Universidade do Futebol

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14/03/2012

Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 2

Nesta segunda parte da matéria especial da Universidade do Futebol, nossos entrevistados respondem a segunda pergunta formulada a partir da declaração do novo diretor técnico de futebol do São Paulo, René Simões, que destaca a filosofia de trabalho do Barcelona e que permite uma reflexão crítica sobre o futebol brasileiro:

Por que a grande maioria dos clubes brasileiros, apesar de muitos contarem com profissionais competentes, ainda tem dificuldades em realizar um trabalho integrado, científico e que agregue as principais conquistas metodológicas atuais do treinamento?

Wladimir Braga
– Para o preparador físico da base do Atlético Mineiro, “é importante destacar que a gestão do conhecimento é o que mais falta aos diretores e gerentes de futebol de base dos clubes do futebol brasileiro, de uma forma geral”. E conclui: “a formação de um conceito de trabalho torna-se, portanto, a principal carência neste sentido, e todo trabalho de formação de atletas fica prejudicado, por que as categorias [de base] do futebol não têm um ‘norte’ e permanecem seguindo no escuro no processo de ‘tentativa e erro’ até acertarem em alguma promessa isolada”.

Leandro Zago – Para este jovem treinador e estudioso do futebol ,“a competência é um termo abstrato quando não está direcionada a algo. Ser competente em algo é ter sucesso em algumas tarefas que contribuem para a execução de um projeto maior. Enquanto as diretrizes não estiverem determinadas, os profissionais trabalharão cada um em uma direção e o produto final desse ‘processo’ (desenvolvimento pleno do atleta de futebol) será a soma das intenções dos profissionais que tiveram contato com o atleta durante o período de formação. Quando na verdade, os clubes deveriam ter uma definição bem clara sobre qual o tipo de atleta que seria desejável na equipe profissional e a partir daí tomar todas as outras decisões relacionadas às categorias de base, desde a captação de atletas até a contratação dos profissionais competentes para sustentar o processo já delineado”.

“Quanto às metodologias, enquanto todas as equipes que se enfrentam trabalharem na mesma perspectiva, não sentirão necessidade de mudar. É necessário alguma equipe ter êxito por um período prolongado para criar a necessidade de mudança”.
 



Uma unidade de treino objetivando a montagem de um 1-4-4-2 com duas linhas de quatro jogadores, marcando em zona


Sandro Sargentim
– Este pesquisador das ciências do futebol revela que “temos dois [tipos de] profissionais que aplicam treino: um, os ex-atletas que não se preocupam com nada de novo e acham que nada tem muita importância além daquilo fizeram quando jogavam, sem inclusão de nenhuma atualização. Outro, os professores de Educação Física, que não aprendem nada na universidade de como se montar sessões de treino [especificamente aplicados ao futebol]”. Portanto, na opinião do Prof. Sandro Sargentim, os profissionais do futebol entram no mercado despreparados, recebem seus salários, mas investem pouco em cursos de formação ou especialização no futebol.

Eduardo Barros – Na opinião deste gestor técnico de campo e colunista da Universidade do Futebol, “a principal questão é administrativa. Geralmente, dirigentes do futebol brasileiro assumem que sabem tudo acerca da modalidade. Presos à crença do domínio (apenas aparente) do jogo e suas interações e inter-relações, realizam uma sequência de decisões equivocadas em toda a cadeia produtiva de um clube de futebol. Não exigem integração entre categorias e comissões técnicas, não acreditam que o bom jogador possa ser formado, ‘mimam’ os potenciais (habilidosos) jogadores, contratam e demitem sem critérios, enfim, desconsideram atitudes fundamentais para o exercício de um projeto de futebol sustentável”.

Diante da postura inadequada dos gestores, Eduardo Barros acredita que ela “gera um movimento em cadeia no ambiente/contexto do clube em que cada profissional age com absoluta insegurança, faz somente o seu trabalho, busca a vitória a qualquer custo e que evita o novo, pois, por desconhecê-lo, teme o fracasso. Comportamentos que não combinam com um trabalho integrador e interdisciplinar”.

 

Você vai montar o seu treino? Não esqueça (e cuidado com) o princípio das propensões

 

Rodrigo Bellão – Para o treinador da base da Portuguesa de Desportos, há muitos dogmas e paradigmas no futebol que precisam ser mudados. Um dos mais importantes deles é aquele que prega o resultado em primeiro lugar, desconsiderando-se os processos. Ele afirma: “Não se considera qualquer trabalho no futebol, até mesmo nas categorias de base, se não houver bons resultados de jogos em um espaço de no máximo até um ano”.

Concorda com a tese de que “a falta de conhecimento de quem comanda e dirige o futebol também é um grande problema”. E conclui: “Ainda há preferência de muitos [dirigentes] por recrutarem profissionais que foram bons ex-atletas para trabalhar na função de treinador. Às vezes me perguntam onde eu joguei para ser treinador. É difícil de ser aceita, mas a minha resposta é: ‘na academia’, estudando o futebol. Não que o ex-atleta não possa ser um bom treinador, mas acredito que somente a sua experiência, hoje em dia, não é tudo o que se necessita para ser um bom treinador. Os estudos são importantes também”.

Bruno Pivetti –
Este profissional e autor do livro Periodização Tática é bastante crítico e contundente sobre o tema em questão: “Precisamos de uma reforma urgente! Mas para isto é necessário sair do senso comum. Afinal, como dizia a já batida frase de Albert Einstein, ‘Não há nada que seja maior evidência de insanidade do que fazer a mesma coisa dia após dia e esperar resultados diferentes’. Ou seja, precisamos sair do senso comum! Porém, não acredito que isto seja um dever exclusivo dos treinadores, mas sim de todos aqueles que estão inseridos no meio esportivo, a começar pelos acadêmicos formadores de profissionais e de opiniões. Digo isto porque por experiência: os profissionais inseridos na prática já se deram conta da necessidade vital do conhecimento teórico para auxiliar no processo organizacional coerente do cotidiano do futebol tanto na formação, quanto no profissional. E isto é evidenciado pela presença cada vez mais constante de profissionais jovens, recém saídos da universidade em clubes de futebol brasileiros”.
 

Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios

“Infelizmente, em nosso país, existe um verdadeiro abismo entre a teoria, formada pelos membros da academia, e a prática, formada em sua maioria por ex-jogadores e/ou profissionais de característica mais empírica, que suportam sua rede de conhecimento pelas experiências vividas e não em um aporte de cunho mais científico”, acrescenta.

O Prof. Bruno Pivetti detecta preconceitos e um consequente distanciamento entre os considerados práticos (ex-atletas) e os teóricos (acadêmicos que trabalham ou estudam o futebol). Estes, muitas vezes, assumem um ar de superioridade, por conta de sua formação e aqueles, protegidos pelas suas experiências como atleta, não aceitam teorias que possam fundamentar ou modificar as suas práticas, impedindo a conquista de novas aprendizagens e evolução. Por isso, conclui: “Pronto! Está feito o distanciamento provocando a ausência de trocas de experiências e informações que potencialmente beneficiariam ambos os lados”.

Bruno Baquete – Este treinador da base do Corinthians e também colunista da Universidade do Futebol adota a constatação de René Simões sobre o Barcelona (“banho de normatização, organização, respeito à filosofia de jogo e metodologia de trabalho”) para solucionar também os problemas do futebol brasileiro. Embora seguir este caminho de solução seja algo óbvio, entende que esta visão “está muito distante da visão limitada que os gestores brasileiros (de campo ou não) têm sobre o jogo”. E Bruno Baquete bota ainda o dedo na ferida do trabalho realizado por muitos treinadores conservadores nas categorias de base dos clubes brasileiros:

“Hoje mesmo na base temos muitos treinadores que não enxergam além de seus palavrões e se orgulham em dizer que tudo isso que a Universidade do Futebol discute é coisa da Europa e que não se aplica ao nosso futebol. Isso é triste! E mais triste ainda é ver certos profissionais fazendo as mesmas coisas há 20, 30, 40 anos e quando um profissional chega com novas ideias é massacrado e não tem espaço!”.

Baquete finaliza comentando sobre os avanços que ocorrem em muitas outras áreas, comparando com o que ocorre no futebol. E questiona: “Por que isso [avanço] não ocorre em nosso futebol? Por que não pegamos os exemplos e seguimos ao invés de ficarmos parados no tempo?”.

Augusto Moura – Já para o membro do departamento de captação de atletas do Coritiba, “é altamente complexo apontar motivos e críticas aos clubes nacionais quanto ao sucesso ou não das metodologias utilizadas em suas categorias de formação.” Mas aponta alguns aspectos que considera importantes e que trariam benefícios ao futebol de forma geral. São eles: “valorização profissional; infraestrutura adequada; recursos financeiros e materiais; revisão de regras e regulamentos dos torneios de base e escolas de futebol no Brasil; constante oportunização aos cursos e eventos de capacitação e reciclagem; plano de cargos e salários; profissionalização das ferramentas de observação, captação e promoção de talentos; e abastecimento contínuo do banco de dados.”

Ele acredita também que podemos alcançar vantagens competitivas aplicando consagrados princípios empresariais, como por exemplo: “análises de cenário que destrinchem ameaças e oportunidades, além de pontos fortes e fracos existentes.” Neste sentido afirma que “vale traçar um paralelo com o futebol e também pesquisarmos como estão atuando e se organizando nossos concorrentes nacionais, sul-americanos e europeus. Certamente, esse prognóstico nos proporcionará discussão, reflexão e revisão de mecanismos metodológicos.”

E complementa: “Por isso, a iniciativa de estabelecer princípios e criar hábitos administrativos dentro dos departamentos que compõem um clube de futebol é extremamente necessário no intuito de sistematizar e padronizar metodologias, criando assim, maneiras de controlar e monitorar as variáveis.”
 

Especial: Mano Menezes, treinador da seleção brasileira


*Não perca a sequência deste especial, que terá sua terceira parte publicada na próxima quinta-feira (dia 15). Na sexta, uma novo texto escrito pelo zagueiro do Corinthians Paulo André fecha a série.

A partir dela, esperamos contribuir para as discussões construtivas da modalidade, com ideias e novas propostas. Contamos com sua participação no espaço de comentários logo abaixo!

Leia mais:
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Entrevista: Mano Menezes – primeira parte
Entrevista: Mano Menezes – segunda parte
Entrevista: Mano Menezes - terceira parte
Entrevista: Mano Menezes - quarta parte
Entrevista: Mano Menezes - última parte
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O currículo de formação do atleta de futebol – parte I
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