Universidade do Futebol

Ceaf

01/09/2008

Aspectos históricos sobre a origem e a evolução do treinamento de goleiro

No país do futebol pentacampeão mundial, a figura do goleiro ainda é tratada como uma posição ingrata: vive do céu ao inferno a todo o momento. A glória para esta posição é limitada pelos gols, e estes são, com freqüência, caracterizados apenas pelos seus erros individuais. Culturalmente, o Brasil sempre sacrificou seus goleiros, justificando os erros de todo o processo – para muitos, a única função desta posição é apenas defender e isso só reforça que é apenas um culpado solitário.

Debater assuntos como esses com profetas do futebol seria no mínimo absurdo ou abuso, pois, para viver momentos de herói, ao goleiro não basta realizar defesas importantes: deve manter o placar sem gols. Sendo assim, é de extrema urgência buscar soluções para romper paradigmas como esses e, principalmente, no que tange o guarda metas, que é pouco valorizado no país. Contudo, massificar a posição no Brasil é função de todos que atuam no futebol. Logo, deve-se dissipar com a premissa de que sua desvalorização é datada desde sua origem, sendo crucificado pelos erros de toda a equipe.

A função do goleiro exige muitos requisitos, sobretudo várias competências e habilidades específicas. Na Europa é o primeiro jogador a ser escolhido nas peladas, normalmente é o mais completo membro da equipe, portanto, deve possuir todas as capacidades básicas para o desempenho da função. Já no Brasil, essa cultura é antagônica e isso comprova porque no país do futebol não tem tanto valor. Diante de todas essas reflexões, chegou o momento de reverter com estes paradoxos. Desmembrar a opinião do senso comum sobre esta posição requer uma viagem no tempo. Assim, seria um importante passo esclarecer qual a importância que este artista do futebol tem para a modalidade.

O futebol chegou ao Brasil em 1894 por Charles Miller, que veio da Inglaterra com duas bolas, dois uniformes e um livro de regras. Neste período, o goleiro já estava inserido no futebol. No entanto, foi o último personagem a ser criado na modalidade, até mesmo o árbitro surgiu antes. Essa modalidade esportiva muito praticada no Brasil nasceu entre universitários da aristocracia inglesa, praticantes de rúgbi, uma modalidade que se usa tanto os pés como as mãos.

Em 1863, a partir da redação das regras do esporte, fundou-se a Football Association, que, oito anos mais tarde, criou o filho bastardo do rúgbi, o Goalkeeper, o único jogador entre os onze atletas que pode se valer do uso da regra do rúgbi (permitido a pegar a bola com as mãos). Desde então, o goleiro é um dos personagens do futebol que mais vem contribuindo com a evolução da modalidade. Haja vista que, quando se torna difícil fazer gols, a FIFA promove alterações nas regras para aumentar as chances de mais gols, garantindo o espetáculo para o público.

A proibição de pegar a bola recuada com as mãos à limitação do tempo com a posse da mesma são exemplos de como o futebol mudou por causa do goleiro. Todas essas premissas corroboram que este jogador atua antagonicamente ao objetivo da modalidade. Por esse motivo é considerado por muitos como estraga-prazeres do jogo. Em meados da década de 1970, a profissão de treinador de goleiro surgiu no Brasil a partir de um treinamento especializado e sistematizado desenvolvidos por ex-atletas da posição, que se basearam na aprendizagem das habilidades técnicas.

Mais de trinta anos depois, os goleiros ainda são preparados sob essa mesma metodologia tecnicista, ou seja, de forma isolada, estereotipada e fora do contexto de jogo, empobrecendo, conseqüentemente, as competências fundamentais exigidas pelo futebol moderno. Devido à especificidade de utilizar mais as mãos ao invés dos pés, o treinamento de goleiro é muito mais separado do que integrado com toda a equipe. Então, podemos considerar que essa é ainda uma posição mais individualizada, pelo uso da fragmentação das ações exigida pela metodologia tradicional. Tal modelo metodológico não contempla a gama de exigência que o futebol atual requer, como jogadores inteligentes para as ações do jogo. Diante da atual globalização mundial, dos surgimentos das novas teorias, e a inserção da ciência no futebol, tudo isso comprova e reforça a importância dos profissionais se reciclarem, pois ignorá-las significa desconsiderar os atletas.

É sabido que a atual fase do futebol merece profissionais capacitados, garantindo o desenvolvimento de um futebol arte e atletas de “corpo inteiro”. Contudo, as teorias que em décadas passadas já existiam, apenas agora estão sendo de forma incipiente exploradas pela modalidade (teoria dos jogos, teoria da complexidade e teoria ecológicas da inteligência para o jogo). Ratificam a importância do ambiente coletivo para a resolução dos problemas do jogo. E isso está diretamente relacionado com a formação dos atletas reflexíveis, inteligentes, autônomos e não simplesmente reprodutores de gestos técnicos. Esse novo modelo culmina em quebrar paradigmas, ou seja, mudar todo o sistema, rever conceitos e isso que “desconforta” as “pitonisas” do futebol.

Segundo as teorias da complexidade que reverenciam as novas visões de mundo, onde estão competindo no contexto atual com as “Mudanças de época”. Entretanto, propõe reflexões sobre visões complexas do mundo. Refere-se ao viés das escolhas, sendo estas dependentes dos ambientes e de crenças. Alguns acreditam que para que “os resultados sejam obtidos, os líderes devem se revestir de poder, comando, controle e passam a ser o cérebro da organização. As demais pessoas devem fazer o que lhes for mandado. Com o comando e o controle exercidos no topo, o processo decisório funciona de cima para baixo em todos os “níveis” da organização. Sair-se bem neste mundo mecanicista significa ser eficiente”. E isso retrata veemente como os comandantes do futebol (dirigentes e técnicos) atual estão agindo na busca da formação de atletas de futebol.

Antagônico a esse pensamento, a visão complexa de mundo sugere que o observador faça parte e afete a realidade observada. Logo, não existe uma única resposta certa. Então “existem muitas respostas certas e, às vezes, paradoxais contraditórias e complementares ao mesmo tempo. A realidade é um todo complexo em constante movimento em que todos os componentes estão interconectados num diálogo sem fim. Na visão complexa de mundo, a realidade é, essencialmente, definida pelos relacionamentos e pelos processos. Cada um de nós está relacionado, depende e é afetado pelas ações e pelas idéias de todos os demais. Se quisermos que a criatividade e a co-evolução estejam presentes na organização temos que sair de uma estrutura de comando-e-controle e passar para uma liderança compartilhada mediada pelo diálogo”. Essa forma de pensar permite que os indivíduos do processo (atletas em formação e técnicos) interajam em busca da resposta coerentes, mas, para que isso ocorra, o dogmatismo do comandante deve ser rompido.

As divergências entre essas duas visões de mundo remetem a reflexões de como os meios e os fins do treinamento no futebol se encontram, e principalmente naquele que se refere à posição do goleiro – também há necessidade de uma revisão. Considerando esses dois pólos, não podemos mais camuflar o processo de treinamento e principalmente o de formação como algo linear, previsível e mecanicista, sendo que todo o sistema é imprevisível e caótico. Esse desequilíbrio do ecossistema é uma analogia perfeita para o jogo de futebol. O jogo é considerado um sistema complexo, caracterizado por um emaranhado de ações e interações, que podem ser explicados pelas integrações das ações de cada atleta. Logo, o jogo exige muito mais que a técnica, visa uma reflexão coletiva e cooperativa, estimulando a inteligência dos jogadores para a resolução dos problemas e não simplesmente “marionetes”.

Nessa perspectiva, o Paulínia Futebol Clube (PFC) vem superando o tecnicismo e desenvolvendo uma nova metodologia que visa contemplar as principais características do goleiro em contexto de jogo. Este trabalho inovador permite a participação de todos os atletas da equipe, contribuindo com o desenvolvimento físico, técnico, tático e psicológico sem deixar de dar ênfase nas ações individuais e coletivas. Os treinamentos específicos são estimulados através de diversas situações que expõem o goleiro à sua realidade, explorando os principais aspectos inerentes à posição, como: fontes energéticas predominantes e determinantes; tática individual e coletiva; técnicas defensivas e ofensivas; aspectos psicológicos que envolvam a atenção, concentração etc.

Essas características são exploradas a parir de matrizes, cujas denominações estão relacionadas com a estrutura física do campo de futebol, como: jogos dentro da área, jogos fora da área, jogos de invasão da área, jogos de transição do setor defensivo para o ofensivo e jogos pelas extremidades do campo. Cada matriz possui suas características peculiares como: o espaço físico da ação dos jogos; metabolismo inerente à fase do treinamento; preocupando-se com a relação volume, intensidade e densidade; capacidades psicológicas que contribuem diretamente no resultado individual e coletivo, auxiliando na formação do atleta como um todo.

Esse desenvolvimento metodológico visa explorar o ensino e aprendizagem através de jogos adaptados, envolto pelo processo de assimilação e acomodação, parte do princípio do simples para o complexo aumentando o nível de dificuldade para os atletas. Nessa metodologia é mais importante o “porque” fazer (compreender aquilo que esta sendo realizado), do que o “como” fazer (a atividade que esta sendo realizada), tornando os goleiros mais críticos e inteligentes para as ações dos jogos. Uma vez que este tipo de abordagem exige reflexão, inteligência, cooperação e compreensão do todo, e não das partes.

A revisão crítica do modelo tradicional foi o ponto de partida para a construção da proposta metodológica aplicada no PFC como um todo e, em particular, no que se diz respeito ao treinamento de goleiro. Essa nova metodologia também reforma e rompe a atuação direta da função do treinador de goleiro tradicional, que sai de sena, sugere então uma nova terminologia, a do “Técnico Adjunto”. Sua função não é mais isolar o guarda-rede dos demais atletas, mas sim integrar seus objetivos junto a todo o planejamento técnico. Porém, além de explorar suas principais características específicas, também auxilia no desempenho físico, técnico, tático e emocional dos demais jogadores de forma integrada. É notória a evolução dos goleiros quando há uma sustentação pedagógica por trás de todo o trabalho.

O desenvolvimento dessa metodologia só esta sendo possível devido à filosofia proposta pelo clube e também à aceitação dos técnicos, que aderiram à importância da maior integração dos goleiros no âmbito coletivo, um trabalho que só vem a somar nos resultados do Paulínia futebol Clube como um todo. Todas as segundas-feiras, em Paulínia, há discussões no Centro de Estudos Avançados sobre Futebol (CEAF) que vêm contribuindo para essa evolução pedagógica no processo de formação dos goleiros, tanto das categorias de base quanto profissional do clube.

Bibliografia

MARTINS, Erick André. Nova tendência em treinamento de goleiro: um estudo de caso com o Paulínia Futebol Clube. (Monografia em Ed. Física) Faculdades integradas metropolitanas de campinas – Metrocamp. Campinas-SP, 2007.

GUILHERME, Paulo. Goleiros: heroi e anti-heroi da camisa 1. São Paulo: alameda, 2006.

TORRES, José Julio Martins. Teoria da complexidade: uma nova visão de mundo para a estratégia. I EBEC – PUC/PR – Curitiba, PR, Brasil, 11,12 e 13 de julho de 2005

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