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04/04/2012

Barcelona, Pep Guardiola e a realidade do futebol brasileiro

A responsabilidade dos treinadores de futebol na escolha e no treinamento dos jogadores para a obtenção dos títulos almejados é indiscutível. Para acumular a função de selecionador e de organizador de uma equipe os técnicos precisam de conhecimento, não basta ter jogado futebol profissionalmente. Se a experiência e a competência como jogador bastasse, os craques, os expoentes, levariam vantagem, o que na prática observamos não ser o que ocorre.

Para Tostão, ex-jogador campeão do mundo e articulista da Folha de São Paulo, “o futebol brasileiro precisa de técnicos novos, diferentes, que gostem de vencer e de bons espetáculos, que sejam intuitivos, sonhadores e também racionais, científicos e que saibam observar, imaginar, e não apenas repetir informações, estatísticas e estratégias”.

Seria Pep Guardiola este modelo de treinador sugerido por Tostão? Vencedor de 13 dos 16 títulos que disputou como técnico do Barcelona, ele parece preencher todos os pré-requisitos elencados pelo nosso ídolo Tostão. Guardiola não se contentou com a experiência vivida como capitão e símbolo do Barcelona por quase dez anos, foi a Madrid e se diplomou na Escola Nacional de Futebol da Espanha.

Após a formação acadêmica, buscou aconselhamento com os treinadores que admirava e praticaram nas equipes que dirigiram uma forma de jogar ofensiva, detendo a posse de bola o maior tempo possível. Mas o sucesso de Guardiola não se deve apenas à sua experiência como jogador, à determinação na busca de conhecimento científico e no contato com seus mentores.

Os resultados brilhantes conquistados começaram nas categorias de base do Barcelona, em que treinadores competentes lapidam os garotos habilidosos e os preparam para enfrentar as pressões do futebol profissional. Desde muito cedo, sem serem pressionados por conquistas nas divisões de formação, os garotos descobrem que o passe é o fundamento mais importante do jogo coletivo. Percebem que a movimentação constante facilita a ação do companheiro que tem a posse de bola aumentando o número de alternativas para retê-la.

Ver o Barcelona jogar é aprender que um passe bem feito é um drible, não dá chance para o adversário se antecipar, não facilita ações faltosas de jogadores limitados. Na decisão do Mundial de Clubes da Fifa, no Japão, a precisão dos passes não permitiu que os jogadores do Santos conseguissem, ao menos, fazer faltas para impedir que os adversários jogassem.

O Barcelona parece dividir o campo de futebol em várias quadras de futsal, onde os jogadores trocam passes curtos e certeiros culminando com penetrações inesperadas de jogadores versáteis. O jogo pelas laterais acontece com naturalidade envolvendo no mínimo quatro jogadores que decidem pela penetração ou por devolver a bola para o meio-campo e recomeçar a jogada por outro setor.

Pep Guardiola disse, após o jogo, que apenas copiou a maneira de jogar do Brasil baseado nos relatos do seu avô e de seu pai. Brasil que, no passado, tinha nos clubes do interior e nos campos da várzea gerações espontâneas de craques que jogavam sem cobranças por resultados ou por melhores condições para a família que, na época, não via no futebol a salvação financeira.

Além dos aspectos citados, cujas conseqüências são preocupantes, não temos nas divisões de base, na grande maioria dos clubes, treinadores com competência para orientar crianças e adolescentes. O futebol mudou: é muito mais rápido e mais difícil de jogar do que no passado.

A Copa São Paulo de Futebol Junior é um reflexo desta desastrosa realidade – mais de noventa equipes, de diferentes regiões do Brasil, não conseguem revelar jogadores diferenciados como acontecia quando o futebol era praticado com mais liberdade.

Nossos clubes investem muito e errado nas equipes principais e se esquecem que os grandes responsáveis pela formação trabalham nas categorias de base. Pagam fortunas para treinadores nem sempre competentes e salários irrisórios que desestimulam a presença de especialistas em treinamento de crianças e adolescentes.

O episódio do garoto que morreu durante um treino do Vasco, no Rio de Janeiro, retrata bem a realidade. O menino não passou por exames diagnósticos no clube e não teve atendimento médico quando passou mal durante o treino. Diante dos fatos melhor seria se os clubes assumissem sua incompetência para receber garotos sonhadores que buscam oportunidades e, lamentavelmente, só encontram desilusões.

*Prof. Dr. do Departamento de Esporte da Escola de Educação Física e Esporte da USP – Disciplinas Futebol e Futsal

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