Universidade do Futebol

Entrevistas

16/03/2012

Bruno Pivetti, preparador físico do Audax Sao Paulo

“Respeito a versão da Periodização Física, mas entendo que deve haver uma separação total. A Periodização Tática é transgressora e veio para quebrar paradigmas. Ela se pauta por qualificar”. O apontamento direto e reto de Bruno Pivetti dá sinais do caminho que este jovem procurou seguir em sua curta, porém já recheada, carreira.

Graduado em Esporte pela USP, após já ter no currículo um curso técnico em Química, ele recebeu o prêmio mérito acadêmico como melhor aluno de sua turma. Muito por conta de seu bom desempenho, foi um dos selecionados para, em 2006, participar de um intercâmbio entre a EEFE-USP e a Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Lá, mergulhou a fundo nas ideias desenvolvidas por Vítor Frade.

Especialista em Fisiologia do Exercício pelo CEFE-UNIFESP e MBA em Gestão e Marketing Esportivo pela TREVISAN – Escola de Negócios, Pivetti regressou ao Brasil, em 2007, e passou por um estágio no antigo PAEC, hoje Audax São Paulo Esporte Clube.

No ano seguinte, foi efetivado como auxiliar técnico/preparador físico da equipe sub-15 e fisiologista geral do projeto. Pouco tempo depois, avançou à categoria Juniores naquele ambiente, e hoje é preparador físico do grupo principal que disputa a Série A-2 do Campeonato Paulista.

A inserção de Pivetti entre os novos conhecimentos teóricos e a prática resultou na publicação de um livro: “Periodização Tática – o futebol arte alicerçado em critérios”, um “ato de coragem antes de mais nada”, conforme indicou Frade. Mas ele aceitou correr o risco de ser julgado como um teórico pelos profissionais de cunho mais prático e como um empirista sem valor científico algum para alguns membros da academia.

“Meu compromisso é com a contribuição para o resgate da vertente arte ao futebol brasileiro moderno. Entretanto, uma arte alicerçada em princípios organizacionais bem definidos que permitam eficiência ao processo de construção de um Modelo de Jogo pautado sempre pela qualidade”, justificou Pivetti, cuja obra tem a apresentação do treinador do Santos, Muricy Ramalho.

“A Periodização Tática pode ajudar a resolver alguns problemas de falta de tempo, prejudicados por outros fatores alheios ao desempenho. Qualquer profissional coerente dentro de uma prática bem fundamentada e de sucessos seguidos vai se identificar. E o Muricy se identificou”, resumiu.

Nesta entrevista à Universidade do Futebol, Pivetti fala bastante sobre as suas experiências e seus diálogos com Frade e a “chicotada metodológica” a que foi submetido e como são formados os jogadores inteligentes no Audax. Além disso, cobra uma postura mais crítica e científica da imprensa brasileira e explica por que defende Pep Guardiola – ainda antes da Copa-14 – em uma hipotética saída de Mano Menezes.

*Crédito da foto de destaque: Marcos Ribolli

Vítor Frade e Bruno Pivetti: contato do jovem com o mestre português resultou em uma obra referencial aos gestores técnicos brasileiros

 

Universidade do Futebol – Qual é a sua formação acadêmica e como se deu sua trajetória no futebol profissional?

Bruno Pivetti – Entrei na faculdade em 2003, na USP. Em 2006, tive a oportunidade de fazer um intercâmbio estudantil com a Universidade do Porto. Fui um dos três contemplados e já atuava na área de pesquisa, com treinamento de força, com os professores Valmor Tricoli e Carlos Ugrinowitsch.

Trabalhava com adaptações neuromusculares ao treinamento de força (GEPAN), e tinha uma ligação grande com o Irineu Loturco, que fazia parte do nosso departamento de pesquisa e hoje é diretor técnico do Núcleo de Alto Desempenho do Grupo Pão de Açúcar, com uma ligação muito grande com o Abílio Diniz.

Desde que entrei na faculdade, meu objetivo foi trabalhar com futebol. Sou técnico em Química, com passagem por esta área, e a razão de eu ter prestado o vestibular para a graduação em Esporte em São Paulo era por conta da paixão. A ideia não me apetecia de início, mas hoje estou muito bem integrado à cidade.

Já ouvia dizer sobre a Periodização Tática por um dos portugueses que vieram ao Brasil, o Miguel Moita, hoje treinador adjunto do Leonardo Jardim no SC Braga, e quando entrei na universidade tinha como foco atuar na área de treinamento esportivo e meus estudos foram direcionados a esta área.

Passei a estreitar relação com aqueles profissionais e com o Irineu. No meio de iniciação científica e de todos aqueles dados cartesianos, fiquei conhecendo a Periodização Tática, “usada pelo Mourinho” e fui orientado a procurar o professor Vítor Frade.

Segui exatamente esta sugestão. No fim de 2005, fui um dos congratulados neste intercâmbio, mesma época em que tinha prestado um concurso de estágio para o Pão de Açúcar Esporte Clube (PAEC), coordenador pelo Alessandro Fromer – hoje ele é preparador físico no Mundo Árabe, depois de ter passado pelo futebol suíço.

À época, ele fez um processo seletivo para contratar um novo estagiário, e eu fui muito bem, e acabei em um dilema: ou entrava no mundo do futebol naquele momento, ou iria conhecer a tal da Periodização Tática da qual o Moita tanto falava. Optei pela segunda proposta.

Eu era um “perito em treinamento de força”, como o Frade costumava falar, e em princípio ele nem queria me receber. Conversando com o vice-diretor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Antonio Marques, estreitei as relações com o Frade e ainda consegui um estágio no FC Porto com o José Guilherme de Oliveira. E ambos contribuíram muito com a minha formação.

Além de ter contato com a teoria da Periodização Tática no ambiente acadêmico, eu ia para a prática no clube e via a aplicação de tudo aquilo no time sub-18. Em julho de 2006, regressei ao Brasil, mas encontrei algumas resistências para entrar no mercado.

Voltei para as pesquisas sobre treinamento de força, contrariado, pois havia recebido uma “chicotada metodológica”, mas não acreditava mais naquilo. O bom rendimento nesta área mais cartesiana, entretanto, é que me permitiu ter uma pontuação suficiente para obter aquela bolsa de estudos, e depois para ingressar de fato no mundo do futebol – como fisiologista e preparador físico, de início.

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Universidade do Futebol – Fale um pouco sobre suas funções no Audax São Paulo e o cotidiano de trabalho.

Bruno Pivetti – Sou um colaborador, antes de mais nada. Não sou o gestor do processo que irá tomar as decisões finais. E enquanto colaborador, em agosto de 2007, quando o Fromer estava indo para o Lausanne, da Suíça, recebi a indicação para ir para o Pão de Açúcar, atual Audax São Paulo. Era estagiário de todas as categorias, e fazia um pouco de tudo.

Como eles sabiam da minha relação com testes laboratoriais, fui convidado para ser efetivado como fisiologista de todas as categorias, inclusive do Sendas (Audax Rio), e ficava em ponte aérea para realizar o controle dos jogadores.

Em 2008, me estabilizei como preparador físico do sub-15. E no ano seguinte, com o Maurício Barbieri, atual treinador do Audax Rio, fui para o sub-20. Em 2010 ele foi ser assistente técnico do principal, e o Cléber dos Santos assumiu como treinador no nosso time. Neste momento, passei a ter mais liberdade para a operacionalização tática dos treinamentos – foi onde constituímos aquele Modelo de Jogo descrito no meu livro e também os exercícios que nós utilizávamos para chegar a esse padrão objetivado.

Tivemos uma participação muito boa na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2011, com a quinta colocação. Diogo Garcia, lateral-direito, Romário, lateral-esquerdo, e o Rafinha, atacante, que foram para o time júnior do FC Porto, o volante Guilherme Noé, que estava no Inter-RS e voltou ao nosso elenco principal, o Léo, atacante que estava no Avaí e foi para o Marcílio Dias, e o Renan e o Danilo, que estão no profissional do Audax SP, destacaram-se.

Neste processo de transição, tivemos muito mérito, bem como todos aqueles que desenvolveram o trabalho anteriormente.

Na base, não tem como tratar a todos como “Neymar”. Neymar é exceção e deve ser tratado como tal. E tivemos muitas dificuldades para realizar este processo, muito positivo na minha avaliação.

Não foi bom ter perdido por 4 a 1 para o Desportivo Brasil nas quartas de final daquele torneio. Mas nunca aceitamos aquele resultado. E todos os jogadores devem sentir o peso e a responsabilidade daquela derrota.

Não pode ser encarado como “normal” um placar daquele. Tudo é marcador somático e hábito. Jogador que se habitua a perder, quando perde, não vai sentir tanto. Sou um critico em relação a essa questão.

No fim de 2010, concluí minha obra, e após a Copa São Paulo, no início de 2011, levei o manuscrito da minha obra ao Frade. Neste momento, íamos trocando muitas ideias, durante várias horas por dia, em Portugal. Em uma visita ao Fromer, na Suíça, que estava no meu plano de viagem, acabei recebendo uma ligação do Thiago Scuro, gerente de futebol do Audax SP: fui convidado para ir trabalhar no departamento de futebol profissional na área de preparação física.

Quem reassumiu o time foi o Serginho, após queda do Luis Carlos Martins, com o Maurício como assistente, e eu, também responsável pela análise dos adversários. A cobrança pelo acesso sempre foi um plano recorrente em nosso projeto. Tivemos uma sequência muito positiva ano passado na Série A-2, mas infelizmente não foi o suficiente para classificar a equipe para a fase final e o sonho de chegar à elite estadual foi adiado por mais um ano.

Na Copa Paulista, a comissão técnica era basicamente a mesma. Menos o Maurício, que foi dirigir o Audax Rio. E eu acabei tendo uma participação ainda maior – caímos nas quartas de final para o Paulista, de Jundiaí.

Na montagem do grupo para esta temporada, a diretoria optou por um ajuste, com a contratação do Antônio Carlos Zago como treinador principal, o Nelsinho como assistente, fundamentalmente nas questões de treino, e eu fiquei como preparador físico.


Barcelona estimula a reflexão crítica sobre o futebol brasileiro – parte 1

 

 

Universidade do Futebol – Como é a sua relação de estruturação de trabalho com o treinador? Você participa diretamente da preparação da equipe para os jogos oficiais?

Bruno Pivetti – Com o Serginho, consegui realizar a Periodização Tática em sua essência. O nosso Modelo de Jogo foi operacionalizado a partir destas ideias. Com o Antônio Carlos, diria que estou mais aprendendo do que ensinando. E é, sem dúvidas, o melhor treinador com quem trabalhei nesta minha curta trajetória dentro do futebol.

Trata-se de uma pessoa muito experimentada, com uma leitura de jogo pormenorizada e detalhada, muito inteligente, e vejo isso como uma grande oportunidade pessoal.

Apesar da curta carreira – dois anos e meio como treinador –, ele acumula uma ótima passagem pelo São Caetano e já trabalhou em um grande clube, o Palmeiras. Ele me abre um canal muito bom, mas entendo que estou em um momento de aprender mais.

Não tenho dúvidas de que ele chegará ao topo da carreira em muito breve.

 

 

Universidade do Futebol – A que você atribui essas características especiais do Antônio Carlos, visto que ele é um profissional cuja origem não é da academia?

Bruno Pivetti – O fato de você ser ou não da academia se reflete na organização do seu conhecimento. Acredito que quem vem da universidade tem um roteiro para adquirir conhecimento que aquele de cunho mais prático não tem tão arraigado.

Mas muito se engana quem acha que o jogador de futebol é um ser estúpido. Ele não é. É muito inteligente. Pois constantemente está resolvendo problemas que o contexto impõe. E isso tem uma demanda emocional e cognitiva muito forte.

O Antônio Carlos sempre foi um jogador muito inteligente, que resolvia as coisas de modo simples. Ele trabalhou com os melhores treinadores, e um dos que ele mais cita é o Zdenek Zeman, hoje no Pescara. Este senhor nunca foi jogador e talvez tenha esta linha de trabalho mais organizada e sido uma influência muito forte para que o Zago conduzisse sua rotina no futebol.

O Telê Santana, de maneira empírica, também deve ter passado estas noções disciplinares de treinamento, de organização. E é impossível que uma pessoa tão inteligente quanto o Antônio Carlos não tenha adquirido esses pressupostos básicos no futebol para montar um grupo de alto desempenho.

A academia não é tudo. E quando os acadêmicos se derem conta disso e se abrirem para questões de cunho mais experimental, de vivência, certamente terão muitos ganhos. Ainda há um abismo muito grande, potencializado pela falta de comunicação.

O modo como você fala e para quem você fala é algo extremamente relevante. Em qualquer área. E ainda mais no futebol.

Os jogadores com quem trabalhamos, em sua maioria, aprenderam muitas coisas nas ruas, longe do ensino burocratizado, convencional. Os pressupostos éticos defendidos por eles até se assemelham aos da academia. Mas é necessária uma adequação aos termos. Ou você vira um “professor Pardal”, aquele que ninguém entende, ninguém ouve, e que não responde às questões fundamentais colocadas no cotidiano.


 

Universidade do Futebol – O que é um atleta inteligente para você?

Bruno Pivetti – Primeiramente, não gosto do termo “atleta” para futebol, pois me remete ao Atletismo. Gosto de usar “jogador”. O futebol, na minha opinião, é tudo menos uma questão física – esta é utilizada para resolver as questões do jogo, mas deve ser contextualizada ao máximo à tomada de decisão, à vertente tática. E o jogador é, nada mais do que uma peça em um tabuleiro de xadrez: ele irá jogar, ludibriar um adversário, para poder sobrepujá-lo.

Se o futebol fosse uma questão essencialmente atlética, nosso trabalho seria muito mais fácil. E se trataria de uma modalidade muito menos rica e sem apelo emocional.

Jogador inteligente é aquele que sabe resolver o problema do jogo no contexto em que ele se encontra. E para isso não tem como formatar o jogador ou dar a diretriz exata do que ele tem de fazer. Ele, jogador, deve saber fazer por si só.

Eu tenho, sim, como estimular a resolução da maneira como eu quero e que atenda meu padrão, meu Modelo de Jogo. Não consigo estimular meu jogador de forma inteligente fazendo-o apenas correr ou levantar peso pura e simplesmente.

É preciso criar determinados exercícios que tenham um contingente de aparecimento do princípio tático que eu quero desenvolver ou habituar meu jogador para que a repetição sistemática incorpore, a partir do hábito, um conceito que ele deve aprender. Porque quando ele vislumbrar no jogo determinada situação, ele tenderá a resolver da maneira que foi orientado no treinamento. Mas não orientado por mim, e sim pelo contexto que eu criei. É diferente.

 

Seleção brasileira: a evolução do modelo de jogo

 *Crédito da foto central da montagem: Marcos Ribolli

 

Universidade do Futebol – Muita gente da USP ingressou no Audax São Paulo em um período contemporâneo ao seu. Estas ideias levantadas por você são compartilhadas e bem aceitas com os demais profissionais do clube?

Bruno Pivetti – Eu não sou o responsável por fomentar este modelo. Temos um coordenador técnico da base que irá orientar os treinadores. Mas a turma é de uma mesma geração e fomos condicionados por uma mesma linha de raciocínio e compartilhamos de muito conhecimento.

O Cris [Crisleison Santos], que hoje é o coordenador técnico da base, entrou no Audax SP como estagiário seis meses antes de mim. Quando eu fui efetivado preparador físico do sub-15, em concomitância com a fisiologia, ele foi como treinador do sub-15. E subiu de categoria por categoria até atingir o atual patamar de função.

Os profissionais que agora ele procura, sempre com a anuência do Thiago Scuro, procuram atender esta linha proposta. Antes do Cris, teve o Maurício Barbieri, que foi coordenador do projeto. E todos nós fomos formando um ideal de formação de nossos jogadores que hoje se tornou senso comum.

Vamos tentar conseguir manter a mesma linha apesar das modificações ocorridas neste ano, conforme comentado.

O treinador do sub-14, o seu Jorge, entrou na captação e recebeu toda sua formação como treinador dentro do projeto. Ele já está habituado e sabe o que fazer. O treinador do sub-15 é o Artur, que foi meu estagiário e está completamente integrado às ideias da Periodização Tática. O assistente técnico/preparador físico desta categoria é o Lucas, outro que entrou no programa de estágio sob minha indicação.

No sub-17 tem o Ricardo Catalá, que também entrou no projeto como captador e depois foi efetivado como treinador do sub-15 e agora está no sub-17, sob muita influência do Fernando Seabra, hoje no Red Bull Brasil. O Rogério, preparador físico do sub-17 e que me ajuda na fisiologia da base também foi estagiário e agora no sub-20 temos o Max Sandro, que foi nosso capitão como jogador em dois acessos, um dos nossos principais nomes da campanha de 2008 e 2009, e agora se tornou treinador deste grupo. Além do Sérgio Lobo, atacante neste mesmo período do Max Sandro e que hoje exerce uma função de auxiliar em todas as categorias de base.

Acho interessante do projeto esta oportunidade não apenas para os que vieram da área acadêmica, como eu, mas também para os ex-atletas, que têm um apelo e uma importância fundamentais no processo de formação. Há certos problemas e artimanhas do futebol sobre os quais eu nunca vou conseguir instruir meu grupo, pois eu nunca estive lá. Eu posso aprender com os anos de prática. Mas esse tipo de conhecimento deve ser respeitado, e o principal mérito do Audax São Paulo é respeitar todos esses lados.
 

 

Universidade do Futebol – Qual é a importância do erro neste processo de ensino-aprendizagem das categorias de base?

Bruno Pivetti – Eu acho que uma das principais ferramentas da aprendizagem é a frustração. O erro não deve ser encarado como inimigo, mas como um amigo que irá te permitir angariar um quadro de sucesso no futuro.

Mas para se conquistar uma evolução neste processo, você precisa aprender a detectar o erro. E o erro é identificado no jogo quando acontece algum fator que vá levar a sua equipe ao insucesso. Dentro desse quadro, o treinador deve ser inteligente o suficiente não para gritar com o jogador, mas para conduzir o jogador a fazer aquilo que será benéfico ao aspecto coletivo.

Você deve fazer o jogador refletir e raciocinar sobre o erro. Na Periodização Tática chamamos isso de “Descoberta Guiada”: ao invés de xingar, você questiona, indaga. Você tem um processo de gírias, de comunicação, dentro daquele ambiente específico, que fará o jogador refletir sobre o ato que levou àquele contexto. Somente assim, quando ele vislumbrar de novo aquele ato, por meio do hábito adquirido, de modo espontâneo, aquele mesmo contexto será acertado.

O erro é parte fundamental do processo e não deve ser menosprezado ou desprezado: deve ser aceito, refletido, racionalizado, para ocasionar uma evolução no processo de desempenho durante o jogo.

 


A essência tática (e/ou complexa?) do jogo de futebol

 

 

Universidade do Futebol – Sobre seu livro “Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios”, fala a respeito da criação e confecção dele.

Bruno Pivetti – O livro começou em 2008, quando eu fui efetivado como fisiologista da base do Audax. Não me julgava preparado, pois precisava de uma graduação em Fisiologia do Exercício. Na Escola Paulista de Medicina, procurei um curso que me oferecesse as bases que eu considerava necessárias para eu assumir de maneira eficaz a função.

Mas encontrei muitas dificuldades, pois a maioria dos professores era extremamente cartesiana e quase nenhum deles trabalhou na prática. Quando tive de fazer meu TCC, falei sobre a Periodização Tática: como operacionalizar um determinado Modelo de Jogo tendo a tática como fator principal. Escrevi todo o arcabouço teórico da minha obra atual.

Em 2010, quando passei a ter uma participação maior na gestão dos treinamentos, consegui aliar esta teoria à prática. Ele é um livro que conseguiu atrelar tudo isso e acredito ter atendido ao mercado do futebol. O profissional que se desafiar a ter o conhecimento nestas duas esferas vai ser atendido.

A grande dificuldade no Brasil é encontrar livros que falem do cotidiano tático. Por exemplo, como se define uma estrutura de 4-3-3. Como a dinâmica entra nele? O 4-3-3 do Chelsea é igual ao do Barcelona? E não vejo esse tipo de discussão bem consolidada em nosso país.

A obra surge como uma oportunidade a quem quer ter contato com uma cultura transgressora, que quebra paradigmas, e com o cotidiano de um gestor técnico de campo. Inclusive para os profissionais de imprensa terem a noção da dificuldade do quanto é difícil e complexo você operacionalizar e colocar um time para jogar.

Os questionamentos geralmente são muito rasos e superficiais. E o cabelo do Barcos, do Palmeiras, é mais relevante do que saber sobre a função que ele irá exercer, se ele será uma referência essencialmente frontal mais estática ou se ele participará mais da movimentação de circulação de bola da equipe, etc. Fora que a imprensa não presta contas, e critica por criticar, sem qualquer tipo de fundamento. Vide como o Tite foi escorraçado por boa parte da mídia na última temporada.

Na Europa, aprendi muito sobre futebol com jornalistas. E para se fazer uma análise tática profunda, como se via em diversos jornais na Espanha, na Inglaterra, na Itália, etc., você deve se preparar e estudar. Algo que eu não percebo por aqui.


Periodização Tática: o futebol arte alicerçado em critérios

 

Universidade do Futebol – Como você definiria o Modelo de Jogo da equipe principal do Audax?

Bruno Pivetti – Exatamente igual ao que a gente fazia na base. O Antônio Carlos passou pelo Zeman, é um aficionado pelo futebol internacional e um grande fã do Barcelona. Não tem como você se pautar por um modelo de qualidade sem ter como referência o Barcelona.

Trata-se de um jogo essencialmente de posse de bola – mas não temos obviamente os jogadores com a mesma qualidade e nem uma filosofia de 30 anos arraigada deles. Mas é melhor assim, errar tentando algo diferente a se manter na média burocrática. Sempre visando ao resultado.

O Antônio Carlos procura efetuar um Modelo de Jogo com posse de bola, transição rápida, colocando dois homens abertos em termos estruturais para ter maior eficiência na circulação de bola, haja vista que, mesmo nos jogos em que saímos derrotados na Série A-2, a nossa posse de bola foi superior. Estamos brigando pelo topo da tabela, fazemos muitos gols e estamos em busca de uma evolução constante, mas vamos oscilar. Normal.

Costumo falar menos e ouvir muito mais. O Antônio Carlos também me ouve, pede opinião, tem confiança em meu trabalho, especialmente na análise dos adversários, mas hoje me ensina muito mais do que eu talvez possa retornar.


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Universidade do Futebol – O Abílio Diniz, que está à frente da criação do clube, é um empreendedor na acepção da palavra. Você acredita que uma pessoa com este perfil no comando possa conferir benefícios práticos para o desenvolvimento do trabalho de campo dos profissionais do Audax?

Bruno Pivetti – O principal mérito do Abílio é justamente delegar as funções de uma maneira excelente. O grande líder é aquele que delega muito bem a quem tem competência para fazer.

Hoje, nós temos um presidente participativo dentro do processo de treinamento, o Fernando Solleiro, apesar das dificuldades de agenda. É ele quem aprova tudo em termos de contratação e demissão e mantém o elo com o Abílio. O José Carlos Brunoro, que dispensa apresentações, foi muito bem escolhido como diretor executivo – um cara que foi bem sucedido como gestor, executivo, na parceria Parmalat/Palmeiras, com o Pedro Paulo Diniz na F-1, no vôlei, etc. Uma bagagem fenomenal.

E eles têm o mérito de ter escolhido um gestor, o Thiago Scuro, responsável por nos dar a tranquilidade de execução em relação àquilo que achamos conveniente e o mais próximo de chegar às conquistas positivas. Ele, na minha opinião, é um dos profissionais que mais entendem de futebol e nos indica onde estamos errando. Justamente por conhecer do que está falando.

Na prática, vemos muitos executivos e gestores caindo de pára-quedas, e o Thiago é formado na Universidade Estadual de Londrina como Bacharel em Esporte, jogou futebol (categorias de base), e estuda muito, constantemente. A análise de nosso trabalho é feita por quem sabe das coisas e talvez esta seja a razão para o sucesso e o grande diferencial de nosso projeto.

 

Universidade do Futebol Você comentou sobre sua participação na análise de adversários e produção de scout. Fale um pouco mais detalhadamente sobre essa função.

Bruno Pivetti – A análise que eu faço, e o Antônio Carlos tem gostado, é muito mais pautada no aspecto qualitativo do que quantitativo. Procuro identificar padrões nos adversários. Não é a partir deles que vamos montar nossa programação de jogo. Temos um modelo bem constituído. Mas a estratégia de jogo pode ser alterada por conta de eventuais qualidades e/ou vulnerabilidades do rival.

Não me importa se determinado atleta dá 10 dribles para a esquerda e finaliza “x” vezes. O relevante é o “como”: como ataca, como defende, como se comporta quando está com a bola, quando recupera a bola, bolas paradas (marcação por zona, individual, mista), etc. Costumo acertar o time rival que vai entrar em, e isso me dá credibilidade.

Para o Serginho, costumava fazer uma análise de vídeo em um software e depois apresentava. Para o Antônio, é algo mais contido, e acredito ter mais facilidade de absorção aos jogadores. Transformo um jogo inteiro em 15 minutos.

A câmera é posicionada abertamente, pegando a última linha defensiva e a bola. Há uma integração boa com a equipe de profissionais de edição, e a cada aspecto qualitativo faço desenhos no vídeo, para enraizar o conceito que eu quero. Escrevo, também, frases curtas a respeito do tema.

Como o Antônio Carlos já assistiu à mesma partida e tem uma leitura de jogo próxima à minha, ele é quem coordena a apresentação. Mas tudo tem funcionado muito bem.

 

 

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Sobre Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol.

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