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26/07/2007

Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte 1

A utopia é uma forma de ação e não uma mera interpretação da realidade

Pierre Furter, 1974

Refletir sobre os aspectos da motricidade na Educação Física, corporeidade e desenvolvimento humano é reportar-se, necessariamente, à construção conceitual pela qual passou a Educação Física brasileira nas últimas décadas e às implicações dessa efervescência epistemológica no fazer pedagógico dos professores nos diferentes cenários pedagógicos. Observa-se que tal efervescência decorre das inúmeras denúncias de práticas pedagógicas desarticuladas dos objetivos escolares e de uma clara função da Educação Física como componente curricular.

Pontuam-se as contribuições de João Paulo Medina na obra “A Educação Física cuida doCorpo e… ´Mente´”, editada no início da década de 80, como ponto fulcral no encaminhamento de reflexões que levaram a Educação Física brasileira a mudanças paradigmáticas e pedagógicas, partindo do princípio de que estávamos ´diante de uma Educação Física quase acéfala, divorciada que está de um referencial teórico que lhe dê suporte enquanto atividade essencialmente – mas não exclusivamente prática´.

(1) Naquela época, advertiu-nos de que a Educação Física precisava entrar em crise para questionar criticamente seus valores, encontrar sua função social e procurar a sua identidade, pois, ´é preciso que seus profissionais distingam o educativo do alienante, o fundamental do supérfluo de suas tarefas´. (2) Pautava-se, na época, na crença de se estruturar uma Educação Física revolucionária, na qual a necessidade da utopia orientaria um projeto pedagógico dinâmico e aberto às constantes renovações, ´constituindo-se numa eterna utopia que leve o homem a ser cada vez mais e melhor do que é´. (3)

(…) é a imaginação utópica, ponto de contato entre a vida e o sonho, sem o qual o sonho é uma droga narcotizante como outra qualquer e a vida, uma seqüência de banalidades insípidas. É ela que, até hoje, pelo menos, sempre esteve presente nas sociedades humanas, apresentando-se como o elemento de impulso das invenções, das descobertas, mas também, das revoluções. É ela que aponta para a pequena brecha por onde o sucesso pode surgir, é ela que mantém a crença numa outra vida. Explodindo os quadros minimizadores pelo otimismo, levanta a única hipótese capaz de nos manter vivos: mudar de vida.

(4)

A crença na utopia não como puro exercício de imaginação, mas pautada no desejo concreto de mudanças, tem impulsionado os pensadores da área no sentido de contribuir com o debate acerca de questões teórico-metodológicas, as quais culminaram no aumento significativo da oferta de propostas pedagógicas para a Educação Física e o número considerável de publicações teórico-metodológicas na área, incorporando-se na literatura todo o acervo de conhecimentos produzidos em diferentes especificidades, colocando à disposição dos professores. Na perspectiva da Educação Física como prática pedagógica que é o cerne da presente reflexão, observa-se que as denúncias desembocaram em mudanças expressas de uma trajetória mecanicista a uma visão de Educação Física que ultrapassa os exercícios padronizados que deveriam ser executados por todos. Eis que os conceitos de motricidade e corporeidade emergem para dar sustentação a um novo pensar e a um novo agir nas intervenções dos professores de Educação Física. Duas décadas após as denúncias de Medina e o acúmulo de conhecimento sobre motricidade humana, como esclarece Feitosa, é chegado ´o momento em que se impõe abordar, embora de forma incompleta e seguramente imperfeita, a possibilidade pedagógica da ciência da motricidade humana´,

(5) pauto minhas reflexões na idéia de identificar a contribuição dos conceitos corporeidade e motricidade para a Educação Física como prática pedagógica comprometida com o desenvolvimento humano.

José Pereira de Melo – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

melo@digi.com.br

Leia mais:
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte II
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte III
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte IV
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte V

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