Universidade do Futebol

Artigos

01/06/2016

Carta aberta a José Mourinho

Querido Amigo:

Leio atualmente o livro de Umberto Eco, Sobre os Espelhos e Outros Ensaios (Relógio D’Água, Lisboa, 2016), onde o autor (mestre excelso de uma literatura de ideias) escreve: “É preciso dizer que Huizinga, na cultura italiana, pagou muito duramente o facto de não ser exatamente, nem um filósofo, nem um historiador, nem um sociólogo, nem um teórico da arte, e de querer meter interdisciplinarmente o nariz um pouco por todo o lado, como acontece aliás aos historiadores das ideias” (p. 290). Ainda há poucos dias um treinador italiano de futebol aludia à minha situação no futebol da pátria do Umberto Eco (onde o meu Amigo foi campeão europeu) e declamou o que eu já sabia: “No futebol italiano, não sei se alguém o conhece”. E, após uma pausa breve, ainda acrescentou: “Tirante eu, naturalmente”. De facto, nada sei de futebol, nem de história, nem de arte, nem de filosofia, nem de sociologia e não me canso de, interdisciplinarmente, “meter o nariz um pouco por todo o lado”, incluindo o futebol. A partir, muito especialmente do meu doutoramento, venho concebendo o desporto como uma “disciplina antropológica”, tornando-se assim irrecusável abordá-la nos seus diversos níveis categoriais complexamente inter-relacionados, desde o orgânico e o corporal até ao psíquico e o espiritual. E, assim, no laborioso amealhar de conhecimento, no futebol, importa encontrar um modelo que nos permita entender as pessoas em situação de prática do futebol. De facto, só pensando o futebol como atividade humana (e não unicamente física) me parece possível entendê-lo. Só que há demasiados “cientistas” no futebol com uma preocupação doentia de quantificar, criando assim a sensação que nos encontramos mais nas chamadas “ciências exatas” do que nas “ciências humanas”. Ora, no futebol, é preciso saber combinar a “explicação dos sistemas” (a tática, por exemplo) com a “compreensão dos sujeitos”, isto é, a quantidade com a qualidade, o determinismo com a liberdade, o estrutural com o individual, a ordem com o caos. Cabe, aqui, o conselho de Artur Jorge: “cada um dos jogadores deve ser tratado de maneira diferente, mas todos devem sentir-se tratados de maneira igual”.

Aliás, para mim, o José Mourinho é um “profissional do êxito” porque é também um “profissional da persuasão”. Cito, agora, Sandro Modeo, autor do livro Mourinho – um génio do outro mundo (Publicações Dom Quixote, 2011, Lisboa): “Para Mourinho, o princípio da autoridade é apenas uma das muitas modulações psicológicas a utilizar para chegar a uma gestão eficiente do grupo. Não é o mais importante. Na verdade, como todos os manipuladores de emoções (a expressão é de Damásio) tende a empregar sobretudo uma postura sedutora e insinuante”. Daí, a sua pública declaração: “Tornar-me treinador do Manchester é especial para mim. Há uma mística, uma aura de romantismo, à volta deste clube, que é inigualável, no mundo do futebol. Sempre senti afinidades com Old Trafford. Estou ansioso por começar a trabalhar, a treinar e a sentir o apoio dos adeptos”. Mas, porque “para Mourinho não há espetáculo na derrota” (Sandro Modeo, p. 41), a sedução justifica-se porque é um dos caminhos donde se vislumbra a vitória. Rio Ferdinand, histórico central do United, afirma: “Vai incutir novamente uma mentalidade vencedora. Ele foi feito, para este grande clube”. Piers Morgan salientou que “quem julga que o Mourinho não brilhará no United é um Neandertal” e Gary Lineker refere que se trata de “um grande momento para o Mourinho e para o Manchester” e antecipa que os seus novos jogadores o vão tomar como exemplo, na vontade inigualável de vencer. E os adeptos do futebol, não só em Inglaterra mas… no mundo todo, já aguardam ansiosos os duelos Mourinho-Guardiola (no meu pensar, os dois melhores treinadores do mundo, se bem que eu reconheça, e não estou só, o José Mourinho, como o primeiro entre os dois).

É verdade que, quantos mais êxitos temos, mais se acumulam razões para o desagrado dos frustrados, dos invejosos. Portanto, para eles, diante de um pequeno erro que seja, todo o seu currículo incomparável de vitórias se esquece, para que não saia da lembrança dos desatentos um erro só e que mal se vê. Mas, para o José Mourinho, mais estimulante do que os títulos e os aplausos conseguidos é ter outros rítulos e aplausos sob mira. Os fantasmas e os equívocos e os ardis, que povoam o mitificado mundo da inveja, o meu Amigo mal os ouve, na sua odisseia por novas vitórias, por novos e fulgurantes êxitos. Os seus constrangimentos são outros, relacionam-se designadamente com o treino visível e o invisível dos seus jogadores, com os inúmeros problemas (familiares, sociais, individuais) que podem condicioná-los, nos seus desempenhos. Nas suas equipas, cada um dos jogadores diz naturalmente (e conhece as razões por que o diz): “Eu sou um de nós”. Para si, a fruição é demasiado reduzida, se não for partilhada com eles. Por isso, se entende uma frase que é muito habitual no José Mourinho: “Quem só percebe de futebol, não percebe nada de futebol”. O meu Amigo está entre os que sabem que não há jogos, mas pessoas que jogam: não há fintas, mas pessoas que fintam, nem remates, mas pessoas que rematam, etc., etc. Se eu não compreender as pessoas que fintam e rematam nunca entenderei nem as fintas, nem os remates. Por que será que ainda há “agentes do desporto” (e alguns até, com títulos universitários) que desconhecem decorrer a sua profissão, no âmbito das ciências sociais e humanas? É evidente que a ciência é um processo. A verdade definitivamente possuída não passa de um mito, de uma ideia mumificada. Mas não nos parece razoável outra atitude, que não seja esta: reconhecer que a verdade não passa de uma procura da verdade. E é porque o José Mourinho não cessa de caminhar, em busca da verdade, que não sofre de esclerose do pensamento e parece mais novo, intelectualmente mais novo, como agora ao ser oficializado como treinador do Manchester United.

Há quem sofra de uma prudência de velório. Pessoas há a quem nunca escutamos, nem um grito, nem um protesto, nem um “cântico negro”, como aquele, que tanto admiramos, do José Régio. Falam e falam-nos, com palavras de epitáfios. Ao invés, o José Mourinho fala e fala-nos com as expressões combativas e a dura determinação de um líder – de um dos líderes mais respeitados e aplaudidos do nosso tempo. Impossível reduzir a sua vida de treinador de futebol a breves anotações. Como o jornalista Fernando Guerra lembra, n’A Bola, de 2016/5/28, no Manchester United, depois de Alex Ferguson – só o José Mourinho! Espera-o uma alegria difícil, com algumas intempéries, tenho a certeza. É próprio do alto rendimento e de um desporto que reproduz e multiplica as taras das certezas económico-políticas instituídas. Mas a sua inteligência e a sua vontade transformarão uma alegria difícil numa grande, enorme alegria. Como o faz, habitualmente. É o que lhe deseja o seu velho Amigo – que já foi seu professor e hoje não passa de um dos seus mais modestos alunos.

Comentários

Deixe uma resposta