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O agente de jogadores Cláudio Guadagno, preparou-se para assumir esta nova carreira mesmo antes de parar de jogar futebol. Este carioca, que atuou como lateral direito em grandes equipes do futebol brasileiro e conquistou importantes títulos, encerrou sua carreira aos 31 anos no Fluminense, com o técnico Carlos Alberto Parreira, mas já sabia o que iria fazer assim que pendurasse as chuteiras. Por isso, em 1999 tornou-se agente Fifa criando a Guadagno Sports e nesses cinco anos de trabalho já é uma referência no mercado, caracterizando-se como um empresário objetivo e bem relacionado. Entre os jogadores representados por sua empresa estão os pentacampeões mundiais Roque Júnior, Edmílson e Marcos. Também integram o grupo, os ‘internacionais’ Juninho Pernambucano, Serginho, Bordon, Tiago Silva, Fábio Luciano e Renato (ex-Santos). Nesta entrevista, Guadagno revela alguns segredos do meio futebolístico e mostra que os dirigentes brasileiros estão despreparados para o cargo.

 

Cidade do Futebol – Quando e como decidiu que seria um empresário de futebol?

Cláudio Guadagno   Uns dois ou três anos antes de parar de jogar eu já tinha essa preocupação, ou seja, do que fazer ao término da minha carreira como jogador profissional. Sempre me preocupei muito com isso, pois a minha família depende do meu trabalho, então a responsabilidade se torna maior ainda. Surgiu uma oportunidade através do Serginho (hoje no Milan), lateral esquerdo, que teve um problema no São Paulo, onde na época, o presidente Fernando Casal DeRey pediu a minha intervenção, pois o jogador havia assinado um pré-contrato com um clube da Alemanha. Eu consegui intervir e acabou se tornando uma coisa maravilhosa para o Serginho e muito boa também para o São Paulo. Para mim, foi muito importante, já que eu vi que era capaz de ter esse poder de agregação extra-campo também, auxiliando o atleta que muitas vezes acaba sendo prejudicado numa transação frente a um clube.

 

Cidade do Futebol – Como você gosta de ser chamado profissionalmente? Agente, procurador ou empresário do atleta?

Cláudio – De agente do atleta. Na parte teórica ser agente ou empresário do atleta é a mesma coisa, mas na prática é diferente. O agente não representa o atleta somente na hora de fazer o contrato. Ele cuida da carreira do atleta, preocupando-se com a imagem do jogador. Coloca toda a sua estrutura e as pessoas que trabalham com ele para atendê-lo em vários sentidos – inclusive a família desse atleta, orientando-o da melhor maneira, em várias áreas, como por exemplo, a financeira, para que possa ficar tranqüilo e preocupado só em jogar futebol. O empresário às vezes não é agente de jogador, não é procurador de jogador e fica buscando clubes para realizar negociações e sendo assim, ganhar comissões. E o procurador é aquele que tem às vezes até o direito de assinar pelo atleta, tendo a procuração para isso.

 

Cidade do Futebol – Existem qualidades específicas para uma pessoa se tornar agente de atletas?

Cláudio – Acima de tudo você tem que estar capacitado e ter o dom para poder fazer o que faz. É uma dedicação grande, você tem que gostar muito e dinheiro não pode estar em primeiro lugar. Existem outras coisas que devem estar à frente do dinheiro, não só no trabalho, mas na vida, que é o caráter. Uma coisa que se fala muito no futebol é a tal de ética. Só que cada um acaba vendo o seu lado da ética. Eu gosto de trabalhar com e para os meus atletas. Não trabalho para atletas que já pertencem a outros agentes, originando assim alguns conflitos. Eu explico: muitos atletas nos procuram dizendo – ‘Olha, quero largar o meu agente’ ou ‘veja um clube para mim’. Eu prefiro não fazer isso e conseqüentemente não gerar atritos. Caso um atleta esteja realmente insatisfeito com seu agente, eu peço que ele resolva de vez a sua situação para que depois possamos iniciar o desenvolvimento de um trabalho. O agente não é o dono do atleta, é um prestador de serviços.

 

Cidade do Futebol – Quais os serviços principais que você oferece ao seu atleta?

Cláudio   Temos um escritório que coloca vários serviços a disposição dele. A gente tem contatos muito bons lá fora, assessoria financeira, tributária, contábil, procurando orientar o atleta no que for necessário, somada à experiência dentro de campo que sempre ajuda de alguma maneira. Temos também uma ótima sala de edição para montarmos as fitas com imagens dos atletas, já as transformando no sistema europeu. Essas fitas são as ferramentas mais importantes na minha opinião. Mas às vezes isto não é visto como muito importante para os dirigentes brasileiros. Eu não vou ser radical nesse ponto: existem muitos dirigentes que querem se beneficiar e pronto – inclusive na negociação de atletas. Às vezes o dirigente leva para o lado pessoal e o negócio não se concretiza. Tanto atleta quanto clube acabam sendo prejudicados.

 

Cidade do Futebol – Quais são as resistências ou incentivos encontrados nos clubes no processo de desenvolvimento de carreiras?

Cláudio – Vamos retirar o clube e colocarmos o dirigente. O clube sempre é prejudicado. Ele não tem boca para falar. Geralmente o dirigente é preparado somente para se beneficiar, mesmo que não seja financeiramente. Mas em outros aspectos, como a exploração de favorecimento de sua imagem, aparecendo na mídia a toda hora. Essa história de que o dirigente está ali por amor, não é verdade. É o que eu falo: gosto muito do que faço. Dinheiro é uma conseqüência desse esforço. Mas faço as coisas sempre dentro da lei, não fico agindo por debaixo dos panos nem de maneira errada. Existem muitas coisas obscuras que eu prefiro nem comentar.

 

Cidade do Futebol – Como se descobre um atleta e como você encontra jogadores pelo Brasil?

Cláudio – Eu particularmente trabalho com atletas já formados, que atuam em clubes e estejam em atividade, sempre vindo através de indicações. Estas indicações são feitas pelos próprios atletas com quem já trabalho. Eles têm uma confiança muito grande em mim. Nunca peço para que o meu jogador verifique ou assedie outro atleta de outro agente. Quer ver se o agente é bom ou se é ruim? Pergunte ao atleta. Não adianta perguntar ao dirigente ou à imprensa. Existe sim esse negócio de matéria paga ou agente que é amigo de jornalista ou do dirigente que se beneficia. Pergunte ao atleta e você saberá a resposta.

 

Cidade do Futebol – Você não trabalha com atletas em categorias de base?

Cláudio – Sim, mas são outras pessoas que trabalham comigo no escritório que desempenham esse papel. Não teria condições de fazer esse trabalho bem feito, pois já estou envolvido com jogadores profissionais.

 

Cidade do Futebol – Quais os conselhos que você dá aos jovens atletas?

Cláudio – Que continuem estudando e escolham seus amigos com cuidado. Pela experiência que eu tive, o que eu procuro passar a esses jovens é que eles já possuem o potencial, ou seja, o talento da bola e que nós temos o livre arbítrio para tomarmos as decisões certas ou erradas. Então eles têm de botar na cabeça que vale a pena o sacrifício, vale a pena abrir mão de bebida, da noite, de meninas. É claro que sendo jovens, tudo isso bate à porta, porém tudo tem o seu momento certo para acontecer, sem precisar ser aquela coisa doentia, exagerada.

 

Cidade do Futebol – Quais as responsabilidades do agente e do atleta?

Cláudio – Cada agente trabalha de uma maneira. Eu espero sempre que o atleta seja responsável e que retrate uma imagem positiva, além de possuir talento. Resumindo: ter atitude, caráter, responsabilidade, ser profissional e talentoso. Dessa maneira, ele irá trabalhar com a gente sempre. Atletas sem as qualidades acima não me interessam, por que só dificultam o nosso trabalho. O atleta espera da gente o suporte necessário e, principalmente, a confiança, que é algo muito difícil de ser conquistada. E, automaticamente, num futuro próximo, poder negociá-lo para a Europa ou um grande clube, onde possa realizar a sua independência financeira.

 

Cidade do Futebol – Como é a sua relação com a família desse atleta?

Cláudio – Faço questão de sempre estar em contato com a família do atleta, inclusive quando alguma negociação é feita para o exterior, em que os pais, ou um parente de confiança, estejam presentes na viagem para analisar conjuntamente como a negociação está sendo realizada. Faço questão que seja dessa maneira. Isso é uma coisa muito pessoal: às vezes algumas pessoas da imprensa ficam chateadas porque eu não comento sobre valores. Mas no Brasil não comentamos sobre tais assuntos simplesmente por precaução. A violência é muito grande e o atleta fica muito exposto.

 

Cidade do Futebol – Hoje, a mídia em geral diz que após a Lei Pelé, ser empresário é o melhor negócio do mundo.  Pode comentar algo a respeito?

Cláudio – Os dirigentes sempre irão arranjar desculpas para ‘prender’ o atleta. A chegada dessa lei foi uma das coisas mais humanas que aconteceram, onde o atleta pode decidir para onde quer ir, cumprindo um contrato ou ‘mudando de emprego’, ao pagar uma multa rescisória, para atuar em uma nova equipe. Quantos atletas ficaram sem jogar por quatro ou cinco anos porque o dirigente não assinava as suas liberações? Isso é uma escravidão! Acho ainda que uma pessoa dessas deveria ser punida. Agora, quando o atleta consegue se libertar dessas pessoas, que se acham donas do futebol, de uma maneira ou outra, eles apelam equivocadamente – muitas vezes apoiados pela imprensa – dizendo que é o empresário que tem o futebol nas mãos, o que é uma grande bobagem. O dirigente deveria preparar-se mais para realizar as suas funções: fazer um contrato mais longo, realizar uma multa contratual melhor, aperfeiçoar seus planejamentos – aliás, sempre gastam mais do que podem – contratar de maneira mais sensata, pois às vezes contratam três ou quatro jogadores para a mesma posição. Hoje em dia alguns dirigentes defendem o interesse de alguns agentes e em compensação, agentes defendem os interesses de alguns clubes.

 

Cidade do Futebol – Como você vê a proliferação desordenada e despreparada de ’empresários de futebol’ nesse bom momento do futebol brasileiro?

Cláudio – Em todo segmento existem os bons e maus profissionais. Da mesma maneira, também encontramos bons e maus dirigentes (maus em sua maioria!). É só analisarmos as dívidas dos clubes que comprovaremos isso. Uma desculpa muito utilizada é a de que a gestão anterior é que foi a responsável pela atual situação do clube. Se a pessoa que está lá não tem a capacidade para melhorar ou até mesmo se preparar para o que vai encontrar, é melhor não se aventurar. Tem agente de determinado jogador que chega ao clube com a proposta de US$ 6 milhões para um atleta e o dirigente não se interessa por que não faz negócios com esse agente. Então vem outro agente e oferece pelo mesmo atleta US$ 3 milhões e o dirigente realiza o negócio. No futuro, acredito que o número de agentes tende a diminuir, pois o profissionalismo e o pouco espaço para maus profissionais serão os fatores determinantes para a filtragem destas mesmas pessoas.

 

Cidade do Futebol – O que você recomendaria às pessoas bem intencionadas que pretendem se tornar agentes de futebol?

Cláudio – Existe espaço para todo mundo, mas também a necessidade da pessoa se preparar, conhecendo a vida de um atleta e o ambiente em que atua e desde o início, procurar realizar tudo de maneira correta, sem que a ganância ou a falta de ética possam interferir. E, principalmente, não desanimar nunca.

 

Cidade do Futebol – Quanto você credita o seu sucesso como agente por ter sido também um atleta?

Cláudio – Ter sido um atleta foi o mais importante em minha carreira como agente. As pessoas que jogaram comigo conheceram como era o meu comportamento, meu espírito de grupo, de liderança, tudo sempre de maneira positiva. Nunca fui um atleta que gostasse de aparecer na mídia, pelo contrário, não gostava. Sempre fiz questão de ficar no anonimato perante o público, porém dentro do grupo sempre fui muito ativo e presente, defendendo os interesses e os nossos objetivos. Talvez por isso que na maioria dos clubes em que passei eu tenha conquistado títulos, não por meus méritos, mas por méritos do grupo. Eu trouxe essa filosofia de grupo para o meu trabalho, onde sozinho ninguém realiza nada. Se eu continuar realizando com muito empenho as coisas certas, Deus sempre irá me abençoar.

 

Cidade do Futebol – Como ocorre com pessoas públicas, existe algum trabalho específico para a preparação da imagem do jogador, por exemplo, no relacionamento com a imprensa?

Cláudio – Geralmente nós procuramos contratar um assessor de imprensa que possa acompanhar o atleta, cuidando da imagem desse jogador. Às vezes o atleta aparece demais na mídia e esse profissional contratado tenta protegê-lo dessa superexposição. Nós também sempre orientamos o atleta para que faça um curso de inglês, de espanhol. Além de melhorar o seu nível cultural, também ajuda a preencher o tempo ocioso.

 

Cidade do Futebol – O que ocorre ao final da carreira de um atleta? Existe uma preparação para a transição entre a carreira de jogador e a nova ocupação?

Cláudio – Nós sempre orientamos os nossos atletas para controlar a parte financeira, se preparando para esse momento. Muitos atletas deixam para pensar no que fazer após o encerramento da carreira, o que é errado. Nós possuímos uma consultoria financeira, que colocamos à disposição do atleta para que possa investir os seus rendimentos de maneira profissional, auxiliando-o de maneira correta também fora dos gramados.

 

 

 

 

Cidade do Futebol – Como você vê a atuação no Brasil dos grandes escritórios multinacionais de representação de atletas e personalidades, como a IMG, por exemplo?

Cláudio – Eu não conheço tão bem o trabalho desses escritórios aqui no Brasil, mas acredito que estão muito bem estruturados para realizarem o seu trabalho, mas talvez não tenham aquela afinidade necessária com o atleta, ou seja, confiança. Eu joguei e sempre escutei de outros jogadores que tal agente estava fazendo sacanagem, ou que era muito amigo do dirigente, do presidente do clube, reclamando muito de situações em que os colocavam. Eu me preparei para realizar o que estou fazendo, tomando a decisão de defender os interesses do atleta e às vezes tenho uma maior facilidade porque joguei com alguns. Às vezes uma empresa como a IMG pode encontrar dificuldades em função dessa falta de vivência. Espero que essas empresas venham ao nosso país com atitudes positivas e dessa maneira possam melhorar o nível profissional do nosso futebol. Para ser sincero, eu me preocupo com as minhas atitudes e não com o trabalho que está sendo realizado por um concorrente. 

 

14/09/04

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