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01/10/2012

Atacar defendendo: Defesa à Zona Pressionante – parte I

“… Quando esse país ‘se defende’, como se costuma dizer (pois isso significa atacar; ‘defesa’ e ‘ataque’ não são coisas separadas: são a mesma coisa) e tem início a carnificina…”
Krishnamurti (1965)

 

Para entender o que é a Defesa à Zona Pressionante no Futebol, temos primeiro que conceituá-la, e mais do que isso, temos que conceituar os outros métodos de defesa, para que deixemos claro o que é e o que não é Defesa à Zona Pressionante, descobrir suas vantagens e desvantagens. A partir desse momento poderemos discutir como utilizá-la, treiná-la e evoluí-la!

Durante a primeira parte do artigo iremos discutir o que é Defesa Individual e Defesa Homem a Homem para, na segunda parte, desvendar os conceitos das Defesas à Zona Pressionante.

Defesa Individual como o nome diz é um método de defesa que se pauta, principalmente, na busca pelos ‘indivíduos’, ou seja, os adversários. Mas neste método defensivo cada jogador tem um adversário pré-determinado para marcar; por exemplo, antes de começar um jogo o treinador define claramente que o jogador 5 irá marcar o jogador 10 da equipe adversária.

Ou seja, a referência posicional (referência pela qual nosso jogador define o seu posicionamento ) e a referência alvo de marcação (referência para qual os nossos jogadores ficarão atentos para marcar) são os jogadores adversários pré-determinados, mas não um jogador qualquer, um jogador que foi pré-determinado pelo treinador. Castelo (1996) afirma que “é a lei do um contra um.”.

Se fizermos isso, um dos nossos jogadores terá como objetivo anular o jogador 10, suas referências durante o jogo serão simplesmente o jogador 10. O nosso jogador irá se posicionar de acordo com o jogador 10 (referência posicional) e o nosso jogador terá como objetivo apenas anular este jogador (referência-alvo).

Aparentemente, sacrificamos o jogador 5, já que absolutamente tudo que ele fizer em termos defensivos é consequência do que fez o 10 adversário. E atentem-se ao tempo verbal: o jogador 5 responderá ao que o 10 já fez. Será que reagir à ação do outro é o melhor meio de defender? Deixemos isso para mais tarde.

Este método de defesa dificilmente é utilizado em toda a dimensão do campo, mas é comumente utilizado no futebol brasileiro para anular determinados jogadores que são considerados “mais importantes”.

Como prova disso temos a fala do atacante Lucas do São Paulo após um jogo contra o Santa Cruz, pela Copa do Brasil, ano passado: “Vou ser mais visado, os adversários vão chegar mais firme e sempre pode ter marcação individual. Mas eu tenho de escapar disso aí, me movimentar mais, criar espaço para meus companheiros. Vou precisar fazer alguma coisa.”.

Já na Defesa Homem a Homem, cada um dos nossos jogadores é responsável por uma zona que é determinada pelo treinador e quando um adversário entrar nessa zona ele será de inteira responsabilidade do “dono” da zona.

Como os adversários não são pré-determinados, nossos jogadores não estarão sempre marcando os mesmos jogadores durante toda a partida, mas é muito provavel que alguns jogadores se “enfrentarão” mais vezes, por exemplo, o nosso lateral direito vai marcar, na maioria das situações, o meia direito adversário, e o nosso zagueiro pela esquerda vai marcar, na maioria das vezes, o atacante direito adversário e assim por diante.

Apesar de parecer algo bem diferente da Defesa Individual, este método é, na verdade, bem parecido. Aqui também acontece a “lei do um contra um”, mas ela apenas acontece quando um adversário invade a zona de um dos nossos jogadores. A partir deste momento toda a atenção do nosso jogador volta-se para o adversário direto e ele passa a acompanhá-lo por toda a dimensão da zona.

Amieiro (2004) afirma que “ao ser, simultaneamente, a grande “referência de posicionamento” e a única “referência alvo” de “marcação”, a referência adversário direto é aquela que baliza a Defesa Homem a Homem”. Veja que Amieiro coloca que o adversário direto é a grande referência de posicionamento, mas não única, a zona também é uma referência posicional do nosso jogador, mas a maior é o adversário e por isso acontece o chamado “encaixe” das equipes, ou “jogo de pares”.

Cada jogador tem sua “zona” para cobrir, e quando um adversário nela entra ele passa a ser a referência posicional e referência-alvo do nosso jogador. Mesmo que aqui tenhamos um determinado desenho tático definindo as zonas dos nossos jogadores, ainda trabalhamos em cima da ação do adversário, já que nos posicionamos sempre tentando “encaixar” com o nosso adversário. É o chamado “Jogo de pares”.

Sempre que acontece este “Jogo de pares”, acontece também do nosso jogador estar sempre tentando anular o seu par, mas isto, como dito sobre a Defesa Individual, implica que você está reagindo à ação do adversário, e reagir é estar sempre atrasado em relação a quem já agiu.
No vídeo há um exemplo bem recente desse método de Defesa, que é a defesa do Vasco no jogo contra o Corinthians em 05/08/12.
 


 

Conseguimos observar facilmente que os jogadores do Vasco estão sempre marcando seus adversários diretos, e é esta reação que faz com que a chance de gol seja criada pelo ataque do Corinthians. O volante Nilton, do Vasco, está mais preocupado em seguir o meia Douglas, do Corinthians, do que ocupar o espaço vazio mais importante. E quando o Douglas percebe o espaço e se direciona a ele, o vascaíno não consegue acompanhá-lo.

Além deste problema de reagir à ação do adversário, há tembém outro grande problema neste método defensivo que é: o que acontece quando há dois jogadores na mesma zona? Algum jogador teria que deixar sua zona para ir marcar o adversário, deixando livre o espaço que deveria estar protegido e isso pode desorganizar/desequilibrar nossa equipe.

Há também o fato de que se um dos nossos jogadores for ultrapassado, não há ninguém para lhe dar cobertura, já que cada jogador nosso está preocupado com um adversário direto. Claro que no caso de isso acontecer um dos nossos jogadores iria marcar o jogador com bola, mas deixaria livre o jogador que estava marcando antes, também podendo acarretar em uma desorganização/desequilíbrio da nossa equipe.

Colocamos aqui fatos sobre dois dos métodos defensivos que vamos tratar e mostramos as fragilidades desses métodos para que possamos deixar claro as vantagens da Defesa à Zona Pressionante na parte II do artigo.


*Graduando na Escola de Educação Física e Esporte da USP e Treinador da DragonForce – FC Porto


Bibliografia

GloboEsporte. São Paulo, 2011. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/sao-paulo/noticia/2011/04/mais-calmo-lucas-avisa-que-vai-se-acostumar-com-marcacao-individual.html . Acesso em: 17 ago. 2012

Amieiro, N. Defesa à Zona no Futebol. Um pretexto para reflectir sobre o “jogar”… bem, ganhando! Lisboa. 2004.

Castelo, J. Futebol. Organização Dinâmica do Jogo. Lisboa, 1996

Krishnamurti, J. O descobrimento do amor. São Paulo, 1965

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