Universidade do Futebol

Entrevistas

16/10/2009

Antonio Bulgarelli, da marca Athleta

A chegada do português Cristiano Ronaldo e do brasileiro Kaká à equipe do Real Madrid, em 2009, mais uma vez deixou claro o quanto um time pode arrecadar com a venda de camisas dos seus atletas. Outro exemplo, que traz essa realidade para o Brasil, tomadas as devidas proporções, foi a vinda do atacante Ronaldo para o Corinthians.

No entanto, nem sempre, a produção e venda de camisas foi vista pelas agremiações e marcas que confeccionam materiais esportivos como uma importante fonte de receita. Há algumas décadas, nem ao menos existia uniforme de treino, o que, atualmente, é encarado como essencial para um time profissional. E foi uma empresa brasileira, a Athleta, a semente para a valorização da marca do clube por meio do seu uniforme.

“Em 1962, meu pai conversou com a diretoria corintiana e ofereceu algumas camisas brancas e pretas com a logomarca da Athleta para que os jogadores utilizassem nos treinos, o que foi prontamente aceito pelos dirigentes”, disse Antonio Bulgarelli. “Foi então que começou a comercialização de camisas de treino e de uniformes. A Athleta acabou por revolucionar o futebol brasileiro e mundial no que se refere a utilização de uniformes em treinos, pois, mesmo fora do Brasil, não se estava acostumado a isso”, completou o proprietário da Athleta, em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

A marca representada por Bulgarelli pode ser considerada parte da história do futebol brasileiro. Além de ter confeccionado os uniformes de times nacionais que ficaram marcados por títulos importantes como o Corinthians que venceu o Campeonato Paulista de 1977 e o Santos bicampeão mundial, a Athleta também foi responsável pela produção dos uniformes utilizados pela seleção brasileira nas suas três primeiras conquistas em Copas do Mundo.

Durante a entrevista o proprietário da Athleta falou sobre a história da marca, como ocorreu a sua inserção no mercado de esportes, como era encarada a confecção de uniformes há 40 anos, os projetos da marca, além de fazer um paralelo com o que se observa atualmente.

Universidade do Futebol – Conte como surgiu a marca Athleta? Como se deu a sua inserção no futebol? Até quando ela foi comercializada?

Antonio Bulgarelli – O meu avô, Antonio Pádua de Oliveira, era português da cidade de Olivais (próxima a Coimbra), e veio para o Brasil quando era jovem, com aproximadamente 20 anos de idade.

Depois de algum tempo no país, ele comprou parte da indústria que se chamava JJ do meu bisavô (pai da minha avó), que se chamava José Joaquim, o que justifica o nome da empresa, com as iniciais do seu nome. Anos depois, o meu bisavô quis voltar para Portugal e vendeu o resto da indústria para o meu avô.

Era uma empresa que produzia meias, mas que passou a confeccionar malhas, camisas e outros produtos do ramo de vestimentas. Meu avô registrou-a precisamente, em maio de 1935. A empresa localizava-se no bairro do Belenzinho, na cidade de São Paulo.

Naquela época, não se trabalhava muito com o esporte do ponto de vista das competições. Porém, alguns anos mais tarde, houve um direcionamento da Athleta para esse filão do mercado. Mesmo porque, meu avô possuía outras marcas como, por exemplo, a Marisa e a Santisa, que atendiam a diferentes segmentos do mercado.

Até o final da Segunda Guerra Mundial, por volta de 1945, no Brasil, praticavam-se esportes no geral e havia a confecção de roupas destinadas às modalidades, mas não era algo tão difundido como o que se observa atualmente. O meu avô também produzia camisas para futebol, tênis, e muitos outros esportes. No entanto, o principal lote era o de camisas esportivas, o que, atualmente, é chamado de linha fashion.

A partir da década de 1950, quando começamos um relacionamento junto à seleção brasileira de futebol, é que partimos para a linha esportiva de competição. Com o time do Brasil, a Athleta trabalhou até o final de 1977, antes da Copa da Argentina. Além disso, a marca também esteve presente em alguns clubes nacionais.

É interessante pontuar que no Mundial de 1978, havia 16 seleções, sendo que 15 delas possuíam uniformes fabricados pela Adidas e apenas uma era parceira de outra marca. O domínio da empresa alemã nesse torneio foi espantoso.

A Athleta teve destaque na confecção de uniformes para clubes de futebol até o final dos anos 1980, pois, apesar da relação com a seleção brasileira ter acabado antes da Copa do Mundo de 1978, a marca permaneceu trabalhando com as agremiações por cerca de 10 anos mais, aproximadamente.

A partir daí, surgiram outras marcas no mercado brasileiro, principalmente, vindas de outros países. Além da Adidas, que chegou ao Brasil em 1978 e teve como primeiro time o Palmeiras, veio também a Le Coq Sportif (francesa), e a Umbro (inglesa). Outras que surgiram na mesma época no mercado brasileiro, também na linha de esportes de competição, mas com um viés um pouco diferente da Athleta foram a Fred Perry (inglesa) e a Lacoste (francesa), ambas mais voltadas para o tênis. Um pouco mais tarde, veio Nike (norte-americana).

Nesse momento, ficou mais difícil para uma marca 100% brasileira sustentar-se frente às grandes empresas que chegavam do exterior para trabalhar com a linha ligada aos esportes. Após 1990, esse segmento sofreu uma mudança muito grande, pois houve a adoção de novas fibras, passando-se do algodão para materiais sintéticos. A partir daí, era mais vantajoso comprar o pano fora do Brasil e produzir a vestimenta aqui.

Outro ponto que foi relevante para a saída da Athleta desse ramo do mercado foi o enorme crescimento da quantidade de concorrentes. Aqui, é importante pontuar que o mercado possui um limite de compra de produtos, o que era disputado por muitas novas empresas e por aquelas que já existiam.

Sendo assim, por uma decisão mercadológica, decidimos focar na nossa linha ligada aos colégios e escolas para que a marca estivesse presente na vida dos brasileiros desde criança, e para que eles a identificassem logo nos primeiros anos de vida.


A Athleta confeccionou os uniformes da seleção brasileira nos três primeiros títulos mundiais, em 1958, 1962 e 1970

Universidade do Futebol – Atualmente, quem detém os direitos da marca Athleta? Contextualize as mudanças de liderança dentro da empresa.

Antonio Bulgarelli – Apesar de ser formado em Administração de Empresas pela PUC-SP e ser o dono da marca, a partir de agora, nessa volta da Athleta ao mercado, quem será o responsável pelos direcionamentos tomados é o Hayo Coehn, da TBC, que possui diversas outras marcas, entre as quais a Ecko Unlimited.

No entanto, até os dias de hoje, em que eu licenciei a marca para a TBC, a fábrica, curiosamente, sempre passou de sogro para genro, não de pai para filho, como acontece na maioria das empresas familiares.

O meu bisavô era dono da JJ, que foi vendida para o meu avô. Ele fundou a Athleta em 1935, como já comentei, e, quando ele morreu, a fábrica passou para o meu pai, Giuseppe Carlo Bulgarelli, que era genro dele. Atualmente, o dono da marca sou eu.

Universidade do Futebol – Além da seleção brasileira, com quais clubes a Athleta trabalhou?

Antonio Bulgarelli – A marca serviu quase todos os grandes clubes do país. Em São Paulo: Santos, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Portuguesa; no Rio de Janeiro: Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense; em Minas Gerais: Cruzeiro e Atlético-MG; no Rio Grande do Sul: Internacional e Grêmio. Além desses que são mais conhecidos pela população em geral, trabalhamos com outros clubes menos conhecidos, como Santa Cruz, Náutico, Sport, Remo, Vila Nova, Goiás, Ponte Preta, Guarani, entre outros.

É interessante pontuar que, até os anos 1980, não existia uma concorrência muito acirrada por se fazer a malharia dos clubes de futebol no Brasil. Antes, havia a disputa com algumas outras marcas brasileiras, mas era um processo mais saudável.

Mesmo porque, a relação das agremiações com a marca de confecção que produzia as suas vestimentas era feita somente por meio de permutas, isto é, não havia cotas em dinheiro nem do patrocinador para o clube e nem no sentido contrário. A marca aparecia no uniforme do time e, para que isso ocorresse, era preciso que a empresa garantisse uma determinada quantidade de jogos de roupas para cada atleta.

Algumas das empresas nacionais da linha de confecção esportiva que existiam naquele tempo eram a Cambuci (que, hoje, é a Penalty), a Hering (que, na época, criou uma linha chamada Hering Gol para diferenciar os seus produtos mais tradicionais dos que seriam destinados ao esporte de competição) e a Ceppo.

No entanto, quando começaram a surgir as marcas estrangeiras, a partir de 1978, ano em que a Adidas chegou ao Brasil, e começou a trabalhar já com um grande clube, o Palmeiras, os acordos com as agremiações passaram a ficar mais complicados para a confecção nacional, pois a marca alemã garantia condições muito melhores do que as que qualquer marca brasileira poderia propor.

Eu não sei dizer ao certo quais eram as novidades apresentadas pela Adidas, mas para a Athleta era difícil garantir um fornecimento muito maior de uniformes para os clubes, a fim de concorrer com a empresa alemã, pois trabalhávamos com cerca de 15 agremiações, o que inviabilizava, na época, o acréscimo de mais peças nos acordos com as equipes, uma vez que, o que fosse feito para um time seria exigido pelos demais.

Foi a partir desse momento que a Athleta começou a sair do negócio do futebol, porque, por ser uma empresa totalmente brasileira, na época, e mesmo hoje em dia, existe um limite até onde ela consegue chegar com os contratos junto aos clubes. Isso sempre favoreceu as grandes marcas do exterior que chegaram no Brasil há aproximadamente 30 anos e que se estabeleceram como as principais fabricantes de uniformes para os times de futebol no país.


A Athleta trabalhou com a seleção brasileira por cinco Copas do Mundo

Universidade do Futebol – Como a Athleta entrou no mercado de produção de uniformes de clubes?

Antonio Bulgarelli – Isso começou com o meu pai. Ele entrou no ramo da confecção no início da década de 1950, quando namorava com a minha mãe, Elsa Pádua Oliveira Bulgarelli. Junto com o meu tio, Plinio Figueiredo Cunha, começou da mesma maneira que, mais tarde, eu ingressaria nesse segmento: sendo vendedor, isto é, indo na praça para saber sobre os concorrentes e como funcionava o mercado.

Além disso, meu pai era conselheiro do Corinthians nos anos 1960, época em que o presidente era o Wadih Helu. Com isso ele possuía amizade com dirigentes de vários clubes, mas mais intensamente com os do time de Parque São Jorge.

Quando ele ia ao clube para assistir os treinos, observava que as camisas utilizadas pelos jogadores eram de uniformes antigos, sem padronização nenhuma, com muita improvisação.

Em 1962, meu pai conversou com a diretoria corintiana e ofereceu algumas camisas brancas e pretas com a logomarca da Athlteta para que os jogadores utilizassem nos treinos, o que foi prontamente aceito pelos dirigentes.

No dia seguinte, meu pai levou os uniformes para o treino e aquele momento virou um grande evento. Até mesmo os jornalistas que estavam no local ficaram maravilhados com aquilo.

A partir de então, outros clubes entraram em contato para que o mesmo acontecesse com eles. Foi quando começou a comercialização de camisas de treino e de uniformes. A Athleta acabou por revolucionar o futebol brasileiro e mundial no que se refere a utilização de uniformes em treinos, pois, mesmo fora do Brasil, não se estava acostumado a isso.

Mais ainda, chegou-se a ter placas da Athleta no estádio do Morumbi. Mas para “pagar” essa publicidade extra, o meu pai fornecia mais jogos de uniformes para o São Paulo.

Esse molde baseado na permuta era possível, pois, naquele tempo, os próprios clubes se administravam, não havia empresas especializadas envolvidas na gestão dessas agremiações como acontece atualmente. Além disso, pelo fato dos times não possuírem a projeção e a estrutura que têm hoje, com contratos de patrocínio que rendem muito dinheiro, as equipes pediam a quantidade de uniformes que realmente necessitavam. Os dirigentes eram bastante racionais nesse sentido.

Universidade do Futebol – A marca era comercializada no exterior? Já havia a perspectiva de internacionalização?

Antonio Bulgarelli – O comércio de produtos da Athleta fora do Brasil aconteceu, principalmente, após a associação que a marca teve com a seleção nacional e com o período vitorioso do time nessa época.

Por conta disso, foram realizadas algumas exportações atendendo a pedidos de fãs que viviam em outros países, mas nunca em volumes significativos, fato que, atualmente, acontece com qualquer marca que se associe a uma grande seleção ou clube de futebol.

A realidade do futebol era bastante diferente daquilo que se observa atualmente. É interessante deixar claro que, naquela época, tinha-se um contrato com o clube e, praticamente, trabalhava-se na produção de uniformes para os jogadores. Hoje, além da questão da permuta, estipula-se uma quantia em dinheiro que a marca tem que dar para a agremiação. Além disso, atualmente, as relações entre clubes e empresas de confecção são muito mais profissionais, o que, antes, acontecia muito mais por amizade, apesar de que sempre se respeitavam os prazos e aquilo que era estipulado. No caso da seleção brasileira, o cenário era um pouco diferente, por se tratar de um país, mas os acordos também sempre eram na base de permuta, também.

O time brasileiro, enquanto esteve associado com a Athleta teve grande repercussão dentro e fora do país, especialmente durante o período entre 1960 até 1975. Ou seja, logo após o primeiro título de Copa do Mundo, em 1958, até pouco depois do tricampeonato mundial, em 1970.

Universidade do Futebol – Conta-se que há 40 anos, não havia troca de camisas entre os jogadores, pois eram fornecidos poucos jogos de camisas para cada atleta. Por que funcionava dessa maneira? Como era a logística disso? As seleções eram tratadas da mesma maneira que os clubes?

Antonio Bulgarelli – Tudo era estabelecido por meio de contratos entre marca e clube ou entre marca e seleção. Acredito que deveria ser algo como 60 camisas a cada dois ou três meses, ou seja, realmente, era um número restrito de uniformes oficiais.

Em relação às camisas de treino, eram produzidas quantidades bem maiores, uma vez que o uso dessas vestimentas era mais frequente do que aquelas que só se vestia em partidas de campeonatos.

Para a seleção brasileira a realidade era a mesma. Se, por acaso, os jogadores quisessem mais camisas, eles tinham que pagar pelas peças além daquilo que havia sido estabelecido em contrato.

Eu não sei precisar o número exato de camisas que eram produzidas, mas elas eram feitas em quantidade suficiente para que o jogador pudesse atuar durante os seus jogos oficiais.

A partir de 1974, os atletas começaram a pedir que fossem produzidas camisas excedentes para os jogadores. Inclusive quem começou isso foi o Corinthians.

Apesar de, hoje em dia, parecer estranha essa questão, os atletas queriam mais uniformes para poderem presentear algumas pessoas e, até então, eles tinham que pagar para terem mais camisas. Lembrando que, na época, não havia salários tão altos como os que os jogadores recebem atualmente.

Então, passou a firmar-se, em contrato, a quantidade de camisas a mais que seriam produzidas para que os atletas pudessem distribuir, o que era em torno de 40 unidades a cada dois meses.

Para a seleção acontecia o mesmo tipo de relação. Mesmo porque, não se jogava muito no exterior, somente no período das Eliminatórias para as Copas do Mundo, e em algum jogo amistoso. Mas eram bem mais raros os confrontos envolvendo a seleção brasileira do que o que se observa hoje.

E, em relação à quantidade de camisas de clubes e seleções que existiam há algumas décadas e o que se vê atualmente, houve um grande choque na produção desses materiais. Antes existiam poucos fornecedores de fios e de panos, que impunha um limite na fabricação para que a marca conseguisse sobreviver.

Com isso, ter uma camisa oficial de um time de futebol ou de uma seleção era uma coisa rara, já que os jogadores não podiam dar os seus uniformes, pois possuíam uma determinada cota para o período de dois ou três meses.


Antes da adoação das fibras sintéticas, as camisas eram confeccionadas 100% em algodão

Universidade do Futebol – Qual era o material utilizado na confecção dos uniformes há 40 anos? Como isso interferia no jogo?

Antonio Bulgarelli – A primeira camisa foi feita 100% em algodão. Apesar de ser resistente e absorver o suor, os jogadores reclamavam que, quando chovia, a vestimenta ficava muito pesada. Chegou-se a passar uma fibra chamada mercerizado, mas que não resolveu o problema, pois essa técnica apenas servia para dar mais brilho ao tecido.

Para tentar minimizar o possível desconforto dos atletas, colocava-se, na região das axilas, um material especial que proporcionava maior elasticidade ao tecido, o que dava maior liberdade de movimentos aos jogadores.

Até por volta de 1985, no Brasil, as camisas eram produzidas em 100% algodão. A partir daí, começaram a ser utilizadas fibras sintéticas, que eram mais leves, e que já eram usadas na Europa desde 1975. No entanto, esse material não absorvia o suor, o que fazia com que os jogadores utilizassem, por baixo da camisa sintética, outra de algodão.

Para resolver a questão, foi lançado o polialgodão, uma fibra que, por fora, era sintética e, por dentro, era 100% algodão. Contudo, essa inovação não teve sucesso, pois era excessivamente cara, a sua produção era muito lenta e não havia no mercado muitas indústrias que produzissem esse pano.

Após essa tentativa, surgiram as fibras 100% sintéticas. Começou-se com o acrílico, passando-se para o 100% poliéster e chegando-se ao dry-fit, o qual absorve o suor e é muito leve.

Universidade do Futebol – Atualmente, a comercialização de camisas é uma das principais fontes de renda dos clubes. Qual era o cenário na época em que a Athleta participava ativamente da confecção de uniformes?

Antonio Bulgarelli – Na época, existiam as marcas que eram especializadas na confecção de malharia esportiva e as que trabalhavam com linhas voltadas para o esporte, desde o amador, fazendo uniformes para times de fábricas, até o profissional, em parceria com os grandes clubes de futebol do Brasil.

Eram as próprias marcas que comercializavam esses uniformes. Os clubes não possuíam uma loja para vender a sua camisa ou o seu uniforme completo, como é comum de se ver atualmente.

Somente após os anos 1980, quando se começou a se perceber que a procura por camisas de grandes times e seleções era muito grande, que as agremiações passaram a enxergar na venda desses produtos uma interessante fonte de renda.

A partir desse momento, os clubes restringiram as fábricas de venderem diretamente para as lojas, o que lhes garantia mais uma enorme fonte de lucros, o qual foi, aos poucos, sendo desenvolvido até os patamares que existem hoje em agremiações como o Real Madrid, o Barcelona ou, dentro do Brasil, o Corinthians e o Flamengo, por exemplo.


Atualmente, a venda de camisas é uma das principais fontes de receita dos clubes

Universidade do Futebol – Por conta de tecnologias avançadas, da utilização de diferentes materiais e de processos de confecção mais demorados e artesanais, até o final da década de 1980, demorava-se mais para fazer a camisa de um time de futebol, se compararmos com os padrões atuais. Comente

Antonio Bulgarelli – Naquela época, quando se trabalhava com o algodão, primeiro, produzia-se o fio, que era cru, isto é, sem cor. A próxima etapa era a produção do pano, o qual era levado para a tinturaria, onde passava pelo tingimento, pela centrífuga, por um período de “descanso” e pela caladragem. Só então ele era levado para o corte, e daí para as costureiras. Em uma fábrica, a peça ainda passava pelas “revisadeiras”, pelas passadeiras para, por fim, ser embalado.

Ou seja, era um processo que demandava muito trabalho e tempo, cerca de duas semanas, para confeccionar-se uma camisa de time de futebol (desde a produção do fio até chegar ao cliente).

Universidade do Futebol – Para uma marca como a Athleta não seria interessante reviver itens utilizados em décadas passadas, visando os colecionadores, assim como algumas marcas esportivas possuem suas linhas retrô?

Antonio Bulgarelli – Com certeza, essa é uma ideia muito interessante e a Athleta já iniciou um projeto com esse objetivo.

Na realidade, entregamos esse encaminhamento da Athleta para a TBC, que é uma gestora de marcas, e que será responsável por uma linha fashion e também pelo ramo esportivo.

No entanto, não se pode, sem uma prévia autorização, firmada em contrato, com a assinatura dos responsáveis, fazer-se uma camisa do Corinthians, do Flamengo, do Atlético-MG, ou de qualquer outro clube com quem a Athleta já trabalhou.

Isso acontece porque, cada agremiação já possui uma marca fornecedora de materiais esportivos, a qual ganha dinheiro com a venda desses produtos, graças a um contrato assinado e que garante exclusividade de relacionamento do clube com a fabricante.

Por exemplo, poderíamos confeccionar a camisa que o Corinthians utilizava em 1977, quando venceu o Campeonato Paulista e saiu de um jejum de 23 anos. Provavelmente, ela teria uma venda considerável, mas, se analisarmos friamente, o uniforme daquela época é praticamente igual ao que se tem hoje em dia. É claro que o material não é mais o mesmo e que o modo de se produzir também não. Mas o símbolo do clube é igual, o jogo de cores do uniforme também.

Por isso, esse tipo de confecção deve ser estudada e estabelecida por meio de contrato, caso a caso, conversando com os presidentes e atuais responsáveis pelo material esportivo de cada agremiação.

O lançamento das camisas da seleção brasileira, em parceira com a Associação dos Campeões Mundiais de Futebol do Brasil, foi uma iniciativa da entidade, que nos deu autorização da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para que utilizássemos o escudo da Confederação Brasileira de Desportos (CBD)* e fizéssemos um número limitado de camisas. Além disso, nesse caso tudo o que se ganhar com a venda das camisas será revertido para os campeões mundiais amparados pela associação presidida pelo Marcelo Neves.

*Nota da Redação: A CBD era a entidade brasileira responsável pela organização de todo esporte no país. Atualmente, cada modalidade tem a sua própria confederação, sendo que a entidade que faz o papel de desenvolver o esporte hoje por meio de uma estratégia global e articulando com todas as modalidades é o Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Universidade do Futebol – Como surgiu a parceria com a Associação dos Campeões Mundiais de Futebol do Brasil? Serão desenvolvidas novas ações?

Antonio Bulgarelli – A Athleta cobrou o preço de custo de produção da Associação dos Campeões Mundiais de Futebol do Brasil, e o presidente da entidade, o Marcelo Izar Neves, estabeleceu um preço que ele achou justo por aquele material.

Por isso, essa é uma questão que se refere muito ao planejamento da associação, ao qual eu não tenho acesso. Mas o Marcelo Neves comentou comigo que, a cada 60 dias, pretende realizar eventos por meio de outras promoções para que aumente-se a exposição desses grandes jogadores na mídia.

Outro fator que contribuiu muito para que a parceria entre a marca e a associação acontecesse  de maneira mais tranquila foi a amizade que o meu pai possui com o Gilmar dos Santos Neves, goleiro da seleção brasileira na Copa de 1958 e pai do presidente da entidade.

Com todo esse cenário favorável e pelo fato da Athleta ter sido a fornecedora oficial de uniformes para a seleção brasileira durante as Copas do Mundo de 1958, 1962, 1966, 1970 e 1974, desenvolveu-se essa ação em prol dos campeões mundiais brasileiros, principalmente, aqueles que venceram os três primeiros campeonatos pelo Brasil e que não viveram a fase de grandes salários do futebol mundial.


Em parceria com a Associação dos Campeões Mundiais de Futebol do Brasil, a Athleta confeccionou as camisas utilizadas nas conquistas dos três primeiros títulos brasileiros em Copas do Mundo

Universidade do Futebol – Faça um paralelo do ramo de confecções de materiais esportivos entre o período em que a Athleta era comercializada e o cenário atual.

Antonio Bulgarelli – Antigamente, não havia muita divulgação. Quem fazia o marketing para as marcas fornecedoras de materiais esportivos eram as próprias lojas. Eram raros os exemplos de propagandas de fabricantes de uniformes. Não existia essa quantidade de ferramentas de marketing para se divulgarem os produtos e, consequentemente, a marca.

Atualmente, se um produto é lançado hoje no Brasil, amanhã ou até mesmo, naquele momento, ele pode ser adquirido por alguém que está na Europa, por exemplo. Na época, o que havia para fazer a divulgação da sua marca eram as lojas, os jogadores e os times que, por vezes, realizavam turnês no exterior.

Universidade do Futebol – Além dos itens para colecionador, seria interessante e possível, em termos mercadológicos, uma reinserção da marca no mercado de materiais esportivos? Existem planos nessa direção?

Antonio Bulgarelli – O que eu posso adiantar é que A Athleta deve continuar no segmento esportivo, mas, em princípio, deve dedicar-se ao ramo esportivo fashion. Talvez, a partir da identificação da marca com esse filão do mercado, seja possível tentarmos expandir os negócios, de novo, para o segmento ligado aos clubes de futebol.

No entanto, como pontuei, quem irá comandar todo esse processo será o Hayo Coehn, da TBC, para quem eu cedi os direitos de utilizar a marca Athleta.

Além disso, há de se pensar que, em 2014, haverá uma Copa do Mundo no Brasil e, em 2016, os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, e seria interessante que estivéssemos presentes junto às seleções.

Porém, tenho consciência de que, quem tem mais de 30 anos conhece a marca Athleta, mas quem tem menos, não. Então temos que nos firmar no mercado mais uma vez, e acredito que começar com a linha fashion seja um bom caminho a ser seguido.

Mesmo porque, se quiséssemos resgatar as camisas de times e seleções brasileiras que ficaram para a história na época em que eram nossos parceiros, como o Santos bicampeão mundial ou o Corinthians campeão paulista de 1977, por exemplo, teríamos que conseguir autorizações de cada uma dessas agremiações, o que seria um processo bastante complicado.

Mas eu acredito que é favorável tentar essa reinserção no mercado esportivo de competições. Mesmo porque, vejo que o esportista brasileiro gosta de resgatar a história, e a Athleta faz parte da história do futebol do Brasil.

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Comentários

  1. JAILTON BOMFIM disse:

    GOSTEI DA ENTREVISTA , FIQUEI SABENDO MUITAS COISAS QUE JAMAIS PENSEI QUE A MARCA ATHLETA, FOI PIONEIRA NO MUNDO DE MARCAS ESPORTIVAS NO BRASIL.
    GOSTARIA DE TER CONTATO COM O ANTONIO BUGARELLI, DONO DA MARCA ATHLETA.

  2. BOA NOITE SOU IMPORTANTE COLECIONADOR DE CAMISAS ATHLETA GOSTARIA SABER UM MEIO AUTENTICA LAS POIS HERDEIRO CERTAMENTE TEM ARQUIVO DAS MESMAS

  3. carlos renato mariano disse:

    clubes do japão estão trabalhando com a marca athleta

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