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26/07/2007

Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica- Parte 2

Motricidade, corporeidade e educação física como prática pedagógica

Ao ser solicitado a refletir sobre o fenômeno motricidade tenho sido enfático em defender duas possibilidades para sua compreensão, principalmente em relação ao delineamento pedagógico para a Educação Física. A primeira refere-se a entendê-la como demarcação acadêmica para a área, tendo-se o seu objeto de estudo centrado na análise do ser humano em movimento nas suas diferentes formas de expressão. Essa perspectiva tem em Manuel Sérgio seu principal mentor, numa tentativa de construção teórica capaz de sustentar uma identidade científica e pedagógica para a Educação Física. (6) Na segunda, enfatizo a motricidade apontando novos olhares para uma re-significação do conceito de movimento que foi cristalizado na Educação Física, tendo-se como referência às contribuições de Maurice Merleau-Ponty sobre a fenomenologia da percepção.

Nas minhas incursões conceituais, tenho preferido a segunda interpretação, pois os aspectos pedagógicos que dela emergem me seduzem mais que as questões de ordem acadêmica, às quais reputo uma extrema relevância para o desenvolvimento da área, mas não tenho demonstrado muito interesse e competência para dela tratar. Assim, tendo como referência tal interpretação, visualizo três contribuições na Educação Física brasileira em decorrência das discussões sobre motricidade e corporeidade, a saber: a) um novo enfoque para a movimento humano; b) os aspectos subjetivos que dele emergem; e c) a transição para uma prática pedagógica centrada no homem em movimento.

No tocante ao primeiro ponto, destaca-se que historicamente a Educação Física esteve alicerçada em uma concepção de movimento que objetivava desenvolver valências físicas e, conseqüentemente, a melhoria da aptidão física, visualizando-se uma concepção linear de movimento, no qual todos os alunos deveriam expressar as mesmas características motoras. Essa visão inviabilizava a perspectiva de se pensar outras possibilidades pedagógicas para a Educação Física, nas quais corpo e movimento se emancipariam na apropriação de conteúdos mais significativos para a formação do aluno. Tal linearidade reflete o aspecto mecanicista do movimento, em que, segundo Nóbrega, ´o corpo é visto exatamente como uma máquina que executa movimentos ao comando de seu instrutor, reduzindo-se à objetividade, à busca da reprodução de padrões externos, na maioria das vezes, sem nenhum significado para quem os realiza´.(7) Nessa mesma ordem, Merleau-Ponty enfatiza que ´um movimento é aprendido quando o corpo o compreendeu, quer dizer, quando ele o incorporou ao seu ´mundo´, e mover seu corpo é visar as coisas através dele, é deixá-lo corresponder à sua solicitação, que se exerce sobre ele sem nenhuma representação´.(8)

Ao cristalizar um conceito linear de movimento, tanto nas intervenções pedagógicas quanto nas pesquisas, a Educação Física trata ´o movimento como um fenômeno em si mesmo, analisando-o do ponto de vista biomecânico e fisiológico, desinserido do contexto humano, da complexidade na qual ele acontece e da qual decorre, tornando-o assim abstrato e desprovido de sentido realmente humano´.

(9) A perspectiva pedagógica de ter o movimento como experiência corporal abre um novo horizonte para o professor redimensionar a concepção de corpo e movimento que tem orientado a pedagogia da Educação Física, principalmente na escola, pois ´este passa a ser compreendido como algo que não é realizado mecanicamente, mas, sim, que surge do encontro da interioridade de cada um com o mundo e revela uma relação singular como sua corporalidade e com este mundo. O sentido do movimento humano age como integrador das etapas consecutivas. Assim, todos os movimentos realizados em aula devem ser portadores de um sentido para o aluno´. (10)

A motricidade vem arraigada na intencionalidade de gestos, de subjetividade e de significados que só compreenderemos se investirmos no desenvolvimento e no aperfeiçoamento da nossa própria sensibilidade, ou melhor, se investirmos na própria compreensão da corporeidade como a porta aberta para a motricidade surgir.

Para desenvolvermos a linguagem do corpo, a escuta sensível precisa estar afinada. O sensível coloca a experiência perceptiva como campo de possibilidades para o conhecimento, investido de plasticidade e beleza de formas, cores e sons. O corpo e o conhecimento sensível compreendidos como a obra de arte, aberta e inacabada, horizontes abertos pela percepção do ser humano em movimento.(11)

Motricidade, assim, passa a ser entendida como uma linguagem silenciosa e significante da nossa corporeidade, como enfatizam Couto e Cao, destacando que ´a motricidade acompanha a corporeidade e ambas não se distinguem, pois quando nos movemos é o corpo que se move e nossa corporeidade se manifesta´.

(12) Sendo assim,

´A motricidade não é simples movimento, porque é práxis e, como tal, cultura (ou seja, transformação que o Homem realiza, consciente e livremente, tanto em si mesmo, como no mundo que o rodeia). A motricidade é a capacidade para o movimento centrífugo da personalização. O movimento é parte de um todo – o ser finito e carente que se transcende. A motricidade é o sentido desse todo, estando por isso presente nas dimensões fundamentais do ser humano, atualizando-as´.(13)

O conceito de motricidade instiga-nos a perceber o sentido e o significado do movimento, em que reflexão e consciência dos nossos gestos impulsionam um novo pensar e um novo agir em relação às práticas corporais, pois

A motricidade é o que dota os movimentos de sentido, distinguindo-os dos movimentos puramente mecânicos, isto é, entendidos na perspectiva de mecânica clássica, por possuírem sentido e significado não correspondendo artificialmente à casualidade linear do estímulo-resposta. A motricidade expressa a unidade entre os aspectos internos e externos do corpo em movimento.(14)

 

José Pereira de Melo – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

melo@digi.com.br

 

Leia mais:
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte I
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte III
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte IV
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte V

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