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13/05/2019

Base científica

Há um aspecto positivo sobre a polarização que tomou conta do Brasil nos últimos tempos: a despeito dos (condenáveis e muitas vezes execráveis) excessos, nunca se debateu tanto no país. Numa cultura de subserviência em que gerações foram forjadas com base no “sim, senhor”, é extremamente relevante que tudo – e não apenas política – seja pauta de discussão, mesmo que isso alicerce absurdos como o terraplanismo (sobre isso, aliás, recomendo o documentário “A Terra é plana”, “Behind the curve” no original, dirigido pelo norte-americano Daniel J. Clark e disponível na plataforma de streaming Netflix). No entanto, e talvez pela falta de costume, ainda usamos expedientes que nos encaminham para debates rasos e que muitas vezes nos afastam de abordagens com potencial verdadeiramente transformador. Tem sido assim no futebol de “ataque x defesa”, o novo “Fla-Flu” dos absurdos nacionais.

Fernando Diniz, 45, é um exemplo: técnico do Fluminense desde o início do ano, o ex-jogador nascido em Minas Gerais tem formação em psicologia e se notabilizou por um trabalho à frente do Audax, vice-campeão paulista de 2016. Consolidou então uma identidade de jogo baseada em troca de passes curtos desde o campo de defesa, independentemente da pressão sobre quem está com a bola, e carregou esses conceitos em todos os times que comandou na sequência. Levou consigo também uma onda de detratores e de dedos pontos para serem apontados ao treinador a cada revés.

No último domingo (05), o Fluminense de Diniz chegou a estar perdendo para o Grêmio por 3 a 0 em Porto Alegre, virou para 4 a 3, cedeu o empate e conseguiu a vitória no fim do duelo. Se tivesse sido derrotado, o time carioca fecharia a rodada com nenhum ponto em três rodadas e jogaria imensa pressão sobre o treinador, cujo estofo já tem sido colocado à prova desde o início do ano – não conseguiu o título estadual e sofreu para avançar na Copa do Brasil, afinal. Os tropeços acumulados pelo treinador repercutem sempre mais e viram derrotas do próprio estilo, como se ele fosse refém do futebol e das ideias que tenta incutir em suas equipes.

Com o Fluminense de Diniz, o Grêmio de Renato Gaúcho e o Santos de Jorge Sampaoli, o Campeonato Brasileiro já teve pelo menos três grandes jogos em três rodadas. A presença dos três é um sopro de leveza em futebol embebido de pragmatismo, acostumado a priorizar os resultados e discutir apenas a superfície do que cerca o jogo.

A principal razão para os três treinadores serem tão importantes no atual momento do futebol brasileiro é que todos contribuem com pluralismo num contexto em que ainda sobrevivem muitos axiomas baseados em praticamente nada. Todo mundo que acompanha futebol no país convive assiduamente com chavões e frases prontas que arrotam conhecimento.

Tem sido assim no debate sobre poupar jogadores, por exemplo. O técnico do Corinthians, Fabio Carille, disse após a vitória sobre a Chapecoense que havia cometido um erro ao escalar titulares. Segundo ele, o time sentiu falta de força e perdeu capacidade de definição por estar exposto a uma maratona de partidas relevantes.

A entrevista sincera do treinador serviu como mote para retomar um desgastado debate sobre como administrar elencos em um calendário tão opressivo quanto o do futebol brasileiro. No meio disso, pulularam opiniões como “eu sou amador e jogo várias vezes por semana”, “quem ganha salários tão altos não pode estar cansado” ou “no tempo em que eu era atleta não era preservado a não ser que estivesse realmente lesionado”.

O último caso é especialmente importante porque tem a ver com a velha discussão entre conhecimento empírico e conhecimento técnico. Infelizmente, muito do debate esportivo (e não apenas no Brasil) é baseado na experiência de quem esteve no campo de jogo, sem considerar o nível de entendimento que essa pessoa possui.

Ora, o futebol muda radicalmente e constantemente porque o mundo muda radicalmente e constantemente. Situações vividas no passado sempre servem como referência, mas não podem simplesmente balizar sozinhas uma análise sobre um cenário atual.

Reside aí uma das principais questões sobre o excesso de programas de debate sobre futebol na TV brasileira: sobram chavões e opiniões baseadas em conhecimento empírico, mas falta base científica. E isso contribui para a formação de um público acostumado a discussões rasas, enfadonhas e contraproducentes.

No fim, perde o produto como um todo: o jogo se torna mais denso, mas o grande público consumidor não ultrapassa a superfície. A busca pela audiência fácil e pronta para receber o conteúdo cria nos produtores uma visão de que o palatável é o acertado, e o palatável nem sempre é bom para o longo prazo.

É a polêmica do advento de mídias sociais: o tempo médio de leitura da população mundial certamente aumentou nos últimos anos, mas o tipo de leitura é a questão. Pessoas que leem mais não significam necessariamente pessoas mais inteligentes.

A formação de massa crítica depende substancialmente da construção de raciocínio, e isso está necessariamente atrelado à capacidade de interpretar números e dados científicos. Resta saber quando a mídia esportiva no Brasil vai entender que isso, e não os debates inócuos, é o principal caminho para formação de público consumidor para o esporte no país.

 

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