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25/04/2008

Avaliação do perfil postural em atletas juvenis de futebol

O esporte é parte integrante da sociedade, e o corpo humano, principalmente o sistema musculoarticular, é o instrumento privilegiado dos esportes. Assim, a repetição de determinadas atividades, reproduções de semelhantes posições e movimentos habituais, períodos longos de treinamento e sobrecarga provocam processos de adaptação que podem resultar em alterações para a postura, com alto potencial de desequilíbrio muscular (RAGONESE,1987).

A postura humana tem sido objeto de interesse crescente em estudos em diversas áreas, uma vez que os desvios posturais, estruturais e funcionais, causam desequilíbrios, levando a compensações que podem provocar alterações na biomecânica normal (OLIVEIRA et al. , 1991). Segundo Kendal et al. (1991), a postura é a posição e a orientação espacial global do corpo e seus membros. Souchard (2003) trabalha o conceito de postura e movimento através das cadeias musculares, defendendo que estas são formadas por músculos denominados estáticos, por fornecerem sustentação ao corpo, e quando usados inadequadamente para realização de movimentos, a ponto de criar uma deformidade permanente, alteram o equilíbrio da postura.

O estudo da postura relacionado ao esporte vem crescendo e apresentando dados importantes para prevenção de lesões. Neto Jr. et al. (2004) apresentaram, alterações posturais em atletas de prova de potência muscular, evidenciando características específicas como hiperlordose lombar, anteroversão pélvica, protusão de cabeça. Ribeiro et al. (2003), analisaram a postura de atletas de futsal, e ressaltam maior incidência de entorses de tornozelo, presença de pés planos e lesões do joelho podendo ser relacionadas à proporção elevada dos atletas com joelho valgo. Neste contexto, ponto relevante volta-se ao entendimento das modificações corporais a que jovens vêm sendo submetidos durante os treinamentos e competições, sem descartar a predisposição biomecânica individual.

O objetivo do trabalho é esboçar um perfil postural de atletas juvenis de futebol e identificar os fatores músculo-esqueléticos responsáveis pelas possíveis alterações posturais.

Foram avaliados 20 atletas do sexo masculino, integrantes de uma equipe juvenil do interior de São Paulo, submetidos a uma avaliação postural estática, registrada por meio fotográfico (fig 1). O protocolo para coleta de dados foi elaborado com base nas propostas de Kendal et. al. (1995) e a discussão das cadeias musculares nos protocolos propostos por Souchard (2001) e Champingnon (2003).O material utilizado foi: Cimetrógrafo; Câmera digital Olympus® D-390 com software CAMEDIA® Master 4.1; Software: CorelDraw® 9; Tripé DIGIPOD® TR320; Maca; Fita métrica; Goniômetro CARCI®. Os procedimentos estatísticos utilizados para descrever as variáveis de interesse foram: medidas descritivas de posição e variabilidade; distribuições de freqüência absoluta e relativa; e Coeficiente de Correlação Linear de Spearman com nível de 5% de significância (NORMAN & STREINER, 1994).

Figura1: Analise Fotográfica da Avaliação Postural

A amostra apresenta idade media de 16,3 anos, peso entre 54,0 e 85,9 Kg e altura entre 1,66 e 1,90 metros. As variáveis investigadas foram: grau de inclinação da cabeça, com valor médio de angulação de 1,15°; flecha cervical com média de 9,54 cm, sendo o padrão de normalidade entre 6 e 8 cm, o que aponta um aumento em mais de 75% da amostra para uma anteriorização de cabeça seguida de hiperlordose cervical.

Com relação aos membros superiores, quanto aos valores de diferença de altura de ombros, mamilos e cotovelo, observa-se, nos valores médios elevação de 0,49 , 0,34 e 0,49 cm à esquerda, respectivamente. Na região lombar observa-se a flecha lombar com média de 5,43 , e valores de normalidade entre 4 e 6 cm, e ângulo pélvico (normalidade de 20° a 30°), com média de 17,95°, apontando uma amostra homogenia.

Quanto aos membros inferiores, observa-se no valor mínimo de 5° de hiperextensão, e máximo de 11° de flexão do joelho. Ao considerar normal zero grau de alinhamento, destaca-se o padrão de flexão de joelho em 75% da amostra. A distribuição das freqüências do comprimento da musculatura posterior de coxa (IQT), evidencia-se alto percentual de alongamento excessivo, 55%, sem correlação estatística significativa entre os dois dados apresentados. O valor mínimo da amostra aponta para 8° valgo em ambos os joelhos, e o máximo para 8° e 11° varo para direito e esquerdo respectivamente, nota-se que a amostra apresenta um aumento da angulação considerada normal, que é de 5° valgo.

Quanto à posição dos pés em ortostase, define-se por normalidade abdução de 8° à 10°, destacando-se valores superiores. A força de abdome superior apresenta valores mínimos dentro da normalidade e abdome inferior, verifica-se 50% dentro da normalidade.

No alinhamento anterior do corpo, 40% da amostra apresenta-se dentro da normalidade, e no alinhamento lateral, 95% da amostra apresenta desvio anterior. Por fim, com relação às medidas de associação entre as variáveis analisadas, nota-se significância estatística para as variáveis peso e altura, diferença de altura de ombros e mamilos e cotovelo, e alterações de joelho varo e valgo na associação bilateral.

Nota-se assim, em resumo, que os principais resultados das alterações posturais apontam para: abdução excessiva dos pés, semiflexão e varo de joelhos, alongamento excessivo de IQT, força de abdome inferior diminuída e superior acima da normalidade, diferença de altura de ombros, mamilos e cotovelo, aumento da flecha cervical, anteriorização do corpo na vista lateral.

Tal situação se assemelha à postura descrita pelo método GDS (DENYS-STRUYF, 1995), em que o corpo tende a inclinar-se para frente, mas por compensação o equilíbrio é recuperado pela semiflexão dos joelhos, flexão anterior da coluna vertebral em cifose com inclinação da cabeça para trás. Essa postura é considerada ativa pois mantém os membros inferiores em flexão, como molas tensas, prontas a serem ativadas pelo músculo quadríceps e passar da prontidão para ação. O equilíbrio adotado impulsiona o corpo anteriormente, apoiando-se no antepé e favorecendo a flexão do quadril ou joelho para recuperar o equilíbrio, caracterizando um trabalho excessivo dos músculos posteriores para impedir o desequilíbrio corporal. Assim, a postura adotada pelos atletas jovens justifica-se tanto pela obtenção de maior potência quanto pelo ganho de força muscular na ação esportiva.

Quando analisado os segmentos do corpo, ainda na perspectiva da manutenção do equilíbrio em cadeia, particularmente quanto aos pés, Bienfait (1995), condiciona toda a estática do corpo a este segmento, e na amostra observa-se alteração da abdução dos pés, mais precisamente do antepé, ultrapassando os 10° descritos pela literatura (KENDAL et al., 1995). Segundo Bricot (2001) o valgo de tornozelo com achatamento do arco plantar pode favorecer e acompanhar desordens posturais como: rotação interna da perna e coxa; patela medializada; tendência à flexão de joelho; aumento da lordose lombar; projeção da cicatriz onfálica; hipercifose torácica; plano escapular posterior; e hiperlordose cervical. A hiperextensão do joelho se origina da posteriorização do eixo do corpo, uma vez que a estabilidade do joelho é mecânica (TANAKA & FARAH, 1997).

Como descrito, a amostra do presente estudo apresenta anteriorização do eixo, mais precisamente do centro de gravidade, favorecendo as alterações em flexão dos membros inferiores. Bienfait (1995) relata que uma ligeira flexão bilateral é, em geral compensação de uma anteroversão pélvica e da lordose lombar, devido à insuficiência dos músculos estabilizadores pélvicos. Essas posições desequilibram o tronco para frente, obrigando a uma lordose lombar como forma de recuar o centro de gravidade. Segundo o autor, retroposição do tronco leva o centro de gravidade para cima dos calcanhares, tornando o equilíbrio precário, assim o restabelecimento do equilíbrio acontece avançando a linha de gravidade para o antepé, como já discutido, com ligeira flexão dos joelhos, ao mesmo tempo em que leva a pelve em retroversão pela flexão dos quadris.

Dados semelhantes são apresentados por Ribeiro et al. (2003), com baixa incidência de hiperextensão de joelho, e por Watson et al. (1983), que relatam menos de 5% de alterações em hiperextensão de joelho em atletas de futebol. A amostra apresentou alongamento acima do nível normal para a musculatura de IQT e na postura estática uma flexão de joelho. O trabalho no inicio da flexão, tanto do músculo gastrocnêmio quanto do poplíteo podem interferir para uma postura de semiflexão, principalmente pelo primeiro ter importante função de suporte a cápsula posterior contra as forças de hiperextensão durante a sustentação de peso (KISNER & COLBY, 1998; KENDAL et al.,1995).

Com relação ao comportamento dos membros superiores e região cervical, observa-se na maioria da amostra um aumento da flecha cervical, correspondente à acentuação da lordose. Segundo Bienfait (1995), a adaptação da cabeça é imperativa, tanto na estática como no movimento, isso faz da tonicidade da região cervical a chave para as adaptações estáticas descendentes. O autor ainda aponta que os desequilíbrios da cabeça não podem ser compensados na região cervical, sendo que a mobilidade da região é orientada pelo olhar, assim os desequilíbrios só ocorrem no plano sagital, e descendem com relação ao plano frontal. Essa afirmação justificaria o alto grau de diferença de altura dos membros superiores, evidenciados pela associação entre as variáveis: ombros, mamilos e cotovelos. A análise das possíveis alterações posturais apresentam grande significância para o ganho e manutenção da performance atlética, e ainda, é importante ressaltar que essas alterações podem não somente ser decorrentes da pratica esportiva, mas principalmente da composição anatômica individual do atleta, assim como o estilo de vida e atividades funcionais da vida diária.

O paradoxo entre postura e lesão transcende a visão benéfica do esporte, colocando algumas vezes, erroneamente, os desequilíbrios musculares como efeitos maléficos do esporte. Portanto as alterações posturais são compensações naturais para manutenção de equilíbrio, o que nos proporciona uma atuação sobre a estática corporal sem alterar a dinâmica dos movimentos, objetivando assim a melhora da performance atlética, assim o perfil postural de atletas pode direcionar o preparo físico para melhor desempenho esportivo.

Bibliografia

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