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26/07/2007

Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte 5

Consciência do corpo

Eis que, em relação aos aspectos da motricidade no desenvolvimento humano, a tomada de consciência emerge para dar sentido à transmissão e assimilação do conhecimento transmitidos nas aulas de Educação Física, levando os alunos a uma reflexão sobre o momento vivido, interpretá-lo e agir sobre ele. Aproveito a oportunidade para destacar, ainda, a consciência do corpo como um dos aspectos que emergem das discussões sobre motricidade/corporeidade, considerando-a como tema emergente e relevante para o desenvolvimento humano, no qual podemos centrar a reflexão sobre o corpo, interpretar os signos sociais que nele se impregnam, bem como compreender as relações que com ele se estabelecem.

Tematizar a consciência do corpo nas aulas de Educação Física é situar a relação sujeito/mundo, em que a intervenção pedagógica pode desenvolver no aluno uma consciência crítica do mundo, transformando-o e, conseqüentemente, exercendo sua cidadania. Portanto, é uma implicação político-pedagógica, de ação social, na qual o corpo passa a ser visualizado nas mais diversas esferas da vida, e não apenas quando realiza atividades físicas. Recorro aqui ao conceito de consciência que evoca na pessoa a capacidade de faze-la ´estar ciente todo o tempo, explícita ou implicitamente, de que, a despeito do fluxo de cenas e de enfoques, você é sempre você mesmo´.(34) Pois ´a correta caracterização do indivíduo como centro de decisão, pensamento, liberdade, vontade, livre-arbítrio e responsabilidade dependem de construções do mundo cultural que, através da linguagem, se incorporam à consciência´.(35)

Dessa forma, a consciência do corpo há de promover uma relação homem-mundo significativa, crítica, transformadora e, conseqüentemente, libertadora e democrática. As condições nas quais o homem se encontra, que o transformam muitas vezes em máquina, em utensílio de produção para a classe dominante, que visa ao lucro, podem provocar doenças do caráter que são passadas de geração para geração, considerando aqui estruturas de caráter as que se manifestam no nosso corpo por meio de couraças musculares, como destaca Alexander Lowen. Considerando-se as condições adversas que levam o homem à perda da sua harmonia corporal e, por conseqüência, ao padecer das mais diversas síndromes, tem-se no trabalho de consciência do corpo um caminho promissor no resgate da corporeidade plena, que tínhamos quando criança, mas que aos poucos é dilacerada pelo poder disciplinar das instituições, pelos valores morais, pelos vícios de toda ordem, entre outros.

Assim, necessário se faz termos um processo de educação que nos estimule a ler criticamente as imagens que aos poucos são tatuadas no nosso corpo, função que consideramos essencial no trabalho de Educação Física pautado na relação motricidade/corporeidade, desde as séries iniciais de ensino, pois qualquer transformação social deve partir de uma revolução ou de um desmonte na forma impiedosa como, na maioria das vezes, lidamos com nosso próprio corpo.

Considerações finais

Gostaria, nestes momentos finais, retornar a utopia não como exercício de imaginação, mas como possibilidade de ação sobre a realidade e das possíveis transformações que dela decorre. Na Educação Física brasileira, as defesas das idéias, principalmente as que apresentam desafios de operacionalização, têm sido tratadas como pura fantasia dos seus mentores, mas são essas idéias que têm impulsionado a constituição de um outro pensar e um outro agir na Educação Física como prática pedagógica. Se não assistimos, ainda, uma transformação radical nas intervenções pedagógicas, presenciamos a construção de um processo de mudança que se configura a partir do conhecimento que tem sido produzido na área ao longo das últimas décadas. A utopia nos move, pois, como diz o poeta, ´sonhar é preciso´; não podemos esquecer que impulsionar as mudanças deve ser nosso compromisso como educadores.

Portanto, refletir sobre os aspectos da motricidade na Educação Física, corporeidade e desenvolvimento humano é continuar investindo no sonhar e ampliar as mudanças que aos poucos se configuram. Nesse exercício permanente do sonhar almejo que os profissionais da Educação Física agucem sua sensibilidade e incorporem novos olhares para a corporeidade como expressão viva dos corpos, pois a trajetória da humanidade revela uma relação impiedosa do homem com sua corporeidade. Falar do corpo sempre foi e parece ser um assunto impróprio, principalmente no tocante aos seus aspectos subjetivos, atitude que denota o esquecimento de que a nossa realidade é, em primeira instância, corporal. Percebo, assim, que durante toda a história do homem, o corpo foi visto como matéria, como um veículo que transporta a alma, o espírito ou qualquer outra denominação que expresse ou indique uma entidade invisível, que se contrapõe à materialidade do próprio corpo.

Ao pensar em corpo nas diferentes áreas do conhecimento e, em especial na Educação Física, deparo-me com uma visão objetiva de corpo, cuja materialidade e racionalismo tomaram grande parte das discussões e influenciaram muitas práticas pedagógicas, pois

o corpo continua sendo o cadáver no qual ele foi historicamente transformado. Isso implica uma dupla herança: o conceito e a visão do corpo têm sua origem na teologia do corpo do Senhor morto e desaparecido, e naquela medicina que obtém seus conhecimentos fundamentais por meio da dissecação de cadáveres no teatro anatômico. (…) até hoje não se conseguiu desenvolver uma teoria do corpo vivo que

seja, ela mesma, viva.(36)

Os argumentos de Kamper servem para ilustrar que é preciso transpor os limites de uma visão de corpo instrumental para compreendermos o corpo dotado de subjetividade e de intencionalidades, pois o corpo-objeto, corpo morto na visão do supracitado autor, que historicamente tem sido evidenciado na anatomia, fisiologia, medicina, entre outras, também pode nos servir, mas, como enfatiza Morais, ´a posição absoluta de um só objeto é a morte da consciência, no sentido da paralisação de tudo o que envolve a ele e se liga, explica-o e ultrapassa-o´. (37)

Citações

  1. MEDINA, 1983, p. 71.., p. 35.., p. 90.
  2. Ibid
  3. Ibid
  4. COELHO apud MEDINA, 1983, p. 91.
  5. FEITOSA, s/d, p. 147.
  6. SÉRGIO, 1991.
  7. NÓBREGA, 2000, p. 41.
  8. MERLEAU-PONTY, 1994, p. 193.
  9. FEITOSA, s/d, p. 149
  10. GONÇALVES, 1994, p. 149.
  11. NÓBREGA, 2000, p. 74.
  12. COUTO & CAO, s/d, p. 79.
  13. SÉRGIO, 1991, p. 81.
  14. NÓBREGA, 2000, p. 75.., p. 70.
  15. Ibid
  16. TRIGO, s/d, p. 79.
  17. MORIN, 1996, p.52.
  18. MOREIRA, 1995, p. 26.., p. 27.
  19. Ibid
  20. NÓBREGA, 2000, p. 66.
  21. FREIRE, 1995, p. 40.
  22. DAMÁSIO, 1996, p. 255.., p. 257.
  23. Ibid
  24. FEITOSA, s/d, p. 31.
  25. BRASIL, 1999, p. 70.
  26. FEITOSA, s/d, p. 155.
  27. KUNZ, 1991.., p. 175.
  28. Ibid
  29. MERLEAU-PONTY, 1994, p. 192
  30. KUNZ, 1991.
  31. Idem, 1998, p. 19.., p. 32.., p. 35.
  32. Ibid
  33. Ibid
  34. DEL NERO, 1997, p. 146..
  35. Ibid
  36. KAMPER, 2000, p. 1.., 1992, p. 86.
  37. Ibid

Referências bibliográficas

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TRIGO, E. Fundamentos de la Motricidad. Madrid: Gymnos, s/d.

O presente texto escrito pelo professor José Pereira de Melo faz parte do livro ´Educação Física – intervenção e conhecimento científico´, organizado por Wagner Wey Moreira e Regina Simões, Editora Unimep, 2004, 282 páginas, que reúne artigos de pesquisadores nacionais e internacionais convidados a participar do III Congresso Científico Latino Americano da Unimep, promovido pelos cursos de graduação e pós-graduação em Educação Física da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Metodista de Piracicaba, em junho de 2004.

 

Leia mais:
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte I
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte II
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte III
– Aspectos da motricidade na Educação Física como prática pedagógica – Parte IV

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