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A cena marcou a última rodada do Campeonato Brasileiro de 2015, disputada no último domingo (06): segundos após o início das partidas, jogadores cruzaram os braços e permaneceram assim por alguns instantes, sem movimentar a bola. Organizado pelo Bom Senso FC, o protesto foi a forma que os atletas encontraram para pedir a renúncia de Marco Polo del Nero, presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que se licenciou do cargo na quinta-feira anterior (03). Não podia haver simbolismo mais claro: os esportistas podem discordar e cobrar mudanças no status quo do esporte, mas estão de braços amarrados pela estrutura em que estão inseridos.
Del Nero pediu licença depois de ter sido indiciado pela Justiça dos Estados Unidos em processo que investiga desvios de dinheiro em contratos relacionados ao futebol. A investigação também incluiu Ricardo Teixeira, ex-presidente da CBF, e já havia resultado na prisão de José Maria Marin, outro que passou pelo cargo. Todos os presidentes que a entidade teve nos últimos 26 anos respondem a processos por crimes como corrupção e formação de quadrilha.
Se tivesse renunciado, Del Nero entraria o cargo a Delfim Peixoto, vice-presidente mais velho da CBF e adversário político do atual mandatário (sim, nas entidades esportivas também há composições em nome da governabilidade). A licença, que não tem prazo para terminar, deu ao mandatário a possibilidade de indicar um substituto. Ele indicou Marcus Antônio Vicente, que presidiu durante duas décadas (de 1994 a 2005) a fortíssima Federação Capixaba de Futebol.
Marcus Vicente também é deputado federal (PP-ES) e comandou no Congresso a bancada da bola. Foi o responsável, por exemplo, por minar a pedido da CBF a articulação em torno da Medida Provisória 671, a MP do Futebol, que oferecia um refinanciamento de dívidas fiscais aos clubes em troca de adequações de gestão.
A convocação de novas eleições na CBF seria viável apenas em caso de afastamento de todos os vice-presidentes, cenário extremamente improvável. Ainda assim, o estatuto da entidade segue impondo restrições para que o espectro de candidatos não saia do grupo que já faz parte do poder do futebol brasileiro.
Um candidato precisa ter apoio de oito federações estaduais e cinco clubes para concorrer à presidência da CBF. No entanto, a entidade nacional está entre as principais provedoras (política e financeiramente) de federações e clubes. Como desenvolver assim um modelo viável de oposição, então?
O enfraquecimento de Del Nero dá até margem a isso. A cisão com Delfim Peixoto e o surgimento da Primeira Liga têm aglutinado federações e clubes que não estão plenamente alinhados com o comando da CBF. Mesmo se eles conseguirem montar um grupo de oposição, porém, será que isso é suficiente?
A questão que todo esse cenário nos oferece é mais ampla do que o nome de quem comanda a CBF. O afastamento de Del Nero é a confirmação de que o sistema de comando do futebol brasileiro está obsoleto, corrompido e inviável.
Perderemos tempo se continuarmos discutindo o nome do presidente da CBF ou caminhos para ter outro ocupante no cargo. Não é uma questão de nomes ou de posicionamento político, mas de estrutura. O futebol brasileiro precisa discutir a estrutura.
Nesse contexto, o surgimento da Primeira Liga é uma boa notícia. O grupo ainda não tem posicionamentos ou ideais claros, mas parte de uma premissa que se provou acertada em outras grandes ligas esportivas: os clubes precisam tomar o poder.
Contudo, a Primeira Liga ainda é formada por uma maioria de dirigentes amadores. Muitos deles estiveram atrelados ao que existiu de pior na CBF e na condução do futebol brasileiro nos últimos anos. Além disso, falta representatividade de outras classes.
Um dos segredos das grandes ligas esportivas dos Estados Unidos – que também tem funcionado bem na Premier League, por exemplo – é a representatividade. Os grupos que tomam decisões sobre o futebol local incluem jogadores, treinadores, jornalistas, árbitros e todas as outras categorias associadas ao espetáculo. Todos têm perspectivas diferentes e podem ser úteis para a construção de um cenário melhor.
Se quiser aproveitar o momento e evoluir, o futebol brasileiro precisa criar fóruns mais amplos. Precisa incluir jogadores (e não apenas os inócuos sindicatos), aproximar técnicos, colocar dirigentes na mesma mesa de árbitros e fomentar discussões que pensem no esporte nacional como um todo.
A CBF deve ser uma parte desse processo, é claro, mas não pode estar numa hierarquia superior. O bem do futebol brasileiro depende de uma estrutura mais democrática e mais inclusiva.
Nesse sentido, o protesto dos jogadores na última rodada do Campeonato Brasileiro foi simbólico: há ideias, há boas discussões e há evolução no posicionamento de atletas sobre o futuro do esporte. Ainda faltam ações concretas, algo que tem marcado o Bom Senso FC desde a criação do coletivo de atletas.
Essa é uma cobrança mais direcionada aos atletas porque essa é a classe que se destaca em termos de organização e posicionamento. Treinadores, árbitros, dirigentes, jornalistas e outros grupos ainda não atingiram grau de maturidade similar ao do Bom Senso FC.
O que falta agora é que algum desses grupos realmente roa a corda. Falta um protesto mais incisivo – a tão alardeada greve, talvez. A ocupação de escolas em São Paulo, movimento liderado por estudantes contra o terrível plano de “reorganização da educação” desenvolvido pelo governo estadual, é um exemplo de que o pequeno poder pode fazer um barulho real.
Depois de reprimir de forma violenta e tentar politizar os atos contra o fechamento de escolas, o desastrado governo de Geraldo Alckmin (PSDB) se dobrou e cancelou o plano de reorganização. A decisão causou a saída de Herman Voorwaald, que ocupava a Secretaria de Educação do Estado.
Cerca de 200 escolas foram ocupadas por alunos em São Paulo. Os grupos não se desmobilizaram nem depois do anúncio de Alckmin e da saída de Voorwaald. “Achamos que estamos tomando mais um golpe”, disse Angela Meyer, presidente da União Paulista de Estudantes Secundaristas (Upes), ao portal “G1”.
Em teoria, os alunos são muito mais fracos do que jogadores, treinadores ou outras categorias que fazem parte do status quo do futebol brasileiro. Nesse caso, o que falta é ruptura. O diálogo é sempre o melhor caminho, mas às vezes é preciso dar um empurrão para que ele aconteça nas bases adequadas.
E para isso não adianta cruzar os braços.

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