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Era apenas mais um domingo de jogo para os ratos de praia, mas vejam só o que aconteceu!

Minduim acordou cedo e passou na casa do Guaiazinho para eles se prepararem para o “clássico a beira mar” contra o Risca Faca, um dos mais tradicionais times da orla caiçara. Guaizinho, como sempre, tranquilo que ele só, ainda dormia o sono sagrado quando, de repente, foi sacudido da cama pelo Minduim:

“Acorda, Guaiá, a casa ta pegando fogo!”.

“Minha nossa”, exclamou o menino pulando da cama como se estivesse no maior apuro. Só sossegou quando se deparou com um Minduim se acabando de rir:

“Poxa, Minduim, isto não se faz. Eu estava dormindo e sonhando com o clássico de hoje e você dá uma desta? Poxa, amigo!”.

Minduba ainda se contorcendo de rir, respondeu: “Mas, rapaz, você parecia um urso embernando, hahahahahaha! Não tive outro jeito a não ser falando que a casa tava pegando fogo”.

Mas olha que menino danado!

“Levanta rápido. Vamos lá tomar aquele café que só a sua mãe sabe fazer, Guaiá. Minduim, você só pensa em comer, é?”.

“Não, não, eu também penso em jogar bola Guaiá, mas só depois de encher a pança!”.

Tomaram, então, o café e foram para frente da casa esperar o restante do time para concentração da manhã. Pois o jogo estava marcado para a tarde no período da maré vazante.

E até lá teriam tempo de sobra para aprontar a vontade…

Após a chegada de boa parte do grupo, resolveram ir até a beira da praia para brincar um pouco e aproveitaram para treinar algumas jogadas. Mas com o passar das horas o sol estava muito forte, pois era quase meio-dia e eles, já na sombra do chapéu de sol (também conhecida como amendoeira), resolveram só conversar sobre o jogo da tarde.

Lembraram da ultima partida contra o Risca Faca.

Paulinho Perneta falava do entrevero entre a torcida adversária e o Chico Frango, que naquele dia substituiu o nosso goleiro titular que estava de castigo por ter jogado a sua bota ortopédica no riozinho depois que a galera caiu na pele dele chamando-o de “astronauta caiçara”. Pois é, a gurizada não alivia por aqui.

Chico lembrou que no último minuto do jogo o juiz (barriga de Guarú), apitou um pênalti pra lá de duvidoso contra nós que até aquele momento ganhávamos a partida por 2 a 1.

Quando o time todo foi pra cima dele reclamar da marcação, ele disse simplesmente que o apito lhe pertencia e ele apitava o que lhe parecesse certo. Olha que descarado! Neste momento, a mãe do Zeca mula manca (o zagueiro açougueiro do time deles), gritou da beira do campinho: “Valeu, Guarú, depois você passa lá em casa para almoçar aquele pirão de peixe que tanto me pediu”.

Quando o Chico ouviu o que ela disse, emendou de primeira: “É, seu juiz, tomara que você se engasgue com a espinha do bagre hahahahahahaha… Não ha farinha de mandioca que dê jeito”.

O Guarú ficou vermelho que nem tié Sangue (passarinho da região) e correu atrás do Chiquinho… Mas gordo que ele só, tropeçou no próprio pé e caiu de cara na areia. Foi só risada dos dois lados do campo. Aliás, dos quatro lados né… Pois a torcida toda ria sem parar.

Enfim… Quando resolveu bater o pênalti (uns 30 minutos depois de apitado), o Chico disse para o nosso capitão que iria pegar o chute. O melhor atacante deles era o camisa 8 cujo nome nem me lembro, acho que era um tal de Dadá Maravilha, se não me engano. Que seja!

Ele preparou com cuidado, ajeitou bem a bola no montinho de areia, e quando tomou distância para chutar… Eis que surge o King, que após atravessar o campinho, apavou todo mundo. Abocanha a bola e sai em disparada em direção ao mar, meu irmão foi uma correria doida, uns para recuperar a bola da boca do King, um vira lata mestiço com dog alemão, que acima de tudo amava, digo, amava estourar na dentada as bolas de futebol que caiam no quintal do Sr. Juca Pitanga. Ele era o terror da praia da frente. Quando escapava, ele acaba com a alegria da gurizada. Destruía tudo que via pela frente. Comia até a latinha de linha de empinar pipas. As pipas, então, ele comia com vareta e tudo. Até as bolinhas de gude o danado do cachorro engolia.

O bicho não era mole, não! Já a outra parte corria de medo do King. Entre eles, o Chico que já guardava na lembrança e na pele (cicatriz) o resultado do último encontro com o cão.

O Crispim, que estava assistindo o jogo, correu até a casa do Sr Juca e chamou o Tito (filho dele) para resolver a zoada. Mas o rapaz não gostava muito nem do cachorro do pai e muito menos de futebol, aí já viu a disposição para ir atrás do cachorro, foi em passos de tartaruga.

Moral da história: uma hora depois de apitado, a bola babada pelo King e molhada de água do mar foi enfim colocada na marca do pênalti para a cobrança.

O juiz apitou e lá foi o Dadá: fechou o olho e pimba!

Mas deu uma bicuda tão forte, mas tão forte, que além de cair sentado, mandou a bola lá pra dentro do manguezal que ficava bem atrás do gol. Aí nós comemoramos até… Digo até por que foi bem assim mesmo, até o juiz inventar que alguém invadiu a área. Qual área eu não sei, porque nem tinha marcação de área nenhuma e nunca teve. Mas como a última palavra era dele, pronto. Só que a bola, lembra-se dela? Foi parar no mangue. E quem iria entrar lá pra pegá-la?

Nesta hora, o Guaiazinho deu a ideia:

“Gente, vamos lá e pedimos para o Tito soltar o King e jogamos um pauzinho na direção da bola no mangue e ele com certeza traz pra gente”. Que ideia brilhante!

“Nada disso!”, disse Chico Frango, feliz da vida por ter visto a bola ir pra bem longe do gol defendido por ele. “Nada disso! Eles é que se preocupem com a bola, Guaiá parece até que você joga pra eles, rapaz. Deixa eles se virarem com isto, não se mete não!”.

“É verdade”, todos disseram, “é verdade”.

Mas Minduim já emendou logo: “que nada, pois se a bola ficar no mangue o jogo não acaba hoje e minha mãe tá fazendo uma feijoada deliciosa. E eu pelo ronco da barriga já estou atrasado para o almoço”. “Hahahahahaha”, todos caíram na gargalhada de novo. Eta, Minduba, o famoso pança vazia!

Conversa vai, conversa vem. Eis que surge outra bola no campinho para recomeçar o jogo da marca do pênalti. De novo o Dadá se prepara, ajeita de novo com carinho a bola e pimba!

De novo a bola vai pra longe do gol! A esta hora até a torcida adversária já estava cansada de esperar o apito final. “Ei, Guarú, apita logo este fim de jogo, o pirão vai esfriar rapaz!”, disse a mãe do Zeca. “E manda este cara aí colocar o pé na forma, viu, e da próxima vez ele não bate mais o pênalti, não! Mas não bate mesmo! Nem por decreto!”.

O futebol tem cada coisa, né? Até mesmo um simples joguinho a beira mar vira uma história daquelas. Bom, mas a história agora é outra e eles estavam na sombra da amendoeira esperando o tempo passar. Tempos (hora e meia) depois, a molecada resolveu brincar de “joga a lata”, só que em vez de lata, eles utilizariam a bola dente de leite do time.

O Minhoca (amigo novo da turma) foi o primeiro pegador da brincadeira. Guaiá deu um chutão em direção ao mar e todos saíram correndo. O Minhoca correu atrás da bola e quando conseguiu pegá-la, se virou e… “ué cadê a molecada?”.

Como ele era novo na turma, não conhecia muito os lugares de esconde da galerinha. E boa parte estava em cima do abricoeiro e da amendoeira velha. Outros se enfiaram nas flecheiras do mangue e os mais atirados mergulharam no riozinho e ficaram só na espreita. “Quando fica muito difícil perde a graça, né?”.

E depois de algum tempo procurando, o Minhoca se cansou e desanimou. O Minduim, de tanto que demorou, até dormiu no galho da velha amendoeira e quase caiu da árvore.

Pouco depois começaram uma discussão sobre se era certo o que fizeram com o pobre do Minhoca, fizeram ele de bobo literalmente. E a brincadeira
por isto nem aconteceu do jeito que esperavam. O Zequinha disse que quando estava no intervalo da escola, no rachinha da molecada, acontecia a mesma coisa na escolha dos times. Era sempre um time muuuuiiitttoo forte (que eles chamavam de panelinha) e o outro mmmuuiiittoo fraco. Fato que dava ao jogo um desequilíbrio que fazia com que as crianças perdessem o interesse em jogar. Pois não havia uma disputa justa.

“Os que ganhavam sempre comemoravam e os que perdiam sempre reclamavam que foi desleal”.

Segundo Zequinha, chegou um dia que os meninos do time mais fraco não quiseram mais jogar. E aí, sabe o que aconteceu? Não teve mais jogo. O Zequinha deu uma verdadeira aula de como devemos nos posicionar para brincar legal. Não demorou muito para a barriga do Minduim dar o alerta!

“Gente, gente tá na hora da bóia e é bem melhor almoçar mais cedo e aí voltamos a nos reunir para descansar à sombra da amendoeira para esperar a hora do jogo, o que vocês acham da ideia?”.

“Legal!”. Todo mundo topou de primeira! Acredito que estavam todos com muita fome. Pois brincar na praia dá uma fome danada, mesmo.

Domingo é realmente um dia especial, né? Pode até chover que ele não perde o encanto!

“Não fale em chuva, gente, vire esta boca pra lá, afinal o jogo contra o Risca Faca vai ser na beira da praia e lá, se chover, fica liso que nem quiabo. Fica difícil de parar em pé!”.

O time deles está mais acostumado a jogar nestas condições.

É que o Risca Faca é tradicionalmente formado por filhos de pescadores, que moram a beira-mar, e passaram a infância toda brincando por ali no lagamar, sabem tudo daquele local!

Mas jogo é jogo!

E o nosso time também tem o conhecimento local. Afinal, somos os Ratos de Praia! Embora em nosso time tenha mineiros (como o Minduba), e algumas crianças que vieram de outras regiões do estado. Mas o restante é formado por caiçaras e freqUentadores assíduos da praia da frente, acostumados a jogar no campinho da beira-mar.

Após o almoço, cheguei primeiro no local determinado pelos meninos, sentei e fiquei pensando em uma estratégia para o jogo da tarde! Chamei até o meu primo Chiquinho que é inteligente pra chuchu (joga xadrez como ninguém) para nos ajudar nesta tarefa. Primeiro, ele pediu para desenhar o campinho e depois disponibilizamos os times. Chiquinho pediu para eu descrever a característica de cada jogador dos dois times e aí ele ficou procurando a melhor maneira de nos posicionarmos frente a eles.

Assim que o pessoal ia chegando, sentavam ao redor do campinho desenhado por nós e ficavam observando as variações criadas pelo Chico. Depois que todos já se encontravam à sombra da amendoeira, ele começou a explanação.

“Vejam, gente! Vocês têm que se defender primeiro e depois atacar com segurança. No xadrez é importante fechar o meio e proteger o rei. Aí, no caso de vocês, seria bom marcar mais pelo centro, já que nas beiras do campo fica difícil para a bola rolar, devido aos acidentes naturais. Ou seja: por lado, temos a água do mar, e pelo outro a areia fofa. Então temos que proteger o centro mesmo. Daí podemos nos posicionar mais juntos! E sair na boa, na velocidade. Vejam que pelo meio saímos mais velozes, e pelas pontas com mais lentidão”.

“Caraca, agora temos um assistente técnico à altura do Sr Osvaldo. Hahahaha!”.

“E aí, todos entenderam?”. E a galera disse: ”sim, é claro, vamos fechar o meio e deixamos o Meio Kilo lá na frente, pra explorar a velocidade dele”.

No papel parece fácil, aliás, na areia, né?. É que nós riscamos na areia. Mas vamos tentar fazer. Mesmo que no inicio não dê certo. Porque senão a gente não aprender a fazer as coisas direito.

“Aprender a pensar o jogo já uma ótima ideia”, disse um empolgado Chiquinho, que a partir daquele momento passou a ser visto não só como um nerd, boboca, mas também como integrante da comissão técnica dos Ratos de Praia. Que evolução para ele… Da noite para o dia! Que legal, agora nós já temos até uma comissão técnica!

Agora ninguém segura mais os Ratos de Praia!

Sentíamos mais preparados para o jogo, almoçamos bem, brincamos bastante de manhã e recebemos informações pra lá de importantes. Só faltava o time deles chegar, o juiz apitar e pronto. O Dimba dar uma bicuda na bola e como sempre soltar o grito de guerra dos guaiás:

“Vamos gente! Bola pra frente que atrás vem gente!”.

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