Colunas

02/12/2017

As tarefas de treino derivadas dos (sub)sistemas do jogo

A mais-valia de compreender o jogo de forma sistêmica, é que podemos elaborar tarefas de treino mais representativas

No texto anterior, foi discutida uma visão sobre o jogo de futebol, na qual a zona da bola é referência para o entendimento de diferentes sistemas (ou sub-sistemas) que se formam dentro do jogo. Distingui-los pode servir, principalmente, para entender que o jogo acontece com diferentes relações de espaços, número de jogadores e objetivos dentro de cada sistema que se forma e, a partir disso, podemos ter um guia para a elaboração das tarefas de treino.

É importante ressaltar que esses espaços são transitórios e variam de acordo com a dinâmica da bola. Outro ponto a considerar é que o estilo de jogo da equipe influencia na formação destes espaços. Há equipes que, preferencialmente, constroem o jogo com passes curtos e muitos jogadores na zona da bola e outras que optam por passes longos, utilizando jogadores posicionados em zonas mais afastadas dela. Observe o vídeo a seguir para relacionar estes conceitos na prática.

Sendo assim, a mais-valia de compreender o jogo de forma sistêmica é que podemos elaborar tarefas de treino mais representativas da realidade do jogo formal. Não é a única maneira de desenhar as tarefas de treino, mas é um tipo de raciocínio que pode ajudar o treinador a pensar nas situações que quer que sua equipe vivencie e nos comportamentos que seus jogadores precisam melhorar. Portanto, para iniciar essa discussão irei explicar a relação dos sistemas com os tipos de tarefas de treino que podemos utilizar na planificação do treino.

Situações de habilidades individuais

As situações com enfoque nas habilidades individuais podem ser vivenciadas em uma relação de até 1:3 ou 3:1 jogadores e servem para priorizar a tomada de decisão para resolver problemas táticos individuais, ou seja, com maior propensão ao estímulo do sistema visuo-motor. São nessas tarefas de treino que o foco atencional dos jogadores estará mais direcionado ao controle do próprio corpo e a resolução de problemas técnicos do movimento.

O treinador também deve estar preparado para intervir didaticamente para ajudar seus jogadores a perceberem melhor as soluções e ajustes corporais que facilitarão a resolução dos problemas “técnicos”.

Situações micro-táticas

As situações micro-táticas se desencadeiam na zona chamada de “centro de jogo”, que corresponde ao setor mais próximo da bola. Os jogadores que ali se encontram possuem influência maior sobre o desfecho das jogadas do instante seguinte. Os chamados “bobinhos”, que recentemente ganharam a nomenclatura de “rondos” ou jogos técnicos, são comumente utilizados quando queremos simular preferencialmente este tipo de situação. A relação entre número de jogadores e espaço pode variar de acordo com a prioridade do treinador. Essa relação varia também de acordo com a zona em que o treinador quer estimular essa atividade. Um artigo interessante para compreender este conceito encontra-se numa postagem da página http://rondos.futbol, com o título “Todo el Fútbol está en los Rondos – Mi visión” (The whole game of football is present in the Rondos). Serão discutidas futuramente as relações entre os tipos de “rondos” de acordo com a zona do campo.

Nas situações micro-táticas, além das habilidades individuais, sempre presente em qualquer situação de jogo, os jogadores são estimulados a criarem vantagens (posicional, numérica, funcional, cinética) perante aos oponentes. Geralmente nessas atividades garantimos que os jogadores de ataque joguem em superioridade numérica, mas isso não necessariamente precisa ser uma regra. No entanto, por tratar de atividade em que os jogadores participam relativamente muitas vezes do jogo, comparado ao jogo formal, a densidade de interações entre eles aumenta e o nível de atenção e concentração deve sempre permanecer alto. É importante que os jogadores estejam sempre ativos, com ou sem bola, o ajuste do posicionamento corporal deve ser constantemente estimulado para dar dinâmica ao jogo e permitir assim que a bola permaneça com os jogadores de ataque.

Situações meso-táticas

No espaço que denominamos meso-sistema, o número de jogadores e o espaço disponível de jogo são aumentados. Quando propomos atividades assim, também devemos entender que são situações inter-setoriais, ou seja, o centro de jogo pode ser deslocado por diferentes partes do campo. A intervenção do treinador nesse tipo de atividade passa a ter um enfoque muito mais na organização coletiva do que na individualidade das interações. Assim como, os jogadores passam a cumprir papeis muito mais específicos e funcionais para melhorar o comportamento da equipe. Essas atividades podem ser pensadas incorporando jogadores de diferentes zonas, linhas, corredores e setores. Dessa forma, aumenta consideravelmente o número de princípios táticos que podem ser trabalhados pelo treinador.

Situações macro-táticas

Todas as situações que envolvem maior número de jogadores e espaço disponível para jogar, podemos chamar de macro-táticas. Essa é visão da equipe como um único sistema. E dentro dela, estão contidos todos os outros sistemas e as situações explicadas anteriormente. Umas das maiores dificuldades em analisar o jogo é conseguir enxergar o todo. Geralmente, nos focamos na zona da bola. Mas a medida que aprimoramos nossa capacidade de observar as estruturas micro, meso e macro, percebemos que a continuidade das jogadas (em equipes bem organizadas) dependem dos jogadores situados fora do centro de jogo. Enxergar esse macro-sistema é fundamental para entender e treinar o comportamento da equipe. Em idades menores, é muito difícil que os jogadores consigam comportar-se bem quando não estão perto da bola. Sendo este um dos motivos, para que em muitos países as competições em idades até 13 ou 15 anos, o espaço de jogo e o número de jogadores são reduzidos. Quando analisamos equipes de alto desempenho conseguimos perceber que seus jogadores são treinados para perceber o todo e comportar-se como parte dele, seja qual for a distância que se encontram da bola.

Pontos-chave para o treinador

  • A visão desses (sub)sistemas dentro do jogo pode auxiliar o treinador a pensar nas situações que pretende trabalhar e escolher alguns critérios, como a relação de espaço, número de jogadores e objetivos para cada tarefa.
  • É importante que o treinador reconheça os efeitos que têm as tarefas de treino derivadas de cada uma das situações citadas, para que possa avaliar e variar intencionalmente o desenho das tarefas para os objetivos desejados para seus jogadores e equipe.
  • Para elaborar boas tarefas de treino é necessário conhecer o jogo de futebol que jogam seus jogadores, para assim adaptar as atividades que pretende usar às necessidades deles.
  • A cada uma dessas tarefas, a didática do treinador deve mudar. Dessa forma, sua maneira de explicar, intervir, corrigir, questionar e observar o jogo deve estar ajustada à estrutura e função das tarefas propostas.

Sendo assim, são diversas as variáveis que utilizamos para derivar as tarefas de treino no futebol. Espero que essa seja uma que você, treinador, possa utilizar na prática.

Comentários

Deixe uma resposta

Sobre a Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol, enquanto atividade econômica e importante manifestação de nosso patrimônio cultural, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, e que conquistou o reconhecimento e credibilidade da comunidade do futebol.

Posts Recentes

Cursos em Destaque

© 2016 Universidade do Futebol. Todos os direitos reservados.