Universidade do Futebol

Gief

14/08/2007

Coisa de mulherzinha

Mulher de corpo inteiro
Não fosse por mulher e eu nem era roqueiro
Mulher que se atrasa, mulher que vai na frente
Mulher dona-de-casa,
Mulher pra presidente!
(Roger Rocha Moreira, “Eu gosto de mulher”)

Maracanã lotado. Ambulantes procurando ganhar o seu troco do lado de fora, enquanto dentro do estádio a torcida canta, dança, vibra, e está na expectativa para que o jogo comece.

Os dois times surgem, conforme manda o figurino: apresentam-se para a torcida, iniciam o aquecimento, se arranjam no gramado. E começa o certame, com tudo o que tem direito: torcida empolgada, muitas cores por todos os lados, locutor ufanista na transmissão da tevê, primeira página dos jornais no dia seguinte – tudo “como manda o figurino”. Exceto por um detalhe: são mulheres as protagonistas do espetáculo.

Trata-se, portanto, de um rico detalhe. Sim, pois estamos no Brasil, na Geléia Geral da Humanidade, conhecida por suas contradições, pela desigualdade sócio-econômica, pela infinita disposição de seu povo para rir e fazer piada de tudo (mesmo quando não é necessariamente o caso…), pela excessiva preocupação em como é retratado no exterior.

E por sua hipocrisia. O próprio Pan Americano, “o Pan do Brasil” (como se fossem surgir benefícios no Rio de Janeiro que repercutiriam em todo o país… a real é que a conta não fechou, dinheiro público foi pro ralo, e, finda a festa bonita, é hora da prestação de contas) é uma prova enorme disso. Não estava aqui a nata do esporte mundial. Claro, porque afinal de contas, não é Olimpíada, é Pan-Americano, já podem estar de antemão me advertindo alguns. Pois é, só que nem os melhores do continente conseguiram trazer. México, Canadá, Argentina (só pra citar alguns), vieram com suas respectivas delegações desfalcadas, equipes mistas, times B, C… E nós, eternos ressentidos que somos, prestamos mais atenção e nos incomodamos, sobretudo, com os norte-americanos, que mesmo com sua delegação de segunda, abocanhou a maioria dos ouros. Por mais críticas que façamos aos Estados Unidos, não há como negar que lá, considerando como premissa básica para analisar ambas as sociedades o Estado Democrático de Direito, as coisas são levadas mais a sério do que aqui. Não que não haja corrupção; pelo contrário, alguns casos conseguem deixar político de curral eleitoral brasileiro no chinelo (o escândalo corporativo da Enron e o furacão Katrina, que revelou uma NewOrleans segregada entre brancos ricos que tiveram seus danos devidamente recuperados e pretos pobres que continuam à míngua são apenas os mais emblemáticos de muitos exemplos). Entretanto, a constante alusão à Constituição, à Lei daquele país, de alguma forma os torna mais comprometidos com o “oficial”, com a coisa pública. Aqui no Brasil, a Lei precisa “pegar”. Não basta ir pro papel, precisa receber o crivo de aprovação do senso comum, deste universo paralelo que, ao fim e ao cabo, é o que dita como as coisas funcionam por aqui (HOLANDA, 1997).

E nós, brasileiros, com muito orgulho, com muito amor, gostamos bastante de fazer de conta. Os americanos, sabendo da pouca exigência técnica do Pan, enviaram jovens universitários esportistas, para que eles possam, desde cedo, saber o que acontece fora do país deles. Saberem, desde cedo, que se vierem para o Brasil, provavelmente serão desrespeitados enquanto atletas pela torcida xenófoba, que quer mais que eles se estropiem, desde que isso, este famigerado incentivo, garanta o Brasil no lugar de cima e os outros, num sub-plano. Falamos mal dos americanos porque temos inveja deles, do imperialismo deles, porque no fundo de sua psiquê, o brasileiro acredita que o posto de grande império do mundo deveria ser do Brasil, não dos Estados Unidos, da China, da Alemanha ou de qualquer outro. Mesmo que os outros países apresentem índices de educação, saúde, economia, práticas de esportes, hábito de leitura e outros indicadores de qualidade de vida solenemente melhores que os nossos, gostamos de reivindicar que temos a música, as artes, as praias e características que, sim, têm sua beleza e sua graciosidade, mas que, exaltadas dessa forma estridente, acabam mais por camuflar a violência, a doença, o jeito autóctone e ignorante que diz sim respeito ao jeito brasileiro de ser. E como o Pan Americano diminui o número de oponentes de nossa megalomania e exagera nossos feitos modestos, vem bem a calhar pro gosto do brasileiro. Afinal, ganhamos mais medalhas que o Canadá (!) e quase ultrapassamos Cuba (!!). Temos a torcida número um, a torcida que trucida. Tão Brasil!

Claro que não estou aqui para generalizar, pois sou totalmente ciente das limitações que a generalização implica para a compreensão de qualquer evento humano que seja. Quanto mais complexo o fato humano a ser analisado, mais ponderações são necessárias (BLOCH, 1997, p.81). É um caleidoscópio incessante esse nosso país, com tudo de bom e de ruim que isso possa implicar. E que bom que existem as exceções.

Sim, pois são nas exceções que as complexidades florescem. E não raro, as complexidades são a parte mais bacana de toda a história. Um prato cheio pra quem se deleita com o diverso, com o que pode acrescentar de novidade ao seu repertório de vida, de modo a ampliar a visão de mundo dos corajosos que têm diante do diferente uma sede de conhecimento. Longe da postura reacionária do fraco que se sente aviltado com a personificação e a elaboração de vida que o outro teve coragem de realizar e ele, não. Trata-se, antes de qualquer coisa, do respeito ao outro de existir. E se o outro não surge como fonte inspiradora para uma mudança própria de sua vida, a importância do outro para o sujeito está em aquele servir como parâmetro do que não serve para si. E é bom ter a consciência humilde de que não servir para si não significa não servir para a humanidade.

Se a regra no Brasil, fundamentada no patriarcalismo e na misoginia nossa de cada dia (FREYRE, 1961), rechaça com veemência militar a inserção da mulher no multifacetado universo do futebol, a tarde do dia vinte e seis de julho desse ano entra para a história como marco do momento em que tivemos contato com uma deliciosa negação à caretice. Mulheres, honestas, éticas, engajadas, fazendo o que gostam, o que mais sabem, de uma forma talentosa e, sobretudo, franca. Que, de tão sincera, caiu na graça da galera, que em ritmo de festa achou tudo lindo. As moças se emocionaram, a torcida gostou do espetáculo que pagou para ver, famílias se reuniram em clima de paz e harmonia, e o futebol feminino, mais uma vez, tenta sair da marcação cerrada que sofre no Brasil, o país do futebol – e também do machismo e da hipocrisia.

De nada adianta querer tapar o sol com a peneira, acreditar que, a partir de agora o futebol feminino vai receber o respaldo equivalente a seus títulos. Outra coisa que não me sai da cabeça: como o vôlei feminino, que alcançou no máximo o bronze em Olimpíadas, tem tanto apelo junto à mídia, enquanto que o futebol, que bateu na trave com um ouro e trouxe uma digníssima prata nas mesmas olimpíadas, continua marginalizado? Taí uma prova para os que dizem que o esporte precisa “de resultados” para ganhar repercussão reverem seus conceitos e perceberem que o buraco é mais embaixo – ou mais em cima, como nos sugere Rita Lee (LEE JONES, 2004). O provável é que não será em um curto prazo que o futebol feminino terá campeonatos organizados, dirigentes concisos e conscientes para com suas obrigações, estádios impecáveis, salários milionários, jogos transmitidos no Domingão, antes do Faustão… Claro que não, pois afora a repercussão na mídia e os vários cifrões no contra-cheque, isso não acontece nem com o futebol masculino. No entanto, não deixa de ser um acalanto saber que mais uma vez, estamos num momento próximo de uma virada de página.

E que conseqüências boas esta virada de página vai trazer caso ocorra. Com a popularidade que o futebol tem em nosso país, me anima saber que quanto mais as moças começarem a jogar peladas (no sentido conotativo, claro…), pequenos avanços serão estabelecidos em nossa sociedade. A mulher vai começar a responder ao homem, este ser que tanto banaliza a vida. A guria boa de bola vai lançar-se com mais vontade na hora do rachão na várzea e, repleta de argumentos e de coragem, vai entrar no time dos caras e fazer um golaço no meio das pernas do goleiro inconsolável. Vai ter o seu time, com gurias tão corajosas quanto, se preparando para serem mulheres tão corajosas quanto. E essa coragem pode ser combustível para que outras coragens, ainda mais necessárias, ocorram, como, por exemplo, começar a frear a mão do macho boçal na hora do tapa na cara [Nelson Rodrigues que me perdoe, mas acreditar que é fundamentalmente de apanhar o que elas gostam (RODRIGUES, 2007) só diz o quão pouco ele sabia sobre mulheres], e, no melhor estilo Danielle Zangrando, mostrar a que veio. Lembro-me de, numa recente conversa com um amigo, ele se referir a uma entrevista de Lygia Fagundes Telles, onde nossa grande escritora dizia que a mulher saiu da gaiola, mas continua com os hábitos da gaiola. Que os golaços de Marta, os dribles de Formiga e as defesas de Daniela Alves sirvam de inspiração para as mulheres. E que esses muitos detalhes, ao fim e ao cabo, sirvam para estruturar um grande diferencial na história de nosso país, quiçá da humanidade: o vôo das mulheres.

Tudo bem que essa medalha de ouro do futebol feminino no Pan não deixa de ser mais uma “mentirinha” (KFOURI, 2007), pra iludir o bobo torcedor que faz questão de se deixar levar. O mundial feminino será em poucos meses, as principais potências do esporte já estão se preparando (os EUA, por exemplo, não trouxeram o time principal pro Rio por este estar se preparando, há um mês, para o Mundial), e lá, não tem Cauê nem caô: as equipes estarão bem preparadas e as brasileiras vão ter, mais do que nunca, que mostrarem o que foram fazer tão longe.

Mas como nem tudo são dores, acredito na possibilidade dessa recente conquista das moças do futebol ser o pontapé inicial pra tirar de uma vez a bruma preconceituosa instaurada desde sempre no futebol feminino e em toda esfera dominada pelo homem que a mulher se interessa em provar. Quem sabe, aos poucos, todas as peculiaridades do futebol pras moças (que, claro, é muito diferente ao dos homens), consideradas pelos chatos de sempre como “razões” pro futebol feminino não emplacar por aqui, acabem sendo apropriadas pelas mulheres. Tomara que elas transformem o pejorativo em orgulho e identificação, passando a não ver problemas na referência a estas peculiaridades como “coisa de mulherzinha” (aliás, passando rápido pelo assunto, já passou da hora de os são-paulinos serem machos o suficiente para assumirem de vez como elemento de auto-identificação o bambi, nosso ilustre e arguto amigo que, dotado de sagacidade e suntuosidade, é hábil o suficiente pra despistar um gavião e nobre o suficiente pra não se sujeitar a um chiqueiro).

Confesso que não vejo a hora de experimentar o que estas mulheres têm para nos oferecer!

* Paulo Nascimento, 21, acredita que os grandes adversários do Brasil no Mundial de Futebol feminino serão as chinesas, donas da casa, as dinamarquesas, com seu jogo truncado (sendo ambas adversárias da primeira fase), as norte-americanas (pois é, sempre…), e a substância dopante contida no chá anticelulite que possa, por desaviso, ser ingerido por alguma brazuca.

Referências documentais, bibliográficas e/ ou espirituosas:

“Brilhantes!” LANCE! São Paulo: 27 de junho de 2007, pp. 4A, 6A, 7A e 8A.

BLOCH. Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala: formação da Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal. 10ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1961.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

KFOURI, Juca. Relaxa, top top top, e goza. É ouro! In: FOLHA DE S. PAULO, Caderno “Folha esporte”. São Paulo, 27 de julho de 2007. Acessado em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk2307200749.htm Último acesso: 30 de julho de 2007.

LEE JONES, Rita. Pagu. In: Rita Lee: MTV Ao vivo. São Paulo: EMI Music, 2004.

MOREIRA, Roger Rocha. Eu gosto de mulher. In: Ultraje a rigor – 18 anos sem tirar! São Paulo: Deck disc, 1999.

RODRIGUES, Nelson. Elas gostam de apanhar. Rio de Janeiro: Agir, 2007.

Comentários

Deixe uma resposta