jogadores a estarem alertas e resolverem problemas da partida por conta própria. Nisso se baseia meu trabalho.


"Você não tem de ser um Louis Van Gaal ou um Guus Hiddink: todo treinador tem sua própria maneira de fazer as coisas, sempre buscando o sucesso"

 

Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre a periodização dos seus treinamentos.

Anton Janssen – Não sigo sempre a mesma rotina semanal de treinamentos. Treinos de potência, por exemplo, não precisam ser feitos todas as segundas-feiras. Eles podem ser aplicados no dia seguinte, às vezes.

Estou melhorando o progresso do grupo diariamente, em treinamentos e jogos, mas sempre penso no que é melhor para o time como um todo, e isso acaba sendo bom para o individual.

A base de uma bem sucedida ética de equipe é a democracia em forma de aceitação por parte dos jogadores. E uma das qualidades de um treinador é deixar os jogadores, reciprocamente, reconhecerem quais são as qualidades uns dos outros e se aceitarem, se entenderem, apesar de suas diferenças. Trabalhar suas qualidades e aceitar as qualidades de outros é a base de fundação de uma equipe de sucesso.
 

 

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Universidade do Futebol – E como definir o papel de cada indivíduo neste processo?

Anton Janssen – Às vezes é difícil para um treinador manter seus jogadores satisfeitos. Eu trabalho com 20 jogadores de campo e três goleiros, e meu objetivo é mostrar a todos eles qual papel eles possuem no desenvolvimento do clube e da equipe.

Nós estamos tentando ajudar cada jogador em seu próprio desenvolvimento. Infelizmente, isso é difícil acontecer o tempo todo. Durante as sessões de treinamento, estamos ocupados com os jogadores que estão no time titular para o próximo jogo. Daremos ênfase a estes jogadores, eles serão os que estão treinando naquele treino em particular. Os outros talvez recebam uma observação menos apreciada.

Outra desvantagem é que nem todos os jogadores que não jogam a partida de sexta-feira são capazes de jogar uma partida com a equipe sub-21 do NEC ou do FC Oss na segunda-feira. Aqueles que não entram em campo estão “recebendo menos futebol”, assim como tempo de desenvolvimento de prática.

Para atenuar esta realidade, delegamos tarefas específicas a membros da comissão técnica e filmamos os treinos de 11 contra 11, para podermos discutir com esses jogadores as suas deficiências.

 

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Universidade do Futebol – Seu time tem um Modelo de Jogo bem definido?

Anton Janssen – Teoricamente, o FC Oss jogava no 4-3-3, com a “ponta” do meio-campo voltada para trás, mas essa formação varia. Formações não são tudo para mim: importa mais que tipos de jogadores você tem e quais funções eles desempenham com qualidade.

Um jogador tem de se sentir confortável dentro de seu papel, de modo que, por exemplo, se eu tiver um ala esquerda que sempre cai pelo meio, necessito de um defensor capaz de cobri-lo.

Quando temos a bola, queremos jogar um jogo de bom posicionamento, com disciplina, além de entreter o torcedor. Atingimos essas metas criando mais oportunidades no meio-campo. Nosso atacante nem sempre tem sucesso, mas é possível que outro jogador por trás dele possa chegar ao momento da finalização.

Eu gosto de ver diversas trocas de posição dentro de um mesmo jogo. A partir dessas trocas, fazemos os nossos gols. O modo de jogo sempre privilegia as qualidades de nossos jogadores, e não forço um defensor a atacar se ele não quer.

Nossa experiência nos diz que não precisa ser desse jeito todas as vezes. Quando isso não funciona, é importante dar ao jogador bons pontos para melhorar. Afinal, no futebol profissional não são os três pontos que importam? Eu vejo tal declaração como fraqueza se um treinador diz isso após uma derrota. Há mais coisas num jogo do que vencer, como organização, mentalidade e a disciplina dos jogadores executando suas funções.

*Tradução: Thales Peterson

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