Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

20/05/2011

Com o que quer ser treinador?

No inicio de minha graduação, lembro-me de um interessante livro que li, o qual tinha por título “Com que então quer ser treinador?”, escrito pelo destacado professor português Teotônio Lima.

Mais do que o conteúdo, quero destacar o título, pois o mesmo muito me inquietou ao longo dos anos de formação. Ele me soa como uma provocação, como se me dissesse “o que você tem para ser treinador?”, “quais os conhecimentos você domina para se dizer capaz de ser treinador?”.

Não venha me dizer que você sabe tudo sobre tática, conhece muitos treinos, sabe ler como a equipe adversária joga, pois isto é muito pouco, não o permitiria esgrimir com o título do livro de Lima.

Para ser sincero, nunca nutri a vontade de ser treinador, mas trabalhando com o futebol, inevitavelmente, exerci esta função mesmo que em equipes infantis, contudo logo fui percebendo que para ser um bom treinador era necessário um cabedal de conhecimentos muito além dos táticos e técnicos.

A teoria da Motricidade Humana, defendida e propalada pelo professor Manuel Sérgio, logo me advertia sobre a necessidade de aprender sobre o humano, ou seja, não era apenas um corpo biológico que corria e respondia aos meus comandos e treinos, mas sim um ser humano que se movia intencionalmente, deixando sua marca singular ao expressar pela motricidade seus desejos e anseios, os quais iam muito além do fisiológico e bioquímico.

Desse modo, tinha que estudar liderança, gestão de pessoas, psicologia, neurolinguística, estratégias de coach. Precisava dominar uma metodologia de treinamento e aperfeiçoar cada vez mais minha didática (forma individual de aplicar o método).

Mas, depois de tudo isso, passei a refletir sobre a minha personalidade. Por exemplo, como lido com as minhas emoções no jogo? Quanto racional sou? Como lido com o questionamento dos outros sobre o meu trabalho? Como lido com a pressão sem poder efetivamente agir no jogo? Como lido com o resultado de minhas ações que inevitavelmente geram frustração nos outros? Como julgo os outros? E mais outras questões de ordem pessoal.

As minhas respostas a estas questões me levaram logo a perceber que teria uma curta e inexpressiva carreira como treinador, pois minhas emoções me trairiam e nunca conseguiria lidar friamente com as urgentes e precisas tomadas de decisões, custe o que custar para o bem da equipe.

Foi assim que me descobri pedagogo. Foi desse modo que o professor falou mais alto que o treinador.

Porém, escrevo estas reflexões devido ao fato de elas terem sido provocadas pelas reuniões do grupo de estudos aplicados em pedagogia do esporte que coordeno na FCA/UNICAMP, no qual estamos estudando as competências e o perfil do treinador (independentemente da modalidade esportiva).

Nosso grupo quer construir um grande acervo de informações sobre treinadores, de modo a este banco de dados alimentar pesquisas que evidenciem as competências para ser um treinador, e assim, fornecer conteúdos para que possamos construir uma disciplina no curso de Ciências do Esporte para tratar do assunto.

Infelizmente, no Brasil, uma temática desprezada pelos cursos de Educação Física e Ciências do Esporte. Ou seja, podemos e devemos perguntar: onde se formam nossos treinadores?

A resposta é: na prática. O conhecimento advindo do senso comum forma nossos treinadores, tendo por professores jornalistas esportivos, locutores, ex-atletas, simpatizantes das mesas redondas e com o Zé do bar, no boteco da esquina.

A luta contra a cultura esportiva do bar e das mesas redondas é imensa. Mas acredito que com uma boa estratégia, a qual desencadeie ações táticas e nos levem a cultura do bom jogo, do jogo elaborado descrito pelo professor Júlio Garganta, a vitória se torna possível.

E a estratégia se inicia exatamente pela necessidade de estudos. Vejo o Bernardinho como um bom exemplo a ser estudado, talvez o melhor no Brasil. E o mesmo Bernardinho nos ajuda a partir da coleção de livro que está coordenando, o qual mostra os livros e autores que o próprio Bernardinho estudou para aprender e aprimorar a arte alquímica de levar pessoas a transformar suor em ouro.

A coleção “Na vida como no esporte”, editada pela Sextante, já lançou três interessantes livros, o último do mago e lendário John Wooden (famoso treinador de basquete americano) para o estudo e reflexão sobre as funções inerentes ao treinador, a qual nos permitem muito facilmente responder a provocação do livro do professor Teotônio Lima, quando o mesmo nos indaga sobre com o que queremos ser treinadores.

Portanto, se hoje tenho claro o porquê não quero ser treinador, o mesmo motivo, que soa até paradoxal, me permitirá, como pedagogo do esporte, cada vez mais ajudar outros inúmeros pretensos treinadores a construir conhecimentos, competências e habilidades para o exercício pleno, eficaz e eficiente da função.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

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