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Queremos futuros Maradonas?

Maradona foi, entre uma imensidão de coisas que define um ser humano e jamais será possível esgotá-lo em um pequeno texto, uma figura que incomodou, contestou e que não se permitiu controlar.

Passagens como as eternizadas nos versos de Eduardo Galeano em uma de suas obras primas Futebol ao sol e à sombra, nos ajudam a ter uma noção do tamanho da dor de cabeça que o argentino foi para muitos poderosos, dentro e fora do futebol.

No Mundial de 86, Valdano, Maradona e outros jogadores protestaram porque as principais partidas eram disputadas ao meio-dia, debaixo de um sol que fritava tudo que tocava. O meio-dia do México, anoitecer da Europa, era o horário que convinha à televisão europeia”

Maradona disse coisas que mexeram em casa de marimbondos. Ele não foi o único jogador desobediente, mas foi sua voz que deu ressonância universal às perguntas mais insuportáveis: Por que o futebol não é regido pelas leis universais do trabalho? Se é normal que qualquer artista conheça os lucros do show que oferece, por que os jogadores não podem conhecer as contas secretas da opulenta multinacional do futebol?

Outro momento que ilustra essa, para alguns, assustadora imprevisibilidade do argentino é do início de sua carreira. Diego recusou uma proposta milionária, com o perdão do trocadilho, do River, e buscou ativamente um acerto com o, na época, enfraquecido Boca. Escolheu com o coração, e não com a fria lógica da maior e melhor oferta, o River naquela altura além de melhor estruturado financeiramente, era uma equipe muito mais forte.

Maradona fora do controle, indomável, imprevisível, sempre foi um risco para quem tem tudo sob seu domínio, um risco que essas pessoas não estão nem um pouco dispostas a correr. Talvez por isso os seus erros tenham tido sempre uma repercussão de proporções estratosféricas e o trabalho para ridicularizá-lo tenha sido tão incessante, é interessante para quem foi contestado por ele vê-lo caído.

Um Maradona entre os principais nomes do esporte hoje, como outros e outras que ensaiam surgir na nova cena do esporte mundial, com a repercussão que sua figura teria em um mundo hiperconectado, seria ainda mais ameaçador, e aí não fica difícil de entender que, para essas pessoas que temem as mudanças, quanto menos “Maradonas” melhor. Aqui já falamos do processo de formação de jogadores e jogadoras autônomas, independentes, ou se preferir, livres.

É desse ponto de partida, da personalidade incontrolável de Diego e o que ela representa é que seguimos para pensar sobre o futuro. O primeiro dos questionamentos que fica para quem ama e trabalha com o futebol e se queremos ou não novos “Maradonas”, como sugere o título. Queremos futuros jogadores e jogadoras obedientes ou questionadores? Queremos mudar ou manter as coisas como estão? Tendo clareza do que se quer, fica mais fácil organizar ações que fazem sentido para que se atinja esse objetivo.

O que podemos fazer no dia a dia, ao ensinar o futebol, para ajudar desenvolver as características que identificamos como essenciais? No caso de Maradona, o que o incentivou questionar as injustiças que ele via a sua volta? Alguém o ensinou? Ou será que ao menos alguém permitiu que esse espírito se desenvolvesse? Será que esse espírito questionador tem relação com o seu desempenho dentro de campo? É possível dissociar o Maradona jogador de tudo o que o tornava humano?

Do dia 25 de novembro de 2020 em diante vamos seguir construindo nosso mundo, com mais ou menos Maradonas, tudo depende de nossas escolhas e ações.

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As ruas da nossa infância

Ilustração/Aubrey Duarte

“Junto à minha rua havia um bosque

Que um muro alto proibia.

Lá todo balão caia, toda maçã nascia,

E o dono do bosque nem via.

Do lado de lá tanta aventura,

Eu a espreitar na noite escura,

A dedilhar essa modinha.

A felicidade, morava tão vizinha,

Que, de tolo, até pensei que fosse minha.”

(Até Pensei – Chico Buarque de Holanda)

São tantas as ruas das nossas infâncias. A minha nem era rua, se a gente pensar que rua tem que ter calçadas e carros passando por ela. Era um pedaço redondo de terra, que a gente chamava de larguinho. Era como se fosse um país, ou um planeta e nós éramos seus únicos habitantes. No bairro havia outras ruas, outros planetas, de outros habitantes. A gente chamava de rua qualquer lugar que virasse nosso planeta e só a gente pudesse habitar e encher com nossas brincadeiras. – Mãe posso ir pra rua? – eu perguntava. E a mãe sempre perguntava, em seguida – Terminou a lição? – eu respondia “já”, me levantando e saindo correndo para rua. Vestia minha roupa de astronauta e viajava pelos espaços, para o Planeta Criança, a rua da minha infância.

Na minha infância havia um portão preto que dividia duas ruas. Do lado de cá, cinco irmãos se escondiam debaixo da cama, da mesa ou atrás da porta. “Lá vou eu!” E todos saíam de seus esconderijos, saltando obstáculos, pulando sobre o sofá e as cadeiras, e corriam até a parede do lado de fora, no quintal. “Um, dois, três! Agora é sua vez!” E a gente começava tudo de novo…

Do outro lado do portão, na outra rua, havia mais crianças. Uns corriam para se esconder na quadra de cima, outros na quadra de baixo, até dentro de suas próprias casas, parecia muito divertido.

Na rua da minha infância, o que a gente mais fazia era jogar bola. Não havia meninas. Era um tempo em que as meninas não podiam ir para a rua. Tinham que ficar em casa. Dentro da casa também tinha espaço de rua, mas o delas era bem pequeno e só quando eram muito novinhas brincavam com os meninos. Mas aquela rua fora de casa não era permitida para elas. Quando eu chegava no larguinho era mesmo para jogar bola, mas também tinha o tempo do pião, da bolinha de gude ou da pipa. De vez em quando alguma outra brincadeira como a de lutinha ou de pegador.

Tínhamos um campinho de futebol. A parede da garagem da nossa rua recebeu o nome de Gol, que registrava as marcas das goleadas que eu recebia do meu irmão mais velho. Como eu jogava mal! Com baixa estatura não alcançava a parte superior do gol, com isso meu irmão, se apropriando de suas vantagens, apresentava todo o seu talento futebolístico.

Era na outra rua que havia dois grandes times, as traves eram feitas com dois pares de chinelos ou quatro grandes pedras, posicionadas, duas a cada lado do campo, e cumpriam distâncias exatas, demarcadas com passos firmes por uma das crianças. Todos gritavam ao mesmo tempo, meninos e meninas em uma só voz. Havia jogadores, torcedores, gandulas, juízes, um verdadeiro estádio de futebol.

Na minha rua havia adultos que não gostavam da gente. Moravam em volta da rua e brigavam para a gente não brincar. Se a bola caísse na casa de um deles, eles cortavam com uma faca. Os guardas do posto policial também não queriam que a gente brincasse na rua. Corriam atrás da gente e tomavam a bola. Na nossa rua, vivíamos como marginais, porque os adultos e a polícia diziam que o que a gente fazia era errado, como se fosse fora da lei.

Algumas vezes éramos convidados para jogar queimada na rua do outro lado do portão preto, mas a resposta era sempre a mesma: Não podemos! Felicidade era quando meu pai nos observava andando de bicicleta de uma esquina para outra, mas quando ouvíamos uma voz feminina gritando: Entrem para tomar banho!, atravessávamos aquele portal contrariados, sabíamos que após o banho acabavam as brincadeiras para nós, enquanto as outras crianças, na outra rua, continuavam até o pôr do sol com suas aventuras, diversões e alegrias.

Houve um dia em que meus pais, acredito que estavam de bom humor, nos permitiram brincar na outra rua, aquela tão encantadora. Pegamos o skate e, em uma avenida movimentada, subimos e descemos entre carros e ônibus. Tínhamos asas nos pés, nos sentíamos livres, libertos de todo e qualquer perigo. Saímos ilesos, apenas não pudemos brincar mais sem a proteção e supervisão de um adulto naquela rua colossal.

Mas a rua que nos era permitida também tinha sua magia, tinha stop, jogo de adivinha e muitas histórias em família. Tinha pão com margarina, bolo de fubá e leite com café bem quentinho. Ao findar o dia pedíamos: Benção pai! Benção mãe! Benção vó! E com um beijo de boa noite, abençoados, nos despedíamos para viver uma nova aventura, desta vez de sonhos, uma aventura que só terminava no despertar do dia seguinte…