Universidade do Futebol

Entrevistas

21/03/2014

Bruno Faust, preparador de goleiros do Audax

 As mudanças ocorridas no futebol ao longo dos anos acabaram por integrar ainda mais os goleiros ao restante da equipe. Com isso, os jogadores desta posição, além de defenderem a sua meta, agora também são exigidos tanto nos momentos defensivos quanto ofensivos de um jogo de futebol.

E esta evolução do esporte e as novas exigências táticas, técnicas, físicas e psicológicas do jogo também exigiram dos preparadores de goleiros uma nova forma de pensar o treinamento para os futuros arqueiros.

“Penso que a capacidade de antecipação é o ponto central da formação de um goleiro. Atualmente, acredito que a questão da altura é um critério utilizado de uma forma um pouco exagerada nos processos seletivos dos clubes. Com isso, acaba-se privilegiando goleiros que tenham altura, mas que não possuam características como mentalidade vencedora. E, assim, acaba-se descartando alguns bons valores [na formação]”, aponta Bruno Faust, preparador de goleiros do Audax sub-20, em entrevista à Universidade do Futebol.

Formado em Esporte pela USP, o jovem profissional diz que o esporte universitário foi um laboratório muito importante para a sua preparação para o atual cargo no clube paulistano. Ele ainda trabalhou no futebol feminino antes de trabalhar no Audax, onde está desde 2011.

Para Bruno Faust, o importante no trabalho de formação de jovens goleiros é notar a evolução do garoto em relação ao quanto ele está, de fato, inserido dentro do jogo, o quanto ele compreende o que está acontecendo, o quanto está bem posicionado para fazer uma cobertura da defesa e o quanto consegue orientar os companheiros de equipe para um melhor posicionamento.

“Há também a característica da personalidade que também procuramos notar no contato diário com o garoto. Por exemplo, o goleiro tem de ter uma capacidade de antecipação muito grande e, geralmente, o indivíduo mais intuitivo consegue fazer isso. Então, observamos o comportamento dele até fora do campo. Às vezes, um atleta mais introvertido se apoia muito no pensamento. Nestes casos, buscamos criar estímulos para desenvolver essa percepção dele”, completa o especialista.

Nesta entrevista, Bruno Faust ainda falou da sua experiência no time profissional do Audax com o goleiro Felipe Alves e também analisou o processo de detecção e desenvolvimento de talentos para esta posição no atual futebol brasileiro. Confira a íntegra:

Universidade do Futebol – Qual a sua formação? Como você se preparou para assumir o atual cargo no Audax?

Bruno Faust – Eu me formei no curso de Esporte da USP, entrei em 2002 e terminei em 2007. Mas, comecei no futebol através da Portuguesa de Desportos em 2001, depois me envolvi bastante com o esporte universitário, que foi um laboratório importante para a minha preparação.

Em 2006, eu fiz estágio no Corinthians com o [preparador de goleiros] Flávio Tenius e voltei para o competitivo trabalhando no futebol feminino. Nesta modalidade, trabalhei na USP, no Mackenzie e no Nacional. E, neste último clube, também trabalhei nas categorias de base no masculino. Depois, ainda voltei para o futebol feminino quando atuei no Centro Olímpico, que é o atual campeão brasileiro.

Em 2011, apareceu a oportunidade de vir atuar no Audax, que na época ainda era o Pão de Açúcar. E desde então, estou aqui no clube, onde passei por todas as categorias de base e também tive uma experiência no profissional recentemente, quando participei da preparação do elenco para o Campeonato Paulista deste ano até as primeiras rodadas.

Também estou sempre lendo bastante, inclusive o site da Universidade do Futebol é uma fonte para mim, leio artigos científicos, de vez em quando vou lá na biblioteca da USP e procuro algum material. Outra coisa importante neste processo de formação é o contato com outros profissionais. Sempre troco informações com colegas de profissão.

Faust trabalhou no esporte universitário, fez estágio no Corinthians com o [preparador de goleiros] Flávio Tenius, e atuou no futebol feminino, na USP, no Mackenzie, no Nacional e no Centro Olímpico, que é o atual campeão brasileiro da modalidade

Universidade do Futebol – Como são planejados, executados e avaliados os treinamentos dos goleiros no Audax? Explique um pouco sobre as atividades cotidianas dos goleiros no seu treinamento.

Bruno Faust – A gente elaborou um documento que são as diretrizes da preparação de goleiros das categorias de base do clube. E, baseado nisso, procuramos orientar o trabalho desde o sub-11 até o profissional, porque o Marcelo Capes, que é o preparador de goleiros do time principal, é um profissional que tem bastante interação com a gente, ele dá bastante espaço para os goleiros da base participarem dos treinos do time, ele também conversa muito conosco.

Então, essas diretrizes acabam regindo o trabalho da preparação de goleiros geral do clube e, baseado nisso, a gente faz um trabalho de planejamento, com planilhas, que acabam gerando um material para controle posteriormente. Com ele, fazemos uma compilação do que foi trabalhado e procura direcionar o trabalho de acordo com o que está sendo mais ou menos focado, para haver um equilíbrio e não deixar nenhum aspecto de fora.

Penso que a capacidade de antecipação é o ponto central da formação de um goleiro. Atualmente, acredito que a questão da altura é um critério utilizado de uma forma um pouco exagerada nos processos seletivos dos clubes, afirma o preparador de goleiros

Universidade do Futebol – Como o goleiro se insere no jogo coletivo do Audax, tanto defensivamente quanto ofensivamente?

Bruno Faust – Tenho uma visão na qual acredito que são três as funções que o goleiro tem no jogo: a primeira é defender o gol; a segunda é fazer a cobertura da zaga; e a última é a manutenção da posse de bola, que é a reposição de bola em jogo, enfim, o trabalho com os pés.

Então, o goleiro sempre está inserido em uma dessas funções. Por exemplo, quando estamos sem a posse bola, ele está orientando o time e está pronto para fazer uma cobertura dos zagueiros. Conforme o ataque do adversário vai se desenvolvendo, ele fica pronto para fazer a defesa do gol. E com o desfecho da jogada, ele precisar estar pronto para uma reposição rápida ou então para uma retomada da posse de bola.

O goleiro tem de ter uma capacidade de antecipação muito grande e, geralmente, o indivíduo mais intuitivo consegue fazer isso. Então, observamos o comportamento dele até fora do campo. Às vezes, um atleta mais introvertido se apoia muito no pensamento. Nestes casos, buscamos criar estímulos para desenvolver essa percepção dele, aponta Bruno Faust

Universidade do Futebol – Qual a importância do aspecto de liderança na formação de um jovem goleiro?

Bruno Faust – A nossa preocupação é formar o atleta. E, dentro desse processo, quanto mais fatores positivos o jogador tiver, mais valioso ele será no mercado. Então, se ele tiver essa capacidade de leitura de jogo e de comunicação com os companheiros, será fundamental para o seu desenvolvimento.

Ele ajudará muito a equipe a ter os resultados dentro do campo. E tendo esta característica de orientador, ele acabará desenvolvendo esse aspecto de liderança. É um papel fundamental para a formação dele como atleta.

Universidade do Futebol – Em seu dia a dia, o que você acredita importante avaliar na evolução dos goleiros em treinamentos e jogos? Quais informações julga importante um treinador extrair de uma partida?

Bruno Faust – Acho que, por exemplo, o aspecto técnico é o início, é a base que o goleiro vai ter para desempenhar suas funções dentro de campo. Ele passa por um período de aquisição de habilidades, daí ele começa a aperfeiçoar essa habilidade e ele adquire uma consistência. Então, você tem que avaliar se ele está evoluindo, aperfeiçoando, se o garoto está tendo consistência naquilo que ele está fazendo.

A partir do momento que ele conseguir isso, aí entrará no aspecto mais tático. Então, procuro avaliar o quanto ele está, de fato, inserido dentro do jogo. Notar o quanto está compreendendo o que está acontecendo, o quanto está bem posicionado para fazer uma eventual cobertura da defesa, o quanto está conseguindo orientar os companheiros de equipe para um melhor posicionamento.

E também as ações em si, dentro do jogo, quando ele é acionado, o quanto ele é coerente entre o que está sendo demandado e o que ele consegue fazer. E alguns aspectos, como a intensidade com que ele executa e o nível da sua concentração ao longo do jogo.

Há também a característica da personalidade que também procuramos notar no contato diário com o garoto. Por exemplo, o goleiro tem de ter uma capacidade de antecipação muito grande e, geralmente, o indivíduo mais intuitivo consegue fazer isso. Então, observamos o comportamento dele até fora do campo. Às vezes, um atleta mais introvertido se apoia muito no pensamento. Nestes casos, buscamos criar estímulos para desenvolver essa percepção dele.

Tenho uma visão na qual acredito que são três as funções que o goleiro tem no jogo: a primeira é defender o gol; a segunda é fazer a cobertura da zaga; e a última é a manutenção da posse de bola, que é a reposição de bola em jogo, enfim, o trabalho com os pés, lista o profissional

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre o nível dos goleiros em atividade no Brasil? Como estamos em relação ao cenário internacional?

Bruno Faust – É uma questão complexa. Então, eu vejo que, hoje em dia, no mercado, são muitos bons goleiros. O Julio Cesar, o Diego Cavalieri, o Fábio, o Victor, o Jefferson, o Cássio, são muitos goleiros capazes de representar o Brasil. São muito nivelados e muito próximos uns dos outros.

Uma coisa que posso dizer que é possível observar é que há uma coerência no trabalho que está sendo feito com esses goleiros. Por exemplo, o Cássio, do Corinthians, é um goleiro extremamente arrojado e intuitivo, e vemos que ele é bem orientado para explorar isso da melhor forma possível durante os jogos.

Eu vejo o Fábio, do Cruzeiro, o Jefferson, do Botafogo, também com estes aspectos bem trabalhados. Mas, eu não observo a fundo o trabalho dos outros clubes, eu foco no nosso trabalho.

Admiro muito o Felipe Alves, pois ele poderia demonstrar resistência diante de alguns aspectos que precisam ser melhorados, mas não. Se você observar a relação dele com o (preparador de goleiros do rpofissional) Marcelo Carpes, é muito boa e, com todo o conteúdo passado, ele sempre é muito atento e procura melhorar, revela

Universidade do Futebol – Alguns clubes, no seu processo seletivo, exigem certa altura para que o candidato a goleiro tenha chance de ser avaliado. O que você pensa disso? Será que em vez de altura, o maior pré-requisito para o goleiro não seria aprender a ler o jogo de maneira eficaz?

Bruno Faust – Penso que a capacidade de antecipação é o ponto central da formação de um goleiro. Atualmente, acredito que a questão da altura é um critério utilizado de uma forma um pouco exagerada nos processos seletivos dos clubes.

Com isso, acaba-se privilegiando goleiros que tenham altura, mas que não possuam características como mentalidade vencedora. E, assim, acaba-se descartando alguns bons valores. No Audax, temos um goleiro acima do 1,90 m, mas que tem potencial de desenvolver outras coisas.

Temos um exemplo no clube que é o Mateus, que é o nosso goleiro do ano 97 e campeão paulista do sub-15. Ele teve uma maturação tardia, não tem perspectiva de não ter uma estatura muito elevada, mas que tem uma capacidade de decisão impressionante.

O importante é criar contextos para ele fazer essa leitura. Colocamos os goleiros também para participarem com os jogadores de linha dos quadrados de marcação, isso acaba gerando transferência muito positiva para o contexto do jogo, explica

Universidade do Futebol – Como você avalia o processo de detecção e desenvolvimento de talento dos goleiros de futebol no Brasil? Os grandes clubes formadores sabem exatamente que jogador estão procurando para fazer parte desse contexto?

Bruno Faust – Eu acho que amadureceu muito esse processo nos clubes brasileiros nos últimos anos. As categorias de base, atualmente, estão muito mais estruturadas do que antigamente, como o Corinthians, o Santos, o São Paulo, enfim.

Então, acho que está em um caminho muito positivo, sim, no sentido de ter um perfil melhor, você não vê mais somente aquele jogador maturado. Hoje em dia, estão privilegiando mais os jogadores de linha que tem uma melhor capacidade de decisão.

E também acho que a formação de goleiros está acompanhando esse processo, no qual [os clubes formadores] estão mais atentos às questões mentais, de tomadas de decisão, ver se o jogador sabe jogar o jogo. Já há formações mais abrangentes do atleta.

Vejo que, hoje em dia, no mercado, são muitos bons goleiros. O Julio Cesar, Diego Cavalieri, o Fábio, o Victor, o Jefferson, o Cássio, são muitos goleiros capazes de representar o Brasil. São muito nivelados e muito próximos uns dos outros, compara

Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre as características do Felipe Alves, o goleiro titular do Audax que disputa a Série A-1 do Campeonato Paulista. Ele virou, talvez, o principal expoente deste modelo de jogo que o time tem adotado neste ano e tem atraído bastante a atenção por parte da mídia e dos torcedores…

Bruno Faust – É um profissional exemplar. Acho que uma das principais características que eu acho que o atleta deve ter, é a busca pela excelência, e isso ele tem. Está sempre procurando elementos para se desenvolver. Não é à toa que está conseguindo desempenhar o papel que ele tem hoje em dia. E a tendência dele é de crescimento.

Admiro-o muito também, pois ele poderia demonstrar resistência diante de alguns aspectos que precisam ser melhorados, mas não. Se você observar a relação dele com o Marcelo Carpes, é muito boa e, com todo o conteúdo passado, ele sempre é muito atento e procura melhorar.

Assim como o Cidão, que é o goleiro reserva do Felipe, que tem um perfil muito parecido. Então, eles criaram lá uma célula de trabalho muito positiva. Então, eles sempre estão sempre buscando corresponder à confiança que é depositada neles.

Acho que a formação de goleiros está acompanhando esse processo de evolução, no qual [os clubes formadores] estão mais atentos às questões mentais, de tomadas de decisão, ver se o jogador sabe jogar o jogo. Já há formações mais abrangentes do atleta, analisa Faust

Universidade do Futebol – O jogo de futebol exige de um goleiro informações sobre uma situação constantemente variável e imprevisível. Como utilizar conteúdos de treinamento dentro de todo processo de percepção, decisão e resposta motora, o chamado mecanismo de informação?

Bruno Faust – Bom, tem a abordagem mais tecnicista da formação do goleiro. Mas, você também tem de desenvolver aspectos táticos e cognitivos do atleta. Para isso, ele precisa ter uma densidade de estímulos muito grandes, sendo bastante específicas e coerentes, para se aproximar da realidade do jogo.

No Audax, chamamos isso de Jogos Aplicativos da Técnica, na qual a gente desenvolve alguns jogos em que os goleiros têm de aplicar as técnicas que foram aprendidas. Isso traz para ele uma compreensão melhor dentro de um determinado contexto. Um exemplo: uma jogada de bola aérea, coloca dois gols, faz o cruzamento, e dois goleiros disputam a bola entre si. Então, você tem uma disputa como no jogo, mas você também treina a tomada de decisão e a percepção.

Então, o importante é criar contextos para ele fazer essa leitura. Colocamos os goleiros também para participarem com os jogadores de linha dos quadrados de marcação, isso acaba gerando transferência muito positiva para o contexto do jogo.

Outra coisa que a gente utiliza bastante é o uso de vídeos. Faço a edição de jogos de goleiros de altíssimo nível como Neuer, Casillas, ou Valdés, por exemplo, e faço a mesma edição das partidas dos meus atletas da base. E daí a gente cria um espaço para formar uma imagem que esperamos dos goleiros e eles têm de tomar essa imagem e formar a sua própria identidade a partir disso. Assim, eles têm uma carga de informação muito grande em relação ao que está acontecendo no jogo.

Procuro avaliar o quanto o goleiro está, de fato, inserido dentro do jogo. Notar o quanto está compreendendo o que está acontecendo, o quanto está bem posicionado para fazer uma eventual cobertura da defesa, o quanto está conseguindo orientar os companheiros de equipe para um melhor posicionamento, aponta

Universidade do Futebol – Você faz uso de algum aparato tecnológico no treinamento?

Bruno Faust – A principal coisa é a utilização de vídeo. Uso muito vídeo, muita imagem, estamos sempre produzindo material para mostrar os goleiros em formação. Também uso a informática para montar planilhas de treinamento, fazer controles das atividades exercidas, enfim. Basicamente, é isso.

 

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