Antonio Carlos Simoes, psicólogo do esporte

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Um dos aspectos levantados em diversos momentos do futebol é a condição psicológica dos atletas, principalmente em fases decisivas de competições. Alguns clubes preferem só pedir ajuda dos profissionais da área quando não há mais o que se tentar do ponto de vista técnico e tático. Porém, não é o que fez o São Caetano para a temporada 2009.

A equipe comandada pelo técnico Vadão está sendo assessorada pelo Departamento de Esportes da Universidade de São Paulo (USP), na figura do psicólogo Antonio Carlos Simões. O profissional está coordenando a análise psicológica de 31 atletas e 13 componentes da comissão técnica do São Caetano, desde o último dia 2 de janeiro.

“Com isso, os profissionais da agremiação poderão, antes de estabelecer estratégias de treinamento, saber as necessidades motivacionais do grupo e de cada jogador, trabalhar com o ego, com a expectativa, com a auto-realização, e outros fatores que, junto com o São Caetano, estamos determinando”, explicou Simões, em entrevista exclusiva à Cidade do Futebol.

O profissional, além de ser graduado em Psicologia, também tem graduação em Educação Física e em Pedagogia. O professor da USP tem experiência atuando especialmente com os seguintes temas: esporte, atletas, comportamento e mulher.

O sistema utilizado para a realização dos trabalhos de análise é o chamado ACS, o qual é composto por vários instrumentos de avaliação psicológica: perfis de personalidade, tendência de comportamento competitivo, identificação e caracterização do sistema sensorial e distância psicológica mantida entre técnico e atletas.

Cidade do Futebol – Como se delineou a assessoria psicológica realizada junto ao São Caetano e qual é a intenção básica desse trabalho do ponto de vista prático do estudo?
Antonio Carlos Simões – Eu já havia prestado assessoria para outros times de futebol como o Paulista de Jundiaí e os juniores do Palmeiras. Por conta desses trabalhos, recebi o convite do Carlos Eduardo Pacheco, que é o preparador físico do São Caetano, sobre a possibilidade de ajudá-los, durante está temporada, realizando diagnósticos.

Então, tive uma reunião com o coordenador do clube, com o Vadão e com mais um membro da comissão técnica. Nessa ocasião, nós conversamos sobre as nossas idéias e eles acharam que seria interessante o que nós poderíamos trabalhar em conjunto.

Com isso, ficou decidido que nós realizaríamos uma avaliação psicológica de todos os atletas e também da comissão técnica. Isso está sendo feito desde o dia 2 de janeiro.

Nós estamos captando informações e trabalhando em cima disso para realizarmos uma análise mais profunda de cada um dos jogadores e darmos uma devolutiva para o São Caetano, até terminar a fase da pré-temporada que eles estão realizando.

A nossa intenção é ajudar a comissão técnica a elaborar estratégias de treinamento. Existe uma série de avaliações que nós fazemos que nos possibilitam delinear diferentes estratégias, as quais são passadas ao clube. A partir daí, todas as vezes em que a agremiação necessitar, nós participaremos também.

Cidade do Futebol – Qual é a metodologia de trabalho que está sendo implementada para a realização desse projeto que engloba todos os envolvidos com o futebol do clube?
Antonio Carlos Simões – Temos um sistema que criamos há uma década e meia atrás, o qual é chamado ACS, que são as minhas iniciais. Ele é composto por diversos instrumentos que nos possibilitam caracterizar o sistema sensorial predominante do atleta, por exemplo, para melhorar os canais de comunicação. Com isso, nós sabemos se há a predominância visual, ou auditiva, ou sinestésica.

Sabendo isso, nós facilitamos o trabalho do Vadão naquilo que ele irá estabelecer como treinamento, no que se refere aos canais de comunicação. Por exemplo, se ele tiver que passar informações para um atleta que possui predominância visual, ele terá que se utilizar de um tipo de estratégia, para o auditivo, outra, e para o sinestésico, uma terceira.

Além disso, nós temos um instrumento que nos permite caracterizar a tendência do comportamento competitivo de cada um dos jogadores. Essa análise é baseada em três vertentes: um atleta que só pensa em vencer, outro que estabelece metas e um último que se preocupa em competir.

Com esses mecanismos, nós montamos um parâmetro da equipe. Mais ainda, caracterizam-se os perfis de personalidade, o que é básico: temperamento, caráter, impulsividade de cada jogador para que não ocorram muitas expulsões durante a competição.

Por fim, existe uma etapa do processo, que ainda não foi realizada, porque existem15 jogadores que vieram de fora do clube. É a fase da coesão do grupo. Ainda não podemos desenvolver isso, pois, primeiro os atletas e membros da comissão técnica têm que interagir, criando uma idéia de grupo para depois analisarmos como foi montada a coesão social de relacionamento humano e de tarefas.

Cidade do Futebol – Existe algum tipo de planejamento para que as análises dos perfis psicológicos dos atletas sejam realizadas periodicamente? Qual é o benefício prático disso para o São Caetano?
Antonio Carlos Simões – Todas as avaliações serão realizadas no período de pré-temporada, enquanto os jogadores e a comissão técnica estão começando a conviver. Com isso, os profissionais da agremiação poderão, antes de estabelecer estratégias de treinamento, saber as necessidades motivacionais do grupo e de cada jogador, trabalhar com o ego, com a expectativa, com a auto-realização, e outros fatores que, junto com o São Caetano, estamos determinando.

Cidade do Futebol – Em diversas oportunidades, o Vadão enalteceu a importância de se conhecer as características psicológicas dos jogadores para a realização do trabalho diário de treinamentos. A partir dessa visão do técnico do São Caetano, serão estabelecidas conversas freqüentes do departamento da USP com o clube?
Antonio Carlos Simões – Não. O laboratório que eu coordeno é que vai fazer essa assessoria para o São Caetano. Por isso que não é uma parceria com um clube. Para que isso acontecesse a agremiação teria que assinar um contrato com a universidade.

Sendo assim, nós vamos auxiliar o time do ABC, mas se vier outro técnico aqui pedir a nossa ajuda, nós também o assessoraremos, pois faz parte dos objetivos do laboratório atender à comunidade.

Os benefícios para a gente é que podemos reverter esses dados e apresentá-los em congressos internacionais, montar um banco de dados, realizar estudos mais aprofundados sobre diversos temas, defesas de doutorado e mestrado, e trabalhos de iniciação científica com alunos de graduação.

Por isso, essa assessoria é uma via de mão dupla, ou seja, existem interesses tanto do laboratório que eu coordeno como do São Caetano que quer saber as características dos seus atletas para montar treinos mais bem planejados e ter melhores resultados.

Cidade do Futebol – Geralmente, os trabalhos psicológicos desenvolvidos em equipes de futebol são focados exclusivamente nos jogadores. Qual é a relevância da extensão desse trabalho de análise psicológica aos membros da comissão técnica e demais envolvidos com o futebol do São Caetano?
Antonio Carlos Simões – Nós temos em mente que é muito mais difícil de alguém trabalhar com outra pessoa se elas não se conhecerem. Portanto, a mesma avaliação que está sendo feita com os jogadores, com exceção da parte de coesão do grupo, nós estamos realizando com os membros da comissão técnica e dirigentes.

É importante que a comissão técnica saiba trabalhar com os seus atletas por meio das suas principais características, o que geralmente não é feito. Por isso, nós fazemos esse trabalho para que, dentro da própria comissão
técnica, existam canais de comunicação mais eficientes em termos de resultados.

Não adianta fazermos a avaliação psicológica somente dos jogadores, se a comissão técnica não se conhecer. É importante que cada um dos membros aprenda a conviver com os demais.

Cidade do Futebol – Um dos principais objetivos desse projeto é melhorar o nível comunicacional entre os jogadores e com a própria comissão técnica. Isso tende a tornar o trabalho da comissão em algo mais focado no aspecto motivacional?
Antonio Carlos Simões – Esse é um dos resultados que nós esperamos, mas não é o único, pois não adianta fazermos um trabalho motivacional se não existir um objetivo a ser alcançado. Isto é, nós somos movidos por motivos e concentramos energia para alcançar aquela meta que se estabeleceu.|

Por isso, existe também a necessidade de trabalharmos as questões referentes ao ego dos jogadores, à auto-realização de cada um deles. A partir do momento em que conseguirmos unir todas essas estratégias na mesma direção é que conseguiremos desenvolver o projeto de maneira ideal.

Cidade do Futebol – Cada um dos indivíduos analisados tem uma personalidade diferente da dos demais. Esses dados serão passados para a comissão técnica. A idéia é que os profissionais trabalhem individualmente com cada um dos atletas ou é fazer um programa geral que englobe todas as necessidades do grupo?
Antonio Carlos Simões – O principal objetivo nesse sentido é trabalhar com o grupo como um todo, mas sempre obedecendo as características individuais de cada um dos atletas, pois diferentes pessoas vão reagir de maneiras distintas a uma mesma situação.

Com os dados em mãos, a comissão técnica vai saber como conversar com os atletas para melhorar o relacionamento dentro da equipe e a eficiência do time de maneira geral. Por isso que temos que analisar os envolvidos como uma mini-sociedade. Quem sustenta os relacionamentos é o grupo.

Então, se existirem alguns conflitos internos, os profissionais, se conhecendo melhor, haverá muito mais ferramentas para amenizarem-se determinados dramas emocionais e turbulências.

Cidade do Futebol – A construção de líderes nas equipes de futebol é algo vinculado com as características inatas de um determinado atleta, ou isso pode ser trabalhado a fim de se “construir” um jogador com esse perfil?
Antonio Carlos Simões – Não há nenhum estudo que prove que existem traços de liderança. Há sim, atributos pessoais e características de comportamento em pessoas que têm um perfil característico para assumir as rédeas de uma equipe.

Nesse trabalho junto ao São Caetano, nós ainda estamos levantando as características de cada jogador para saber quais deles têm um perfil para comandar o time dentro do campo.

Para ser líder, o profissional não pode ser beligerante, individualista ou egocêntrico. Uma pessoa que não tem capacidade de trabalhar com aptidão e interesse em atividades que envolvem comunicação com pessoas não pode ser pinçada para comandar um grupo de profissionais.

No entanto, existe uma série de características que podem ser trabalhadas e, dependendo do resultado de cada atleta a esse trabalho, você decidir o que mais se insere naquilo que se pretende para um líder.

Cidade do Futebol – A exposição das mulheres dentro do futebol e dos demais esportes é cada dia maior. No entanto, a presença delas em muitas modalidades ainda é vista de maneira estranha. Como você enxerga essa situação?
Antonio Carlos Simões – No Brasil, ainda existe um pouco de restrição quanto à atleta mulher, fato que podemos comprovar por meio do futebol. Aqui existe uma realidade que é bem diferente da de outros países como os EUA, por exemplo.

Contudo, temos que considerar as mulheres tão competitivas quanto os homens, guardadas as devidas diferenças biológicas e psíquicas-constitutivas adquiridas. Ou seja, elas são seres humanos iguais aos homens, com as suas limitações e potencialidades, as quais devem ser trabalhadas.

Um fato que comprova essa semelhança entre homens e mulheres são os recordes dos dois gêneros, os quais são bastante parecidos. E a ciência tem contribuído muito para melhorar a potencialidade competitiva das mulheres.

Cidade do Futebol – A constante evolução do futebol e dos outros esportes no sentido da interdisciplinariedade exige que todas as áreas envolvidas também cresçam unidas. A psicologia tem sido beneficiada graças a esse “diálogo”?
Antonio Carlos Simões – Na verdade, são poucos os trabalhos desenvolvidos na área. Em primeiro lugar porque “ainda” existe certa restrição em relação ao trabalho psicológico no futebol. É só repararmos a pouca quantidade de clubes que fazem atividades na área. Por isso que quando alguma agremiação faz um trabalho psicológico existe uma repercussão maior nisso.

Porém, hoje em dia, existe uma tendência por parte de alguns técnicos em aceitar esse tipo de trabalho como faz o Vadão, por exemplo. Outro que também realiza esse trabalho é o Tite. Já o Leão rejeita a idéia. O Luxemburgo já trabalhou com a Suzy Fleury quando ele era do Santos.

Outros times que também possuem psicólogos são o Fluminense e o Vasco da Gama, os quais possuem profissionais fixos da área trabalhando essas questões. Mas eu não tenho idéia de quantos clubes têm esse tipo de trabalho e que tipo de atividade é realizada em cada um deles.

No entanto, os trabalhos que estão sendo realizados e a tecnologia empregada têm contribuído bastante para que a psicologia tenha reconhecimento. As coisas estão no caminho certo. Isso ainda vai demorar anos ou décadas para que cheguemos a um resultado determinante, mas estamos indo bem.

Cidade do Futebol – Da mesma maneira que o futebol tem contribuído para a evolução da psicologia, o caminho inverso também é verdadeiro. Você poderia comentar um pouco sobre esse processo?
Antonio Carlos Simões – O pioneiro a trabalhar com a psicologia no futebol foi o Carvalhaes, com a seleção brasileira, em 1958. Desde então, as questões da psicologia ligada ao esporte têm evoluído e, hoje, aquilo que nós fazemos é basicamente a psicologia científica.

No entanto, alguns trabalhos, às vezes, não dão certo, não por incompetência do profissional, mas sim, porque, muitas das ferramentas que são usadas são da psicanálise. Outro fator que contribui para que alguns trabalhos não tenham bons resultados é que, quando você sai da faculdade, dificilmente o recém-formado realizou algum trabalho específico com psicologia do esporte ligada ao futebol.

É importante ressaltarmos que a psicologia do esporte é um mundo totalmente diferente, e o futebol e mais distinto ainda. Você não trata de pessoas doentes e sim de atletas que buscam atingir metas a qualquer custo.

Por isso, o papel do psicólogo no futebol de alto nível é o de assessorar o técnico. Se ele quiser ocupar o lugar do treinador ele será demitido, porque o técnico é o agente que conhece os jogadores. Tanto que tem alguns que rejeitam o psicólogo.

Compartilhe

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on email
Share on pinterest

Deixe o seu comentário

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Mais conteúdo valioso