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26/07/2007

Bicicleta de Pelé ´supera´ Leônidas e é objeto de estudo

O chute de bicicleta, no futebol brasileiro, é prontamente associado ao ex-atacante Leônidas da Silva. No entanto, o Diamante Negro não foi escolhido como objeto de estudo pelo professor Marcos Duarte, da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da Universidade de São Paulo. Em vez disso, o pesquisador resolveu analisar a bicicleta de um outro jogador: Pelé, considerado o maior de todos os tempos no futebol mundial.

A primeira justificativa para Pelé ter sido escolhido como objeto do estudo é que o ex-camisa 10 da seleção brasileira tem muito mais imagens documentadas do que o desempenho de Leônidas da Silva, que encerrou a carreira em 1951.

Além disso, Duarte considera o lance de Pelé como um aperfeiçoamento da bicicleta, que tem origem contraditória. Leônidas da Silva garantiu sua condição de inventor do lance, mas alguns dão o crédito a Petronilho de Brito. O próprio Duarte, em sua pesquisa sobre esse tipo de chute, definiu o espanhol Ramon Unzaga (que vivia no Chile) como o precursor da bicicleta.

“A primeira bicicleta que se tem notícia foi dada pelo Ramon Unzaga em 1914, quando o Leônidas tinha só um ano! A gente tem a falsa idéia de que o lance foi inventado por um brasileiro, mas esse é um pensamento ufanista e diferente da realidade dos fatos”, ponderou o pesquisador da USP.

Em sua pesquisa, Duarte observou todos os elementos biomecânicos para entender a eficiência da bicicleta dada por Pelé: “Várias pessoas copiaram e reproduziram com perfeição depois, mas foi ele quem aperfeiçoou mais o movimento. De lá para cá, não vejo grandes mudanças no lance da bicicleta”.

O principal diferencial da bicicleta de Pelé é justamente a principal razão do estudo de Marcos Duarte. O ex-jogador do Santos foi quem mais utilizou a troca de pernas no ar, levantando primeiro a esquerda para depois chutar de direita.

“Eu olho para bicicletas há muito tempo. Primeiro veio um encanto com esse lance, que é um dos mais plásticos do futebol. Depois veio a razão, e eu quis saber o porquê de as pernas cruzarem no ar. Por que o destro eleva primeiro a perna esquerda para bater de direita, como o movimento de uma tesoura? A razão é só estética ou existe algum significado mecânico, para melhorar a eficiência?”, questionou Duarte.

Diante de tantas dúvidas, o pesquisador pegou imagens de Pelé para analisar os componentes físicos. “Os melhores registros em vídeo de bicicletas aconteceram do Pelé para frente. Para fazer o estudo completo, precisei saber as dimensões reais do movimento, que não pode ter um ângulo distorcido [precisa ser filmado a 90 graus] e tem que ter elementos de comparação das dimensões reais. Preciso saber quantos centímetros de tela correspondem a um metro real”, lembrou.

A razão da troca de pernas

A pesquisa realizada por Marcos Duarte chegou a dois motivos para justificar a troca de pernas no ar durante a bicicleta. A primeira é a manutenção da estabilidade do corpo, e a segunda é o aumento da velocidade do chute.

“O princípio fundamental é que a quantidade de giro se conserva. A quantidade de giro é o resultado da multiplicação da velocidade por alguma coisa como a massa de giro, já que quanto maior é a massa da pessoa, mais ela tem para girar. Uma vez no ar, desprezando a ação do atrito, se o jogador girasse apenas a perna direita para o chute, o corpo dele viraria para o sentido contrário e o movimento seria prejudicado”, avaliou o pesquisador.

Por conta disso, a troca de pernas no ar serve para anular o giro feito e manter o corpo estável. “Se o chute for feito apenas com um dos pés, isso vai causar uma rotação no tronco. E se isso acontecer, o jogador acaba perdendo o referencial da bola, perdendo a angulação da visão. O uso do chute de tesoura faz com que a quantidade de giro de um pé anule a quantidade do outro. Assim, o corpo fica parado”, ponderou Duarte.

A comparação feita por Duarte é com o trabalho de um guindaste: “É a mesma relação de contrapeso. A diferença é que, no lance da bicicleta, isso acontece em movimento. O princípio é a conservação da quantidade de movimento angular”.

A manutenção da estabilidade do corpo, contudo, não é a única razão para a troca de pernas que acontece durante a bicicleta. Além disso, o jogador que realiza esse tipo de lance ganha velocidade e potência no chute.

“Quando você gira no sentido contrário, ganha mais força na perna que sobe depois porque o tronco está parado. Então, você acaba fazendo o movimento com mais velocidade e mais potência. O movimento é complexo, porque você precisa sincronizar o movimento de duas pernas e o da bola. Mas se é realizado com perfeição, o chute sai com muita potência”, comentou o professor da USP.

A evolução e a consolidação

A perfeição da bicicleta de Pelé foi tão grande que atualmente, o chute é conhecido nos Estados Unidos como “Pelé?s kick” (“chute do Pelé”). Por conta disso, Duarte escolheu se ater aos movimentos do maior jogador de todos os tempos.

“Existem outras pessoas que fizeram o lance muito bem, como o próprio Rivaldo, mas o Pelé foi o que obteve maior repercussão internacional. Se você analisar algumas das bicicletas que o Leônidas fez, hoje em dia elas seriam chamadas de puxada ou algo do gênero”, sentenciou Duarte.

Além da perfeição do lance de Pelé e do fato de ele ter concebido o movimento como é realizado até hoje, o pesquisador apostou no nome do Rei: “Indiscutivelmente, a presença dessa marca dá mais visibilidade ao trabalho. Mas se fôssemos ser justos com a história, teríamos que falar do espanhol [Ramon Unzaga]”.

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