Universidade do Futebol

Entrevistas

03/10/2008

Celso Unzelte, professor e jornalista esportivo

“O Brasil é o país do futebol”. Quem nunca ouviu essa frase pelo menos uma vez na vida? Realmente, a sociedade brasileira possui uma identificação diferenciada com a modalidade, tanto dentro das quatro linhas, como jogador, como das arquibancadas, como torcedor apaixonado. 

No entanto, por incrível que pareça, poucos são os registros oficiais que se tem sobre a origem do futebol no país e sobre as partidas daquele que é o aspecto mais lembrado por qualquer pessoa, quando se fala em Brasil. Foi pensando nisso que a Prefeitura de São Paulo, em parceria com o Governo do Estado e com a Fundação Roberto Marinho, inauguraram o Museu do Futebol.

Localizado no estádio do Pacaembu, em São Paulo, o local reúne diversas salas contando a história da modalidade no Brasil, destacando os principais atletas, e fazendo um apanhando do contexto de cada época rememorada, além de citar algumas curiosidades sobre o esporte.

“Um dos grandes tesouros que o futebol tem hoje é a sua história. Mas não sei por quanto tempo terá, uma vez que os nossos grandes ídolos são ídolos do passado. Daqui a 30 anos, o máximo de tempo que um ídolo vai ter ficado no país é o período em que jogaram, no Brasil, o Robinho ou o Tevez, por exemplo. O que é um intervalo muito curto”, lamentou Celso Unzelte, jornalista e pesquisador, que foi um dos consultores no processo de construção de conteúdo do Museu do Futebol, autor dos almanaques do Corinthians e do Palmeiras, e apresentador no canal ESPN Brasil, em entrevista exclusiva à Cidade do Futebol.

Além de contar sobre como foi o processo de idealização do museu, o jornalista ainda comentou sobre o profissional do jornalismo esportivo, sobre a importância que o futebol tomou nos últimos tempos, sobre a falta de preservação histórica do futebol, sobre as diferenças dos estilos de jogo de craques como Ronaldinho Gaúcho e Robinho, em comparação com Pelé e Garrincha, entre outros temas.

Cidade do Futebol – Como foi o trabalho para a criação do recém-lançado Museu do Futebol? Qual foi a sua participação? 
Celso Unzelte – Eu tive o privilégio de ver essa idéia nascer. Eu recebi um convite, em março de 2005, para participar de uma reunião na casa do Juca Kfouri, quando, inclusive, era a noite do aniversário dele, para tratar do assunto Museu do Futebol.

Chegando lá, eu encontrei o então prefeito, hoje governador, José Serra, e depois chegaram outras pessoas que o Juca havia chamado. Alguns membros da imprensa como a Soninha, que hoje é candidata à prefeitura, o PVC, e o Paulo Calçade, que também trabalha na ESPN Brasil. Como jornalistas foram chamados também o Marcelo Duarte, que não foi, mas trabalhou no projeto junto comigo em uma sala chamada “Sala dos números e curiosidades”. Outro que foi requisitado foi o Alberto Helena Jr., que não foi, porém enviou uma carta explicando as suas idéias e dando a sua contribuição para o museu. Estava presente também o Raí, ex-jogador do São Paulo, o Ugo Giorgetti, cineasta que fez o filme “Boleiros”, o ex-ministro Portela, e o Walter de Mattos, diretor do Lance. Foi esse grupo que começou a dar idéias sobre um possível Museu do Futebol.

A idéia original era do Serra, que havia acabado de assumir a prefeitura, e gostaria de fazer outros museus, pois ele estava no embalo do Museu da Língua Portuguesa que acabava de ser concluído, ou estava por ser concluído. O andamento estava determinado dessa forma até então. A Prefeitura tinha interesse. Ela ia colocar a SPTuris, que seria o braço que poderia viabilizar o projeto economicamente, como uma opção de cultura e de turismo em São Paulo.

Em um segundo momento, houve uma parceria com a Fundação Roberto Marinho, que já havia participado junto com a Prefeitura, no Museu da Língua Portuguesa, e tinha também os seus planos para o Museu do Futebol. Isso viabilizou a idéia economicamente, porque a Fundação Roberto Marinho fez o meio-campo para conseguir os parceiros fortes, e os patrocinadores, que garantiram economicamente o museu.

A minha participação foi a única que poderia ter acontecido que era na parte do conteúdo histórico. Eu fui, na prática, um consultor, participando mais diretamente da “Sala dos números e curiosidades”, junto com o Marcelo Duarte. O Marcelo ficou mais com as curiosidades, e eu com os números. Nessa sala tem a lista dos primeiros clubes brasileiros fundados, fala de curiosidades como o jogador mais alto, o mais baixo, o maior número de gols em uma só partida, recordes, recordistas, algumas aspas famosas de gente como João Saldanha e Nelson Rodrigues.

Além dessa sala dos números e curiosidades, eu também fiz um texto para um vídeo que fala da arte do drible, assim como o Marcelo Duarte fez um texto que fala sobre a arte dos gols, e o João Máximo, que também é um dos consultores, fez um texto sobre as defesas e os goleiros.

Eu tive ainda mais uma participação, em um momento em que se decidiu que no museu deveriam estar representados os clubes brasileiros como origem da paixão no Brasil. Então, eu optei por representar 128 clubes, do ABC de Natal ao XV de Piracicaba, com o critério de que eles deveriam ter participado pelo menos uma vez da primeira divisão do Brasileiro, desde 1971. Lá estão informações sobre essas agremiações, como dados históricos, fundação, títulos conquistados, hino ou hinos, nos casos dos clubes que tiveram mais de um hino, ídolos de todos os tempos com o nome completo.

Enfim, foi esse o meu trabalho. Algo muito mais voltado para o conteúdo, quase histórico, embora eu não me considere historiador. Eu me vejo como pesquisador, porque eu sou um curioso da área. Eu não tenho curso de História, apesar de que eu tentei fazê-lo na USP duas vezes e tranquei a matrícula.

Cidade do Futebol – Como foi essa primeira reunião na casa do jornalista Juca Kfouri? O que foi discutido na ocasião?
Celso Unzelte – Essa primeira reunião foi bastante embrionária. O que existia era o desejo do então prefeito de fazer o museu, e da nossa parte, cada um tinha na cabeça como deveria ser o seu Museu do Futebol.

Eu, por exemplo, gostaria de algo muito mais voltado para a documentação, que eu acho que faltam coisas como biblioteca e materiais de referência. Outras pessoas já chegaram a imaginar um museu para o futebol de São Paulo. Essa idéia imediatamente descartada, pois o museu é, antes de tudo nacional, feito para o futebol brasileiro, embora sediado no Pacaembu. Da mesma forma como poderia estar no Maracanã ou no Mineirão, por exemplo. A preocupação com a inserção dos 128 clubes sobre a qual eu falei mostra bem que a idéia não era restringirmo-nos ao futebol paulista, e nem ao eixo Rio-São Paulo.

Naquela primeira reunião valiam todas as idéias, era bem o começo de tudo. O formato atual do museu é de responsabilidade, principalmente, do curador que é o Leonel Kaz, o qual foi escolhido pela Fundação Roberto Marinho, quando ela entrou no projeto, no segundo momento do museu.

Eu penso que o museu passou por três etapas. Primeiro, a fase das idéias, que reuniu pessoas de várias vertentes (jornalistas, ex-jogadores, cineastas, industriais e empresários da mídia). Em outro momento, aparece a gestão da Prefeitura de São Paulo, que acabaria transformando-se em uma parceria com o Governo do Estado. Por fim, em uma terceira etapa, entra a Fundação Roberto Marinho.

O formato final das salas (Sala dos números e curiosidades, Sala das origens, Sala dos anjos barrocos) é uma criação do Leonel Kaz, que é curador do museu, e creio que será também o diretor do museu. Como eu disse, ele entrou no projeto a partir da adesão da Fundação Roberto Marinho.

Cidade do Futebol – Você pode explicar a participação da Fundação Roberto Marinho nesse projeto?  
Celso Unzelte – Ela foi responsável por fazer o meio campo com os patrocinadores do museu, dentre os quais está a própria Rede Globo e o Sportv. Com isso também, facilitou um pouco a montagem do museu, no sentido da aquisição de imagens.

O acervo da Rede Globo esteve, desde o começo, à disposição, porque ela e o Sportv eram parceiros, graças a uma iniciativa da Fundação Roberto Marinho. Foi natural que os processos caminhassem mais rápido, pois um dos negócios da Fundação Roberto Marinho é a televisão.

Imagine se tivéssemos essa idéia do museu independentemente da Rede Globo. Nós teríamos que pedir imagens junto à emissora. Então, essa parceria queimou uma etapa do processo de montagem do museu. 

Assim sendo, a participação da Fundação Roberto Marinho foi fundamental nesses dois aspectos: para angariar parceiros, e serem um dos parceiros, facilitando o acesso ao acervo de imagens. Nesses termos foi uma feliz coincidência.

Cidade do Futebol – Você acha que o país preserva adequadamente a memória do futebol brasileiro?
Celso Unzelte –
Infelizmente não. Na verdade, a grande contribuição desse museu vai ser dar um impulso nesse aspecto. História no Brasil é sempre difícil. No mundo, já não é fácil. No Brasil, é particularmente difícil. Quando trata-se de temas populares, como a nossa música ou o nosso futebol, por exemplo, torna-se mais difícil ainda. 

Em 1950, Thomas Mazzoni, um dos primeiros e, talvez, o maior jornalista a se preocupar com a história do futebol neste país, escreveu um livro, que hoje é uma referência, chamado “História do futebol no Brasil – de 1904 a 1950”. Não existem estudos sobre o começo do futebol no país que não passem por esse livro. Na introdução, Thomas Mazzoni deu um título a um capítulo que tinha justamente essa abordagem: “Não é fácil a história do futebol brasileiro”. E continua não sendo fácil.

O Museu do Futebol foi feito justamente para isso, para estimular. Nós já tivemos alguns avanços. Existem bons memoriais de clubes como o memorial do Corinthians, que é um trabalho do qual eu me orgulho de também ter participado, por conta da minha ligação com a história do clube, a partir do meu Almanaque do Corinthians e do trabalho que eu venho desenvolvendo, principalmente no campo estatístico. O memorial do São Paulo, que é pioneiro, também é muito bom. Existe ainda o memorial do Santos, o Grêmio também possui um museu muito interessante. Há ainda grupos se mobilizando, como os Helênicos, do Coritiba, e o pessoal do Centro Atleticano de Memória (CAM), em Minas Gerais, fazendo trabalhos específicos.

Então, há muitos movimentos no país nesse sentido, mas eles ainda são muito isolados. Não há uma política de preservação da memória. Para nós chegarmos ao material que está exposto no Museu do Futebol, os que mais contribuíram foram colaboradores particulares, gente apaixonada pela modalidade. Não se reconstrói a história desse país procurando-se federações e clubes. Eles não preservam a sua história. Isso nunca é prioridade no orçamento de clubes e nem de federação nenhuma. Infelizmente, tem sido assim. Quando se pensa em história, pensa-se no sentido de fazer política com ela.

Eu particularmente espero, talvez inocentemente, que o Museu do Futebol venha justamente contribuir para alterarmos essa situação. Para abrirmos os olhos para a necessidade da preservação da nossa memória e que, dentro de um contexto como esse do futebol, que é o grande negócio de entretenimento, também seja uma maneira de arrecadação para os clubes e federações. A história é ainda, utilizando-me de uma expressão antiga, uma expressão de museu, um grande maná, da qual você pode começar a vender produtos como as camisas retrô.

Eu acho bastante interessante a iniciativa de se ter uma loja na saída do museu, como acontece no memorial do Corinthians também. É justamente um conceito americano de fazer as pessoas consumirem e, de certa forma, viabilizarem o investimento que está sendo feito.

Um dos grandes tesouros que o futebol tem hoje é a sua história. Mas não sei por quanto tempo terá, uma vez que os nossos grandes ídolos são ídolos do passado. Daqui a 30 anos, o máximo de tempo que um ídolo vai ter ficado no país é o período em que jogaram, no Brasil, o Robinho ou o Tevez, por exemplo. O que é um intervalo muito curto.

É interessante salientar que as atenções dos nossos torcedores estão voltando-se demais para o futebol europeu e para a modalidade longe daqui. Talvez seja esse o momento exato da gente colher os últimos frutos da nossa história, que corre o risco de ser bem menos rica daqui pra frente, pelo menos no que diz respeito ao futebol que é praticado no Brasil.

Cidade do Futebol – O jornalista especializado em futebol cumpre o seu papel ou ainda não atingiu um estágio ideal? 

Celso Unzelte – Do ponto de vista da preservação histórica ou do uso da história do futebol, a coisa é meio de guetos. Tem alguns jornalistas que se especializam nisso, e eu sou um deles, e que ficam um pouco marcados por isso. “O cara só entende de enciclopédia”, dizem alguns por aí.

Porém, em um sentido mais amplo, acho que está melhorando. Os jornalistas das novas gerações têm encarado a sua profissão como jornalismo antes de tudo, o que eu acho que é muito importante. Ninguém é repórter esportivo. A pessoa é jornalista e o esporte é o tema sobre o qual ela trata. Da mesma forma que poderia ser economia, política, artes e espetáculos, ou cidades, por exemplo.

Por isso, você deve tratar do seu tema e do seu leitor com todo o respeito. Os critérios são os mesmos: bastante rigor na apuração, trazer as notícias, ter um bom texto, compromisso com a verdade. São todos requisitos para qualquer tipo de jornalismo.

E eu acho que, nesse sentido, as coisas estão melhorando. As novas gerações têm encarado as coisas dessa forma. Por conta disso, tenho ficado muito feliz com o que vejo. É lógico que ainda não é o ideal, há muito a melhorar.

A produção esportiva, principalmente, a produção literária, os livros sobre futebol, têm melhorado bastante. Eu tenho ficado satisfeito com o que acompanho nos últimos 20 anos, aproximadamente.

Cidade do Futebol – Durante muito tempo o jornalista esportivo foi mal visto pelo público em geral e até mesmo nas próprias redações em que trabalhava. Isso mudou? Qual sua opinião sobre os profissionais atuais?

Celso Unzelte – Eu acredito que o preconceito tenha dois lados. A história de que o jornalista faz esporte ou política tem duas origens. Primeiro, o preconceito social contra o futebol. O brasileiro renegava a sua imagem e a sua relação com a modalidade, a qual era vista como um assunto menor, chegando até a ser considerado um tema de gente alienada no sentido político. O segundo ponto é que, realmente, quem trabalhava com esporte só queria saber desse tema. 

Atualmente, isso tem melhorado nos dois sentidos. O mundo acadêmico e aqueles ligados ao mundo cultural têm visto o futebol com outros olhos, como um aspecto importante da nossa sociedade. Até mesmo, os próprios profissionais do jornalismo esportivo têm melhorado bastante. Hoje, essas pessoas são articuladas, capazes de analisar também outros temas, o que tem conferido certo respeito à profissão.

Então, ao mesmo tempo em que o mundo está se abrindo, dando uma chance para o esporte, para a editoria de esportes se mostrar como jornalismo, por outro lado, os jornalistas têm melhorado muito o seu desempenho e tem se mostrado mais abertos a tratar do tema como uma universalidade que não se via em outros tempos.

Isso também foi um pouco forçado pelos caminhos que o futebol tomou. Por exemplo, hoje, a modalidade mexe diretamente com economia, no sentido do business e do espetáculo. O futebol mexe até com política. Existem parcerias escusas, escândalos envolvendo dirigentes, arbitragem, entre outras coisas. Isso tudo obrigou o jornalista que mexe com esporte a ampliar a sua visão, passou a exigir mais do jornalista esportivo.

Aliado a isso, tem-se o boom de outros meios de comunicação que exigem uma leitura mais apurada. Em alguns canais de TV por assinatura, busca-se dar informações com maior qualidade para um público mais exigente. Além disso, tem-se as novas mídias e novas tecnologias, como a internet e as notícias no celular.

Enfim, o esporte, forçosamente obriga os seus profissionais a encararem o seu fazer de outra maneira, bem diferente daquilo dos meados dos anos 1970 e início dos anos 1980. Eu enxergo uma evolução em andamento. Não diria que o jornalismo esportivo evoluiu e ponto. Mas sim, que ele está em evolução.

Cidade do Futebol – O futebol e a história brasileira possuem uma proximidade e uma interferência um no outro muito grande. Como esse tipo de influência já foi utilizado tanto para um como para o outro lado?

Celso Unzelte – A história do futebol e a do Brasil estão amarradas desde o início, embora, às vezes, a historiografia oficial não se dê conta disso. Essa relação vai desde a influência dos presidentes nas escalações de times que nos representavam em campeonatos sul-americanos, nas décadas de 1910 e 1920, preferindo que não se escalassem negros para mostrar uma possível e, na verdade, inexistente europeização da raça brasileira, o que já era uma interferência política.

Depois tivemos a fase de popularização do futebol com o rádio e com o governo de Getúlio Vargas. Aliás, não era por acaso que Vargas fazia os seus anúncios de benefícios para os trabalhadores no estádio de São Januário. Ou seja, tinha uma relação direta com o futebol.Após isso, o futebol passou a ser bastante utilizado como ferramenta política, principalmente, na época da ditadura, que é quando fica mais marcada essa interferência. 

O Brasil foi bicampeão do mundo, durante um período democrático , quando estavam na presidência, primeiro, Juscelino Kubitscheck, e depois, João Goulart. Depois, o país perdeu a Copa de 1966, muito por conta de intervenções diretas da política. Em 1970, o Brasil ganha a sua terceira copa do mundo, em plena ditadura. É só observar-se que a delegação brasileira era formada essencialmente por pessoas ligadas aos militares, como Cláudio Coutinho e o próprio Carlos Alberto Parreira, que tinha ligação com a escola militar. Em 1978, quando nós perdemos a copa, o presidente da CBD era o almirante Heleno Nunes. Ainda era forte a influência dos militares. Isso só começa a diminuir, a partir da criação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), de 1979 para 1980.

Em 1990, nós perdemos uma copa que tinha a cara dos anos Collor. Em 1994, já retornando realmente ao período democrático, com o nosso segundo presidente eleito, chega-se ao tetra, e o pentacampeonato vem com o presidente Lula, em 2002.

Ou seja, é possível contarmos a história do futebol e a história política do país paralelamente e das influências que uma exerce na outra. Apesar de que é muito maior a interferência da política no futebol do que propriamente do futebol na política. Eu acredito que, durante todo esse tempo, o futebol foi um instrumento político com um peso bastante grande no Brasil. Os políticos sabem muito bem disso.

Na própria inauguração do Museu do Futebol, existia um monte de gente querendo furar a fila, dizendo para o segurança que era deputado estadual, o que mostra o peso político que o futebol tem nesse país, tanto para o bem quanto para o mal.

Cidade do Futebol – A cobertura do futebol na mídia é muito embasada no factual. Alguns poucos quadros e veículos ainda tentam resgatar um pouco da história da modalidade, e raros são os casos de mídias que tentam apresentar o futebol nos seus mais diversos aspectos dentro e fora de campo. Qual é a relevância de mostrar ao público esses vieses da modalidade e como isso pode alterar a percepção do público sobre o esporte?

Celso Unzelte – A importância de mostrar-se o futebol em todos os seus aspectos é algo essencial. No entanto, não podemos esquecer que se trata de um negócio e que o público não está preparado para receber tantas informações, no sentido de que uma carga maciça desse tipo de informação geraria o desinteresse. É um cobertor curto.

É claro que todos nós gostaríamos de passar o máximo de informações da melhor maneira possível. Contudo, não há como ter-se uma quantidade grande desse tipo de conteúdo na programação, pois as pessoas iriam se afastar desse tipo de negócio. É uma relação complicada.

Algo semelhante acontece no caso do Museu do Futebol não abrir em dias de jogos. É claro que isso deveria acontecer, mas as pessoas, infelizmente, não estão preparadas para isso, o que é fato.

Seria necessário fazer-se um trabalho de médio e longo prazo para que, gradativamente, as pessoas se interessassem um pouco mais sobre o lado histórico do futebol. Eu sou um pouco suspeito para falar sobre isso, porque tenho um interesse particular e específico nesse aspecto da modalidade. Porém tenho plena consciência de que sou uma exceção.

É importante salientarmos que estamos lidando com entretenimento. Logo, as pessoas que buscam o entretenimento puro vão afastar-se desse tipo de discurso. Mas, acho fundamental que continuemos insistindo, lenta e gradativamente, cada vez mais aumentando a carga de informações, a fim de buscarmos a conscientização, que é fundamental.

Cidade do Futebol – Você acredita que, com a inauguração do Museu do Futebol, o interesse do brasileiro pela importância da memória do esporte pode ser modificado?

Celso Unzelte – As diferentes gerações darão valores diferentes para o futebol sempre. É normal dar-se muito mais destaque para aquilo com o que se tem uma relação mais direta, uma memória mais afetiva. Quanto ao Museu do Futebol contribuir para que isso aconteça, eu penso que é um grande estímulo.

De se lamentar era o fato de não existirem esses registros para aquelas pessoas que quisessem ter a iniciativa de pesquisar sobre a história do futebol brasileiro. Elas, com certeza, tiveram muito mais trabalho do que teriam se fizessem esse estudo agora. Ela encontraria, no museu, um ponto de partida.

Eu acredito que esse trabalho seja de uma responsabilidade muito grande. Nunca se sabe quando, entrando pela porta do museu ou lendo algo que está escrito, pode estar um garoto que, naquele momento, pode fazer sua própria opção de vida, sua escolha profissional.

Isso aconteceu comigo, quando eu tinha de nove para 10 anos de idade, eu decidi ser jornalista e já gostava de esportes, a partir de muita coisa que foi escrita por outras pessoas, as quais trabalhavam com isso.

O estimulo está aí e as portas estão abertas. Em relação, se mais ou menos pessoas vão se interessar, talvez não seja o fundamental. O mais relevante, no caso, é que aquelas pessoas que se interessem realmente consigam passar isso adiante, para outros indivíduos. A pretensão não tem que ser de que todos aqueles da nova geração que se interessarem têm que passar pelo Museu do Futebol. Mas sim, que o museu irradie o seu conteúdo, seja pela memória de pessoas que passaram informações para outras, ou estimulando a criação de outros centros como esse.

A grande importância do Museu do Futebol está no campo das idéias, da propagação das idéias. Se ele atingir esse objetivo, eu acredito que a missão já estará cumprida.

Cidade do Futebol – O Museu do Futebol será aberto durante toda a semana exceto às segundas-feiras e em dias de jogos. Uma das promessas dos organizadores é que o estabelecimento também possa ser visitado nos dias de confrontos no Pacaembu, assim que os responsáveis pelo museu puderem confiar nas torcidas dos times que vão assistir os seus times no estádio. Você pensa que o Museu do Futebol pode criar uma mentalidade mais consciente no torcedor brasileiro?

Celso Unzelte – Eu acho que o ideal seria que as portas do museu estivessem abertas nos dias de jogos. É um contra senso as portas ficarem fechadas nessas ocasiões. Apesar de ideal, isso não é o possível.

Isso porque a reeducação não passa simplesmente pelo fato do indivíduo se sentir torcedor responsável. Ele tem que se sentir cidadão responsável. Não vai adiantar ele preservar o Museu do Futebol e depredar o ônibus na volta pra casa. Por isso, é preciso que se dêem condições para que a pessoa se sinta cidadã.

Acredito que uma aposta possível de ser feita a médio e longo prazo é, por exemplo, o chamado “efeito metrô”. Por que as pessoas depredam menos, ou quase não depredam o metrô? Porque elas se sentem respeitadas nele, elas se sentem cidadãs. O metrô dá a elas melhores condições, o que talvez os trens e os ônibus não proporcionem. Embora a situação no metrô, atualmente, esteja terrível, uma vez que ele está sempre lotado, já está se fazendo algo, ainda que com atraso, para resolver isso, para garantir mais linhas de metrô.

Por isso, eu penso que esse “efeito metrô” é uma aposta viável. Fazer as pessoas se sentirem cidadãs para agirem como cidadãs. Mas, concordo que isso é um trabalho que tem que ser feito a médio prazo. Principalmente no futebol, onde nós temos tanto problema de violência, de pessoas que cometem atos insanos quando estão em grupo. Existe também a questão das torcidas organizadas, e da faixa etária das pessoas que freqüentam esses grupos.

Há ainda uma longa caminhada nessa história. No entanto, é um objetivo que nós temos que perseguir no Museu do Futebol. Ele tem que ficar aberto em dias de jogos. Porém, para que ele fique com as portas abertas quando houver partidas, muita coisa precisa mudar não só no futebol, mas no país. Quero ainda estar vivo no dia em que o Museu do Futebol estiver aberto em dias de futebol.

Cidade do Futebol – Os atletas, times e seleções antigas têm diversas histórias de superação e, principalmente, de enorme dedicação à camisa brasileira. No entanto, atualmente, tal empenho não é visto com tanta freqüência. O que aconteceu com o futebol nas últimas décadas que levou a essa mudança drástica?

Celso Unzelte – O que aconteceu não foi com o futebol, e sim com o mundo. É uma utopia essa idéia de amor à camisa. O futebol passou de uma atividade meramente lúdica para um grande negócio, que envolve milhões, além de lidar com o destino das pessoas. 

Existem muitos garotos sonhando em jogar na Europa. Há tempos atrás, havia atletas que nasciam, cresciam e morriam sem sequer visitar a Europa. A ida à Suécia foi um grande acontecimento para a maioria dos nossos jogadores da seleção de 1958. Eles voltaram com lembrancinhas debaixo do braço e com histórias de terem conhecido o país. Hoje, os nossos jogadores, com menos de 16 anos de idade, já conhecem o mundo por meio dos clubes pelos quais jogaram.

Portanto, é natural que para os mais novos, o grande evento não seja uma copa do mundo, ou vestir a camisa da seleção brasileira. Ou seja, mudou a forma de enxergar as coisas, porque mudou o futebol e porque o mundo também mudou.

Hoje, vivemos em um mundo globalizado, onde se consegue saber, por meio da internet, como joga qualquer atleta, acessando o Youtube. No tempo do Garrincha, precisava-se de uma copa do mundo para os soviéticos saberem que existia o Garrincha. Era outro contexto, outro planeta. 

Eu não culpo os jogadores de futebol e nem culpo o mundo. É uma outra forma de se viver, e não uma questão só do futebol. O amor à camisa morreu, como morreram as relações de trabalho funcionário-empresa. Eu não tenho o mesmo tipo de relação com as empresas por onde eu passo que meu pai teve na época dele. Ele passou a vida toda em uma ou duas empresas. Meu avô, talvez, em uma. Hoje a vida não é mais assim, os interesses são outros, o mundo é outro.

Não existe a questão do amor à camisa ou da identificação. O fato é que se vive em um mundo completamente diferente. Não que aquilo que ocorre hoje seja o certo, mas, para a cabeça das pessoas, é muito difícil de lidar. Por exemplo, se você tiver que dar um presente de aniversário para o Kaká ou para o Ronaldinho Gaúcho. O que você pode dar que uma pessoa dessas não tenha? É uma questão de expectativa de vida. Eles já estão realizados muito antes do que os atletas de antigamente. Eles perderam o estímulo, já viram tudo o que tinham que ver. A copa do mundo pra eles não é mais o evento que era para um Didi, um Garrincha, um Zagalo, em 1958.

O futebol é um grande negócio de

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