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21/11/2017

As condutas preferentes para desenvolver a iniciativa defensiva no jogo

“Quem tem a bola joga e quem não tem corre?”

No futebol, muitos treinadores optam por condicionar suas equipes a ter uma conduta no momento defensivo do jogo que seja agressiva, intensa e determinada, na qual os jogadores estão sempre pressionando o adversário. E, desta forma, colocar a equipe em controle e protagonismo do jogo mesmo sem ter a posse de bola.

Porém, para estabelecer essa iniciativa defensiva como um comportamento tático, é preciso desenvolver cenários nos treinamentos que permitam que esse comportamento seja revelado de maneira coletiva, a partir das interações entre os atletas.

Evidente que muitos são os métodos para alcançar esse objetivo. Nesse sentido, a finalidade dessa reflexão é apenas expor de maneira simples (pois precisaria de muito mais linhas para desenvolver todo o processo) as condutas preferentes que acredito serem importantes para se buscar uma iniciativa defensiva eficiente no momento defensivo.

Penso que para operacionalizar essa ideia é necessário pré-estabelecer algumas condutas preferentes que os atletas terão que desempenhar para encontrar vantagens sobre o adversário no momento em que estão tentando recuperar a bola. São elas: a responsabilidade zonal; a ação de cobrir a bola; posicionar-se em vantagem posicional defensiva e gerar triângulos defensivos.

Essas condutas ocorrem de maneira simultânea e se estabelecem a partir da organização da equipe. Abaixo irei descrevê-las e esboçar alguns exercícios em formato de jogos que permitem manifestar tais condutas.

A 1ª) Responsabilidade zonal: divisão de zonas no campo em que os jogadores são responsáveis por pressionar o adversário.

A figura abaixo ilustra uma forma de se desenvolver a organização dessas zonas de responsabilidade em um jogo de aplicação (7×7 + 2C) em que cada jogador se responsabiliza por pressionar em uma zona (de maneira dinâmica). Podendo entrar em uma outra zona somente para fazer uma cobertura ou para gerar uma vantagem numérica (dobra de marcação) quando o adversário estiver parado ou mal perfilado.

Diretor técnico da FCBEscola São Paulo
Imagem: Agustin Peraita

 

A 2ª) Ação de cobrir a bola: o jogador antes de pressionar o adversário deve primeiramente cortar uma linha de passe para um possível receptor adversário e depois disso sair para cobrir a bola. A ação consiste em pressionar o portador da bola com determinação e não apenas “diminuir” o seu espaço efetivo de jogo.

A figura abaixo esboça uma forma de reproduzir esse contexto em um Rondo de 3×3+2C, onde dois dos jogadores são responsáveis por pressionar sempre em três das quatro zonas de maneira dinâmica.

Diretor técnico da FCBEscola São Paulo
Imagem: Agustin Peraita

 

A 3ª) Situar-se em vantagem posicional defensiva: o jogador que está pressionando na zona onde está a bola, ao cortar uma possível linha de passe, já está ficando em vantagem posicional, pois seu adversário não consegue receber a bola, ao menos que se movimente para criar uma nova linha de passe.
Nesse momento, os outros jogadores das outras zonas, estão posicionados ao lado dos adversários, onde poderão ou antecipar (se o passe for fraco), ou impedir a progressão do adversário a partir dessa vantagem estabelecida de maneira posicional.

A 4ª) Gerar triângulos defensivos: os jogadores que cercam o companheiro que está pressionando o adversário com a bola, além de estarem em vantagem posicional defensiva, buscam formar triângulo, visando realizar coberturas defensivas para recuperar a bola e evitando passes que superem essa pressão.

A figura abaixo descreve um jogo de aplicação (6×6) em espaço reduzido, em que cada jogador pode defender uma zona do campo específica. Podendo entrar em uma outra zona de um companheiro para fazer uma cobertura ou para gerar uma vantagem numérica (dobra de marcação) quando o adversário está parado ou mal perfilado.

 

Diretor técnico da FCBEscola São Paulo
Imagem: Agustin Peraita

 

A partir do estabelecimento dessas condutas e da vivência delas nos treinamentos em diferentes cenários, o comportamento da iniciativa defensiva vai se manifestando com regularidade em todas as fases do jogo.

Ainda pensando nas zonas de responsabilidade de pressão, a figura abaixo demostra como estabelecer 7 zonas a partir da plataforma 1-4-3-3 (a mesma do adversário) na saída de bola, aplicando uma pressão zonal em bloco alto.

A partir da ação do adversário, os jogadores vão se reorganizando para pressionar em mais de uma zona de maneira dinâmica e, com isso, executando as condutas necessárias para recuperar a bola.

Treinador da FCBEscola São Paulo
Imagem: Jonathan Silva

 

Caro leitor, toda essa reflexão visa apenas demonstrar um dos possíveis caminhos para gerar condutas preferentes no momento em que a equipe está buscando recuperar a posse de bola. Mas, sem dúvidas, existem outros métodos para cumprir esse objetivo.

É preciso deixar claro que esta proposta visa despertar nos atletas um comportamento de menor “expectativa” e maior iniciativa defensiva, ou seja, estabelecer na equipe um protagonismo dentro do jogo (e portanto controlá-lo) ainda que não se tenha a bola. Mostrar aos jogadores que é possível influenciar no jogo em todos os momentos, mas com as condutas certas e organizadas, evitando desgastes físicos e, principalmente, mentais.

Nessa perspectiva a frase “quem tem a bola joga e quem não tem corre”, poderá ser substituída por “quem tem a bola joga e quem não tem, joga também”.

Forte abraço e até a próxima!

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