Universidade do Futebol

Colunas

27/01/2018

As brincadeiras querem voltar ao treino

As brincadeiras nos fizeram não só melhores jogadores, mas nos fizeram mais felizes

Quando analisamos o histórico do desenvolvimento do futebol brasileiro presumo que os métodos de treino foram inseridos sistematicamente quando já éramos bi ou tricampeões mundiais. Antes disso, o jogo de futebol já havia se difundido pelo país e já estava inserido como parte da cultura social e da cultura corporal movimento.

O futebol era jogado no contexto da prática informal, do jogo livre, em cenários ausentes de escolas de esporte, portanto, ausente de professores. O jogo em si começou a se manifestar em formas menores, através de brincadeiras, nas adaptações que o contexto informal fornecia. O campo, as regras, os objetivos das brincadeiras foram todos criados não se sabe por quem. Pela sociedade, digamos assim. Algumas destas brincadeiras tornaram-se conhecidas em grande parte do Brasil.

O livro do professor Alcides Scaglia, “O futebol e as brincadeiras de bola”, nos mostra quão profícua foi a relação entre as pessoas e o ambiente (Scaglia, 2011). Essa relação contribuiu, em parte, com o estilo de jogador brasileiro e com a maneira de jogarmos futebol.

Tantos jogos foram criados que temos hoje uma abordagem própria de ensino do futebol através de brincadeiras e jogos: a “família dos jogos de bola com os pés” (Scaglia, 2011). Essa abordagem de ensino atende aos critérios dos mais recentes pressupostos da pedagogia não-linear, da literacia motora, entre outros. Entretanto, mesmo depois de já ter sido estudada por pesquisadores brasileiros, é um tesouro que os treinadores de futebol desconhecem ou teimam em subvalorizar e não incluem em seus programas de treino.

Ao longo das últimas décadas deve ter sido proporcional o aumento no número de professores/treinadores com a diminuição das práticas informais. O ambiente de aprendizagem que antes era caótico, inclusive ausente de professor, foi superado pelo aparecimento de escolas de esporte e clubes.

A prática de futebol passou a ter uma formatação de algo “sério” e houve um aumento da “mecanização do jogo” no treino formal, como apontam alguns estudos (Scaglia, 1999). Sem nenhuma variável mensurável para provar, me arrisco a dizer que ficou menos divertido também.

E se diversão é um contexto do mundo “fantástico”, a imaginação passa a ser menos estimulada. Sendo a imaginação um elemento precursor da criatividade, característica do jogador de futebol brasileiro, é normal que o número de jogadores criativos diminua. Talvez esse seja um comentário que ouvimos de treinadores, jornalistas e torcedores saudosistas hoje em dia. Portanto, é preciso ressignificar algumas práticas históricas. Ressignificar implica em adaptar estas práticas.

A família de jogos de bola com os pés é uma abordagem não-linear de treinamento e deveria ser divulgada no mundo inteiro, assim como é o teaching games for understanding, o constraints-led approach, a aprendizagem diferencial, entre outras abordagens metodológicas estrangeiras. O problema é que ainda não documentamos e divulgamos o suficiente para fazer valer a força do nosso produto pedagógico.

Se nós não resgatarmos essa boas práticas, elas vão se perder e as próximas gerações não vão vivenciar àquelas brincadeiras que nos fizeram não só melhores jogadores, mas nos fizeram mais felizes. Crianças se conectam com o jogo pelas sensações, sentimentos, sintonias, visto que não são tão racionais. E quando se conectam com o jogo dessa maneira levam a prática de futebol e a atividade física para a vida toda.

Anos atrás refleti e me vi muito preso a metodologias europeias. Depois de me dedicar a estudar mais autores brasileiros e do período de onze meses morando na Colômbia comecei a resgatar mais traços do futebol sul-americano e inseri-los nos treinos. O treino, ao meu ver, ficou mais rico e mais contextualizado.

Sendo assim, a brincadeira precisa ser (uma das) referência(s), precisamos nos enxergar enquanto produto histórico-cultural, enxergar o contexto atual e ser capazes de criar um modelo que se adeque às nossas necessidades, por uma pedagogia do futebol brasileiro.

Portanto, boas práticas de outras culturas também devem ser aproveitadas. Porém, treinador, “criar é ouro, copiar é prata”. As “nossas” brincadeiras querem voltar ao treino.

Pontos-chaves para o treinador

– As brincadeiras de bola surgiram de um contexto ausente de professores e são o início da nossa construção pedagógica.

– Estão alinhadas com os pressupostos das mais recentes abordagens de ensino, portanto, promove ganhos das habilidades e inteligência de jogo.

– São divertidas e permitem trabalhar aspectos sócio-afetivos entre os jogadores.

– Os jogadores se sentem confiantes para arriscar enquanto jogam.

– Estimula a criatividade e a descoberta de diversas formas táticas e técnicas de resolver os problemas do jogo.

– Proporciona que os jogadores criem uma relação emocional com o jogo de futebol que pode, inclusive, perdurar sob seus hábitos de vida a longo prazo.

– Faz parte da pedagogia do futebol brasileiro, é bem reconhecida pelos jogadores e deve ser valorizada pelos treinadores.

 

Referências Bibliográficas

SCAGLIA, A. J. O futebol que se aprende e o futebol que se ensina. 1999.  (Mestrado). Unicamp, Campinas, SP.

SCAGLIA, A. J. O futebol e as brincadeiras de bola: a família dos jogos de bola com os pés.   PHORTE EDITORA, 2011.

Comentários

Deixe uma resposta