Universidade do Futebol

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12/11/2018

Ciência no Futebol e outras coisas mais…

                              1. Não quero erguer-me nos bicos dos pés para estabelecer com qualquer outra pessoa um forçado confronto, de todo desnecessário e inútil, mas não me é possível esconder, ao fim de mais de 40 anos de estudo, de investigação e de aprendizagem com muitos “agentes do futebol” e colegas meus universitários, que não falta ciência no futebol – falta, frequentemente, uma “cultura científica” que, de uma vez por todas, seja capaz de fustigar, criticamente, o modelo mecanicista de Galileu, no domínio das ciências humanas. Trata-se, de facto, de um modelo que, desde o século XVIII, reconhece principalmente, no ser humano, o animal-máquina e para ele aconselha uma epistemologia físico-matemática. Como Atividade Humana, o futebol não deixa dúvidas: os seus pressupostos, os seus princípios, os seus fundamentos são os de uma ciência hermenêutico-humana, que nos ensina que o mais importante, num jogo de futebol, não é a tática, mas o homem (o jogador) que concretiza a tática. Tenhamos em conta o seguinte: não há saltos, há mulheres e homens que saltam; não há chutos, há mulheres e homens que chutam; não há fintas, há mulheres e homens que fintam. Se não compreender as mulheres e os homens que saltam e chutam e fintam, não compreenderei forçosamente os saltos, os chutos e as fintas. Venho aconselhando alguns treinadores de futebol que de mim se aproximam (e que mais me ensinam do que aprendem) que, antes de cada um dos treinos devem levantar dentro si mesmos esta questão: “Qual é o tipo de homem que eu quero que nasça do treino que vou orientar?”. É que sem homens inteiriços, de antes quebrar que torcer; com a altivez e a inteligência das pessoas livres e a generosidade dos crentes – a tática não resulta. Mas homens de profundas convicções éticas porque, sem ética, não há desporto. No “desporto-rei”, o homem está antes da tática, mesmo que incansavelmente se diga que “o futebol é um desporto predominantemente tático”. A periodização tática, expressão que tem por si uma vasta galeria de adeptos, resulta da firme convicção que, no futebol, “no princípio, é a tática”. Prefiro a expressão periodização antropológica e tática. É que, para mim, o futebol (como o desporto) não é só uma atividade física, é verdadeiramente uma atividade humana, é motricidade humana. No futebol (como no desporto)  no princípio está o Homem, a tática vem depois. “Mutatis mutandis”, foi o que afirmou ao Nuno Delgado o treinador principal da seleção norteamericana de basquetebol, medalha-de ouro nos últimos Jogos Olímpicos, se bem interpreto o que o diretor do jornal A Bola fez o favor de me informar. Fiquei satisfeito com a “boa nova” – é que defendo isto mesmo, há um bom par de anos. Julgo que o dr. Jorge Araújo, um dos nomes maiores da história do basquetebol português e autor que muito me ensina, nos seus livros, faz suas estas minhas palavras…

                               2. Éramos três, à hora do almoço das quartas-feiras, no Estádio do Restelo: o Homero Serpa, o Jorge Jesus e eu. O Jorge Jesus trabalhava então no Belenenses e com brilho inapagável: finalista da Taça de Portugal e, durante dois anos consecutivos, um quinto lugar, no campeonato. Com o “plantel” que tinha às suas ordens, parecia fazer milagres. Será por acaso que o Garay já comparou Jesus a Mourinho? (cfr. A Bola, 2013/12/28). Um dia, o Homero que, de quando em vez, olhava, com olhar longo, as águas chãs do Tejo, questionou o “nosso” treinador: “O que vê, quando vê um jogo de futebol?”. O Homero era um homem culto e, portanto, denunciava, em cada momento, uma busca nunca apaziguada do conhecimento. O Jorge Jesus não esperava a pergunta mas, vivo e sagaz que é, redarguiu prontamente: “Quando vejo um jogo de futebol, tenho a sensação que vejo diferente das outras pessoas”. Ocorreu-me, se bem me lembro, uma conversa que mantivera com o Dr. Sócrates (em Setembro de 1983, frequentava ele o terceiro ano da Faculdade de Medicina da USP e defendia, com vigor, a “democracia corinthiana”). Aí estão as palavras do Magrão: “Ao contrário do que a torcida entende, para mim um jogo de futebol é uma festa, não é aquilo que eles pensam”. E, naquele ano longínquo de 1983, antecipou a convicção de Jorge Jesus: “Para mim, o futebol é outra coisa!”. Já na década de 70, eu aprendi com A. Sedas Nunes que “a ciência representa uma outra maneira de ler o real, diferente da do senso-comum (…). A ciência pressupõe rutura com as evidências do senso comum” (Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais, Cadernos GIS, p. 25). Partindo deste pressuposto, poderei adiantar que um treinador de futebol é um trabalhador do conhecimento, quero eu dizer: um especialista, numa área científica autónoma? Se, como quer a UNESCO, o conhecimento é uma informação que resulta na prática, tendo em conta o desenvolvimento humano, por que não hão-de ser “trabalhadores do conhecimento” os treinadores dos principais clubes de futebol, singulares figuras com insubstituível lugar, no panorama do futebol mundial? Há por aí uns eurocratas que nunca foram sazonados por uma vida desabrida e dura e se julgam, quando chegam a Portugal, no país mais recuadamente provinciano de que a História reza, que só encontram saber nos doutorados por universidades de cultura e língua anglo-saxónicas. Se assim fosse, o Edgar Morin, que só escreve em francês, não seria, como é, um dos autores mais lidos no mundo todo. É verdade que também nem sempre é famoso o contributo dos grandes treinadores, no domínio das belas letras. Mas não é isso o que se lhes pede, nem que tenha nenhum parentesco íntimo com a cultura e a língua inglesas – o que se lhes pede, de facto, é que saibam construir e liderar uma equipa de futebol!    

                               3. Sem citar o José Mourinho, o Carlos Queirós, o António Oliveira, o Manuel Jesualdo Ferreira, o Leonardo Jardim, o Vítor Pereira, o Nelo Vingada, o José Peseiro, o Rui Vitória, o Daúto Faquirá, o Jorge Castelo, o Rolão Preto, etc., etc., todos eles com licenciatura universitária (o Jorge Castelo e o José Mourinho são doutores pela UTL) – o Manuel José, o Toni, o Jorge Jesus, o Paulo Bento, o Jaime Pacheco, o Manuel Cajuda, o José Couceiro, o André Villas-Boas, o Domingos Paciência, o Ulisses Morais, o João de Deus, o Paulo Fonseca, o Marco Silva, o Nuno Espírito Santo e mais alguns (sem licenciatura universitária) são também para mim profissionais de verdadeiro conhecimento científico e, se os principais clubes de futebol, em Portugal, convivessem com as universidades como parceiras na produção de conhecimento, seriam, mais tarde ou mais cedo, inevitavelmente, equiparados à licenciatura em Desporto. Ser o treinador principal de um grande clube de futebol é uma empresa de enorme envergadura. E se, sobre o mais, os jogadores e os restantes elementos da equipa técnica ainda o reconhecem como o mestre incontestado, não sei como não ver nele uma destacada individualidade, na sua profissão. Quando era professor na Universidade Estadual de Campinas, ouvi um dia ao incomparável Darcy Ribeiro que, no Brasil, só existiam três coisas sérias: a cachaça, o jogo do bicho e o futebol. Que o futebol é também “coisa séria”, no nosso país, creio que ninguém o põe em dúvida, a começar pela FIFA que já nos deu, no século XXI, um honroso lugar, no ranking dos melhores do mundo – o que significa que esta classificação muito deveu ao trabalho competente dos treinadores portugueses. “A seleção de Portugal chegou ao lugar mais alto de sempre da sua história, no ranking FIFA, o terceiro lugar, igualando o feito alcançado, em abril e maio de 2010” informou A Bola de 2012/10/3. Mas tudo isto só prova que o trabalho do treinador de futebol é predominantemente intelectual. A sua tarefa (se posso aqui empregar as palavras de Althusser) é uma “prática teórica”. E, portanto o mais importante, para a sua profissão, não é a força do seu remate, nem a imaginação das suas fintas, nem o insólito dos seus passes (isso é com os jogadores) – mas a liderança que é tanto saber e sabedoria, como capacidade para emocionar e gestão de relações. O líder, no meio dos seus jogadores (ou até no meio da multidão) está sempre com a sua gente. Possui-o não sei que euforia superior a ele próprio, toma-o uma ebriedade espiritual, feita de linguagem incisiva, de orgulho, de suficiência, de convicção – que o tornam irresistível. O treinador deve saber de futebol? Muito! Deve saber ser líder? Muito mais! O que não é fácil! Em 2005, dos 31 jogadores contemplados com o Ballon d’Or, apenas 4 (quatro) exerciam a profissão de treinador de futebol: Ruud Gullit, Lothar Mathaus, Jean-Pierre Papin e Marco van Basten. Repensar a ciência no futebol passa por valorizar as pessoas face à tática. É que a ciência onde o futebol se fundamenta é uma nova ciência hermenêutico-humana. Passo a palavra a Edgar Morin: “Cada ser humano carrega em si a condição humana. Portanto, nunca esquecer as singularidades e que elas existem num tronco comum” (Inteligência da Complexidade, Instituto Piaget, Lisboa, 2009, p. 75).  

                            4. “Nunca esquecer as singularidades” aconselha Edgar Morin. Não há grandes equipas, sem grandes jogadores, como não há grandes orquestras sem grandes intérpretes. O Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé, o Benfica de Eusébio, o Porto de Madjer, o Ajax de Cruyff, o Bayern de Beckenbauer, o Inter de Mourinho e, nos dias de hoje, o Juventus de Cristiano Ronaldo, o Barcelona do Messi, o Neymar do PSG, etc., etc. ilustram o que venho de afirmar e que assim resumo: ninguém é ato se, em primeiro lugar, não for potência. Mas o jogador de classe incontestada é também o resultado da sua história de vida. Na VIII Tese sobre Feuerbach, Marx afirma que “a vida social é essencialmente prática”. Ou seja, o jogador nasce, mas aprimora, aperfeiçoa o que é, através do treino, das competições, da solidariedade dos colegas e da sabedoria e liderança do seu treinador. Nenhum treinador sabe fazer um Pelé, um Maradona, um Eusébio, um Cristiano Ronaldo, um Messi, etc., etc. Eles nasceram com as potencialidades do “craque” (potencialidades físicas, intelectuais, espirituais) e o líder, ao construir uma equipa, maximizou-lhes as virtualidades – nada mais! Uma equipa de futebol (como de qualquer outra modalidade desportiva) é um laboratório da complexidade onde se encontram em dialética incessante, imediatamente, os jogadores, a direção do Clube, a equipa técnica e médica e, mediatamente, a Comunicação Social e os adeptos. Nos êxitos ou nos inêxitos de uma equipa não está só o treinador, como se vê – está a totalidade de que o treinador é um dos elementos… dos principais, logicamente! Cito aqui, a propósito, Didier Drogba, no livro do Prof. Luís Lourenço, Mourinho – a descoberta guiada (Prime Books, 2010): “O Mourinho não me ensinou a jogar futebol. Eu sei jogar futebol. Ele ensinou-me foi a jogar em equipa, o que é algo diferente. E é por isso que onde quer que ele se encontre atinge o sucesso”. Em La Méthode, I (Seuil, Paris)Edgar Morin assinala que a organização é capital, “dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e desaparecem as qualidades inibidas” (p. 151). E continua: “O que é importante na emergência é o facto de ser não dedutível das qualidades das partes (…), aparece somente a partir da organização do todo”. Um exemplo: a molécula da água, OH2, tem qualidades que o hidrogénio e o oxigénio, por si sós, não possuem. O Messi tem uma eficiência no Barça que não apresenta na seleção argentina – é que ele é elemento da organização do Barcelona e não o é da seleção do seu país. E aqui podemos relembrar o Ortega Y Gasset: “eu sou eu e a minha circunstância”. Por seu turno, o treinador, ao saber que não faz jogadores, mas ajuda os jogadores a fazerem-se a si mesmos, passa a medir o seu êxito pelo êxito dos seus jogadores. O sucesso do líder avalia-se pelo sucesso dos seus jogadores. E, porque o futebol é uma Atividade Humana e não é só uma Atividade Física, a preparação dos jogadores situa-se ao nível do quantitativo e do qualitativo, deverá preocupar-se com o como e com o porquê.

                           5.  Suscitam reservas, objeções e reticências as minhas ideias sobre a epistemologia do futebol, designadamente em pessoas que pensam, como há cem anos atrás, que só é científico o que é quantitativo e previsível. De facto, a esmagadora maioria dos manuais ditos “científicos” do treino carecem de reflexão antropológica. Que o futebolista (ou o praticante de qualquer outra modalidade) é um ser de sentimentos, emoções e desejos; que o futebol tem mesmo a sua expressividade corpórea – são temas que não interessam a estes “cientistas” do treino. Recordo Wittgenstein, neste passo: os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo. Para estes “cientistas”, portanto, um treinador eficaz domina os aspetos vincadamente técnicos e táticos do futebol e não precisa de mais nada para ser um profissional de prestígio. A totalidade que a equipa é observam-na como um mero somatório de indivíduos, todos semelhantes, com os mesmos interesses e reagindo de modo idêntico diante dos mesmos estímulos. Bem ao contrário, cada um dos jogadores é uma surpresa, porque é uma personalidade singular, uma parcela de humanidade, que não se confundem com as características psicológicas, culturais, morais de qualquer um dos seus colegas de equipa. Consulto o livro de Jorge Araújo, Gerir é Treinar: “Os jogadores não são máquinas programáveis, mas sim seres humanos que pensam, interpretam e se emocionam” Que o mesmo é dizer: é preciso organizar o todo, sem esquecer o micro-universo que é cada um dos jogadores, ou seja, o treino individual, para que eles encontrem espaço a manifestar-se e desenvolver-se. A noção de organização é capital, dado que é através da organização das partes num todo que aparecem as qualidades emergentes e vão desaparecendo as limitações e as deficiências.

                        6. Num célebre discurso, pronunciado, na Sorbona, em 1946, sobre o homem e a cultura artística, Malraux via, na vontade de consciência e de descoberta, a tradução dos dois maiores valores europeus. Também, hoje, em que a ideia de história se distingue por inesperados ritmos de mudança (cfr., a propósito, de Anthony Giddens The Consequences of Modernity, que eu li em tradução da UNESP, Universidade Estadual Paulista) esse processo e essa vocação de consciência deverão alertar-nos contra uma imagem secundária do ser humano. Na Motricidade Humana, de que o Desporto é um dos subsistemas, a imagem de Homem resiste ao saber massificado, gerador de submissão, de passividade e corrosivo do espírito crítico. Porque no movimento intencional da transcendência (ou superação), o desportista tende a não abrandar no ímpeto de superar-se, de ampliar os seus horizontes de vida, de avivar o que nele brota das zonas mais profundas de si mesmo: o movimento do mais ser! Dobrará o cabo da irreflexão aquele que reúne e sintetiza a torrente de palavras, de modelos, de imagens que, numa neblina de confusão, ainda fazem do atleta uma “besta esplêndida” e do treinador desportivo um repetidor de ideias feitas e do licenciado em Desporto um simples professor de ginástica. Levemos as questões até ao fim e um sentido para o Desporto que nos tocou viver e digamos sem receio: o atleta é um ser humano que temporaliza a transcendência e o seu treinador o mais sábio companheiro de jornada e o licenciado (ou mestre, ou doutor em Desporto) o que diz ao treinador e ao atleta, como o Sartre da Vérité et Existence que “a verdade está continuamente em perigo” e que é preciso mais trabalho que não deixe de ser também organização, reflexão e estudo, no espaço de uma ética onde eu sou um de nós. Não me canso de falar do José Mourinho. No dia em que lhe foi outorgado o grau de doutor “honoris causa”, ele afirmou publicamente que fundamentava o seu trabalho profissional num paradigma científico. Será por acaso que o José Mourinho é o melhor, ou um dos melhores treinadores do mundo? É preciso ciência no futebol. Mas é preciso saber de que ciência se fala. É, de certo, uma ciência hermenêutico-humana, pois que, nela, é o ser humano que se estuda. Ora, o ser humano é, simultaneamente, “bios” e “logos”. “Bios”?… De facto, como o diz a Profª. María José Martínez Patiño, ex-atleta olímpica, assessora científica da Comissão Médica do COI e professora da Universidade de Vigo: “Todos os que são top a nível mundial beneficiam de uma genética especial. São um tipo de desportista que nasce a cada 500 mil. Génios com uma genética incomensurável, que os tornam quase perfeitos nas tarefas que executam” (revista Visão, 25/9/2018). E génios do ponto de vista físico, fisiológico, psíquico, psicológico, mental, sentimental, etc.

                             7. No entanto, só sabe inovar quem antes se transformou, pelo trabalho, pela curiosidade, pela humildade, pelo estudo. É que tudo é história: para o conhecimento científico e para o cientista. E o que ontem foi novidade, hoje parece velho. No departamento de futebol do futuro, organizado em função de uma equipa de especialistas, em trabalho interdisciplinar, o caos é o modo de produção da informação. O líder, o treinador principal decide, mas o que lhe chega é caótico. E onde procura ele o lugar mais próximo da verdade? Na prática! Não sou eu a dizê-lo tão-só: “A prática não significa apenas o momento de aplicação. É sobretudo a razão de ser da teoria, como a teoria (…) é a razão de ser da prática. Teorizar a prática e praticar a teoria são movimentos mutuamente implicados e complementares” (Pedro Demo, Conhecimento Moderno, Vozes, Rio de Janeiro, p. 67). Mas, dentro de um espaço devidamente organizado, já que a autoridade não é, não pode ser argumento científico. As ciências procuram a certeza, com a certeza que nunca serão certas, dado que todas as metodologias, mesmo as mais óbvias, sofrem de inúmeras limitações. No futebol, deve evitar-se também saber só de futebol (saber “tudo é tão pouco”, nas palavras de Ricardo Reis) ou um erro em que tombam alguns jornalistas e comentadores: especializar-se em generalidades de caráter demasiado impreciso e incerto. Cada vez mais o treinador há-de ter do exercício da sua profissão uma noção essencialmente humanista e com sabedoria e bom senso. Sabedoria, onde a experiência se casa com um estudo constante: e bom senso, onde sabedoria é também equilíbrio, ordem, medida e, se possível, com um tolerante esprit de finesse. Enfim, um departamento de futebol de altos desempenhos deve saber transformar-se numa réplica de um centro científico de excelência, dando às qualidades humanas, à organização, à interdisciplinaridade e à Internet lugar de relevo. Há uma “patologia do saber”, no futebol, que se manifesta numa hiperespecialização sem o adequado paradigma. Quero eu dizer: há treinadores que trabalham como se os seus jogadores fossem seres biológicos tão-só e que não se movimentassem num universo de linguagem, de ideias, de consciência. No ser humano (e, portanto, no desporto) o bios não existe sem o logos. Tudo o que é cultura tem uma raiz biofísica e de tudo o que é biofísico emerge uma raiz cultural. A grande maioria dos problemas científicos, no futebol, ainda não têm resposta exclusivamente científica. E não só em Portugal…                                                                                                                                              

                         8. No desporto, como em tudo o mais, sem conhecimento, não há intervenção, nem inovação credíveis. O empresário Jorge Mendes prende sobremaneira a atenção, quando se refere a Cristiano Ronaldo: “Em Inglaterra, ninguém tem dúvidas de que foi o melhor jogador de sempre que passou pela Premier League. Durante seis épocas, levou o Manchester United às costas. Nesse período, transformou-se no jogador que é hoje, fruto de muito trabalho (…). Ele chega aos treinos uma hora antes dos colegas e é o último a sair. Vai para casa e dorme a sesta. Depois, vai para o ginásio e é capaz de lá estar duas horas. Conhece-se a si próprio como ninguém. Sabe do que necessita e o que tem a fazer. É verdadeiramente impressionante”. E Jorge Mendes julga não desvirtuar a realidade, ao rematar: “Ele é o melhor jogador de todos os tempos” (A Bola, 2013/12/28). O futebol não se estuda apenas numa pessoa só, mas em muitas pessoas em interação. E todas elas, com a sua ideologia e cultura e vontade. O Ronaldo é ele e a sua circunstância: os seus colegas, os seus treinadores, os seus dirigentes, a sua família, os seus amigos. São palavras de António Damásio: “A emoção e o sentimento desempenham o papel principal, no comportamento social e, por extensão, no comportamento ético” (Ao Encontro de Espinosa, p. 34). Assim, o perfil genético, neurológico, psicológico, social, desportivo do atleta exige a interdisciplinaridade no departamento de futebol e que sejam, a começar no líder, trabalhadores do conhecimento aqueles que o constituem. Por outro lado, um grupo torna-se impossível, sem um certo grau de fidelidade a pessoas, a princípios e até a postulados da existência. A uma entrevista ao jornal A Bola (ibidem) declarou Cristiano Ronaldo: “A minha força vem sempre de dentro de mim. Da minha maneira de ser e de pensar”. Tem razão o CR7. Mas nele há muito mais coisas que o departamento de futebol não pode desconhecer. Um Cristiano Ronaldo não nasce sozinho, nem na família, nem num clube de futebol. Todos somos desejo e relação, desejo de relação e relação de desejo. Não é só um problema técnico e tecnológico a formação de um jogador e a criação de uma equipa. “Professor, dizia-me, há pouco tempo, o José Peseiro, só agora o entendo, quando nas suas aulas nos dizia: leiam os grandes romancistas, os grandes poetas, para compreenderem melhor o desporto”. O futebol não se resume a desempenhos físicos. Um jogo de futebol, de andebol, de basquetebol são pedaços da vida. A ciência faz parte da vida, mas a vida não é ciência tão-só.

                        9.  Não me parece demais repetir que as matemáticas para as ciências humanas, ou as bases biológicas da motricidade humana são saberes indispensáveis a uma epistemologia autónoma das ciências humanas. No entanto, “compreender não é explicar, mas conhecer intuitivamente por uma participação vivida” (p. 125), como o refere, com a sua habitual lucidez, Hilton Japiassu, no seu Nascimento e Morte das Ciências Humanas. Assim, quando se diz, na esteira de Dilthey e sem deixar esbater a lembrança viva do seu pioneirismo, que as ciências humanas são “positivas” também – isso não significa que não devamos transcender o cartesianismo, o positivismo, o naturalismo, pois que o ser humano, designadamente no “movimento intencional e em equipa da transcendência” precisa, urgentemente, de uma diferente inteligibilidade. E volto a Hilton Japiassu: “O homem não criou a natureza, mas o mundo social: os planetas existem independentemente da sua vontade, mas não o direito, a economia, ou a política. Donde, a originalidade das ciências humanas: todas são obras do homem e, por conseguinte, são ciências históricas. Enquanto tais, não analisam apenas um objeto exterior ao homem, mas é a própria razão do cientista que se torna histórica, vale dizer, é o homem criador das obras humanas, que constitui o objeto das ciências do espírito. Não devemos concluir, como o fez a metafísica clássica, que há duas realidades ontologicamente heterogéneas: a do espírito e a da matéria. A realidade é una, mas não se deixa apreender de modo único, como pretende o naturalismo! (p. 129). Qualquer treinador de futebol (qualquer treinador desportivo) não desconhece que, unicamente com o rigor físico-matemático, não pode descrever o “vivido” da sua prática profissional, ou da sua anterior prática de jogador de futebol. Este “vivido”, no desporto, compõe-se, portanto, de uma complexa mistura, onde cabem factos e situações de quem é, “grosso modo” corpo-alma-sentimento-desejo-natureza-sociedade-cultura. A ciência no futebol visa, sobre o mais, decifrar “significações vividas”, decorrentes, sobretudo, de uma séria autocompreensão, já que se torna impossível a compreensão, sem autocompreensão. Há o risco de se descambar no subjetivismo? A motricidade humana é movimento intencional, quero eu dizer: é diálogo, é sentido. E, se é sentido, subimos ao “nível hermenêutico”, que procura, preferentemente, a intercorporeidade, a intersubjetividade, a comunicação.

                        10. Li, com atenção e proveito, n’A Bola, de 2018/9/1, a entrevista do jornalista e escritor Miguel Cardoso Pereira Zach Schonbrun, jornalista do New York Times e da ESPN, que vem de publicar o livro The Performance Cortex, amplamente elogiado pela crítica mais rigorosa. À questão do jornalista português: “Vivemos uma era na qual os atletas de elite são as pessoas mais bem pagas do planeta: e tal acontece porque admiramos as suas capacidades e performances físicas, quase ao nível da divindade” – respondeu Zach Schonbrun: “Os atletas são na generalidade pagos, de acordo com aas suas performances físicas, concordo. Os números são elucidativos. O que me parece errado é o que verdadeiramente merece crédito. Ou seja, de um tenista diz-se que é bom, porque tem, imaginemos, velocidade na rotação dos pulsos (…)”. E não se diz que “o que está subjacente aos impressionantes atributos físicos é uma complexa rede neurológica deflagrada graças a milhões de interações que ocorrem num milésimo de segundo no cérebro e que faz dos grandes atletas pessoas extraordinárias, geniais”. No meu pensar, “tudo é tão pouco” (Ricardo Reis) para compreender (compreender, acima de tudo) e explicar o ser humano que é um sistema, ou uma “unidade complexa” (Edgar Morin). A propósito, podemos escutar o que nos ensina Edgar Morin: “o sistema é uma unidade global, onde as partes produzem um todo, o qual, retroagindo sobre as partes, por seu turno as produz. Todo e partes são sempre relativos um ao outro” (Robin Fortin, Compreender a Complexidade, Instituto Piaget, 2007, p. 42). Podemos evocar, neste passo, o Barcelona de Pep Guardiola, como treinador (e discípulo de Cruyff) e de Messi, Iniesta, Xavi. Puyol e Piquet. Faziam um todo maravilhoso, uma equipa onde a arte e a eficácia se conjugavam, com todas as condições  bio-antropológicas do futebol e do conhecimento do futebol; uma equipa que, muitas vezes, me deixou cismadoramente, na poesia, da tarde. As neurociências podem explicar os desempenhos dos jogadores de uma equipa, mas qualquer área científica tem os seus limites, só um pensamento complexo, onde há mais do que neurociência, pode respeitar a multidimensionalidade do real e portanto a multidimensionalidade do humano. Aquiesci, muitas vezes, que numa grande equipa, um treinador, como um tribuno arengando às massas e fascinando-as com tentadoras utopias, é absolutamente indispensável. Mas, hoje, sou em crer que tudo é muito pouco, para explicar o humano… que é um mistério!

                       11. No final do último jogo Benfica-Porto (2018-10-7), “Rui Costa , administrador da SAD do Benfica, abraçou o técnico do F.C.Porto, Sérgio Conceição, sinal de que, apesar de estarem em barricadas opostas, mantêm um relacionamento de amizade, fruto de percurso comum na seleção portuguesa e do tempo que ambos passaram, no campeonato italiano” (Jornal de Notícias, 2018/10/8). Sinal, sobre o mais, de cultura desportiva, ou seja, de uma motricidade humana que é ética e política e de uma prática que, não cultivando aduladores nem clientelas, tem por si imperativos categóricos de iniludível humanismo, de incontroversa solidariedade com o Homem, a Natureza e a Sociedade. Embora não tenha eu desenvolvido nunca uma teoria da história, é na história que tudo nasce e se desenvolve – é na história, se bem penso, que o “fenómeno humano” se percebe como facto e como valor. Não recuso que o empirismo seja o aspeto mais importante da prática e do pensamento científicos, pois que, por ele, gradualmente se alarga o campo da experiência. Mas também não escondo que os critérios epistémicos que me norteiam respeitam a distinção entre facto e valor. Julgo, assim, defender o lugar da fé e da razão, da religião e da ciência, da física e da metafísica, da filosofia e da teologia. Demais, a Ciência da Motricidade Humana (CMH), porque ciência social e humana, pressupõe uma antropologia, quero eu dizer: uma conceção global do ser humano e a significação e o sentido da sua existência. Deverá portanto observar-se o desporto (e o futebol) como um meio ao serviço dos superiores interesses do desenvolvimento humano. Que o mesmo é dizer: não bastam critérios tecnocientíficos, no desenvolvimento do desporto. Ele deverá nortear-se, acima do mais, pelos valores que mais contribuem ao surgimento do homem integral, no esplendor das suas imensas virtualidades, isto é, importa dar ao desporto a filosofia que merece. “Com efeito, no conhecimento corrente, há uma profunda influência das representações ideológicas que vão criar uma inegável predisposição genérica, para a aceitação das leituras científicas abstrusas, além da própria incidência proveniente do interior da actividade teórica propriamente dita” (Armando Castro, Teoria do Conhecimento Científico, Instituto Piaget, Lisboa, 2001, p. 108). E “leituras científicas abstrusas” que chegam a empolgar alguns conhecidos “agentes do futebol” e loquazes comentaristas, uns e outros incapazes de repensar a antropologia que está subjacente à teoria dominante do desporto. Adianto uma feliz definição de pessoa do Padre Vasco Pinto de Magalhães, sacerdote jesuíta e antigo internacional português de râguebi: “sujeito autónomo de relação”. Esta hipótese antropológica é o radical fundante (assim me parece) de uma ciência do desporto, de uma ciência do futebol.                           

                        12. Em qualquer teorização mecanicista do Homem e da Vida, o ser humano não passa de uma coleção de objetos. As relações das pessoas consigo mesmas e das pessoas com o seu semelhante e a natureza parecem perfeitamente secundárias. Este reducionismo, que o cartesianismo anunciou, procura pôr na penumbra o pensamento complexo, procura proclamar que, no mundo das ciências, há razão e nada mais do que razão. Peço desculpa por adiantar: se a ciência é cultura, na ciência há mais do que ciência e nela se descobre também arte e crença e manifestação do sagrado. Platão encimou a porta da sua Academia com uma tabuleta onde escreveu: “Que ninguém entre aqui, se não for geómetra”. Mas segundo uma tradição com alguma fidedignidade, também é de Platão a frase seguinte: “Deus age sempre como geómetra”. Descartes chegou mesmo a postular uma “mathesis universalis”, uma racionalidade que emergia de todo o real. Só que do real não emerge razão tão-só. Nos imponentes estádios hodiernos de um futebol científica e tecnologicamente preparado, são muitas as atitudes religiosas dos futebolistas, solicitando o apoio divino para a imprevisibilidade e a incerteza do jogo. “Nunca é demais insistir no fato de a ciência ocidental ter sempre estado relacionada com o universo cristão. A história das ciências nos mostra o papel importante desempenhado pela religião, na origem e no desenrolar da ciência moderna (…). É por isso que a história das ciências sempre esbarra no fenómeno religioso, ou nas formas culturais pré-religiosas do passado. E o pensamento cristão marca profundamente a ciência ocidental” (Hilton Japiassu, Ciência e Destino Humano, Imago, Rio de Janeiro, 2005, pp. 116/117). O sentimento religioso, numa equipa de futebol (e poderia referir-me a qualquer outra modalidade desportiva) reforça e recria uma identidade coletiva, um profundo sentimento de pertença a um todo, a uma comunidade. E, com o sentimento religioso, alarga-se a vastidão do horizonte cultural do Desporto. Fica mais complexa a complexidade…

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