Universidade do Futebol

Entrevistas

10/10/2008

Cláudio Pavanelli, fisiologista

O Palmeiras chega à reta final do Campeonato Brasileiro como um dos principais candidatos a levantar o troféu. Fora a figura emblemática do mais vitorioso treinador da competição na história, ao lado há um suporte de vários profissionais na comissão técnica alviverde. Na área fisiológica, a função cabe a Cláudio Pavanelli.

 

Ferramenta e base para dar informações a esse estafe como um todo e ao departamento médico, Pavanelli ingressou no time de Vanderlei Luxemburgo no início da temporada. E os resultados colhidos, dentro de campo, foram positivos desde o início, com a conquista do Estadual depois de 12 anos na fila.

 

Formado em Educação Física e pós-graduado em Treinamento Esportivo – ambos pela FMU, ele é especializado em Condicionamento Físico Aplicado à Cardiologia Preventiva Primária e Secundária (Faculdade de Medicina da USP/Incor), mestre em Fisiologia do Exercício (Unifesp/Escola Paulista de Medicina) e membro do American College of Sports Medicine. No currículo, acumula passagens por Corinthians e Santos, onde desempenhou também o papel de preparador físico.

 

“Eu cheguei no Santos em 1999 e já me preocupei com o amador. Sentei com o pessoal das categorias de base e a gente começou a desenvolver alguns trabalhos. Nisso resultou dois atletas de uma peneira inicial, que eram Robinho e Diego”, revelou Pavanelli.

 

A preocupação com o departamento amador se estendeu ao clube do Parque Antarctica. Tanto que, em meio ao dia-a-dia, sempre ao lado da equipe, seja nos treinamentos ou nas viagens para jogos fora de casa, o fisiologista mantém contato com os referenciais do time de baixo e a evolução daquele grupo de uma forma geral.

 

Nesta entrevista à Cidade do Futebol, realizada na Academia de Futebol, na Barra Funda, Pavanelli comentou, entre outros temas, sobre a diferença e a especificidade de trabalho no futebol palmeirense, a eficiência dos profissionais brasileiros dentro da medicina esportiva e do porquê de se fazer presente ainda no país a concentração.

 

Cidade do Futebol – Na sua opinião, a integração entre as áreas no futebol na rotina dos clubes brasileiros é uma realidade ou ainda temos um longo caminho pela frente? No dia-a-dia do Palmeiras acontece uma interação entre o técnico Vanderlei Luxemburgo e os demais integrantes da comissão técnica?

Cláudio Pavanelli – Ainda tem um pouco de resistência no futebol específico em termos de ciência aplicada ao esporte. Melhorou muito, evoluiu muito, mas isso vai depender muito mais da comissão técnica do que propriamente do clube.

 

No Palmeiras, a gente tem até o oposto disso. Somos cobrados por buscar atualização, o Vanderlei [Luxemburgo, treinador], o Mello [Antônio, preparador físico] sempre cobram muito de mim e do Filé [Nilton Petrone, fisioterapeuta] o que tem de novo. Estamos sempre em congressos, publicando alguma coisa relacionada a essas áreas.

 

A ciência no esporte evoluiu muito, mas nós não podemos trazer a ciência pura para aplicar ao futebol. Precisamos saber do que ele precisa e, dentro dessa ciência, aplicar. E não o inverso, mudando a rotina do treinamento para a ciência. Isso foi um dos fatores que causaram resistência no futebol em relação a ela.

 

Muitas pessoas usaram o futebol, mudaram o dia-a-dia, para estudar e analisar o atleta. Isso com certeza cria resistência em muitos profissionais. Hoje, ela está inserida no futebol, pois a maioria precisa e se utiliza dessa ciência.

 

Cidade do Futebol – Antes, a fisiologia do Palmeiras era focada em resultados que serviam como base para a elaboração do planejamento físico do elenco. Com a chegada da nova comissão técnica, deu-se uma atenção mais especial à trajetória, com os profissionais tentando entender o efeito de cada trabalho no dia-a-dia e o porquê desses números. Crê que obteve sucesso nesse projeto?

Cláudio Pavanelli – A gente utiliza a fisiologia do exercício não apenas pra avaliar momentos estanques. Eu estou no dia-a-dia, viajo com o time, estou em todos os treinos e jogos. Principalmente pra dosar a necessidade e intensidade do treinamento. A gente o monitora com o objetivo que a gente tem. Meu contato diário com o Vanderlei e o Mello faz com que essa integração tenha uma sinergia grande e esse monitoramento seja específico.

 

Por exemplo, composição corporal. Avaliamos na hora que precisa. Bem como avaliação de força, velocidade…

 

Cidade do Futebol – Como se dá o planejamento para a utilização de um jogador que apresenta, por exemplo, um nível de creatina abaixo do esperado? Esses problemas são compartilhados e se busca uma solução conjunta, alguém tem uma voz de comando maior…

Cláudio Pavanelli – Isso é uma das coisas que eu acho que evoluiu muito, a informação compartilhada. Essa, específica, a creatina acnase, a enzima, que a gente analisa com freqüência, me dá uma noção do desgaste muscular em termos de desgaste de energia, e quanto essa energia está totalmente recuperada.

 

Isso é compartilhado com toda a comissão para se buscar a melhor decisão. Nessa seqüência de jogos atrás de jogos que temos, com espaço de recuperação curto entre eles, é importante essa informação ser o mais rápido e precisa possível.

 

Se um atleta não está recuperado totalmente, é uma informação simples. Mas o que fazer com essa informação, é o que nós da comissão técnica vamos decidir. A probabilidade de ele ter uma lesão ou não é grande? É grande, pronto, foi diagnosticado o problema. O próximo jogo é decisivo, fundamental para as pretensões do clube, e esse jogador é fundamental para o grupo? Aí vamos tomar a decisão: ele vai atuar 100% do jogo e nós vamos assumir o risco, ou ele não vai jogar e vamos assumir o risco também?

 

Ou mais que isso. O técnico vai com a informação para decidir. No segundo tempo, o atleta estará mais desgastado. Vou usá-lo no primeiro tempo, sabendo que ele terá de ser substituído na segunda etapa. Ou outra. Não vou utilizá-lo no primeiro tempo, desgastando o time adversário com um outro jogador que se desloque mais, e esse atleta imprescindível vai entrar no segundo tempo.

 

Seja qual for a decisão tomada, ela é feita pela comissão técnica. Mesmo que um deles seja contrariado, o grupo decidiu que aquele jogador vai jogar e vamos assumir os riscos. A decisão final nada mais é do que a do técnico. Mas todos nós assumimos e fazemos parte disso. Isso é trabalhar em grupo e utilizar da ciência em prol do nosso conhecimento, nos auxiliando nas tomadas de decisão.

 

Cidade do Futebol – Há três grupos de jogadores. Os que viajam e jogam, os que viajam e não jogam, e os que sequer viajam. Quais as diferenças de trabalho entre eles?

Cláudio Pavanelli – A gente precisa avaliar justamente lembrando desses fatores. As avaliações são periódicas lembrando disso. Se eu pego um grupo de 11 jogadores, que estão sempre atuando e viajando sempre, esse é um grupo muito fácil de ser avaliado e analisado. Agora tem aquele que não viaja e fica no clube. Esse está treinando e sendo monitorado. Mas tenho que ter cuidado com aquele que viaja e não joga.

 

Imagine num simples período de uma semana, com dois jogos. São dois jogos que ele não faz. E se comparar com os outros dois grupos, ele não fez duas sessões de treinamento. Ficou concentrado, se alimentou, mas não teve desgaste.

 

Provavelmente, o estimulo que não foi dado fez com que ele, talvez, não melhorasse uma valência física, ou até mesmo pudesse ter aumentado seu percentual de gordura. E isso precisa ser monitorado. É uma atenção que a gente tem.

 

Cidade do Futebol – Durante sua exposição no I Congresso Brasileiro de Ciência e Futebol, realizado no Corinthians, você comentou sobre a importância da avaliação individual da evolução do atleta, do controle de treinamento e do monitoramento das variáveis. Diante de tempo e custo, como realizar esse procedimento com propriedade e eficácia? E como relacionar essas informações com as genéricas, sobre o grupo como um todo?

Cláudio Pavanelli – Acho que é difícil falar do grupo em si. Todo atleta precisa de alguma atenção em algum ponto. Um, aumentar a força, o outro ganhar massa muscular, um terceiro melhorar a fadiga, percentual de gordura, e assim por diante. Essa atenção tem de ser individualizada. O que eu posso fazer é agrupar por especificidade.

 

Pegar “X” atletas que precisam perder gordura. Acabou o treino, vamos fazer uma corridinha. A dieta na hora da alimentação, com a nutricionista fazendo um trabalho mais rigoroso com eles. Aquele que precisa aumentar a força num grupo muscular específico. Chega antes do treino e vai fazer o seu trabalho de fortalecimento. Alguns trabalhos de prevenção de lesão, que alguns atletas precisam manter juntamente com a fisioterapia e a preparação física, e assim por diante.

 

É importante ver as individualidades, pois cada indivíduo responde a um estímulo, que é o treinamento, de uma forma diferenciada. E se alimentam de formas diferenciadas. Precisamos estar atentos a isso também.

 

Cidade do Futebol – E você percebe cada vez mais uma preocupação e uma percepção próprias desses atletas com essa necessidade, que os fazem procurar antes a comissão técnica?

Cláudio Pavanelli – Sem dúvida. Primeiro porque no nosso grupo de trabalho, a gente cobra muito do atleta. Cobra profissionalmente. Colocamos como meta o objetivo de cada um – X porcentagem de gordura, por exemplo – e vamos traçá-las. Esse objetivo é do jogador, do fisiologista, do nutricionista, é do preparador físico, e quem quer essa informação compartilhada é o técnico. O compromisso é do grupo como um todo.

 

Não adianta a gente avaliar e simplesmente colocar num gráfico bonito como se fosse um quadro. É preciso utilizar isso. Ter como uma ferramenta precisa no meu dia-a-dia para melhorar o condicionamento físico desses indivíduos ou prevenir lesões.

 

Cidade do Futebol – Existe um trabalho integrado entre o profissional e as categorias de base no tocante a fisiologia dentro do clube?

Cláudio Pavanelli – Isso é muito interessante. Eu cheguei no Santos em 1999 e já me preocupei com o amador. Sentei com o pessoal das categorias de base e a gente começou a desenvolver alguns trabalhos. Nisso resultou dois atletas de uma peneira inicial, que eram Robinho e Diego.

 

Eu sempre tive a preocupação em ter a formação do atleta. Fico o dia inteiro no profissional, mas eu preciso ter essa informação e o controle da categoria de base, pois isso futuramente vai facilitar o contato com os jogadores que estarão chegando. O trabalho do clube inteiro está baseado nisso.

 

O condicionamento físico faz com que um atleta nota 5, 6, se transforme num atleta muito bem condicionado, com nota 7, 8. Isso é importante, a qualidade do grupo vai ser aumentada. E é fundamental haver uma linha de trabalho parecida. Não adianta falarmos uma língua aqui e no amador outra.

 

Isso é uma preocupação que existe hoje inclusive no Palmeiras. Tivemos reuniões e existe um preparador físico que era do profissional e começará a atuar como fisiologista nos times de baixo com uma linha de trabalho, entre aspas, “minha”, que eu acredito ser adequada. E isso faz com que o clube cresça, muito mais do que um crescimento meu ou dele particular.

 

Cidade do Futebol – Você trabalhou no Santos a partir de 1999 e participou da conquista do Campeonato Brasileiro de 2002, naquela geração de Robinho, Diego e Cia. Lá, além de exercer sua função, de fato, acumulou o posto de preparador físico. Como foi essa experiência?

Cláudio Pavanelli – Eu comecei no futebol como auxiliar de preparação física. E lá no Santos apareceu uma oportunidade, que era de ajudar, dar um apoio, e conseguimos um resultado muito legal. Facilitou porque eu já conhecia o grupo. A maioria do elenco de 2002 era da base, e, quem não era de lá, eu já conhecia no trabalho como fisiologista, o que facilitava muito o dia-a-dia.

 

Aí só foi continuar. Não teve nenhuma dificuldade. Apenas tive uma diferença na forma de atuar. Precisava estar mais em campo. Era uma coisa relativamente simples. O importante é deixar claro que foi uma necessidade que o clube nos solicitou e eu atendi. E nós profissionais precisamos ter em mente o que nós queremos.

 

Hoje o futebol profissional é muito exigente. O fisiologista precisa atuar como fisiologista e servir como ferramenta e base para dar informações para a comissão técnica como um todo e para o departamento médico também. E não querer ser preparador físico. Infelizmente, vemos muitos preparadores físicos nessa linha, criticando o trabalho do fisiologista, e vice-versa.  Isso é muito complicado. O ideal é que os dois atuem concomitantemente em prol do grupo. Graças a Deus nunca tive problemas nessa relação.

 

Hoje, aqui no Palmeiras, com o trabalho conjunto, mesmo sem apresentar números, vemos evolução em muitos atletas por conta dessas ações comuns realizadas desde o início da temporada. Evoluir bem e com segurança. Esse é o nosso objetivo.

 

Cidade do Futebol – Ainda à época do Santos, teve um jogador, considerado uma das principais promessas da base, e que acabou não vingando com tanto sucesso no time de cima [sofreu fratura por estresse nas duas tíbias]. O que se deu no caso específico dele e como relacionar a idade maturacional com a necessidade real de se utilizar um jovem?

Cláudio Pavanelli – Precisamos saber e respeitar a idade biológica e cronológica maturacional de cada atleta. Ele tem uma necessidade, e o corpo dele está apto a suportar uma sobrecarga. Se der a mais, ele vai sofrer com isso. E o que vai sofrer vai depender disso também. Se ele estiver em uma idade de formação óssea, com uma necessidade maior de absorção de nutrientes, tanto mineiras quanto de estrutura muscular, ele vai acabar sofrendo.

 

Por um atleta se sobressair demais em uma categoria inferior, como a juvenil, onde normalmente ele acaba se desenvolvendo mais, eles querem pular direto de lá para o profissional. E vai passar a idade da categoria juniores, na qual há uma carga de treinamento próxima da do profissional, mas com um número de jogos menor.

 

É isso para que a gente tem de se atentar. “É bom, vai direto para o profissional”. Não é assim. “Mas antigamente era”. Claro, antigamente não havia uma exigência física como a que há hoje. O campo é o mesmo do de antigamente, o tempo de jogo também, mas o deslocamento na intensidade que os jogadores fazem é muito maior que anteriormente. Não é que hoje é melhor ou pior que antigamente. É diferente. E tudo que é diferente necessita de uma avaliação específica. Respeitar essa idade, essa maturação, é respeitar a segurança da formação desse atleta.

 

Cidade do Futebol – Muitos jogadores que atuam no exterior fazem cirurgias e a respectiva recuperação no Brasil. A área da saúde voltada ao esporte em nosso país está em um estágio mais avançado do que o praticado na Europa? Qual sua análise?

Cláudio Pavanelli – Eu viajo muito para congressos. Recentemente estive em um no Chile, onde tinha o pessoal da NBA, o cinesiologista do Boca Juniors, a psicóloga do Colo-Colo, e o que a gente percebe é que o Brasil utiliza várias técnicas e vários métodos, enquanto que escolas européias são mais fechadas. Eles têm uma linha de trabalho, e só, assim como nos Estados Unidos.

 

Vejo que os brasileiros, e alguns profissionais de outros países, utilizam várias escolas, linhas, e isso faz com que eles sejam mais completos. Tenho uma segurança muito grande em afirmar que os preparadores físicos do Brasil são os mais qualificados do futebol. Os fisioterapeutas, médicos, nutricionistas, fisiologistas, também o são. Cada um buscando seu melhor e se especializando nisso.

 

O respeito que a gente tem lá fora é muito grande. Nós não temos a infra-estrutura que os clubes lá de fora têm. E isso é muito complicado. “Pô, temos tudo aqui, e eles conseguem resolver os problemas lá”. Eles não aceitam muito isso e não conseguem ver o Brasil como um centro de excelência de profissionais no esporte, infelizmente. Mas é a realidade, já.

 

Cidade do Futebol – Recentemente, em parceria com o GSSI, o Palmeiras realizou o “teste do suor”, para analisar como os atletas repõem os líquidos perdidos durante jogos e treinos. Os resultados já saíram, há pelo menos uma análise prévia em relação ao comportamento desse grupo?

Cláudio Pavanelli – Já, sim. São duas coisas interessantes. Foi a primeira vez que fizemos um teste da taxa de sudorese, qualidade e quantidade da perda hídrica durante um jogo oficial. E realizamos também durante o treinamento. Percebemos que a gente tem uma conduta um pouco diferente em relação à Europa e outros países, porque nós temos a concentração. E ela, muitas vezes criticada, possibilita que a gente garanta que o atleta chegue na hora do jogo com a quantidade de energia e uma quantidade hídrica adequada.

 

Isso deu pra ver nesse trabalho que a gente fez. Há uma perda, óbvia, durante o jogo, mas o atleta que mais perdeu não foi tão significativo quanto à maioria dos trabalhos que a gente vê lá fora.

 

Porque ele já começou num estado melhor, falando especificamente em relação ao jogo. Uma outra coisa é comparar esse mesmo grupo com os que treinaram. A gente pegou um jogo e um treino.

 

O atleta A no jogo e esse mesmo atleta A no treino. Vimos que, no treino, ele não chega com o mesmo estado de hidratação como foi no jogo. Provando que essa estratégia está sendo eficiente para a gente quando utilizada a concentração, por exemplo. Justifica o porquê um atleta precisa ficar nesse regime.

 

Cidade do Futebol – Retornando ao Congresso ocorrido no Corinthians, você apontou um trabalho sobre tempo de reação que está em fase de desenvolvimento, junto com uma profissional do ramo de bioengenharia. Do que se trata?

Cláudio Pavanelli – Na frente de um computador, que possui duas luzes, você fica em cima de uma plataforma de força. Eu preciso ver a alteração do meu peso corporal. Ao acender a luz da direita, inclino meu corpo e coloco mais peso para me deslocar. Essa alteração de peso pára o cronômetro. Corro cinco metros até a luz se acender de novo.

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