Universidade do Futebol

Geffut

18/04/2010

Basta nascer com talento ou deve-se o rendimento ao treinamento?

Ouve-se frequentemente em conversas de botequins os famosos “filósofos da bola” apontando determinados fatores para a vitória ou derrota das equipes que torcem: por exemplo, péssimas contratações, grupo desunido, treinador “burro”, preparador físico incompetente qu,e na visão desses “filósofos”, não transformou os atletas em “burros de cargas”, entre outras pérolas.

No entanto, mais intrigante ainda é a “cansada” frase dos “famosos centros de debates futebolísticos”: aquele jogador é “ruim”, é “fraco”, é “peladeiro” porque não nasceu com dom. O pior é que muitos professores, treinadores, “supostos” estudiosos do futebol, entram de cabeça no debate e criam teorias conspiratórias que ajudam a confirmar esse questão de rotular o talento – há apenas ao famoso dom.

Será que esses sujeitos estudam realmente o futebol? Buscam entender o fenômeno? Ou apenas reproduzem premissas que são passadas de geração a geração?

Mas aprofundando o tema central do texto, é evidente que se nasce predisposto a fazer determinadas tarefas, mas não se chega ao alto nível se não existir um ambiente repleto de situações-problemas a ser ultrapassado em um longo período de prática. Por exemplo, imagine Pelé, Garrincha, Cruyff, Zico, Zidane, Maradona, os três Ronaldos, “congelados”, sem infância, colocados após um longo período na geladeira dentro de um campo de futebol, lá pelos 15 anos, o que aconteceria? Agora imagine esses atletas citados e suas repletas experiências infantis, seus engramas percepto-motores bem adquiridos com constantes progressões para níveis de aprendizado mais avançados, o que aconteceria, ou melhor, o que foi presenciado?

Esses jogadores tornaram-se craques, não por nascerem com talento ou terem treinado junto, trocado experiências, mas devido ao meio propício de cada realidade que estiveram inseridos. Assim, o talento marca-se pela complexidade. Muitos desses craques jogavam na mesma posição, mas as vivências e os estímulos individuais os tornaram diferentes, com características diferentes, em função da variabilidade e da diferenciação do aprendizado.

Nesse contexto, para se ser jogador de alto rendimento é imprescindível o treino, não bastando apenas nascer com talento. Mas que treino é necessário? Essa é uma das questões fundamentais. Pelé, Garrincha, Cruyff, Zico, Zidane, Maradona e os três Ronaldos, tiveram longos anos de treinamento com o fantasminha, com o cachorro, com o buraco, com o morro, com a parede, com o telhado, com o vizinho mais velho, com o irmão e pai, cada um em seu ambiente, interagindo com companheiros às vezes fictícios, mudando de solicitações diariamente. Assim, buscando resolver seus problemas em seus campinhos de várzea, de concreto, de terra, criando jogos e brincadeiras, lapidaram um acervo de habilidades (perceptivas-técnicas-motoras-mentais), para posteriormente colocarem em prática no futebol formal.

A partir desse entendimento, questiona-se: será que os jovens atuais não estão nascendo com talento ou os mesmos não possuem estímulos corretos e são condicionados a programas de treinamentos inadequados, com excesso de atividades de cunho mecanicistas e incompatíveis com a realidade complexa do futebol, já que o desporto-rei atual mais se parece com atletismo e musculação do que um jogo?

Evidente que não se pode voltar no tempo e buscar uma formação libertadora e rica como Pelé, Garrincha e Cruyff tinham, em virtude de vários fatores inerentes à evolução urbano-social, mas se podem utilizar várias atividades e vários preceitos daquele modelo de construção de talentos, no futebol atual, principalmente nos primeiros anos de prática.

Portanto, deve-se entender de uma vez por todas que o talento é construído, que o ambiente e os estímulos definem a formação do atleta, além disso, deve-se também entender que talento é muito mais que jogar individualmente, fazer embaixadinhas, dribles inoportunos que nada acrescentam para a equipe. Talento é ser inteligente, é antecipar, é tomar decisões corretas, ser imprevisível e possuir um repertório de respostas diversificadas, que resolvam as constantes situações-problemas nas diversas configurações que o jogo vai impondo e sempre em prol do coletivo.

Mas e o tal do amigo-dom? Esse vai continuar existindo e sendo freneticamente comentado nos “cantinhos de debates futebolísticos”. Agora, respondendo àquelas perguntas no inicio do texto, crê-se que os profissionais da área que participam desses debates devam fazer amizade com um novo “dom”. Esse novo “dom” é o de edificar urgentemente estudos científicos críticos que respeitem a verdadeira natureza do futebol, sem ficar presos a antigos e falsos dogmas.
 

Quando hoje vemos os lances encantados de Ronaldo ou Messi, conseguimos imaginá-los a fazer o mesmo como crianças. Na rua ou na escola. As leis do futebol, e da vida e normas sociais, não são, porém, um habitat acolhedor. E nem todos são gênios. O olhar desconfiado e a criatividade nasça da formação até à idade adulta, mas o diagnóstico só muda a vida (a carreira do jogador) se feito na origem.

O jogador mais inteligente e o jogador mais criativo são conceitos que se cruzam. Pela diversidade de soluções que dá ao jogo, pela dinâmica que lhe imprime, pela diferença que faz nele. É nesse triângulo (diversidade-dinâmica-diferença) que se define a inteligência. Como do grande jogador de futebol. Mas, hoje, os jogadores estão a ficar todos demasiado iguais. Por isso, a razão das equipas, em campo, tantas vezes não descobrirem soluções para o jogo.

No futebol de rua, todos nos imaginamos criativos com a bola. Na primeira infância ninguém pensa como um zagueiro ou volante. São as raízes do talento. Era por isso que Romário dizia que “o melhor treinador é aquele que não atrapalha!”.

(Luis Lobo Freitas)

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