Universidade do Futebol

AAREFut

31/08/2012

Ciência x Empirismo: qual o melhor caminho para se vencer no futebol?

Há algum tempo, a metodologia vigente no futebol era o empirismo. Esse método é uma das ferramentas mais comuns para alcançar o sucesso no futebol, sendo empregado em sua maioria por treinadores que também são ex-jogadores, valendo-se de suas experiências adquiridas dentro dos gramados para dar seus treinamentos e do feeling apurado para “caçarem” e lapidarem jovens talentos.

Com o passar dos anos, a ciência entrou na história, com a difícil missão de aumentar a qualidade e o controle dos treinamentos, além de auxiliar na detecção de jovens talentos. A função da ciência seria reduzir a subjetividade do treinamento empírico “sem base científica” e da aleatória detecção de talentos feita geralmente por olheiros, agentes e também por membros da comissão técnica.

A maioria dos clubes brasileiros adotou a ciência como solução de seus problemas e profissionais com curso superior passaram a ter mais oportunidades no mercado de trabalho futebolístico. Importante fazer uma observação neste ponto: nada impede que o profissional “empírico” também tenha formação acadêmica, assim como nada garante que o profissional que tenha faculdade não trabalhe “empiricamente”.

A metodologia científica de trabalho faz uso da interdisciplinaridade, ou seja, algo comum a diversas disciplinas; neste caso específico, no futebol. Ganharam mais espaço nas comissões técnicas dos clubes preparadores físicos, nutricionistas, psicólogos e fisiologistas. Sem dúvida, foi uma evolução.

O futebol subjetivo passou a ser questionado e o que é científico passou a ser considerado correto. Há casos extremos de o que não é explicado por números (estatísticas ou scouts), estudos experimentais comparativos, ou tecnologia de ponta (análises biomecânicas em geral), nem pode entrar na conversa. Em minha opinião, está errado!

Entendo e respeito que muita gente tenha interesse em vender artigos científicos, leia-se, artigos sobre o físico no futebol e a tal tecnologia de ponta como a solução para os problemas da prática. Contudo, tenho minhas dúvidas quanto à transferência favorável dessas informações científicas para a prática, para se identificar talentos, jogar um bom futebol, ou até mesmo um pobre futebol de resultados imediatos.

Inicio a minha reflexão com a frase do francês Michel Montaigne, que, referindo-se ao jogo de xadrez escreveu: “O xadrez é muita ciência para ser jogo e muito jogo para ser ciência”. Esta frase aplica-se perfeitamente ao jogo de futebol: muita ciência para ser jogo e muito jogo para ser ciência!

O futebol é um jogo de cooperação versus oposição, em um meio bastante instável e altamente imprevisível. Para ter sucesso em um meio com estas características, os jogadores devem sofrer constantes adaptações impostas por este meio e o bom desempenho está diretamente associado à velocidade e à qualidade das tomadas de decisão dos praticantes.

Daí o futebol ser um esporte em que todos os perfis físicos podem ter sucesso: jogadores baixos, altos, fortes, magros, com pernas tortas e assim por diante! Pode-se compensar a “deficiência” física de diversas maneiras e assim transformar a “deficiência” em qualidade.

Um excelente exemplo é Lionel Messi, que em uma campanha publicitária, sobre sua pouca estatura disse: “Acho que pelo fato de eu ser o menor jogador, eu talvez fosse um pouco mais ágil e rápido, o que me ajudava a jogar futebol. Sinto que, inicialmente, o que era desagradável e parecia mau, possibilitou-me conseguir muitas coisas boas no futuro.”

Para mim, o maior erro da abordagem científica no futebol é vê-lo fragmentado em físico, técnico, tático e psicológico. Enquanto o futebol for um fenômeno complexo, em que as suas valências interagem entre si, sem se saber ao certo, em uma ação, onde termina uma valência e onde começa a outra, a ciência terá dificuldades em atender às necessidades da prática.

O treinamento “fragmentado”

Aplicado tanto no método empírico, quanto no método científico, o treino “fragmentado” tem por base treinar separadamente as valências exigidas pelo jogo de futebol para melhorar a performance dos jogadores como um todo e desta forma melhorar o rendimento da equipe.

Trabalhar o físico (descontextualizado o jogo), o técnico (mecânico e repetitivo) e o tático “paradão” (treinador manda e jogador cumpre sem pensar) é a melhor forma de preparar uma equipe para jogar futebol?

Neste modelo de treino, o jogador treina suficientemente a essência do jogo, que é a tomada de decisão em um meio instável? Acredito que não. Talvez esta “falha” seja a principal causa de “problemas mentais” de muitas equipes, como por exemplo, a falta de controle psicológico e a reduzida capacidade de concentração durante os jogos.

Acredito que o treinador tenha de trabalhar (e muito!) nos seus treinos, situações que propiciem estímulos mentais que o jogo requisita e de que o tradicional treino “fragmentado” carece.

Detecção científica de talentos

A detecção científica de talentos normalmente é baseada em algumas avaliações fragmentadas. Vou citar algumas muito comuns:

– Realizar testes físicos e técnicos descontextualizados;

– Traçar perfis psicológicos dos jogadores;

– Verificar medidas antropométricas e a data de nascimento dos jovens (divisão do ano em 1º, 2º, 3º e 4º quartis)

Sobre os testes físicos (velocidade de deslocamento, agilidade, resistência aeróbia, entre outros) e técnicos descontextualizados (passe, chute, controle de bola etc.) não vou me alongar muito. Caso estes testes fossem prioritários na detecção de talentos no futebol, teríamos muitos jogadores provenientes do atletismo e muitos “freestylers” (malabaristas da bola) em campo e não é o que acontece na prática.

Há estudos científicos recentes, publicados em revistas internacionais com excelente fator de impacto (IF), que concluíram que testes físicos e técnicos por si só não podem ser considerados como indicadores confiáveis de boa performance no jogo de futebol (Williams & Reilly, 2000; Vaeyens et al., 2006).

Quanto aos aspectos psicológicos, para Williams & Reilly (2000), ainda não foi cientificamente possível traçar um perfil ideal para identificar talentos no futebol.

Em relação às medidas antropométricas, em especial a altura do jogador, eu acredito em uma hipótese, referida nos estudos de Carling et al. (2009) e Baker et al. (2003). A maior parte dos treinadores de jogadores jovens tem preferência por jogadores mais altos e fortes visando obter vantagens físicas em campo.

Quando um estudo é feito sobre uma amostra de jogadores de elite e estes têm uma média de altura “x”, pode-se incorretamente concluir que quem não mede “x” tem menos capacidade de se tornar um jogador de topo. Na verdade, o que fez a maioria dos jogadores profissionais ter esta altura “x” foi a oportunidade inicial de treinar em alto nível, além do ganho de experiência por jogarem mais, concedida pela maioria dos treinadores de jovens em processo de formação, visando obter vitórias imediatas.

Quando fazemos esta opção de escolher jogadores altos, podemos estar excluindo do processo (longo prazo) grandes jogadores de pequena estatura. Nada impede que jogadores altos e fortes sejam competentes, mas apenas ter um físico avantajado não é garantia de bom desempenho no futebol. Em outras modalidades esportivas talvez, no futebol definitivamente não!

Com referência à data de nascimento, o motivo dos jogadores nascidos nos primeiros meses do ano serem mais “bem vistos” pelos avaliadores no processo de seleção é majoritariamente em função das “vantagens físicas” imediatas que estes podem apresentar em campo.

Quanto mais velhos, normalmente mais desenvolvidos fisicamente são os jogadores. Por este motivo, grande parte dos futebolistas profissionais nasceu nos primeiros meses do ano (devido às escolhas iniciais dos treinadores no início do processo de seleção) e não por falta de capacidade dos jogadores nascidos mais tarde.

O estudo de Carling et al. (2009) concluiu que quando são dadas as mesmas oportunidades de treinamento e ganho de experiência aos jogadores nascidos nos últimos meses do ano, estes têm as mesmas chances de se profissionalizarem. Ronaldo (setembro), Maradona (outubro), Ibrahimovic (outubro), Pelé (outubro) e David Villa (dezembro) são alguns dos exemplos de grandes jogadores nascidos nos últimos meses do ano.

Detecção empírica de talentos

A detecção de talentos empírica na maioria das vezes se faz pela observação de jogos 11×11, seja nas tradicionais “peneiras”, seja em alguma competição.

Aqui, depende-se muito do feeling subjetivo do avaliador. Cito a seguir, grandes problemas deste tipo de avaliação e algumas situações em que esta maneira de avaliação é comprometida:

– Quando há grande desequilíbrio nas equipes (nas “peneiras” ou nas competições);

– Dos 22 (ou mais) participantes, nem todos terão tido chances suficientes para serem bem avaliados;

– Devido à pequena participação de alguns, um mau jogador em um dia bom pode ser bem visto e um bom jogador em um dia ruim pode passar sem ser notado

Estes jogos no modo 11 contra 11 também não me parecem ser o melhor caminho. Neles, se gasta bastante tempo para ver muito pouco do que os jogadores têm a mostrar. Além das grandes margens de erro e subjetividade deste sistema de avaliação.

Conclusão

Ver o futebol como um todo é para mim o melhor caminho. Avaliar e treinar o físico, técnico e psicológico isolados da tática e de tomadas de decisão deixa muito a desejar na construção do treinamento, na forma de jogar e na detecção de talentos. O que está acontecendo hoje é tentar justificar na prática os dados coletados cientificamente nos estudos. Isto é, trazer os “problemas” da teoria para a prática, quando na verdade, os problemas da prática deveriam estar sendo resolvidos pela teoria.

Nesta “guerra” ciência x empirismo (sobre qual é o melhor meio de ter sucesso no futebol), não há vencedores e quem certamente perde é o futebol. Estamos perdendo muito tempo para achar respostas que já não respondem a quase mais nenhuma pergunta.

O treinamento e a detecção adequada de talentos devem resolver, ou pelo menos minimizar, os problemas apresentados pelas principais metodologias vigentes. De acordo com a forma que a equipe joga ou pretende jogar, o ideal seria propiciar uma maior participação dos jogadores, um melhor aproveitamento do tempo de atividade e avaliar e treinar as tomadas de decisão e os princípios táticos unidos à técnica, ao físico e à parte psicológica dos jogadores.

Treinar e detectar talentos no futebol sem a presença de um modelo de jogo como referencial nestes processos é complicar ainda mais o que já é complexo por natureza. Neste caso, façamos o simples: quem sabe o que procura certamente tem maiores chances de encontrar.
 

Referências Bibliográficas

– BAKER, J.; HORTON, S.; ROBERTSON-WILSON, J.; WALL, M.; Nurturing sport expertise: factors influencing the development of elite athlete. Journal of Sports Science and Medicine, 2, 2003, 1-9.

– CARLING, C.; LE GALL, F.; REILLY, T.; WILLIAMS, A.M.; Do anthropometric and fitness characteristics vary according to birth date distribution in elite youth academy soccer players? Scand J Med Sci Sports, 19, 2009, 3-9.

– VAEYENS, R.; MALINA, R.M.; JANSSENS, M.; VAN RENTERGHEM, B.; BOURGOIS, J.; VRIJENS, J.; PHILIPPAERTS, R.M.; A multidisciplinary selection model for youth soccer: the Ghent Youth Soccer Project. British Journal of Sports Medicine, 40, 2006, 928-934.

– WILLIAMS, A.M.; REILLY, T.; Talent identification and development in soccer. Journal of Sports Science, 18, 2000, 657-667.

*Alberto Tenan é mestrando em Treino Desportivo (ULHT – Lisboa)

Para interagir com o autor: alberto@tenan.com.br

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